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2. LİTERATÜR

2.1 ITIL Nedir?

Passei, na juventude e adultez, a criar com cenas, como atriz e a percorrer o espaço cênico das narrativas. De modo que o que antes construía com traços e palavras, no

141 teatro o fazia como atriz ou encenadora, compondo agora mediante gestos e luz, principalmente.

Assim foi com a criação como atriz nas peças Tempotemporão e 68.COM.BR, descritas e analisadas no segundo capítulo deste trabalho, a partir da leitura dialógica com Ricardo Guilherme, que me chama em seu texto.

A dramaturgia também se iniciou muito cedo em minha história de vida, talvez nas bocas dos personagens dos quadrinhos desde a infância. Era prazeroso para mim, descrever os lugares e também os personagens, tanto sua imagem exterior quanto suas formas de ser. Todavia, a palavra dramaturgia, eu só tive acesso à problematização do seu sentido quando, já adulta, ingressei no teatro e comecei a partilhar com o grupo de artistas com o qual até hoje convivo. Será, então, a partir do trabalho com Ricardo Guilherme que o sentido de dramaturgia para mim se configura como campo da arte em sua especificidade, com seus elementos linguajeiros e seus modos de expressão.

Em outro lugar – os lugares são múltiplos – vai ser a partir do diálogo travado com a Companhia Pã de Teatro, no processo de fragmentação do texto original Iracema Via Iracema, que a dramaturga toma corpo e implode, dizendo de mim de um lugar que eu não reconhecia ainda, conscientemente. Constituir-me como artista dramaturga, que propõe algo que se dá na ideia de representação estourada, que parte de uma experimentação com o que eu chamo de craklinguagem, é invenção que inaugura um lugar de ser artista inédito em minha história de vida e (auto) formação.

Pensando em criar o cracklinguagem e, mesmo, já criando textos com isso - eu dialogava, na minha prática, com Ricardo Guilherme, no que ele teorizaria, mais depois, sobre as oposições da dramaturgia poeta e da dramaturgia repórter:

Esse processo do qual eu falei, que junta pesquisa, imaginação e memória, ele perpassa qualquer tipo de criação, conto, crônica, até um artigo, uma poesia, toda escrita [...] Mas é na dramaturgia que minha fala traz para essa discussão a questão das personas, das personagens.

Porque na poesia eu posso ter apenas uma persona, eu posso ter o chamado “eu lírico”, o eu do poeta, ou no narrador; eu posso ter o narrador em terceira pessoa, embora também na dramaturgia possa ter tudo isso. Mas eu acho que na poesia o que me move é um pouco o que os médicos chamam, na ciência se chama de “afasia”, que é não ter palavras para. Não ter como exprimir ou não ter palavras, entende?

Procurar que a minha poesia seja a tentativa de procurar palavras para o inexprimível, como se faltassem palavras e eu ficasse procurando palavras para o dizer de um sentimento [...] isso é mesmo minha poesia. Mas como acho que, por outro lado, poesia está em tudo, em conto, poesia, crônica, em todo canto, ensaio, ciência também e está na dramaturgia, eu quis falar daqui. (RICARDO GUILHERME).

142 E avançando para focalizar de fato a dramaturgia no que ela traz de problemático para a contemporaneidade, diz:

Agora em relação aos personagens, eu não encaro os personagens como [...] nem quando eles são narradores num conto, num outro lugar, eu não encaro eles delimitados por um universo vocabular, nem por um universo psicológico – a isso eu chamo de “dramaturgia poeta”. Eu me coloquei ao longo do tempo ante isso; foi um processo que eu fui fazendo, mas fui refletindo depois de fazer, é claro. Primeiro a gente faz, depois a gente pensa sobre o que faz. Eu cheguei a denominar esse processo de “dramaturgia poeta”, para me contrapor a dramaturgia de repórter. A dramaturgia repórter é aquela que vai transcrever o que ouviu ou criar certa verossimilhança, e dotar os seus personagens dessa verossimilhança e de credibilidade vocabular. Então, eu acho que é preciso para mim certa liberdade, uma arbitrariedade para criar os personagens, que eu chamo de multidimensionais, ou omnidimensionais, e que podem tudo, porque eles são suspensão do real, eles não são necessariamente o real, eles são as condensações de todas as coisas. (RICARDO GUILHERME).

Dentro desse quadro, me inseria como dramaturga, nessa hora em que era chamada pela fala de Ricardo Guilherme:

Eu anotava: posso dizer que como dramaturgia, no ato de escrever peças teatrais eu me sinto inteira, construindo os personagens, as cenas, o enredo, me detendo na carpintaria do texto, observando sua evolução, construindo unidades, ou, por vezes rompendo com as próprias unidades criadas. Com a experiência dramatúrgica eu consegui criar pela primeira vez em minha história de vida, um espaço criativo que se confunde com um espaço de inteira liberdade. Pra mim, apesar de sofrido, no processo de construção dramatúrgica, eu me sinto livre. (DIÁRIO DE TRANSCORPO).

No diálogo com a criação de textos dramatúrgicos é que vivenciei meu processo de autonomização, me autorizando como artista. Primeiro com a peça Meire Love em 2004, depois Iracema Via Iracema em 2007, Nen e o Bando em 2008 e, por último Cheiro do Queijo, uma experiência iniciada em 2009 e concluída em 2012.

Apesar de cada experiência dramatúrgica fornecer ao seu modo elementos de análise para refletirmos sobre os processos dialógicos que a arte media em minha história de vida e (auto) formação, trato neste capítulo de descrever e analisar particularmente o texto Iracema Via Iracema, por ter se transformado num espaço dialógico significativo, onde trago Ednéia quinto (Tuti). Por fim, devo examinar como Meire Love me devolve aos meus pares e à processos criativos onde minha autoformação se potencializa. Nesse caminho, sempre trago os diálogos com Ricardo Guilherme e Yuri Yamamoto, também, em um sinuoso conjunto de trilhos.

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