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3. BULGULAR VE TARTIŞMA

3.2. JEL KART OKUYUCU ARAYÜZ YAZILIMI

“O surrealismo é considerado por seus fundadores não como uma nova escola artística, mas como um meio de conhecimento, particularmente de continentes que até então não haviam sido explorados: o inconsciente, o maravilhoso, o sonho, a loucura, os estados de alucinação, em suma, o avesso do cenário lógico.”

Maurice Nadeau26

Anatol Rosenfeld, no célebre ensaio “Reflexões sobre o romance moderno”, utiliza o conceito desrealização ao se referir sobre o efeito de “anti-realismo” instaurado na pintura, e que por extensão se efetivou no romance, como o próprio autor acentua:

O termo ‘desrealização’ se refere ao fato de que a pintura deixou de ser mimética, recusando a função de reproduzir ou copiar a realidade empírica, sensível. Isso, sendo evidente no tocante à pintura abstrata ou não-figurativa, inclui também correntes figurativas como cubismo, expressionismo ou surrealismo. Mesmo estas correntes deixaram de visar a reprodução mais ou menos fiel da realidade empírica. [...] no surrealismo, fornece apenas elementos isolados, em contexto insólito, para apresentar a imagem onírica de um mundo dissociado e absurdo.27

A relação de Burroughs com o Surrealismo possui várias implicações e desdobramentos. Logo num primeiro momento, pode-se ressaltar que a influência dessa manifestação de vanguarda é uma das prediletas, senão a favorita, dos Beats. Kerouac, Ginsberg e Burroughs tinham diários de sonhos, o que evidencia o grande interesse deles no processo onírico28.

Tal processo é passível de ser induzido, estando em vigília, por intermédio da ingestão de drogas, que decorre em alucinações e estímulos psicossensoriais inusitados. Naked Lunch, como será mais bem exposto adiante, está repleto de passagens escritas sob efeito de alguma substância psicoativa, que Burroughs assumiu diretamente no corpo do texto ou relatou em

26 NADEAU, Maurice. História do surrealismo. Tradução de Geraldo Gerson de Souza. São Paulo: Perspectiva,

1985. p. 46.

27 ROSENFELD, Anatol. Reflexões sobre o romance moderno. In: ______. Texto/contexto. São Paulo:

Perspectiva; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1973. p. 78.

28 Vale citar esta fala de Burroughs: “Muito material para meus livros foram extraídos de sonhos, boa parte dos

que tive foram incorporados em Naked Lunch e em vários outros livros. Eu tenho um diário de sonhos há muitos anos, com comentários e interpretações, e espero editá-lo um dia. O livro teria cerca de setecentas páginas.” In: LOPES, Rodrigo Garcia. Vozes e Visões. 1996, p. 78.

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entrevistas. E isso estabelece uma outra ligação de procedimento com os surrealistas, que sempre privilegiaram a desordem psíquica enquanto instância básica para compleição do trabalho artístico.

Burroughs gostava de repetir uma frase que ele atribuía a Gysin: “[...] a escrita está 50 anos defasada em relação à pintura.”29 Ao procurar sanar essa distância, fica sugerido que Burroughs flertou amplamente com os procedimentos e resultados apreendidos das vanguardas do começo do século XX. Algo passível de vislumbrar tanto na concepção do método do cut-up, como na escrita de determinados excertos e montagem de seqüências que constituem Naked Lunch, cuja leitura culmina numa recepção semelhante ao vermos um quadro como Le Jeu Lugubre - O jogo lúgubre - de Salvador Dali. Notem:

An old garbage collector, face fine and yellow as Chinese ivory, blows The Blast on his dented brass horn, wakes the Spanish pimp with a hard-on. Whore staggers out through dust and shit and litter of dead kittens, carrying bales of aborted foetuses, broken condoms, bloody Kotex, shit wrapped in bright color comics.30 (BURROUGHS,1993, p.69).

Também não é difícil perceber a semelhança, em intenção e efeito, com a “escrita automática” dos escritores surrealistas, assim descrita por Sérgio Lima:

A escritura-automática se quer e se dá, o seu registro e a sua exposição, como um fluxo dialógico e não em tanto que linearidade discursiva, monólogo; graças ao que ela relata com a própria instauração da Poesia, pois como esta, é descontínua e introduz simultaneidades. A escritura-automática é o ditado de um diálogo obscuro, representa um fluxo permanente orientado pelo desejo, numa incessante troca que dilui o claro consciente e o escuro inconsciente numa só lava transbordante.31

A diferença entre esse procedimento e os escritos de Burroughs está, basicamente, no emprego de signos contemporâneos ao autor, como é possível observar no trecho de Naked Lunch transcrito anteriormente. E, pode-se apontar que a viabilidade literária da técnica cut-

29 Ver LOPES, Rodrigo Garcia. Folha de S. Paulo, p. 9, 26 abr. 1992.

30 “Um velho lixeiro de rosto fino e amarelo como marfim chinês, sopra A Clarinada em sua corneta dentada de

bronze e acorda o gigolô espanhol de pau duro. A prostituta cambaleia por entre poeira e excrementos e ninhada de gatas mortas carregando fardos de fetos abortados, camisas-de-vênus rompidas, modess ensangüentados, merda embrulhada em folhas de histórias em quadrinhos coloridas.” (BURROUGHS, 1984, p.77).

31 LIMA, Sérgio. A aventura surrealista. Campinas: UNICAMP; São Paulo: UNESP; Rio de Janeiro: Vozes,

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up se legitima exatamente pela razão de que o escritor trabalha, sobretudo, com a percepção imagética imediata.

Prestando um pouco mais de atenção no excerto de Sérgio Lima sobre a escrita automática, lemos que essa “representa um fluxo permanente orientado pelo desejo”. Referente a este último termo, que é repleto de implicações psicanalíticas, convém transcrever alguns apontamentos presentes no tópico “Psicanálise & Literatura”, do Dicionário enciclopédico de psicanálise, a respeito de Naked Lunch:

William Burroughs, em seu Almoço Nu (1959), propriamente surrealista, optou por um texto que parece composto de divagações delirantes e onde, todo caso, para ter certeza de estar livre de suas resistências e recalques, ele se permite dizer tudo. [...] Acima de tudo, o que se evidencia é a incidência do desejo na escrita.32

Para ampliar um pouco mais as considerações acerca da relação “escrita e desejo” em Naked Lunch, é necessário mencionar o processo do sentimento de desejo na ótica de Gilles Deleuze e Félix Guattari, que chega a ser didático para mais bem compreendermos o recurso empregado na obra de Burroughs: “O desejo não cessa de efetuar o acoplamento de fluxos contínuos e de objetos parciais essencialmente fragmentários e fragmentados. O desejo faz escorrer, escorre e corta.”33

Na obra O Anti-Édipo, que é um libelo da “esquizo-análise”, os autores cunharam o conceito de Máquinas desejantes, outro ótimo ensejo para vislumbrarmos a referida relação em Naked Lunch, que assim eles assinalaram:

Nas máquinas desejantes tudo funciona ao mesmo tempo, mas nos hiatos e nas rupturas, nos enguiços e nas falhas, nas intermitências e nos curto- circuitos, nas distâncias e nos despedaçamentos, numa soma que nunca reúne suas partes em um todo. É que aí os cortes são produtivos, e são eles próprios reuniões. As disjunções enquanto disjunções são inclusivas.34

32 SILHOL, R. Psicanálise e Literatura. In: KAUFMAN, Pierre (edit.) Dicionário enciclopédico de psicanálise: o

legado de Freud e Lacan. Tradução de Vera Ribeiro e Maria Luiza Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. p. 677.

33 DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo. Tradução de Georges Lamaziére. Rio de Janeiro:

Imago, 1976. p. 21.

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Acho interessante notar um certo zeitgeist, um “espírito de época”, na semelhança conceitual e terminológica entre William Burroughs e Deleuze e Guattari. Embora a técnica de Burroughs resguarde semelhanças com a escrita automática dos surrealistas ou o propalado “fluxo de consciência”, ele fazia questão de mencioná-la enquanto cut-up - “corte” ou “recorte” - , cujo processo, numa determinada perspectiva, acaba por se conciliar com o debate empreendido por Deleuze e Guattari, que, não raras vezes, mencionam o fenômeno natural de “corte” a tratar de fluxos, como nesta passagem:

Em que as máquinas desejantes são verdadeiramente máquinas, independente de qualquer metáfora? Uma máquina se define como um

sistema de cortes. Não se trata absolutamente do corte considerado como

separação da realidade; os cortes operam em dimensões variáveis, conforme o caráter considerado. Toda máquina, em primeiro lugar, está relacionada a um fluxo material contínuo (hylé) que ela corta. Funciona como uma máquina de cortar presunto: os cortes operam extrações sobre o fluxo associativo. Como o ânus e o fluxo de merda que ele corta; a boca e o fluxo de leite, mas também o fluxo de ar, e o fluxo sonoro; o pênis e o fluxo de urina, mas também o fluxo de esperma.35

Deleuze e Guattari já se declaram apreciadores da literatura produzida pelos Beats, principalmente a de Burroughs, e ainda que a publicação de O Anti-Édipo seja posterior em um pouco mais de uma década em relação a Naked Lunch, não se pode mensurar até que ponto houve ou não inspirações, por isso a menção ao zeitgeist. E se eu tivesse que apontar uma filosofia para a técnica cut-up, em Naked Lunch, essa seria as formulações teóricas de Deleuze e Guattari. Ainda da autoria deles, torna-se conveniente transcrever esta exposição:

Resumindo, toda máquina é corte de fluxo em relação àquela a que está ligada, mas fluxo em relação àquela que a ela está ligada. Esta é a lei de produção de produção. Eis porque, no limites das conexões transversais ou transfinitas, o objeto parcial e o fluxo contínuo, o corte e a conexão se confundem numa coisa só - em toda a parte cortes-fluxos de onde brota o desejo, e que são sua produtividade, operando sempre o enxerto do produzir sobre o produto.36

35 Ibid., p. 54. 36 Ibid., p. 54-55.

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Creio que o extenso excerto de Naked Lunch, a seguir transcrito, dará mostras do que foi exposto e comentado até o momento. Inclusive no fato do narrador revelar os “bastidores”, por assim dizer, no momento da escrita, ao assumir a ingestão do líquido alucinógeno yage para a descrição de paisagens, que em Naked Lunch são concedidas à cidade imaginária Interzone:

The City is visited by epidemics of violence, and the untended dead are eaten by vultures in the streets. Albinos blink in the sun. Boys sit in trees, languidly masturbate. People eaten by unknown diseases watch the passerby with evil, knowing eyes.

In the City Market is the Meet Café. Followers of obsolete, unthinkable trades dooling in Etruscan, addicts of drugs not yet synthesized, pushers of souped-up Harmaline, junk reduced to pure habit offering precarious vegetable serenity, liquids to induce Latah, Tithonian longevity serums, black marketeers of World War III, excisors of telephatic sensitivity, osteopaths of the spirit, investigators of infractions denounced by bland paranoid chess players, servers of fragmentary warrants taken down in hebephrenic shorthand charging unspeakable mutilations of the spirit, bureaucrats of spectral departments, officials of unsconstitued police states, a Lesbian dwarf who has perfected operation Bangutot, the lung erection that strangles a sleeping enemy, sellers of orgone tanks and relaxing machines, brokers of exquisite dreams and memories tested on the sensitized cells of junk sickness and bartered for raw materials of the will, doctors skilled in the treatment of diseases dormant in the black dust of ruined cities, gathering virulence in the white blood of eyeless worms feeling slowly to the surface and the human host, maladies of the ocean floor and the stratosphere, maladies of the laboratory and atomic war… A place where the unknown past an the emergent future meet in a vibrating soundless hum … Larval entities waiting for a Live One …

(Section describing The City and the Meet Café written in state of Yage intoxication … Yage, Ayuahasca, Pilde, Nateema are Indian names for Bannisteria Caapi, a fast growing vine indigenous to the Amazon region. See discussion of Yage in Appendix.).37(BURROUGHS, 1993, p. 92).

37 “A Cidade é tomada por epidemias de violência, e os mortos desatendidos são comidos pelos urubus nas ruas.

Albinos piscam no sol. Garotos sentados nas árvores masturbam-se languidamente. Pessoas consumidas por doenças desconhecidas observam os passantes com olhos espertos e cruéis.

No Mercado da Cidade fica o Café de Encontros. Seguidores de comércios obsoletos e impensáveis, rabiscando em etrusco, viciados em drogas ainda não sintetizadas, traficantes de harmalina dissolvida, a droga reduzida a puro hábito e que permite precária serenidade vegetal, líquidos para induzir estados de Latah, soros de longevidade titonianos, comerciantes do mercado negro da Terceira guerra Mundial, fiscais de impostos da sensibilidade telepática, osteopatas do espírito, investigadores de migrações denunciadas por suaves enxadristas paranóides, oficiais de justiça com sanções fragmentárias anotadas em taquigrafia hebefrênica ordenando indescritíveis mutilações do espírito, burocratas de departamentos espectrais, oficiais de estados policiais ainda não constituídos; uma anã lésbica que aperfeiçoou a operação do Bang-Utot, a ereção do pulmão que estrangula o inimigo dormindo; vendedores de tanque de orgones e máquinas para relaxamento, corredores de sonhos raros e lembranças testadas nas células sensibilizadas pela doença da droga e trocadas pela matéria-prima da vontade, médicos hábeis no tratamento de doenças latentes na poeira preta de cidades em ruínas, a virulência que se acumula no sangue branco de vermes sem olhos assomando à superfície e ao hospedeiro humano, doenças do fundo do oceano e da estratosfera, doenças de laboratório e da guerra atômica ... Um lugar em que o passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num vibrante zumbido inaudível ... Entidades larvais esperando

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Como aponta Yves Duplessis: “Nos estados de sonho e loucura, o inconsciente se manifesta de maneira espontânea, pelo relaxamento de toda atividade de controle e a escrita automática permite transcrever suas mensagens.”38 No caso de Burroughs o processo se estabeleceu tanto por essa via, quanto pela alucinação provocada por intermédio da ingestão de entorpecentes, como se pode notar.

A fim de estreitar ainda mais a relação entre o cut-up em Naked Lunch e a escrita automática dos surrealistas, que é guiada pela palavra de ordem desejo, cito os apontamentos de Maurice Blanchot em seu ensaio “Reflexões sobre o Surrealismo”:

Só que essa emancipação das palavras devem ter dois sentidos. De um lado, na escrita automática, não é propriamente a palavra que se torna livre, mas a palavra e minha liberdade que se tornam uma só coisa. Penetro na palavra, ela guarda minha marca e é minha realidade impressa; adere a minha não- aderência. Mas de outro lado, essa liberdade das palavras significam que as palavras se libertam por si mesmas: elas não dependem mais exclusivamente das coisas que expressam agem por conta própria, brincam e, como diz Breton, ‘fazem amor’.39

Vislumbro o mesmo fenômeno em Naked Lunch, ao que eu complementaria com essa observação de Deleuze e Guattari (1976, p. 172):

É isso o estilo, ou melhor, a ausência de estilo, a assintaxe, a agramaticalidade: momento em que a linguagem não se define mais pelo que diz, ainda menos pelo que a torna significante, mas por aquilo que a faz escorrer, pelo fluxo, fluir e explodir - o desejo. Porque a literatura é exatamente como a esquizofrenia: um processo e não uma meta, uma produção e não uma expressão.

Outra implicação importante para ajudar a entender a literatura de Burroughs e a relação com a escrita automática estabelece-se na desrealização que é concebida por uma consciência, declaradamente, individual. Os Beats sempre se pautaram numa arte pelo que está vivo ...

(O trecho descrevendo a Cidade e o café de encontro foi escrito em estado de intoxicação com Yage... Yage, Ayuahuasca, Pilde, Nateema são os nomes índios para Bannisteria Caapi, uma trepadeira de crescimento rápido, típica da região amazônica. Ver comentários sobre o Yage no Apêndice.).” (BURROUGHS, 1984, p. 105).

38 DUPRESSIS, Yves. O Surrealismo. Tradução de Pierre Santos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1963.

p. 48.

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intensamente pessoal, que contivesse o indivíduo que a produz – semelhante ao ato de objeção à arte acadêmica, tal como empreendido pelas Vanguardas.

No caso de Naked Lunch também está em pauta os processos mentais desencadeados pelas drogas, por isso, na minha estrita consideração, Naked Lunch estabelece uma continuação com Junky, sua primeira narrativa, de 1953, na qual predomina o estilo direto, um relato quase jornalístico de seus abusos e vilanias. Ao passo que em Naked Lunch, Burroughs aborda diretamente os processos de atuação das drogas em seu imaginário, chegando a comprometer a própria construção do enunciado, ocasionando um fenômeno semelhante ao que Blanchot (1997, p. 90) observa acerca da escrita automática:

A eficácia , a importância da escrita automática reside no fato de ela revelar a prodigiosa continuidade entre meu sofrimento, meu sentimento de sofrer e a escrita do sentimento desse sofrimento. Com ela se desfaz a opacidade das palavras, dissipa-se sua presença como coisa. Elas são tudo o que sou naquele mesmo instante. Suspendendo as obrigações da reflexão, permito à minha consciência imediata irromper na linguagem, a esse vazio preencher- se e a esse silêncio expressar-se.

Temos assim um escritor que submerge em sua consciência auto-induzida, para daí vir a constituir passagens que formarão o corpo do romance. E, conforme assim age, Burroughs estreita sua relação com o surrealismo, pois pratica algo muito próximo a que Salvador Dali classificou de “atividade crítico-paranóica”, a saber:

Atividade crítico-paranóica: método espontâneo de conhecimento irracional baseado na associação crítico-interpretativa dos fenômenos delirantes.[...] A atividade crítico-paranóica organiza e tem por objetivo, de maneira exclusivista, as possibilidades ilimitadas e desconhecidas das associações sistemáticas dos fenômenos subjetivos que se nos apresentam sob forma de solicitações irracionais, em favor exclusivo da idéia obcecante. A atividade crítico-paranóica descobre, por esse método, ‘significados’ novos e objetivos do irracional, fazendo passar, de maneira tangível, o próprio mundo do delírio ao plano da realidade.40

Como se sabe, Burroughs tinha obsessão pela temática que envolve o universo das drogas, lidando com o tema de maneira lúdica e sombria: “Junk was surrounded by magic and

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taboos, curses and amulets.”41 (1993, p.20). E ao fazer uso de entorpecentes durante a escrita de certas passagens em Naked Lunch, da mesma forma que ao aproveitar trechos anteriores de mesmo teor42, segundo afirmou Norman Mailer: “William Burroughs oferece-nos o que pode ser o mais belo registro, em nosso século, do completo prisioneiro psíquico. Naked Lunch é o livro de trechos e fragmentos, anotações e relatos fantasmagóricos.”43

Nessa estreita relação de conteúdo e forma, as intenções de Burroughs se aproximam da atitude que João Antônio denominou de “Corpo-a-corpo com a vida”, em que pontua a interação necessária entre escritor e texto:

O tema passa a flagrar o desconhecimento do escritor, uma vez que o intérprete aceita um corpo-a-corpo a ser travado com a coisa a ser interpretada [...] Uma vez que a proposta revoluciona o conceito de gênero, também fere e desfalca (ou enriquece) o conceito de forma.44

No esteio de minha consideração a respeito de Naked Lunch concebido enquanto continuação, “às avessas”, de Junky; as reflexões de João Antônio e Norman Mailer vêm bem a calhar, pois o outrora prisioneiro empírico das drogas, cede lugar ao “prisioneiro psíquico”, e a mudança de articulação na forma literária revela o “corpo-a-corpo a ser travado com a coisa a ser interpretada.” Assim, Burroughs criou uma linguagem literária que compartilha dos princípios da escrita automática conforme apontada por Blanchot: em que sensações pessoais e palavras se fundem.

Alguns procedimentos da técnica cut-up usada para unir os escritos e devaneios de Burroughs, que constituíram Naked Lunch, me fazem lembrar uma outra técnica: a “rapsódia narrativa”, conforme estabelecida por Mário de Andrade em Macunaíma.

41 “A droga é cercada de magia e tabus, maldições e amuletos.” (BURROUGHS, 1984, p.18).

42 Conforme o autor acentua no texto de apresentação da obra: “... Most survivors do not remember the delirium

in detail. I apparently took detailed notes on sickness and delirium. I have no precise memory of writing the notes which have now been published under the title Naked Lunch.” (BURROUGHS, 1993, p. 7).

43 MAILER, Norman. Alguns Filhos da Deusa. In: MOORE, Harry T. (Org.). Romancistas Contemporâneos.

São Paulo: Lidador, 1966. p. 28.

44 ANTONIO, João. Corpo-a-corpo com a vida. In: ______. Malhação do Judas carioca. Rio de Janeiro: Record,

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Benzer Belgeler