3. GEREÇ VE YÖNTEM 27
3.4. Kültür, İzolasyon ve İdentifikasyon
Às oito horas e trinta e quatro minutos do dia três de Março de 2010, o Ministro do STF, Ricardo Lewandowski deu início aos trabalhos na Audiência Pública referente às Políticas de Ações Afirmativas e de cotas raciais, compondo a mesa de abertura juntamente
98 Apesar do protocolo oficial do STF não permitir manifestações dos presentes, expressas por palmas, gritos ou similares; a participação da platéia na segunda plenária não sofreu este tipo de constrangimento. Neste sentido, minha presença enquanto expectador no segundo auditório possibilitou-me, não só acompanhar os discursos dos expositores, mas acompanhar também os efeitos e reações que as exposições provocavam na platéia, composta, majoritariamente, por ativistas de movimentos sociais, professores universitários, estudantes e correspondentes de jornais e revistas. Além de gravar em áudio todos os pronunciamentos, ao longo dos três dias, tive a oportunidade de registrar em meu caderno de campo alguns das considerações e análises feitas pelos participantes do segundo plenário durante as exposições.
167 como os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa Gomes e a Vice-procuradora da República Deborah Duprat, fazendo breves considerações sobre a importância das Audiências Públicas no contexto democrático. Segundo o ministro Lewandowiski, a Constituição de 1988, ao criar instrumentos para efetivar a democracia participativa, superou a noção de democracia representativa vigente até então. Neste contexto, a convocação das audiências públicas, entendidas como meios de exercício da democracia participativa se justificariam no caso de questões que mobilizam a sociedade e requerem a participação da mesma para auxiliar nas decisões do STF.
Após as considerações iniciais do ministro Ricardo Lewandowski, o ministro Gilmar Mendes fez uso da palavra e ressaltou a importância e excepcionalidade das Audiências Públicas para a efetivação da participação plural dos diversos setores da sociedade civil.
A exposição do Ministro Joaquim Barbosa Gomes também foi breve e limitou-se á ressaltar a importância da realização da audiência e da oportunidade que a sociedade brasileira teria de discutir “sobre um tema sobre o qual ela nem sempre quis discutir com a devida abertura”.
Após desfazer a mesa de abertura, a vice-procuradora da República, Deborah Duprat tomou a palavra, afirmando, inicialmente, que sua manifestação naquele momento deveria ser tomada como uma abordagem complementar ao posicionamento já expresso pelo Ministério Público em decisão expressa em Abril de 2009. 99 Segundo a vice- procuradora, o objetivo de sua fala era inserir as “cotas” dentro da constituição, e salientar que toda constituição representa uma ruptura com uma ordem pré-estabelecida, além da estruturação de um plano futuro. A ruptura que a Constituição brasileira de 1988 havia estabelecido, segundo ela, foi com o sujeito kantiano, desprovido de características identitárias, baseado na revolução francesa e fundador da idéia de nação. O fato de que, a partir da década de 1970, os movimentos sociais começaram a denunciar a farsa da igualdade formal, afirmando que o campo do direito nunca ficou alheio as diferenças, pressionaram a Assembléia Constituinte pré - 1998 a reconhecer uma sociedade diferente em vários de seus artigos, explicitando o fato de que o sujeito de direitos deve ser reconhecido como possuidor de idade, sexo, cor, condição financeira. Nesse sentido, as políticas de cotas citadas no texto constitucional, como no caso de reservas de vagas para mulheres no parlamento, não contrariam o princípio da igualdade, mas contribuem para a realização do ideal de igualdade material, além de ser um
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Ministério Público Federal, Petição 93215/2009. Disponível em
http://redir.stf.jus.br/estfvisualizadorpub/jsp/consultarprocessoeletronico/ConsultarProcessoEletronico.jsf?seqobj etoincidente=2691269Acessado em 07 de Julho de 2011.
168 princípio pluralizador das instituições que a adotam. Para a vice-procuradora, a grande questão que estas políticas inauguram e exigem respostas teóricas e concretas é: como passar de uma sociedade hegemônica para uma sociedade plural?
O Presidente Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, ao fazer uso da palavra, enalteceu a realização de Audiências Públicas como meio de viabilizar a participação popular na definição dos rumos do país. Segundo ele, o Conselho Federal da OAB-Brasil ainda não havia se posicionado em relação ao mérito da ADPF impetrada no Supremo Tribunal Federal, no entanto, não questionava a importância histórica das Ações Afirmativas em curso no Brasil desde o ano de 2002. No intuito de exemplificar o posicionamento da Ordem dos Advogados em relação à matéria em debate, Cavalcante citou a criação do curso de direito para moradores de assentamentos rurais na Universidade Federal de Goiás. Além de ter julgado importante e relevante, afirmou, ainda, que a Seccional da OAB em Goiás também julgou constitucional a criação daquele curso. Para finalizar, o presidente da OAB afirmou que para realizar um julgamento adequado da presente matéria seria preciso abolir a lógica maniqueísta que dicotomizaria “os do lado do bem e os do lado do mal”. Sem posicionar-se sobre a constitucionalidade das políticas de cotas em questão, Ophir Cavalcante encerrou seu pronunciamento reiterando a confiança na decisão do STF sobre a matéria.
O advogado Geral da União, Luís Inácio Lucena Adams, iniciou seu pronunciamento ressaltando que a discussão sobre Ações Afirmativas se constitui como um dos mais delicados temas públicos brasileiros. Para Luís Adams, a constituição de 1988 teria definido a igualdade formal, a fraternidade, o pluralismo e a justiça como princípios fundamentais, além de evidenciar a indignação com o contexto social de extrema desigualdade social que marcava o período anterior. Ainda segundo Adams, para lograr a realização do propósito que se imaginava no contexto da constituinte - a igualdade material - não bastava a adoção de políticas repressivas, mas seria necessária também a aplicação de políticas afirmativas. Neste sentido, a adoção de políticas de cotas pelas universidades brasileiras estaria em sintonia com a vocação crítica e de autonomia política expressa na Constituinte e como à discriminação racial no Brasil opera por vias diretas e indiretas, as políticas governamentais precisam ser construídas com o intuito de combater, exatamente, a discriminação indireta. Encerrou seu pronunciamento afirmando que, ao invés de se proporem a ratificar a existência de raças, as políticas de Ações Afirmativas foram concebidas com o intuito de contribuir para a erradicação das discriminações raciais.
169 O Ministro Edson Santos de Souza, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial (SEPPIR), se pronunciou em seguida, ressaltando a importância de discutir uma temática central para, pelo menos, (50%) cinquenta por cento da população brasileira que se autodeclara negra. Segundo o ministro, o debate sobre Ações Afirmativas no Brasil recupera o momento do debate abolicionista, colocando agora a educação como centralidade, ao passo que naquele momento a grande questão era a terra. A divulgação de dados educacionais que explicitam as desigualdades entre negros e brancos no Brasil, só reforçaria a necessidade de tratar de maneira desigual os desiguais, e de forma igual os iguais. Entretanto, a despeito dos vários tratados de combate às desigualdades em que o Brasil é signatário, a situação (de desigualdade) que aflige a população negra no Brasil ainda é gritante. Por fim, o ministro afirmou que a breve história, de uma década, das políticas de cotas na UnB e na UERJ não tem nos mostrado nenhum tipo de conflitos raciais e, portanto, as Ciências Sociais devem estar apoiadas em fatos e não em previsões catastróficas para analisar a realidade brasileira.
Em seguida, o representante da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Erasto Fortes de Mendonça, se dirigiu à tribuna para iniciar seu pronunciamento. Primeiramente, referiu-se aos valores de igualdade, fraternidade e liberdade, derivados da declaração universal dos direitos humanos, e também fez referência à filósofa Hannah Arendt, para a qual os homens não nascem iguais, mas conquistam a igualdade. Para Arendt, ao considerar a igualdade como uma característica inata, caberia ao direito apenas declarar a igualdade, e ao Estado caberia apenas zelar por tal igualdade. Para o referido representante, foi justamente o reconhecimento de que a declaração de igualdade formal, inserida na Constituição de 1988, não tem sido suficiente para erradicar as desigualdades entre os diferentes grupos étnico- raciais brasileiros o que influenciou o posicionamento público do Estado Brasileiro durante a Conferência em Durban, tornando-se signatário dos acordos para implementar políticas de Ações Afirmativas. Ao inserir a população negra nas universidades, estas Ações Afirmativas contribuiriam, não só para diversificar o sistema universitário, mas também para melhorar a qualidade acadêmica.
O pronunciamento da Secretária Adjunta de Ensino Superior do Ministério da Educação, Maria Paula Dallari Bucci, se iniciou com referências à histórica perpetuação das distâncias entre negros e brancos no que se refere à escolaridade, que se mantêm apesar das recentes melhorias na oferta de educação nos seus variados níveis. Segundo ela, os indicadores educacionais de jovens negros e brancos com idade entre 15 e 17 anos, bem como aqueles que fazem referência ao acesso e a permanência no ensino superior de jovens negros e
170 brancos com idade entre 18 e 24 anos, evidenciam a perpetuação da gritante desigualdade racial existente no Brasil. Ao afirmar que a simples passagem do tempo, não foi suficiente para erradicar as desigualdades entre negros e brancos, a secretária defendeu a urgência em olhar para o futuro e não mais para o passado. Antes de finalizar, Bucci discutiu os resultados de uma recente pesquisa sobre o desempenho de estudantes universitários ingressantes por meio de Ações Afirmativas. De acordo com o resultado da pesquisa, no primeiro ano do curso, o desempenho acadêmico dos estudantes foi menor entre os cotistas, mas após o primeiro ano de curso, o desempenho destes estudantes superou o dos não-cotistas. Notadamente, em oito dos dez cursos pesquisados, as oportunidades de entrada permitiram aos estudantes superarem as deficiências iniciais e mudarem o desempenho final.
O representante da Fundação Nacional do Índio, Carlos Frederico de Souza Mares, se pronunciou em seguida, reafirmando que a igualdade não é um dado da natureza, pois, sem a existência das leis seria impossível existir igualdade. Para que haja igualdade é preciso que haja leis que permitam aos desiguais serem vistos como iguais. No caso dos povos indígenas, o ingresso em algumas universidades tem se dado através de cursos específicos permitidos pela constituição nacional. De acordo com o representante da FUNAI, a especificidade dos povos indígenas, além das possibilidades abertas pela própria constituição, abre uma facilidade relativa para o ingresso diferenciado; o que não ocorre com a população negra, que necessitaria, portanto, de políticas de cotas para o ingresso igualitário no ensino superior.
Mário Lisboa Theodoro, Diretor de Cooperação e Desenvolvimento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, iniciou sua exposição lamentando a escassez de dados estatísticos sobre a questão racial no Brasil, mesmo sendo este um tema tão importante à formação nacional. Destacou, ainda, que apesar da pluralidade teórica entre os mais de 300 pesquisadores do IPEA (Instituo de Pesquisas e Estatísticas), há um relativo consenso interno em torno da questão racial e, sobretudo, em relação à pujança estatística das técnicas de consulta e de resposta relativas à classificação racial. Theodoro ainda destacou a persistência da discriminação racial no interior das escolas e das salas de aula. Destacaram também a sobre-representação da mortalidade infantil de crianças negras e as altas taxas de mortalidade da juventude negra. Na sua avaliação, a única forma de mudar a situação de desigualdade racial, e de naturalização destas desigualdades, seria a utilização de políticas complementares às políticas universais. Uma das mais importantes contribuições das políticas complementares, portanto -que não excluiriam as políticas universais- seria a de romper o marcante traço de naturalização das desigualdades brasileiras.
171 Em seguida, Roberta Fragoso Menezes Kaufman100; advogada do Partido Democratas, arguente na ADPF 186, fez seu pronunciamento. Começou afirmando que a ação impetrada pelo Partido Democratas não pretendia discutir as cotas para índios nas universidades, e nem as políticas para mulheres, deficientes e outras minorias. Não se discutia também, naquela ação, a existência de racismo na sociedade brasileira, fato amplamente reconhecido pelo Partido. De acordo com Kaufman, o ponto central de discussão da ADPF impetrada pelo Partido Democratas se relacionava ao fato de que o Estado não deveria impor regras de identificação racial ou de definição de direitos com base na cor da pele. Concluiu afirmando que, caso o Brasil importasse as políticas de segregação que foram colocadas em prática nos EUA, desconsiderando todas as diferenças existentes entre os dois países, cometeria o mesmo erro cometido pelos norte-americanos, ao criar indivíduos iguais, embora separados.
O professor José Jorge de Carvalho, representante da Universidade de Brasília, argüida na Ação de Descumprimento de Preceito Constitucional 186, expôs em seguida. Relatou aos presentes que havia sido um incidente de reprovação de um estudante negro no Programa de Pós-graduação na UnB que revelou o fato de que, durante todos os anos de existência do programa aquele era o primeiro estudante negro matriculado. A partir desta constatação, os professores organizaram uma pesquisa de perfil entre o corpo docente da UNB, que verificou que entre 1500 professores da universidade, haviam apenas 15 professores negros. Ter encontrado pouquíssimos estudantes negros na moradia estudantil da UnB também motivou a implementação de cotas. Hoje, depois das cotas, a UnB conta com 12% de estudantes negros e já diplomou 480 estudantes cotistas negros. Afirmou ainda que a média de rendimentos negros cotistas é praticamente idêntica, e a tragédia acadêmica inicialmente projetada não se cumpriu. Antes de concluir, Carvalho fez uma referência a própria Audiência e ao fato de que das 43 pessoas convidadas a falar, 30 são professores e apenas 2 deles negros. Essa desproporção chama a atenção para a urgência em implementar Ações Afirmativas nas universidades, e em compreender as razões pelas quais as cotas, numericamente restritas, causam tanta polêmica no espaço público brasileiro. Arriscando uma conclusão, afirmou que apesar das cotas incidirem em apenas 3,5% dos ingressantes no ensino superior, elas incidem diretamente nas estruturas hierárquicas de poder. Por isso despertam tantas críticas.
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Como já foi dito, os expositores grifados em negrito nesta seção terão seus discursos analisados no capítulo 6. No total serão 16 expositores.
172 O advogado Caetano Curvo Lo Pumo, representante do estudante Giovane Pasqualito Fialho, autor do Recurso Extraordinário 597.285/RS, também se pronunciou por quinze minutos. Começou, afirmando que as políticas de cotas implementadas nas universidades brasileiras e, sobretudo, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul não foi precedida por debates públicos, o que explicaria alguns dos problemas do sistema. Afirmou, em seguida, que considerava fundamental programar as políticas de Ações Afirmativas em um Estado de Direito, mas naquele momento o que estava sendo discutido era o modelo de políticas de cotas raciais adotado na UFRGS. Discutia, primordialmente, o critério de hipossuficiência adotado pela universidade e baseado na presunção, pois, ao definir que os beneficiários deveriam ser estudantes de escolas públicas, o sistema presume que todos estes estudantes seriam pobres; o que não é fato. O sistema de cotas da UFRGS ao incluir estudantes do Colégio Militar de Porto Alegre, um colégio de elite, mostra que é cego e equivocado: “Sessenta e um alunos, que receberam o melhor ensino do Estado do Rio Grande do Sul de forma gratuita; ingressaram, não obstante tenham sido mais mal classificados pelo critério de mérito.”.
A Professora Denise Fagundes Jardim, representante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), recorrida no Recurso Extraordinário 597.285/RS, se pronunciou em seguida e em resposta ao advogado Caetano Curvo Lo Pumo, iniciou fazendo referências aos debates e interlocuções calorosas e cheias de controvérsias que antecederam a instituição da política de cotas raciais na UFRGS. Neste sentido, afirmou que a implementação de políticas de Ações Afirmativas na UFRGS foi um encaminhamento coerente das discussões que tomaram lugar na universidade. Apesar destas fazerem parte da UFRGS desde o ano de 2004, considerou curto o prazo para que avaliações definitivas ou previsões catastróficas fossem feitas a respeito de tais políticas. Destacou, por fim, a importância das universidades brasileiras no movimento de superação das desigualdades e a importância dos grupos excluídos no processo de democratização do Ensino Superior e da construção de novas universidades.
Apesar de não estar inscrito para participar como expositor na Audiência Pública, o Senador da República pelo Partido Democratas, Demóstenes Torres, o único representante do Senado Federal presente à Audiência naquele dia, foi autorizado pelo ministro Ricardo Lewandowski a se pronunciar e a encerrar o primeiro dia de Audiência no Supremo Tribunal Federal. O senador iniciou seu pronunciamento identificando-se como ex-membro do movimento social pela anistia e afirmou que, já naquele período, havia resolvido ficar no lado certo. Referiu-se ao tema da Audiência como algo apaixonante e que leva os envolvidos a
173 criar certa animosidade entre as partes. Se posicionou contra tal animosidade, já que quando tal tema é discutido, o que está em discussão é o futuro do Brasil, e por isso seria preciso julgar a questão de forma racional. Ao longo de sua exposição, fez referência ao reitor da UFPE, segundo o qual, se um percentual superior a 20% fosse reservados para estudantes cotistas a autonomia universitária e o mérito acadêmico seriam mortos. Neste sentido, o chamado da audiência pública pelo Democratas seria uma tentativa de dividir a responsabilidade da escolha por cotas com toda a sociedade, pois no Brasil todas as leis criadas a partir de 1800 tinham a intencionalidade de minimizar os efeitos da escravidão. “Além do mais, todos os brasileiros, inclusive eu, tem sangue negro correndo nas veias. Todos têm sangue branco e sangue indígena.” Antes de concluir, o senador Demóstenes Torres fez uma referência “controversa” à Gilberto Freyre, ao afirmar que o autor pernambucano dizia que o processo de miscigenação que se deu no Brasil não havia sido produto de estupro, mas de relações consensuais. Algumas das inúmeras controvérsias que tal declaração gerou serão discutidas, de modo mais detalhado, no sexto capítulo.