Verificando a presença de depósitos carbônicos em alguns potes (2, 3, 4, 6, 9, 11, 15), vislumbramos a oportunidade de realizar testes de espectometria na região do infravermelho (IV) com vistas a identificação de algum vestígio orgânico. Com o apoio do laboratório de química orgânica, coordenado pelo profº Claudio Donnici, fizemos um teste inicial em três fragmentos: um proveniente da escavação, sem ter sido lavado e não
Foto 36: Marcas discretas de gestos verticais na porção inferior do pote 2 (área circulada em amarelo). Escala de 5cm. Autor: Igor Rodrigues.
161 atribuído a nenhum pote; dois provenientes da coleta, já lavados e remontados, pertencendo respectivamente aos potes 4 e 9.
O único caco que não apontou nenhum vestígio foi justamente aquele que não tinha sido lavado. Os dois lavados e remontados apontaram sinais de elementos orgânicos. Um fator que pode ter contribuído para isso foi que o caco não lavado, ainda não tendo sido remontado, nos impediu de termos uma noção de onde ele se encontrava em um pote: se na parte superior ou na inferior. Fora isso, como ele estava ainda com sedimentos não sabíamos se tinha ou não depósito carbônico visível macroscopicamente. Já os cacos lavados e remontados, sabíamos que vinham do fundo (pote 9) ou da proximidade deste (pote 4). Os selecionamos pelo fato de apresentarem resíduos carbonizados visíveis a olho nu.
Os espectros obtidos dos cacos dos potes 4 e 9 são praticamente idênticos e, de acordo com uma consulta no banco de dados de espectros de IV da American Chemical
Society são parecidos com o de amido (figuras 39, 40 e 41). Ao comparar estes espectros
entre si percebe-se que os picos de onda se assemelham nos comprimentos entre 3290- 2910 cm-1 e entre 1250-1050 cm-1. A diferença se dá no pico entre 3290-2910 cm-1, pois neste ponto o espectro está mais acentuado na referência de amido. Este pico está relacionado ao grupo OH e possivelmente aponta para a quantidade de água presente na amostra. Como os vestígios arqueológicos estão semi-carbonizados é natural que a banda de água (grupo OH) seja menor que a da amostra do amido.
A presença de amido nos resíduos arqueológicos foi confirmada por um teste clássico com solução aquosas de iodo. Este leva a mudança da cor vermelha característica para tons de azul-esverdeado (Morita & Assumpção, 1986; Saenger, 1984). Cabe ressaltar que o estudo deste tipo de teste para amidos já foi relatado para mandioca66 (Rodriguez & Aquino, 1976) e de arroz (Tian, et al., 2011).
Muita coisa ainda tem que ser feita para tentar descobrir qual o tipo de amido que encontramos em nossas amostras arqueológicas. Demos início a leituras de espectros de IV de milho e mandioca, pois de acordo com a bibliografia (Schmitz, et. al., 1982) os ceramistas Aratu-Sapucaí tinham o milho como base de sua dieta, uma vez que em seu conjunto de vasilhames há uma ausência de pratos assadores para a produção de farinha de mandioca.
162 Tentamos também com a mandioca, pois esta em sua variedade não tóxica pode ser consumida sem necessariamente ser transformada em farinha, tanto que Brochado (1977),
163 Figura 38: Espectro da região do Infravermelho no vestígio do pote 4.
Figura 40: Espectro da região do infravermelho do vestígio do pote 9.
164 argumenta que a mandioca é a base alimentar para a maioria de grupos ameríndios etnográficos. De qualquer forma, os arqueólogos estão de acordo em considerar que grupos horticultores tinham como base alimentar seja a mandioca, seja o milho.
O aparelho de espectrometria precisa de uma pequena porção de amostra para realizar a leitura. Assim, decidimos fazer um teste através de fubá de milho e farinhas de mandioca amarela e branca, adquiridos no mercado central de Belo Horizonte. Como as farinhas, ricas em amido, são finas, foram facilmente colocadas no aparelho de espectrometria.
A análise comparativa dos espectros na região do infravermelho (IV), por amostragem ATR (Attenuated Total Reflection)67 mostrou maior similaridade do vestígio alimentar encontrado no pote 468 com a amostra de farinha de mandioca branca. Tal similitude ficou ainda maior após o aquecimento da mesma em chapa aquecedora até uma semi-carbonização da farinha, análoga ao observado nos fragmentos. Em ambas as amostras (vestígio dos potes 4 e 9) se observou a parecença das bandas características de estiramento de grupo OH (3290 e 2910 cm-1 ), e bandas características (em 1250-1050 cm-1) do estiramento e deformação angular de grupos tipo éter (R-O-R) que são típicas de amostras de farinhas com uso alimentar. A amostra de fubá de milho, mesmo não aquecida, também se mostrou parecida, diferenciando-se apenas no estiramento OH, visto que não foi aquecida como a farinha de mandioca branca (figura 41).
67 Refletância Total Atenuada
68 Lembrando que o espectro deste é similar com o do pote 9.
Figura 41: Espectros no IV-ATR: fubá de milho não aquecido (vermelho); vestígio arqueológico do pote 4 (roxo); farinha de mandioca branca aquecida (verde).
165 As figuras 39, 40 e 41 correspondem a espectros de transmitância, ao passo que a figura 42 um espectro de absorvância. Isto quer dizer que nos primeiros a curva aponta para a transmissão de raios infravermelho, enquanto no segundo se verifica a absorção dos raios i f a e elho. U , po ta to o i e so do out o, o o se fosse u espelho .
Como demos início a uma identificação do tipo de amido, não temos certeza que, de fato, o resíduo de amido identificado nos vestígios dos mencionados potes refere-se ao milho e mandioca, apesar da semelhança com estes. Precisamos realizar testes com outros alimentos como feijão, batata, entre outros, para ver se o espectro destes se parece ou não com o que observamos nos vestígios arqueológicos. Mesmo assim, temos como afirmar que identificamos amido em nossas amostras arqueológicas.
Outras análises serão feitas em amostras retiradas dos demais potes que apresentam depósitos carbônicos. Isto possibilitará comparações entre diversas categorias de vasilhas. Outro tipo de teste que pretendemos realizar será extrair amostras dos resíduos para encontrar grãos de amido, caso não tenham sido demasiadamente deteriorados pela carbonização. Se encontrarmos grãos de amido preservados, podemos comparar com amostras de referência, assim, conseguiremos identificar a que alimento pertence o amido. A tentativa de identificação dos grãos de amido deverá ser feita no laboratório do Cecor na Escola de Belas Artes da UFMG, com auxílio do profº Luis A. Souza.