Por um lado, os dados construídos durante o trabalho de campo chamaram atenção para a necessidade de que os professores das séries iniciais têm em buscar o apoio de um profissional especializado no ensino da Matemática para continuarem seus estudos e sua formação nessa área.
Por outro lado, existe grande dificuldade em estabelecer esse tipo de parceria e até de proporcionar o encontro de profissionais. Alguns grupos de estudo e de pesquisa nas universidades conseguem promover o encontro de professores de Matemática, professores das séries iniciais e pesquisadores para estudar, para refletir e para compartilhar experiências, como é o caso do GdS/FE-Unicamp e GEM/UFSCar. Porém, infelizmente, a maioria dos professores das séries iniciais não consegue frequentar esses grupos por alguns motivos como, por exemplo, as condições de trabalho (jornada excessiva), a incompatibilidade de horários entre o trabalho e o grupo de estudos, até mesmo pelo distanciamento em que se encontram da universidade.
Raríssimos são os encontros desses profissionais nas escolas. Quando acontecem, dependem muito da voluntariedade dos profissionais, como no caso da escola em que foi desenvolvido o trabalho de campo desta pesquisa, em que uma professora de Matemática dirigia-se até a escola, voluntariamente, em seu horário livre para auxiliar as professoras nos estudos em grupo sobre o ensino de Matemática nas séries iniciais.
Atualmente, os níveis de ensino funcionam em escolas diferentes. O ciclo I do Ensino Fundamental funciona em um prédio e o ciclo II do Ensino Fundamental e Ensino Médio funcionam em outro lugar. Os professores polivalentes das séries iniciais e os professores especialistas nas disciplinas, como professores de Matemática, não se encontram, não têm contato na mesma escola.
Entretanto nem sempre foi assim. Durante a entrevista, uma professora da escola relembrou o início de sua carreira e o auxílio que buscava com professores de Matemática que atuavam na mesma escola em que ela, quando os ciclos I e II do Ensino Fundamental e o Ensino Médio funcionavam no mesmo lugar: “[...] tinha também o ensino médio junto, então a gente pedia ajuda para os professores do
ensino médio se não entendesse alguma coisa, eles ajudavam bastante” (Renata, entrevista, 05/12/2008).
Outra questão que provoca reflexão são as influências das políticas públicas que nem sempre favorecem uma prática de formação continuada e de desenvolvimento profissional na escola.
Nesse sentido, Nóvoa (1992, p. 26) afirma que a “organização das escolas parece desencorajar um conhecimento profissional partilhado dos professores, dificultando o investimento das experiências significativas nos percursos de formação e a sua formulação teórica”.
Essa consideração remete à questão política, pois a organização da escola é de responsabilidade dos sistemas educacionais ao qual elas pertencem, quer sejam municipais, estaduais, federais ou particulares. De acordo com as orientações do sistema, gestores e professores realizam seus trabalhos e buscam melhorá-lo sempre, mesmo que as condições estabelecidas pelos sistemas educacionais não favoreçam suas práticas.
Muitos procuram mudar, estabelecer parcerias, quer seja para a formação de professores, quer seja para o desenvolvimento de projetos educacionais.
Hargreaves et al. (2002) estudam as condições necessárias para a mudança nas escolas e as relacionam, também, à questão política, conforme escrevem
[...] a mudança não é apenas uma questão de comprometimento e determinação individuais e coletivos, mas uma questão política de prover as condições, a liderança e o apoio amplo que tornam a escola uma organização de aprendizado não só para os estudantes, mas também para seus professores (HARGREAVES et al., 2002. p. 129).
Dessa forma, entende-se que a organização da escola trata-se de uma questão política e acredita-se ser importante estudarem as influências das políticas públicas sobre seus profissionais, suas práticas e as mudanças decorrentes delas.
Neste capítulo, tentou-se relacionar as influências das políticas públicas com a constituição do corpo docente e da equipe gestora da escola e suas implicações para o desenvolvimento do trabalho pedagógico.
Essa questão foi observada por Fiorentini durante o Exame de Qualificação desta pesquisa ocorrido em junho de 2009 ao falar sobre como os trabalhos pedagógicos e desenvolvidos em sala de aula são afetados pela organização e pela estrutura do sistema educacional e que a realidade da escola apresentada aqui pode ser espelho também da realidade de outras.
Procurou-se, ainda, refletir sobre o comprometimento dos profissionais da escola com a Educação e sobre as dificuldades de realizarem práticas para a formação e o desenvolvimento profissional dos professores.
Como será visto no decorrer da dissertação, a manutenção da continuidade das práticas de formação de ensinar e de aprender matemática na escola em que foi realizado o trabalho de campo desta pesquisa está diretamente relacionado ao trabalho da equipe gestora e ao comprometimento de seus profissionais com a Educação.
5. A FORMAÇÃO INICIAL DO CORPO DOCENTE, DA EQUIPE GESTORA E O ENSINO DE MATEMÁTICA QUE TIVERAM
Esse capítulo trata das questões da formação inicial que os professores envolvidos nesta pesquisa tiveram, bem como dos cursos que frequentaram e do ensino de Matemática ministrado neles. Apoiadas em autores como Fiorentini et al. (2002), Curi (2004 e 2005), Pavanello (1983, apud LAMONATO, 2007), Nacarato, Mengali e Passos (2009) e nos depoimentos dos profissionais da escola onde foi desenvolvido o trabalho de campo desta pesquisa, a pesquisadora tentou conhecer algumas características do ensino de Matemática na formação de professores das séries iniciais e de gestores da Educação a partir da segunda metade do século XX.
A escolha do período justifica-se por ser este o que os profissionais participantes desta pesquisa frequentaram a escola, ora como alunos da Educação Básica, ora como alunos do Ensino Profissionalizante ou Superior em sua preparação para o exercício da docência.
Esse conhecimento auxiliará na compreensão das necessidades de formação continuada demonstrada pela própria pesquisadora e pelos profissionais da escola onde se desenvolveu o trabalho de campo deste estudo.
Ela concorda com Gama (2007) e Nacarato (2000, p. 310) que não há como discutir formação continuada de professores “sem levar em consideração que essa continuidade envolve os momentos anteriores de formação”. Por isso propôs conhecer um pouco sobre a formação inicial dos professores que ensinam Matemática nas séries iniciais.