Para realizar o grupo focal, que objetivou discutir tanto a participação comunitária dos sujeitos, quanto a sua relação com o lugar (incluindo o modo de vida na comunidade), o primeiro passo foi o contato com lideranças da AMPCV para saber da possibilidade de articulação, junto a comunidade, a formação de um grupo para a realização desta atividade. Solicitamos as lideranças a inclusão tanto de pessoas que são articuladas e que sempre participam das reuniões, quanto com pessoas que não participam, ou que pelo menos eram menos articulas. As lideranças informaram que “[...] praticamente todos vem, pelo menos de vez em quando, para as reuniões maiores” e que os que não vinham, ou vinham menos, era porque eram muito resistentes, já que o trabalho de convocar a comunidade inteira
91 era uma constante, e dessa forma provavelmente não atenderiam a convocatória para essa atividade também.
Dessa forma, o combinado foi que as lideranças convidariam para o grupo focal os sujeitos que já participavam cotidianamente das atividades comunitárias e posteriormente, a partir destes, buscaríamos entrar em contato com aqueles que não participavam das reuniões. Naquele momento ainda não sabíamos, mas este seria uma das maiores dificuldade da pesquisa, conseguir sujeitos que não participassem das atividades comunitárias, mas que aceitassem participar da pesquisa. Com os sujeitos que não participam cotidianamente das atividades comunitárias não foi possível realizar o grupo focal, dessa forma, realizamos entrevistas individuais.
Houve alguma dificuldade inicial para marcar o dia do grupo focal, era necessário ajustar os horários do pesquisador com a árdua agenda da comunidade, que se reunia para as mais diversas atividades praticamente todos os dias, desde reuniões ampliadas com a comunidade, até as reuniões menores como dos conselhos ou para decidir questões específicas. Acabamos ajustando essa atividade para quinze dias depois de nossa conversa, uma sexta-feira, dia 05 de setembro de 2014, as 19h da noite.
Confirmamos a reunião por email dois dias antes, mas confesso que fiquei com muito receio do seu esvaziamento por se tratar de um dia/horário normalmente encarado como inconveniente. Solicitamos que as lideranças convidassem em torno de quinze pessoas, e pedimos que avisassem que a reunião seria filmada.
Na sexta-feira, chegamos à Prainha do Canto Verde cerca de trinta minutos antes do combinado e fomos direto para a sede da associação que ainda estava fechada, o que me deixou ainda mais preocupado. Então, parti para a pousada para me acomodar, organizar o equipamento de vídeo, bem como o lanche que havíamos levado para a comunidade.
De volta associação, dez minutos antes do combinado, já havia pelo menos umas sete pessoas na porta esperando pela sua abertura, que aconteceu logo em seguida. Com menos de dez minutos de atraso começou a reunião, com
92 quinze membros da comunidade, exatamente o número de pessoas que eu havia solicitado, sendo então esse o número de sujeitos que compuseram o grupo focal. Essa prontidão dos moradores em participar de uma reunião convocada por alguém com o qual ainda tinham pouco contato, em um horário normalmente percebido como inconveniente, foi um fato que nos chamou a atenção, demonstrando a grande articulação e mobilização daquela comunidade.
Organizamos a mesa do lanche enquanto os moradores iam chegando e sentando em um círculo formado no meio da associação. Haviam homens e mulheres de idades bastante variadas. Quando a maior parte dos sujeitos já estavam sentados no círculo, peguei a câmera para encaixa-la no tripé e posiciona- la para a filmagem, quando ouvi um dos moradores soltando uma “piada” e vários outros rindo. Fiquei sem entender bem o que havia acontecido, até que uma das lideranças esclareceu em tom de brincadeira: “Daniel, estão perguntando se você vai entregar este vídeo para o Gomes12”. Esse fato foi seguido de uma sonora risada
dos presentes. Como já vinha tendo conversas informais com a comunidade, já sabia de quem este participante estava falando, e que ele era pessoa não bem vista pelos presentes, ou seja, percebido como uma ameaça.
Depois disso, como que para confirmar o que a liderança estava dizendo, o mesmo sujeito fez questão de enfatizar “Porque para sair filmando a minha cara, não é fácil assim não”. O tom era de piada e várias pessoas riam, mas mostrava uma legítima preocupação em não fortalecer os movimentos entendidos como contrários aos interesses da comunidade, e sinalizava a desconfiança de um povo que vive em meio a profundos conflitos entre interesses comunitários e privados, e que precisa se proteger, tanto pessoal, como coletivamente.
12Gomes é um nome fictício que demos ao empresário que possui vários hectares de terra ao qual
nos referimos no capítulo três. Muito conhecido por ter lutado contra a Reserva Extrativista na parte terrestre, não é visto com bons olhos por grande parte da comunidade, especialmente a parcela mais engajada nas lutas comunitárias, considerado muitas vezes como um inimigo, apesar de ter influencia e ser admirado por uma parte dos moradores, por prestar assistência a parcela da comunidade, em especial os mais críticos da Reserva Extrativista
93 Aproveitamos esse momento para entregar o TCLE13 (Termo de
consentimento livre e esclarecido) e lhes tranquilizar quanto ao sigilo das informações. Entregamos duas vias, já assinadas pelo pesquisador, e lemos o documento inteiro enquanto eles acompanhavam. Combinamos que se houvesse qualquer dúvida poderiam interromper no ato e solicitar esclarecimentos. No final lhes foi solicitado que assinassem as duas vias, uma para ser devolvida e outra para ficarem.
Houve algumas interrupções para melhor compreensão do documento. Uma das que nos chamou a atenção aconteceu na parte do TCLE na qual dizia que eles não seriam identificados. Um dos moradores questionou o porque da não identificação dos sujeitos e perguntou “qual seria o problema de usar o nome das pessoas? Se as pessoas estão aqui falando e ajudando, é justo que apareça o nome daquelas que falaram, que ajudaram, que construíram”.
Informamos sobre a necessidade do sigilo para preservar as pessoas: que essa era uma exigência de todas as pesquisas utilizando seres humanos. Explicamos também que na dissertação iria constar que se tratava da Prainha do Canto Verde, o que seria excluído seria apenas a identificação individualizada de cada fala, para evitar possíveis constrangimentos.
Como no TCLE falava da aplicação do IGMA eles pediram para ver logo esse documento. Entregamos para eles, dando rápidas explicações e prometendo maiores detalhes no final da nossa discussão de grupo, já que eles só iriam preencher o IGMA posteriormente. Então, explicamos os objetivos da pesquisa, bem como a trajetória que acabou levando a ela.
Pouco antes de começar as discussões um dos moradores levantou o braço e perguntou se eu tinha a autorização do Instituto Chico Mendes para realizar o estudo. Respondi que a autorização já havia sido entregue para as lideranças locais antes da articulação do evento, mas que havia levado mais uma cópia dela, a qual anexei com a autorização do Comitê de Ética para pesquisa com seres humanos, e passei para o grupo, pedindo para eles circularem entre si.
13 Apêndice 02
94 Pudemos perceber que o nível de questionamento da comunidade é bastante elevado, a conscientização crítica gerada por anos de movimento fez com que o nível de exigência dos sujeitos para participar da pesquisa e o número de questionamentos gerados, também pela necessidade de proteção diante dos inúmeros conflitos sócio-políticos que acontecem na localidade, sejam altos.
Realizamos a atividades sem contratempos até aproximadamente 22:30. Como dissemos, já havíamos entregado o IGMA. Não havia como aplicá-lo ainda naquele dia, fizemos apenas uma leitura conjunta e esclarecemos algumas dúvidas.
Tínhamos cerca de seis caixas de lápis de cor, oferecemos algumas para que levassem para casa para fizerem lá caso desejassem, muitos disseram que possuíam em casa, e alguns levaram. Informamos que passaríamos o dia seguinte inteiro na associação e que esses poderiam vir nos entregar, ou fazer nela mesmo caso preferissem, e estaríamos ali para sanar quaisquer dúvidas. No dia seguinte ia haver uma atividade comunitária onde vários deles estariam presentes. Alguns nos trouxeram já prontos, outros fizeram na nossa presença no sábado, e três deles não comparecerem. Dessa forma tínhamos doze IGMAs preenchidos. No domingo, pedimos que os sujeitos participantes indicassem outros sujeitos para a aplicação dos IGMAs, que já se encontravam lá presentes para a atividade deles, e conseguimos mais dez, formando vinte e dois no total.
Nos mapas iniciais vinte marcaram a opção de “participantes e apenas dois” não participantes”. Iniciamos as análises e pela saturação vimos que já tínhamos um bom número de sujeitos participantes. Teríamos que iniciar a busca pelos sujeitos que não participam das atividades. Neste momento já tínhamos percebido a impossibilidade de realizar um grupo focal com esses sujeitos, a falta de engajamento dificultaria muito esse encontro coletivo, desta forma optamos por realizar entrevistas.