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Fotoğraf 2.1. Izgara altı üretim

Como falamos no capítulo anterior, para espelhar a alma siciliana em seu romance, Verga optou por escrever na língua daquele povo. São vários os meios que ele usa para marcar essa oralidade em seu romance.

Vamos começar pelos provérbios que, na obra verguiana, encerram um alto grau de capacidade de realização da idéia geral em cada indivíduo singular. Eles não expressam somente enunciações de conteúdo moral, que evidenciam um certo horizonte cultural, mas, sobretudo, conotam características psicológicas e, correlativamente, fatos da língua e do estilo.

A sintaxe simples das frases e a repetição dos provérbios, ao invés de constituir uma imperfeição, são instrumentos líricos, discurso que se manifesta como forma poética, revelando a sabedoria do povo, evidenciando os aspectos singulares do

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caráter dos personagens e permitindo conhecer o seu estado de ânimo. Observemos a frase que segue:

Nulla ho. Ho che sono un povero diavolo.82

No exemplo acima, podemos observar que o recurso discursivo utilizado foi a ênfase, figura de retórica que tem por finalidade dar relevo a uma palavra, ou expressão, através de seu posicionamento invertido dentro da frase. Como já comentamos anteriormente, o verbo no final da oração – Nulla ho - é uma construção comum na oralidade siciliana e dá especial relevo ao sentido do que se quer transmitir. Nesse caso, é o fato de o personagem não possuir nada, ser completamente desprovido de quaisquer bens materiais.

O trecho a seguir retrata o momento em que toda a comunidade de Aci Trezza vai visitar os Malavoglia, após a morte de Bastianazzo.

La casa del nespolo era piena di gente; e il proverbio dice: triste quella casa dove ci è la visita pel marito!83

La visita pel marito é uma expressão ainda viva na Sicília - u' visitu pp'u' maritu – , que quer dizer o luto pela morte do marido.

O próximo provérbio ilustra um outro tipo de comportamento, enunciado pela figura caricata da Vespa, personagem ferina, sempre pronta a pungir as pessoas com comentários maliciosos. Nesse caso, ela observa a tempestade e lembra dos membros da família Malavoglia, que estão no mar. Mas, cruelmente, ela não pensa na segurança daquelas pessoas, mas no carregamento de tremoços, custeado por zio Crocifisso e que pode ser perdido:

Chi fa credenza senza pegno, perde l’amico, la roba e l’ingegno.84 82 Giovanni Verga. 1980, 1983. p. 148 83 Idem. p. 52 84 Ibidem, p. 45

O provérbio significa que quem faz crédito sem garantia, perde o amico, os bens e o talento. Ela ofende tanto o zio Crocifisso, quanto os Malavoglia. Ao primeiro, ela atribui a qualidade de tolo, porque emprestou dinheiro aos Malavoglia sem garantia; aos segundos, ela confere a alcunha de maus pagadores, porque ela supõe que não honrarão sua dívida. Esse personagem é incapaz de ser sutil, já que a Vespa não insinua, porque para isso ela necessitaria escolher as palavras, dando a entender, indiretamente, o seu recado. Como não possui o domínio de um vocabulário amplo, ela comunica a sua mensagem diretamente, sem subterfúgios. Trata-se de um provérbio que faz menção a um equivalente provérbio siciliano: Cui fa cridenza senz’aviri pignu, perdi la robba,

l’amicu e lu ‘ngegnu.

Os muitos provérbios que Verga põe na boca de seus personagens mostram o saber daquela comunidade. O provérbio – há um para cada ocasião – é uma fórmula fixa, que corresponde a uma concepção estática da realidade. Os muitos come deve

essere que se repetem no decorrer da narração indicam uma sociedade estagnada,

fechada, extremamente ligada às tradições. Os personagens repetem os mesmos provérbios várias vezes porque a sua visão do mundo é limitada e seu repertório reduzido a poucas palavras e expressões.

Padron ‘Ntoni, olhando o mar, repete para si mesmo: Mare crespo, vento

fresco85

A rima presente no provérbio acima é uma marca da oralidade. Benjamin, em seu fundamental estudo sobre a figura do narrador, analisa suas características desde os primórdios, quando o homem ainda não havia inventado o alfabeto, devendo se valer da oralidade para contas suas histórias. É na oralidade que Benjamin localiza a origem da arte de narrar. No romance verguiano a história é comunicada por um narrador que assume a oralidade dos personagens.

O provérbio a seguir é iniciado por vocábulos que não têm qualquer significação. Eles estão presentes na frase somente com o intuito de torná-la mais sonora e preparar a rima que virá: Ntroi 'ntroi, ciascuno coi pari suoi.86 Nesse caso,

85

Giovanni Verga. 1980, 1983. p. 23

86

Verga nos remete aos primórdios da história humana, quando a palavra, com seus múltiplos significados, é precedida por sons onomatopaicos, uma tentativa de articulação que só mais tarde assumirá significado, transformando-se em linguagem.

Desta feita é padron Cipolla quem fala: Ognuno all'arte sua, e il lupo alle

pecore.87

Com este provérbio, padron Cipolla quer dizer que cada um deve desempenhar a arte a que foi destinado, assim como o lobo não sabe fazer outra coisa senão caçar ovelhas. Um modo de dizer que sublinha o tom determinista de toda a narrativa verista.

O próximo provérbio é dito por padron ‘Nttoni, referindo-se a sua neta Sant’Agata. Ele destaca a temática do homem como fruto do meio: La ragazza com'è

educata, e la stoppa com'è filata.88

As moças têm valor pela sua educação e a estopa pelo modo como é tecida. O valor dessas moças não lhes é intrínseco, mas deriva da qualidade da educação que elas receberam. Essa educação, por sua vez, depende do caráter dos seus familiares. Daí o provérbio precedente: Ognuno all’arte sua.

Há no romance uma página que parece colher, ao vivo, o sentido mítico que se distende nos provérbios e os justifica:

Che vuol dire che il mare ora è verde, ed ora è turchino, e un’altra volta è bianco, e poi nero come la sciara, e non è sempre di un colore come dell’acqua che è? - chiese Alessi.

- E la volontà di Dio, - rispose il nonno, - così il marinaio sa quando può mettersi in mare senza timore, e quando è meglio non andarci.

- Quei gabbiani hanno una bella sorte, che volano sempre in alto, e non hanno paura delle ondate, se il mare è in tempesta.

- Allora non hanno da mangiare nemmeno loro, povere bestiole. 87 Giovanni Verga. 1980, 1983. p. 25 88 Idem, p. 26

- Dunque tutti hanno bisogno del bel tempo, tale e quale come la Nunziata che non può andare alla fontana se piove, - conchiuse Alessi.

- Buon tempo e mal tempo non dura tutto il tempo! – osservò il vecchio.

Ma quando era mal tempo, o che soffiava il maestrale, e i sugheri ballavano sull’acqua tutto il giorno, come se ci fosse chi suonava il violino, o il mare era bianco al pari del latte, o crespo che sembrava che bollisse, e la pioggia si riversava sino a sera sulle loro spalle che non ci erano cappotti che bastassero, e il mare friggeva tutto intorno come il pesce nella padella, allora era un altro par di maniche, e ‘Ntoni non aveva voglia di cantare, col cappuccio sul naso, e gli toccava vuotare dall’acqua la Provvidenza che non si finiva più, e il nonno badava a ripetere: “Mare bianco, scirocco in campo” o “mare crespo, vento fresco” come se fossero là per imparare i proverbi; e con quei benedetti proverbi, mentre la sera stava a guardare il tempo dalla finestra col naso in aria, diceva pure: “Quando la luna è rossa fa vento, quando è chiara vuol dir sereno; quando è pallida pioverà”. 89

O mar Deus o faz ora verde, ora turquesa, ora branco, para que o marinheiro possa ler nele o tempo que fará. E, assim, acontece com a lua e com o vento. O provérbio se conclui com palavras imutáveis, reforçando a imutabilidade desses sinais e da vontade que os governa. O neto está ali, diante do avô, absorvendo atento estes cânones de uma vida que non l’abbiamo fatta noi così com’è, e que deve ser vivida assim como foi feita desde sempre, imutável, tal como podemos ver nos inúmeros provérbios presentes nas histórias verguianas.

Os personagens, na sua maioria analfabetos, conseguem, no entanto, decodificar os sinais da natureza, capacidade que eles não possuem na escrita. Mais uma vez nos remetemos a Benjamim, no que concerne à recuperação da oralidade no texto verguiano. Essa oralidade está diretamente ligada à memória, ou seja, às experiências que são adquiridas pelos mais velhos e repassadas aos mais jovens. O texto acima é um belo exemplo dessa ancestralidade.

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Naturalmente, cada provérbio é o resultado de um processo mental de observação, de experiência, de juízos, de conexões que não ocorreram por mítica revelação, mas que nasceram de uma história. Todavia, a história aconteceu inadvertidamente, não se há mais consciência de quando. Assim, cada provérbio, para quem o repete, existe desde sempre: é somente um dito antigo.

A história que deu origem ao provérbio acaba por se anular. Ela existe, mas é negada, porque o que mais conta é que il motto degli antichi mai menti90 (o mote dos antigos nunca mente), como disse padron ‘Ntoni.

Um outro elemento documentário a que Verga volta a sua atenção são os

nomignoli – epítetos - ou seja, apelidos que nos ajudam a colher o nascimento da

representação caricata em que se arremedam ou satirizam comicamente pessoas e fatos. Os apelidos, como elementos da tradição popular, têm em sua origem uma diferença dos provérbios, pois nascem de acontecimentos individuais mais próximos e facilmente identificáveis. Eles captam traços individuais que sobressaem, fixando-lhes a peculiaridade e uma imobilidade que parece perpétua.

Tridici-anni si chiamò per tutta la vita quel tale che da ragazzo diceva sempre d’avere tredici anni, e Affuma-petri quello cui capitò una volta d’affumicare la calce che stava fabbricando.91

Mas, na maior parte dos casos, a memória do fato ou da particularidade que deu origem ao nomignolo já foi cancelada da memória e ele toma a feição de neutralidade, como um sobrenome:

(...) I Malavoglia (...) tutti brava gente di mare, proprio all’opposto di quel che sembrava dal nomignolo, come dev’essere (...)92

90

Giovanni Verga. 1980, 1983. p.58

91

PITRE’, Giuseppe Usi e costumi ... del popolo siciliano, vol. II, pp. 388 e 383 della Ed. Naz.

92

A lembrança do fato que deu origem ao nome da família protagonista do romance foi cancelada, mas a escolha não foi feita por acaso. A família se chama Toscano, mas é conhecida pelo apelido de Malavoglia. O narrador tem consciência de que esse apelido não espelha o real comportamento dos membros da família - che erano

tutti buona e brava gente di mare. Mas mostra saber que este nomignolo pesa como um

destino sobre quem a carrega – é uma crença popular.

No capítulo XIV os acontecimentos acabam por confirmar a crença popular de que o nome que a família carrega é um peso, quando ‘Ntoni atira em don Michele e tenta fugir, mas é pego pelos guardas.

Va lá, va là, Malavoglia! gli rispodevano – i tuo conto è bello e agiustato!e lo spingevano a boccate di carabina.93

Neste momento o epíteto Malavoglia fica apropriado e é usado como um atributo a um membro da família, que realizou o que o nome lhe predestinava.

Em outros momentos há a possibilidade de percorrer a distância ideal e cronológica que divide o sobrenome atemporal, do temporal acontecimento do qual ele nasce:

(...) ché Zuppida la chiamavano perché il nonno di suo padre s’era rotta la gamba in uno scontro di carri alla festa di Trecastagni, ma Barbara le sue brave gambe ce le aveva tutte e due.94

No caso de Bárbara, cujo nomignolo era Zuppida, o apelido nascera quando seu avô havia sofrido um acidente de carroça, no qual machucara uma perna. Daí, o homem passou a zuppiare (em siciliano), que significa em italiano zoppicare (mancar). A neta, embora tivesse suas pernas perfeitas, herdou o apelido do avô. Assim, o acontecimento que gerou o apelido se encontra no universo exterior ao romance. Em

93

Giovanni Verga. 1980, 1983. p. 246

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outros casos o nomignolo se desencadeia no interior da narrativa e é possível assistir ao seu surgimento:

La Mangiacarrubbe, quando al lavatoio c’era anche Sara di comare Tudda, tornava a dire: - Sicuro! le donne vestite di seta aspettavano apposta ‘Ntoni di padron ‘Ntoni per rubarselo; che non ne avevano visti mai dei cetriuoli laggiù! – Le altre si tenevano i fianchi dal ridere, e d’allora in poi le ragazze inacidite lo chiamarono ‘cetriuolo’ 95

E não somente as moças ácidas, ou seja, maldosas – le ragazze inacidite – usam o apelido cetriuolo para provocar ‘Ntoni, já que o nomignolo retorna sete, ou oito vezes na boca dos personagens mais diversos. O seu significado adquire um duplo sentido: pessoa tola e, também, faz menção ao cetriuolo – pepino -, como símbolo fálico. Por isso o narrador diz que, daí por diante, as moças maldosas o repetirão.

Era como o caso de zio Crocifisso, cujo motivo do epíteto fazia parte da vida quotidiana do vilarejo: Campana di legno, ou seja, sino de madeira, que não soa. Zio Crocifisso, o usurário daquela comunidade, quando se tratava de receber de volta o dinheiro que havia emprestado a alguém, não dava ouvidos a desculpas:

(...) zio Crocifisso non si contentava di ‘buone parole e mele fradicie’, per questo lo chiamavano Campana di legno, perché non ci sentiva da quell’orecchio, quando lo volevano pagare con delle chiachiere (...)96

Os epítetos têm o poder de fazer com que toda uma comunidade decida como uma pessoa é, ou deixa de ser, baseada somente no apelido que lhe é dado. Em algumas vezes a comunidade forma um juízo sobre uma pessoa a partir de um epíteto dado aos pais, ou avós daquela pessoa. É o caso do personagem, filho da mulher conhecida por Locca. Esse nome significa pessoa tola e, por ser filho da Locca, o rapaz é considerado tolo: 95 Giovanni Verga. 1980, 1983 p. 14 96 Idem, p.49

Il ragazzaccio allora se ne andò strillando e dandosi dei pugni nella testa, che tutti lo pigliavano per minchione perché era figlio della Locca.97

Ou seja, o apelido de sua mãe estava inseparavelmente ligado ao rapaz, e essa condição continuaria indefinidamente, sem possibilidade de mudança. Ele seria sempre o minchione, o idiota, porque era filho daquela que tinha por apelido Locca.

No romance uma outra marca da oralidade siciliana nos é ofertada quanto às

inciurii, que são apelativos, em geral ligados a características individuais ou ambientais

e que substituem o verdadeiro nome e sobrenome de uma pessoa. À diferença dos

nomignoli, que são um único apelido, as inciurii são expressões e modos de dizer que,

como os nomignoli¸ também nascem de um acontecimento (dentro ou fora do espaço narrativo), se difundem e circulam pelo romance para caracterizar um mesmo personagem, em situações diversas. Vejamos o caso de don Michele il brigadiere:

(....) e incontrandosi naso a naso con don Michele, il brigadiere delle guardie doganali, il quale andava attorno colla pistola sullo stomaco e i calzoni dentro gli stivali, in cerca di contrabbandieri (....)98

Don Michele é apresentado pela primeira vez no romance através de um retrato objetivo, traçado com linhas bastante precisas, que o identificam diante do vilarejo. Tais traços realçam a sua função e a sua figura de militar, que serão deturpadas por uma ponta de sorriso pungente, sempre presente na origem de um apelido, transformando o personagem em uma caricatura de si mesmo: com as calças dentro das botas e a pistola sobre a barriga. No decorrer do romance essa descrição será feita por diversos personagens, em várias oportunidades:

(....) compare Tino Piedipapera, mastro Turi Zuppiddu, compare Mangiacarubbe, don Michele il

97

Giovanni Verga. 1980, 1983.p.36

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brigadiere delle guardie doganali, coi calzoni dentro gli stivali, e la pistola appesa al ventre, quasi dovesse andare a caccia di contrabbandieri con quel tempaccio (....)99

Trata-se de uma ironia, pois don Michele, embora estivesse uniformizado e armado, jamais sairia na perseguição de contrabandistas, muito menos se estivesse fazendo um tempo ruim. A frase dá relevo à situação de acomodamento em que vivia o militar, tornado-se uma verdadeira caricatura.

Procedimento idêntico é passível de ser observado no exemplo seguinte: Don Franco si fregava le mani, col cappellaccio in capo, e diceva che il popolo levava la testa; e come vedeva passare don Michele, colla pistola appesa sulla pancia, gli rideva sul naso.100

A inoperância de D. Michele é assinalada por D. Franco, diante do desinteresse do militar com a revolta do povo, que se lamentava pela criação de novas taxas. D. Franco vê as suas expectativas falharem quando o militar nem se apercebe da situação, donde se conclui que o hábito não faz o monge.

No próximo exemplo, don Michele, para espantar o tédio, passeia pelas ruas:

(....) e anche don Michele, il quale si annoiava a passeggiare colla pistola appesa alla pancia, senza far nulla.101

A pistola sobre a barriga, mostra a ineficácia do sistema, que mantém um funcionário do governo, que vagueia pelas ruas do vilarejo, sem nada fazer.

A qualificação retorna constantemente, como atributo inseparável do personagem. Na verdade, como uma espécie de mítica individualidade.

99 Giovanni Verga. 1980, 1983. p. 42 100 Idem, p.97 101 Ibidem, p. 114

Benzer Belgeler