Tendo em conta a inexistência de um Post-Hospitalization Behavior Questionnaire traduzido, testado e validado para a população portuguesa, a versão utilizada neste estudo foi traduzida/retraduzida para a língua portuguesa a partir da versão original inglesa de 27 itens.
Inicialmente recorremos a um especialista da língua inglesa que procedeu à tradução do questionário de Inglês para Português; posteriormente, o mesmo foi retraduzido do Português para o Inglês e procedeu-se aos acertos semânticos. Seguidamente, passámos esta versão a 3 juízes independentes, dois com formação específica na área da saúde e domínio de ambos os idiomas, e um com formação específica no ensino da língua portuguesa-inglesa.
A versão traduzida e cuidada do ponto de vista do conteúdo mais fidedigno à versão original foi revista por mais 2 juízes independentes, desta vez com formação específica em Psicologia e domínio de ambos os idiomas para se proceder à validade de conteúdo (Bell, 1997; Quivy & Campenhoudt, 1998; Fortin, 2000).
A versão final portuguesa do Questionário Comportamental Pós-Hospitalização, de ora em diante designada por QCPH, tem 27 itens, distribuídos pelas 6 categorias (ou fatores originais): ansiedade geral/regressão, ansiedade de separação, ansiedade do sono, distúrbios alimentares, agressividade contra a autoridade e apatia/alheamento (cf. Tabela 18)
Tabela 18 - Fatores e Itens da versão traduzida do QCPH
Fator Designação Itens
I geral/regressão Ansiedade
4 - A sua criança necessita de chupeta/chucha?
5 - A sua criança parece ter medo de sair de casa consigo?
6 - A sua criança parece desinteressada em relação ao que se passa em seu redor? 8 - A sua criança rói as unhas?
12 - A sua criança parece evitar ou tem medo de coisas novas? 13 - A sua criança revela dificuldade em tomar decisões? 21 - A sua criança tem o trânsito intestinal irregular? 27 - A sua criança chucha no dedo?
II Ansiedade de separação
9 - A sua criança fica transtornada quando a deixa sozinha por alguns minutos? 16 - A sua criança parece ficar transtornada quando alguém menciona médicos ou hospitais?
17 - A sua criança anda atrás de si para todo o lado quando está em casa? 18 - A sua criança passa tempo a tentar chamar ou manter a sua atenção? 20 - A sua criança tem pesadelos à noite ou acorda e chora?
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III Ansiedade do sono 1 - A sua criança faz birra para dormir à noite? 19 - A sua criança tem medo do escuro?
22 - A sua criança tem dificuldade em adormecer à noite?
IV alimentares Distúrbios 2 - A sua criança faz birra para comer? 3 - A sua criança passa tempo apenas sentada ou deitada sem fazer nada? 24 - A sua criança tem falta de apetite?
V contra a autoridade Agressividade 14 - A sua criança faz birras? 25 - A sua criança tem tendência para lhe desobedecer?
VI Apatia/Alheamento
7 - A sua criança faz chichi na cama à noite?
10 - A sua criança necessita de muita ajuda para fazer qualquer coisa?
11 - A sua criança revela desinteresse por fazer alguma coisa (jogar jogos, brincar, etc.)? 15 - A sua criança revela dificuldade em falar consigo?
23 - A sua criança parece ter medo ou é tímida com estranhos? 26 - A sua criança parte brinquedos ou outros objetos?
Nesta versão cada item é classificado de 1 a 5 pontos, de acordo com uma escala de Likert, com variação entre muito menos que antes e muito mais que antes, mais especificamente: muito menos do que antes (1 ponto), menos do que antes (2 pontos), sem alterações (3 pontos), mais do que antes (4 pontos) e muito mais do que antes (5 pontos). Se determinado comportamento não estiver presente, nem antes, nem depois, é classificado como sem alterações, sendo-lhe atribuída a pontuação de 3 pontos. Para verificar a distribuição dos itens na posição que ocupam no teste confrontar com QCPH (cf. Anexo VII).
A nível da cotação, a pontuação total do questionário pode variar entre 27 e 135 pontos. Um score total superior a 81 pontos significa a presença de alterações comportamentais negativas pós-hospitalares, sendo possível discernir por categorias eventuais modificações no comportamento da criança (Vernon et al., 1966; Kain et al., 1998b; Faulk et al., 2010; Karling & Hägglöf, 2007). A ocorrência de um score total inferior a 81 pontos é também possível, significando a presença de alterações comportamentais positivas pós-hospitalares (Karling, 2006).
Adicionalmente, numa fase prévia à investigação, o questionário foi pré-testado em 5 participantes que cumpriam integralmente os critérios de elegibilidade do estudo. A entrevista foi efetuada aos pais, a quem foi pedido que se pronunciassem sobre o comportamento observado nas suas crianças.
A amostra de 5 crianças integrou três crianças do sexo feminino (N=3) e duas do sexo masculino (N=2), com idades compreendidas entre os 7 e 8 anos (com idade média de 7,6 anos) e a frequentar o segundo (N=2) e o terceiro (N=3) ano de escolaridade.
Após o preenchimento do QCPH, procedeu-se a uma entrevista individualizada com o objetivo de conhecer a opinião dos 5 participantes pré-testados acerca da compreensão, forma, conteúdo, dúvidas e sugestões acerca do instrumento, não tendo sido necessário produzir alterações em relação ao questionário distribuído, pois todos os participantes expressaram que
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não tiveram dificuldades de preenchimento e que tinham compreendido todos os itens. Estes participantes foram excluídos da população do estudo.
Estudos de fidedignidade
Procedeu-se à verificação da consistência interna do Questionário Comportamental Pós-Hospitalização a partir das respostas obtidas na Amostra Total (N=60) após aplicação do QCPH, não se tendo verificado casos perdidos ou omissos (n=0). Procedemos então à determinação da estatística descritiva e ao cálculo do coeficiente alfa de Cronbach.
Tabela 19 - Estatística da confiança do QCPH
Média Variância Desvio-Padrão Cronbach's Alpha Alpha Cronbach's baseado nos Itens Standardizados Número de Itens
52,08 5,806 2,410 ,848 ,855 17
Dos 27 itens do questionário, 10 foram excluídos do cálculo do Coeficiente Alfa de Cronbach por apresentarem variância zero, ou seja, as respostas a estas perguntas não variaram para todos os 60 casos da amostra total, pelo que a sua presença para o teste da confiança é considerada redundante. Refira-se que estes 10 itens não foram retirados do formulário do QCPH, apenas foram excluídos para o teste de confiança. Os itens excluídos do cálculo do Coeficiente Alfa de Cronbach foram o 4, 5, 6, 7, 8, 12, 15, 21, 26 e 27.
Assim sendo, e de acordo com a tabela 19, para o teste de confiança apenas foram selecionadas 17 questões, de onde se conclui que a consistência interna é superior a 0,8 (mais precisamente 0,848), confirmando a validade da consistência interna do QCPH (cf. Cronbach, 1951).
Apesar da boa consistência interna verificada anteriormente, procedeu-se ainda à determinação das estatísticas do total-itens do QCPH (cf. Tabela 20) e da matriz de correlação entre os 17 Itens do questionário (cf. Tabela 21).
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TABELA 20-Estatísticas do total-itens doQCPH Média da Escala se item apagado Variância da Escala se item apagado Correlação Total-Item corrigido Alpha Cronbach's se item apagado 1 49,03 5,151 ,608 ,834 2 48,98 5,000 ,529 ,836 3 49,05 5,201 ,694 ,833 9 49,05 5,303 ,565 ,837 10 49,08 5,366 ,477 ,840 11 49,07 5,656 ,217 ,849 13 49,07 5,690 ,161 ,850 14 49,00 4,780 ,779 ,822 16 48,90 5,007 ,318 ,856 17 49,02 5,135 ,533 ,836 18 49,00 4,915 ,658 ,829 19 49,07 5,690 ,161 ,850 20 48,93 4,707 ,620 ,830 22 48,93 4,640 ,669 ,827 23 49,13 5,846 -,083 ,861 24 48,97 4,880 ,479 ,841 25 49,05 5,303 ,565 ,837
Conforme dados presentes na Tabela 20 podemos observar que para cada item eliminado a correlação total mantém-se entre 0.2 e 0.7 para praticamente todos os itens, conforme seria desejável; adicionalmente, o Coeficiente Alfa de Cronbach desce ou mantém- se praticamente igual qualquer que seja o item eliminado (Cronbach, 1951; Maroco, 2007).
Segue-se a determinação da matriz de correlação entre os 17 Itens do questionário (cf. Tabela 21).
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TABELA 21-Matriz de correlação entre itens doQCPH
1 2 3 9 10 11 13 14 16 17 18 19 20 22 23 24 25 1 1,0 2 ,178 1,0 3 ,809 ,248 1,0 9 ,383 ,248 ,483 1,0 10 ,419 ,304 ,509 ,509 1,0 11 -,030 ,391 -,024 -,024 ,00 1,0 13 -,030 -,043 -,024 ,701 ,00 -,017 1,0 14 ,484 ,503 ,616 ,616 ,33 ,432 ,432 1,0 16 ,259 ,117 ,354 ,137 ,213 -,056 -,056 ,153 1,0 17 ,552 ,134 ,695 ,323 ,366 -,035 -,035 ,403 ,198 1,0 18 ,484 ,302 ,616 ,616 ,330 -,039 ,432 ,782 ,153 ,645 1,0 19 -,030 -,043 -,024 ,701 ,000 -,017 1,0 ,432 -,056 -,035 ,432 1,0 20 ,546 ,327 ,442 ,182 ,256 ,310 -,055 ,549 ,256 ,449 ,380 -,055 1,0 22 ,546 ,482 ,442 ,182 ,256 ,310 -,055 ,549 ,365 ,449 ,380 -,055 ,739 1,0 23 ,053 ,076 ,043 -,383 ,00 ,030 -,567 -,208 ,098 ,061 -,208 -,567 ,096 ,096 1,0 24 ,135 ,797 ,193 ,193 ,247 ,311 -,041 ,395 ,287 ,096 ,231 -,041 ,373 ,373 ,072 1,0 25 ,383 ,248 ,483 1,0 ,509 -,024 ,701 ,616 ,137 ,323 ,616 ,701 ,182 ,182 -,383 ,193 1,0
Conforme dados apresentados na Tabela 21, observando a matriz de correlação entre todos os itens, verificamos que existem correlações muito diferentes, positivas e negativas, o que vem confirmar que os itens não estão todos a medir o mesmo fenómeno. Refira-se que não é bom ter-se as correlações todas, ou quase todas, positivas fortes, porque assim significava que todos os itens evoluíam no mesmo sentido, logo poderiam estar todos a medir o mesmo.
Com base nestes resultados, juntamente com o bom Coeficiente Alfa de Cronbach (0.848) verificado, consideramos que os valores de consistência são aceitáveis para a sua aplicabilidade neste estudo, no entanto, mais estudos devem ser feitos para corroborar a validação e fidedignidade para a população portuguesa.