JEOTERMAL ENERJİ
3.7 Jeotermal Enerji ve Çevre
Para os que creem, nenhuma explicação é necessária. Para os que não creem, nenhuma explicação é suficiente.
(Santo Inácio de Loyola)
Sabe-se que hoje, no Brasil contemporâneo, vive-se um cenário heterogêneo no que diz respeito às formas de expressões religiosas. Nesse “pluralismo religioso”, as experiências religiosas apresentam-se cada vez mais complexas, permeadas de emoções, pensamentos, experimentações, e os mais diversos tipos de comportamentos de fé são garantidos pela Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, conforme reza o artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal: “Éinviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias”65.
O artigo protege a liberdade religiosa, escolhas, opiniões, pontos de vista. O estudo e a prática religiosa, desde que não violem os direitos humanos, estão garantidos a todos. Nesse sentido, o artigo, de forma ampliada, afirma que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos desse citado artigo e seus incisos”66.
A diversidade religiosa, traduzida em transformações, mutações, transições, deve- se possivelmente a vários fatores de ordem individual e coletiva. Para uma melhor compreensão, torna-se relevante grifar alguns deles, a saber, a subtração da hegemonia católica até então preponderante, o avanço tecnológico, a globalização, os paradoxos da vida humana, a busca efetiva do homem por seus ideais, além de várias outras questões advindas das transformações sociais, políticas e culturais, tudo isso muito contribuiu para que ocorressem tais mudanças.
Nesse cenário iluminado pelo diverso, pelas transformações religiosas, percebe-se a atenuação das fronteiras existentes entre a fé institucionalizada pelo aval do sistema dominante oficial e a fé popular, que até então possuía uma voz rouca e tímida, o que
65 CONSTANTINO, Carlos Ernani. Vade Mecum 800 em 1. São Paulo: Lemos e Cruz, 2008. p. 847. 66 Ibid.
dificultava sua escuta, diferentemente do panorama atual, em que se percebe uma sobreposição de vozes, nas suas mais variadas formas e peculiaridades religiosas.
Nessa paisagem de pluralidade religiosa, Carlos Steil faz a seguinte leitura, tomando o catolicismo como referência:
Podemos observar uma “reinvenção” da tradição e uma revitalização de rituais impregnados de emoção, abrindo a possibilidade para múltiplas escolhas e pertencimentos religiosos no seu campo hegemônico. Ou seja, a diversidade atingiu o próprio catolicismo. As operações para expressar ser religioso se multiplicaram nesses últimos anos, de modo que suas possibilidades podem variar das formas tradicionais às mais político-literárias ou emocional-carismáticas. Alguns podem ser católicos, centrando sua prática no culto aos santos, outros, participando de associações religiosas, outros assumindo o compromisso ético-políticos, sem que isto os vinculem a quaisquer compromissos explícitos de ordem religioso-institucional.67
Os efeitos desses processos das transformações religiosas permitem uma revitalização de rituais e crenças considerados tradicionais, como meio de liberdade individual e coletiva e até mesmo como uma forma de se disputar espaço entre diferentes cultos religiosos. A necessidade de se revisar princípios e normas, gerada pelos ares da modernidade do mundo contemporâneo, além de tentar suprir as carências da alma humana, possivelmente é também uma maneira das instituições ligadas às religiões de angariar mais adeptos e de manter e ampliar vínculos com os já filiados.
Pode-se avaliar, em um sentido sociológico-antropológico (deixando de lado, neste momento, a necessidade de se evidenciar a topografia das religiões, origens, classificações e suas especificidades, sejam elas institucionalizadas ou não- institucionalizadas) que as religiões são fenômenos inerentes à cultura humana, que vão se transformando, se re-ordenando, se re-significando, em conformidade com os conflitos e anseios do desejo humano. Elas fazem parte das representações simbólicas culturais do homem no universo em que vive e do juízo que fazem de si mesmos.
Muitas são as tentativas de definir religião. E mesmo que se for elencada aqui uma série de conceitos, provavelmente nenhum deles abarcariam, na prática, as especialidades das inúmeras vertentes religiosas.
67 STEIL, Carlos Alberto.
Pluralismo, Modernidade e Tradição: Transformações do Campo Religioso. Revista Ciências Sociais e Religião. Porto Alegre, v. 3, n. 3. 2001. p. 117.
É importante nesse momento trazer à evidência a afirmação de Mircea Eliade, que alerta sobre a dificuldade de se definir Religião. Salienta o pensador a importância da experiência com o sagrado:
É lamentável que não temos à nossa disposição uma palavra mais precisa que religião para designar a experiência com o sagrado (...) Religião pode continuar a ser um termo útil, desde que não esqueçamos que ela não implica necessariamente a crença em Deus, deuses, ou fantasmas, mas que se refere à experiência com o sagrado e, consequentemente, se encontra relacionada com a as idéias de ser, sentido e verdade.68
Ser, sentido, verdade e experiência com o sagrado são termos carregados de sentidos fundamentais a essa investigação. Nesse viés, a religião será entendida aqui na perspectiva da expressão do sentir, tendo como objeto de análise a fé religiosa católica, no que diz respeito à crença em promessas, graças, milagres, romarias, ex-votos. Por esse recorte, a fé, sem sombra de dúvidas, nem sempre se arrima necessariamente em convencionalidades e linearidades da ótica católica dirigida pela igreja, e sim, de forma amiúde, na criação, no inusitado, no inexplicável, nas invenções advindas dos discursos e depoimentos dos devotos que se utilizam dessas práticas.
Como já dito, servirá de palco empírico para as investigações e reflexões sobre essas religiosidades, o Santuário de Nossa Senhora de Aparecida (Aparecida/SP). Tem- se como objetivo analisar algumas experiências religiosas vividas e vivenciadas pelos devotos dessa Nossa Senhora - Padroeira do Brasil. Dia doze de outubro comemora-se o aniversário dessa Virgem. Romeiros e devotos de todo o país deslocam-se69 para participar das comemorações que são feitas nessa data. É importante mencionar também que as peregrinações70 e visitações religiosas e turísticas para esse santuário ocorrem de forma continuada, durante o ano todo, atraindo romeiros de todos os estados do Brasil e também do exterior.
De forma marginal serão citados também outros centros de peregrinações no Brasil e de outros paises. Dentre os vários rituais de fé sobrepostos nesses centros de
68 ELIADE, Mircea. Origens: história e sentido na religião. Edições 70: Lisboa Portugal, 1969. p. 9. 69 Deslocamento é aqui usado, no sentido de uma mudança de lugar por curto período. Mais
especificamente nos períodos de festas religiosas, os romeiros e devotos, saem de suas cidades de origem rumo aos espaços sagrados. Terminados esses eventos, eles retornam aos espaços de onde partiram.
70 Peregrinações é aqui entendida, no sentido de caminhar em direção aos espaços considerados sagrados e
peregrinações, opta-se por observar de forma mais detida os ritos que envolvem promessas. Desde o momento que o devoto faz o pedido à entidade chamada “intercessora”, até sua consolidação com o pagamento do que foi pedido.
O Dicionário Crítico de Teologia traz a seguinte compreensão para o termo promessa:
Para dizer “promessa” o grego dispõe do verbo epagellô e do substantivo epaggelia mas o hb não tem termo especifico. Prometer é comprometer-se a dar mais tarde. Um oráculo de fortuna, uma benção, portanto, não são, por si mesmos promessas. Mas palavras acerca do futuro, se vem de Deus, o comprometem necessariamente, tanto mais de um juramento as acompanhar. Assim, muitas promessas são formuladas com o simples verbo (intensivo: “dizer”; substantivos ‘emer e davar’) ou com shava ( “jurar”; substantivos: shevou’ah, ‘alah). De igual modo, quando Deus conclui (karat) uma aliança incondicional, esta é uma promessa71.
A promessa feita no contexto votivo funda-se em jurar, comprometer-se, “a dar mais tarde” um objeto em agradecimento da aliança feita entre o promesseiro e Deus.
Existem várias formas de se realizar promessas. Para este estudo priorizar-se-ão as promessas que possuem como retribuição os ex-votos, que ficam depositados nas salas de promessas, também conhecidas como salas de milagres e salas de ex-votos.
"Verifica se o que prometes é justo e possível, pois promessa é dívida." (Confúcio)72 Deus prometeu a vida eterna. A Bíblia registra em João 2:25 - “E esta é a promessa que ele nos dá, a vida eterna.”73 Talvez essa seja sua maior promessa, possivelmente nela está depositada também o fulcro da esperança humana. Deus pode fazer o impossível. A Bíblia diz em Lucas 18:27 - “Respondeu-lhes: As coisas que são impossíveis aos seres humanos são possíveis a Deus.”74 Nessa afirmativa, vê-se a luz da esperança para as dificuldades não solucionadas no campo humano terreno, que terão uma solução no campo celestial do divino. Deus troca os corações dos homens; a Bíblia diz em Ezequiel 36:26 “Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de
71 LACOSTE, Jean-Yves; LOSSKY, Nicolas. Dicionário Crítico de Teologia. São Paulo: Paulinas:
Edições Loyola, 2004. p. 1436
72 Trecho do poema “Promessas” Disponível em: <www.rivalcir.com.br/frases/promessas.html.> Acesso
em: 23 jul. 2010.
73 BÍBLIA, 1985, p. 1259. 74 Ibid. p. 1247.
carne.”75
Pode-se relacionar por meio dos textos bíblicos um verdadeiro “rosário” de passagens que pontuam as monumentais promessas76 de Deus. Para aqueles que nele creem, a esses estão garantidos as respostas para todos seus desejos e soluções de seus problemas. As promessas de Deus feitas aos homens, possivelmente tiveram uma influência direta no imaginário humano, despertando neles a fé e a esperança, principalmente no que diz respeito à vida eterna, pois o homem parece viver em duelo com a morte. Para o homem crente, a morte pode ser postergada e até vencida pela força de uma promessa. Por último, mesmo se no âmbito do terreno a vida se esvair, tem-se ainda o consolo de se retornar à “casa do pai”, e se ter uma vida eterna. Na hermenêutica bíblica, a misericórdia de Deus é ilimitada para atender, gratuitamente, as solicitações de seus filhos. Mas os agraciados em gratidão ao recebimento dos benefícios espirituais solicitados aos mensageiros, ou feitos diretamente a Deus, como prova de amor, retribuem os benefícios concedidos presenteando-os com objetos votivos.
Pode-se dizer que a promessa, da forma que se conhece na religiosidade católica, é criada no imaginário do promesseiro. Remete inicialmente a uma espécie de aliança, na qual as duas partes possuem compromissos a serem cumpridos. O devoto faz o pedido, em gratidão oferece um ex-voto ou outra forma de agradecimento, e a entidade divina fica com o encargo de conceder a graça. No entanto, sabe-se que essa aliança é feita num ato mental ou por carta escrita pelo devoto. As entidades intercessoras só responderão seu pedido numa contabilidade depositada pela fé, esperança do promesseiro. Nessa aliança, a fé é mais que uma atitude interior daquele que crê. A fé do promesseiro possui o sentido do entregar, colocar “nas mãos de Deus”, “fiar-se a Deus”77. Na confiança que “Deus proverá”.
Os devotos, geralmente nos momentos de aflição, oferecem sua gratidão ou sacrifícios para afiançar suas dívidas espirituais. Eles criam as mais complexas obrigações com os seus intercessores. Obrigações essas que correm à revelia da
75 BÍBLIA, 1985. p. 1056.
76 O termo promessa será usado conforme o dicionário básico da língua portuguesa Aurélio, que assim o
define: ato de prometer, coisa prometida, oferta, dádiva, compromisso, voto, juramento. Essas são palavras usuais e caras que encontram-se diariamente na linguagem dos devotos que fazem promessas.
ideologia cristã, pois nessa doutrina o lema é “dar sem nada pedir em troca” por ser infinita a misericórdia divina.
Nas histórias das promessas, o principal desejo dos promesseiros beneficiados é que elas sejam realmente cumpridas da forma pelas quais foram solicitadas pelos devotos à entidade intercessora. Nesse diapasão, serão pontuadas a seguir, algumas formas e ritos que compõem usualmente o ato de prometer. Pedido, promessa, obtenção da graça, pagamento da solicitação (dívida). Geralmente essa é a sequência que norteia a promessa. Cada uma dessas etapas é permeada de valores simbólicos, criados conforme o imaginário do devoto, contendo resíduos de experiências coletivas e acrescidas de invenções particulares, que na maioria das vezes fogem de uma lógica pré-estabelecida.
Inicialmente, o devoto faz um pedido à entidade intercessora de sua devoção. Caso ele seja contemplado com o benefício, o agraciado oferece ao seu intercessor o ex-voto, que geralmente são objetos, desenhos, pinturas, esculturas, fotografias e outros (esses são considerados os ex-votos materiais, os que são objetificados), existindo ainda danças, sacrifícios de não comer determinados alimentos, não cortar os cabelos, rezar vários terços, subir escadas de joelhos (estes são os classificados como ex-votos imateriais). Sobre o tema específico dos ex-votos, há uma discussão ampliada no capítulo II.
Desde o momento em que o devoto invoca a entidade intercessora para fazer-lhe o pedido da graça, inicia-se entre eles uma espécie de pacto. O devoto, com muita veemência, explica e dialoga com a entidade intercessora, explicitando seus desejos e se comprometendo a cumprir a promessa que é feita no ato do pedido. Assim, a entidade, na visão do devoto, ficará ciente de toda a trajetória dos seus deveres.
É relevante fazer nesse momento algumas pontuações sobre o verbo “pedir” inserido no contexto da promessa. Pedido é um termo de origem latina petitio, que quer dizer petição, a solicitação prática para se solicitar algo a outrem. A primeira manifestação de pedido de que se tem notícia, foi feita por Jacó, em Bethel, ao Senhor (Gênesis cap. XXVIII vers. 20, 22)78.
78 CÉSAR, Getúlio. Crendices Suas Origens e Suas Classificações, Rio de Janeiro: edição patrocinada
Conforme Getúlio César os pedidos podem ser feitos de três maneiras: vocal, mental e escrito.
Na maneira vocal, o crente vale-se das palavras para conversar com o santo de sua confiança e pedir o que deseja. É como se ele tivesse conversando normalmente com uma pessoal real, alguém de seu cotidiano. Há nesses pedidos, uma intimidade entre a pessoa que implora e a entidade escolhida. O suplicante fala com clamor, celebrando toda sua fé. Terminado o voto, faz sua promessa e confia o atendimento à súplica.
Na maneira mental, o crente concentra-se e suplica mentalmente aos santos forçosos, o que deseja. Piedosamente conversa-se em silêncio com eles, contando seus problemas, a fim de serem minorados. Em troca, fazem promessas extravagantes e oferecem os mais diversos tipos de ex-votos.
Na forma escrita, há imploração por meio de cartas votivas, bilhetes, correntes votivas e pedidos em paredes. As correntes apareceram inicialmente durante a primeira guerra mundial. Elas eram deixadas abandonadas nas igrejas e quem as pegasse deveria dar continuidade, para que os benefícios continuassem acontecendo. Atualmente elas continuam sendo deixadas nos bancos e altares das igrejas e são enviadas pelo correio e até mesmo por e-mail. Se a corrente for quebrada, acaba-se onerando aquele que a quebrou com uma espécie de punição, com a atribuição a ele de vários males que poderão acontecer em função da interrupção da corrente, bem como da recompensa por sua continuidade.
Aqueles que acreditam na sua punição, realmente possuem grande receio em interromper uma corrente, com medo dos azares que poderão acontecer, mediante essas pressões que acompanham muitas cartas.
Atualmente as cartas–correntes-votivas enviadas por e-mail, geralmente pedem para que sejam re-encaminhadas para um número x de pessoas de sua caixa de mensagens. E mais ainda: pedem ao leitor que faça um ou mais pedidos e aguarde alguns minutos para “ver o que acontecerá”. Algumas falam também que poderão ocorrer “desgraças” se não forem cumpridas as propostas solicitadas.
As cartas votivas são antigas. Vieram do Paganismo, eram colocadas nos altares junto às imagens milagrosas. Nelas, os devotos suplicam ao santo o que desejam,
podendo o crendeiro pedir o que deseja receber, conversar com o seu “orago” e estender-se em considerações sem ser observado.
Os pedidos e agradecimentos são encontrados escritos nas paredes, muros, altares (fig. 50) e grades de templos onde se eternizam santos milagrosos É uma maneira muito antiga de suplicar favores. Sobre essa forma de pedidos, há referências de que vieram do Egito, perdurando até os nossos dias.79 As paredes ficam cobertas de pedidos e também de agradecimentos. Hoje, em alguns
santuários, são colocadas placas pedindo-se aos fiéis para que não escrevam nas paredes e nem nas imagens dos santos ali expostos. Muitas imagens precisam, em função dessas escritas, que podem também ser interpretadas como atos de vandalismo, ser repintadas.
FIGURA 50. Parede do Santuário de Bom Jesus do
Monte em Braga - Portugal. Na parede da sala onde se encontra a imagem de Bom Jesus, torna-se impressionante a quantidade de escritas, feitas com lápis e caneta. São mensagens de agradecimento e pedido de graças e alguns escritos registrando a passagem das pessoas pelo santuário. Segundo um dos dirigentes desse local, “não adianta pintar, eles escrevem tudo novamente”.
FONTE: Acervo fotográfico de Aninha Duarte, 2011.
As cartas solicitando pedidos são escritas de várias formas. O suplicante relata suas necessidades, pede com veemência o socorro. Em algumas ele aproveita para dizer também que sendo contemplado com o pedido retribuirá com outra carta de agradecimento.
Localizou-se uma carta em que o pedido foi feito em forma de poesias em versos (fig. 51).
FIGURA 51. Carta de pedido e
agradecimento encontrada no altar do Santuário de Nossa Senhora D’Aires, centro de peregrinação no Alentejo Português.
Senhora de Aires
Ó querida Senhora de Aires Santa Mãe do coração
FONTE: Acervo fotográfico de Aninha
Duarte, 2011 Tens ajudado tanta gente
Em momentos de aflição
79 CÉSAR, 1975, p. 126.
Confira também: DUARTE, Ana Helena da Silva Delfino. Ex-votos e poiesis: um olhar estético sobre a religiosidade popular em Minas Gerais. Dissertação de Mestrado. Uberlandia, UFU, 2003 (Dissertação de Mestrado). p. 21 - 22.
Também te pedimos ajuda Para a minha recuperação Obrigada santa mãe Pela sua compaixão Es uma Santa Milagrosa Poder dado por Deus Reforça minha saúde E perdoa os pecados meus Nesses campos do Alentejo Aqui quisestes ficar Uma igreja te fizeram Para os fieis te virem rezar
O pedido é um momento importante e decisivo em uma promessa. Seja qual for a modalidade escolhida, é uma questão de honra para o devoto conseguir pagar tudo exatamente conforme o combinado inicialmente com a entidade intercessora. É uma questão de honra, de lealdade e de “ter palavra” o cumprimento de uma promessa, nos moldes como foi tratada, até mesmo porque o seu descumprimento poderá, conforme a crença do devoto, lhe trazer algumas mazelas, e toda sua vida poderá ser castigada em função desse pacto quebrado (Segundo alguns devotos, o não cumprimento da promessa – quebra de promessa – poderá trazer grandes males e desgraças ao inadimplente e também à sua família. Em sua vida, começarão a acontecer só coisas ruins, até que seja cumprida a promessa). Nesse caso na impossibilidade de se cumprir uma promessa, o devoto deverá chamar um confessor para isentá-lo do compromisso, substituí-la por outra mais leve, ou ainda transferi-la à outra pessoa que se disponibilize a cumpri-la. Nesse caso, a pessoa atuaria como um fiador espiritual da promessa.
Outra afirmativa que os devotos temem muito, o motivo pelo qual eles querem logo pagar suas dívidas com o santo, é que se ele estiver em débito com o santo, da próxima vez que precisar de favores, não será atendido. Pior, o santo poderá mudar de ideia e retirar a “graça” já concedida e ainda puni-lo.
Nota-se que a preocupação dos devotos, de uma forma geral, tem fundamento nas próprias escrituras bíblicas, como em Eclesiastes 5: 4-5: “Quando a Deus fizeres algum
voto, não tardes em cumpri-lo; porque não se agrada de tolos. O que votares, paga-o. Melhor é que não votes do que votares e não pagares”.80
Possivelmente esse temor de quebrar uma promessa vem dos muitos exemplos bíblicos, que têm como paradigma o próprio Deus. Ele nunca retrata ou altera as suas promessas. A Bíblia diz em Salmos 89:35 “Não violarei o meu pacto, nem alterarei o