Feitas as considerações sobre o conceito de patrimônio cultural imaterial na Constituição Federal de 1988 e sobre os instrumentos legais a eles aplicáveis, cabe indagar sobre a natureza do bem cultural, se ele pode ou não ser considerado como um bem ambiental e quais as suas principais características.
Atualmente, a maioria da doutrina especializada em Direito Ambiental entende que a Constituição Federal adotou uma concepção unitária de meio ambiente. Considera como bem ambiental os bens naturais e artificiais e também os bens culturais. Nos termos do art. 225 da CF, todos esses bens constituem o meio ambiente e devem compô-lo para que este seja ecologicamente equilibrado e proporcione uma qualidade de vida saudável,.
Na doutrina pátria um dos conceitos de meio ambiente mais aceito e reproduzido é o formulado por José Afonso da Silva na obra Direito Ambiental Constitucional, o qual adota uma visão unitária. De acordo com o renomado jurista:
O conceito de meio ambiente há de ser, pois, globalizante, abrangente de toda a Natureza original e artificial, bem como os bens culturais correlatos, compreendendo, portanto, o solo, a água, o ar, a flora, as belezas naturais, o patrimônio histórico, artístico, turístico, paisagístico e arqueológico. 57
Em seguida, ele propõe o seguinte conceito para meio ambiente:
“O meio ambiente é, assim, a interação do conjunto de elementos naturais,
artificiais e culturais que propiciem o desenvolvimento equilibrado da vida
57
em todas as suas formas. A integração busca assumir uma concepção
unitária do ambiente, compreensiva dos recursos naturais e culturais.” 58
José Afonso elenca três aspectos do meio ambiente, são eles: o artificial, o cultural e o natural. Ele diferencia o meio ambiente artificial do cultural, pois esse último tem “um sentido de valor especial que adquiriu ou de que se impregnou”59.
Fiorillo também adota a concepção unitária de meio ambiente e vai além ao incluir como o quarto aspecto o meio ambiente do trabalho. Ele entende que o conceito de meio ambiente previsto na Lei da Política Nacional do Meio Ambiente foi recepcionado pela Constituição Federal em razão da utilização da expressão “sadia qualidade” de vida no art. 225. Completa:
Com isso, conclui-se que a definição de meio ambiente é ampla, devendo- se observar que o legislador optou por trazer um conceito jurídico
indeterminado, a fim de criar um espaço positivo de incidência da norma.
(...)
Primeiramente, cumpre frisar que é unitário o conceito de meio ambiente, porquanto todo este é regido por inúmeros princípios, diretrizes e objetivos que compõem a Política Nacional do Meio Ambiente. Não se busca estabelecer divisões estanques, isolantes, até mesmo porque isso seria um empecilho à aplicação da efetiva tutela. 60
Edis Milaré também aceita a concepção unitária do meio ambiente e, ao interpretar a Constituição Federal juntamente com a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente, conclui que:
Para o Direito brasileiro, portanto, são elementos do meio ambiente, além daqueles tradicionais, como o ar, a água e o solo, também a biosfera, esta com claro conteúdo relacional (e, por isso mesmo, flexível). Temos, em todos eles, a representação do meio ambiente natural. Além disso, vamos encontrar uma série de bens culturais e históricos, que também se inserem
58 SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 9ª. Ed. São Paulo: Malheiros, 2011. P. 20. 59
SILVA, José Afonso da. Op. cit. P. 21.
60 FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 12ª. Ed. São Paulo:
entre os recursos ambientais, como meio ambiente artificial ou humano, integrado ou associado ao patrimônio natural61.
Carlos Frederico Marés também entende que o meio ambiente é integrado pela natureza e pelas modificações introduzidas pelo homem:
O meio ambiente, entendido em toda a sua plenitude e de um ponto de vista humanista, compreende a natureza e as modificações que nela vem introduzindo o ser humano. Assim, o meio ambiente é composto pela terra, a água, o ar, a flora e a fauna, as edificações, as obras de arte e os elementos subjetivos e evocativos, como a beleza da paisagem ou a lembrança do passado, inscrições, marcos ou sinais de fatos naturais ou da passagem de seres humanos. Desta forma, para compreender o meio ambiente é tão importante a montanha, como a evocação mística que dela faça o povo.
Alguns destes elementos existem independentes da ação do homem e os chamamos de meio ambiente natural; outros são frutos da sua intervenção e os chamamos de meio ambiente cultural.62
Na legislação brasileira, o conceito de meio ambiente foi dado pelo art. 3°, inciso I da Lei n° 6.938/1981 que dispõe sobre a Política Nacional de Meio Ambiente, o citado dispositivo prevê que meio ambiente é “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”. É uma definição restrita de meio ambiente ao adotar somente o aspecto natural, ela foi recepcionada pela Lei Maior por não colidir com os dispositivos constitucionais ambientais. Contudo, é uma definição parcial já que não inclui os aspectos artificiais e culturais.
As opiniões da doutrina especializada acima expostas nos parecem acertadas ao acolherem a visão unitária do meio ambiente, a qual está de acordo com uma interpretação sistemática e integradora da Lei Maior, bem como com a concepção holística de meio ambiente. A Constituição Federal quis que a tutela ambiental não
61
MILARÉ, Edis. Direito do Ambiente. A Gestão Ambiental em foco. 7ª. Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011. P. 143.
62 SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés. Bens Culturais e sua Proteção Jurídica. 3ª. Ed. São Paulo:
se restringisse somente aos recursos naturais, mas alcançasse também os elementos artificiais e culturais.
Deste modo, tem-se o bem ambiental como gênero, do qual o bem natural, o bem artificial e o bem cultural são espécies. Porém, essas espécies de bens jamais devem ser vistas como partes isoladas ou estanques, mas como as partes de um conjunto que se integram, de um todo, que é o meio ambiente ecologicamente equilibrado.
A divisão do meio ambiente em diversos aspectos ou categorias é meramente para fins didáticos e operacionais, pois com isso se destaca uma especial qualidade de um bem e se possibilita um melhor tratamento jurídico, uma tutela mais eficaz e que leve em conta as peculiaridades e particularidades de cada um.
A atual Constituição Federal ao assegurar o equilíbrio ecológico do meio ambiente garante a manutenção e continuidade da vida humana e, mais, proporciona aos indivíduos condições de vida digna, de modo que o artigo 225 instituiu em prol dos indivíduos um direito fundamental. Embora este não seja explícito por não estar expresso no art. 5° da Carta Magna, trata-se de um direito fundamental implícito por força do §2° do art. 5° ao possibilitar meios para a concretização do princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1°, III, CF).
Outro ponto relevante para o estudo das relações entre o bem ambiental e bem cultural é o caráter intergeracional. A solidariedade entre as gerações foi expressamente prevista no caput do art. 225 da Constituição Federal, que impôs a todos o dever de defender o meio ambiente ecologicamente equilibrado para as presentes e futuras gerações. Apesar da previsão expressa no texto constitucional, exatamente no capítulo dedicado ao meio ambiente, esse princípio ainda tem sido pouco explorado pela doutrina nacional.
O princípio da solidariedade intergeracional foi incluído em na Constituição Federal seguido a tendência de documentos internacionais que a precederam. Especificamente, ele constou nos princípios 1 e 2 da Carta de Estocolmo de 1972 (ONU), os quais impuseram ao homem o dever de preservar o meio ambiente para as presentes e futuras gerações. Em seguida, em 1987, novamente foi incluído no documento “Nosso Futuro Comum” (ONU), oportunidade em que foi intimamente
relacionado ao desenvolvimento sustentável, que assim foi definido: “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer as capacidades das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.
Machado aborda a solidariedade entre gerações quando trata do princípio do acesso equitativo aos recursos naturais. Explica que os “bens que integram o meio ambiente planetário, como água, ar, sol e solo, devem satisfazer as necessidades comuns de todos os habitantes da Terra”63. Em seguida acrescenta que a “equidade no acesso aos recursos ambientais deve ser enfocada não só com relação à localização espacial dos usuários atuais, como em relação aos usuários potenciais das gerações vindouras”64.
O citado autor também ressalta a solidariedade entre gerações quando define patrimônio cultural, ressaltando a importância da geração presente em preservá-lo para as gerações futuras:
O conceito de patrimônio está ligado a um conjunto de bens que foi transmitido para a geração presente. O patrimônio cultural representa o trabalho a criatividade, a espiritualidade e as crenças, o cotidiano e o extraordinário de gerações anteriores, diante do qual a geração presente terá que emitir um juízo de valor, o que quererá conservar, modificar ou até demolir. Esse patrimônio é recebido sem mérito da geração que o recebe, mas não continuará a existir sem seu apoio. O patrimônio cultural dever ser fruído pela geração presente, sem prejudicar a possibilidade de fruição da geração futura65.
O princípio da equidade intergeracional ao dispor que gerações ainda sequer nascidas são igualmente detentora de direitos ambientais prevê algo à primeira vista impensável aos sistemas jurídicos, salvo pela tutela dos direitos dos nascituros. Marchesan se socorre a James Nickel quando enfrenta essa questão:
Convém lembrar, não sem a ajuda de Nickel, que os fundamentos que embasam a defesa dos direitos das futuras populações são os mesmos que
63 Op. cit. P. 66,67. 64 Op. cit. P. 68,69.
65 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 19 .ª Ed. São Paulo: Malheiros,
norteiam a justiça para as pessoas que hoje habitam o planeta. Em ambos os casos, a ideia base é que humanos são iguais em seus reclamos espirituais e devem tratar uns aos outros equanimente no tocante à apropriação de recursos 66.
Esse princípio, apesar de não constar expressamente nos artigos 215 e 216 da Constituição, deve ser aplicado aos bens culturais, afinal ele é a base da proteção do patrimônio cultural imaterial. Não é possível preservar expressões culturais, conhecimentos, técnicas, modos de fazer criar e viver sem que haja a transmissão entre gerações. Essas formas vivas de culturas somente assim permanecerão se forem assimiladas pelas gerações vindouras, a qual será a depositária da cultura dos seus antepassados. De acordo com Marchesan “É na dimensão cultural que o princípio da equidade intergeracional se apresenta com toda sua plenitude, porquanto uma sociedade humana não pode sobreviver sem a transmissão cultural de uma para outra geração”67.
Tendo em conta as considerações acima, não resta dúvida de que o bem cultural tomado como bem ambiental é, portanto, essencial à qualidade de vida do ser humano e sua preservação é fundamental para a manutenção do equilíbrio ecológico dos ecossistemas. A finalidade última dessa preservação é criar condições de vida digna tanto para os indivíduos que serão diretamente por ela beneficiados como para toda a coletividade. Essa essencialidade reside no fato de que a salvaguarda da cultura de um povo permite a preservação da sua memória e sua continuidade histórica. A diversidade cultural em um país somente existe se os diferentes grupos que o compõem puderem manter e cultivar sua própria cultura ao longo das gerações, não importando se essas culturas remetam ou não aos padrões da nacionalidade.