O mapa afetivo original foi modificado para se adequar a pesquisa no ambiente esportivo. Logo no início o atleta se depara com uma folha inicial que explica o objetivo da pesquisa e a forma como deve responder ao instrumento. Em seguida a solicitação do desenho aparece antes de qualquer outra pergunta4.
No pré-teste percebemos que alguns atletas interrompiam a aplicação do instrumento por se preocuparem com a estética do seu desenho. Para evitar novas interrupções optamos por colocar a explicação logo na solicitação do desenho, da seguinte forma:
“No espaço abaixo você deverá fazer um desenho que represente a sua forma de ver, sua forma de representar ou sua forma de sentir o ambiente no qual você pratica esporte. Não se preocupe com a estética do desenho, você terá chance de explicá-lo mais a frente”.
Assim, como o instrumento original, várias partes se sintetizam para formar os mapas afetivos, além das três partes originais acrescentamos uma quarta parte relacionada a perguntas sobre desempenho e ambiente esportivo. A seguir apresentamos todas as partes do instrumento utilizado nessa pesquisa:
a) Apresentação da pesquisa
Na folha inicial foi feita uma apresentação da pesquisa e dada uma orientação sobre o preenchimento do instrumento, além de ratificar que toda informação ali contida é sigilosa e que os questionários não precisam ser identificados. Essa apresentação foi lida em cada momento de aplicação, para que assim os atletas pudessem responder o instrumento de forma espontânea e livre de preocupações.
b) O desenho
Essa é a primeira etapa do instrumento e vem antes de qualquer outra solicitação escrita. Tendo em vista a dificuldade de se investigar os sentimentos, Bomfim (2003) recorreu ao uso do desenho em primeiro lugar para facilitar a expressão dos sujeitos. Esse foi um passo primordial para o alcance dos objetivos de se investigar a afetividade, pois o desenhar reproduz uma intenção única de falar dos seus sentimentos e emoções, deixando para segundo plano a racionalização. Vindo então em primeiro lugar, o desenho possibilita ainda mais a
exacerbação das emoções. Além disso, ele é um suporte onde se misturam e se cruzam os valores do objeto e da pessoa (GRUBITS, 2003), portanto, reduz a distância entre o indivíduo e o ambiente, em uma tentativa de acabar com a dicotomia sujeito-meio, focando na inter- relação entre ambos.
c) Significado do desenho
Nesta etapa o próprio sujeito da pesquisa interpreta e dá o seu significado particular ao desenho realizado. Aqui asseguramos que a interpretação é feita pelo próprio respondente, sem qualquer interpretação do pesquisador. Relacionando o desenho e o significado dado pelo atleta, o pesquisador irá classificar o desenho como cognitivo ou metafórico. Quando o desenho tem uma semelhança visual com a estrutura física do ambiente representado caracterizamos o mapa como cognitivo. Quando o desenho expressa por analogia o sentimento ou estado de ânimo do sujeito (BOMFIM, 2003, p. 144) consideramos o mapa como metafórico.
d) Sentimentos
Nesse momento o sujeito da pesquisa fala sobre os sentimentos que o desenho lhe despertou, fala da sua própria criação e da representação do ambiente esportivo para ele.
e) Palavras-síntese
Agora o sujeito vai relacionar seis palavras que resumam os seus sentimentos em relação ao desenho. Essas palavras podem variar em qualidades, sentimentos, substantivos, etc.
f) Comparação do ambiente esportivo (metáfora)
Nessa etapa o atleta é solicitado a fazer uma comparação do ambiente no qual ele pratica seu esporte com algo, criando assim uma metáfora que represente o seu ambiente esportivo. “Caracteriza-se por ser uma nova síntese de compreensão do sentido da comunicação complexa do afeto. Nessa etapa o sujeito é convidado a elaborar imagens da cidade através de sua capacidade de fazer analogia e figurar o sentimento pela escrita” (Bomfim, 2003, p. 139).
g) Categorias da escala Likert
São afirmações para as quais os respondentes deverão fazer uma avaliação de 0 a 5 que foram formuladas baseadas nas dimensões levantadas no pré-teste com os atletas das modalidades de atletismo e futsal. Nessa escala o valor 0 corresponde à “discordo completamente” e 5 à “concordo plenamente”.
No estudo de Bomfim (2003) as frases da escala Likert estavam relacionadas com a cidade. Já nessa pesquisa, para a construção das frases da nossa escala Likert, fizemos o pré-
teste com os primeiros vinte e cinco atletas e modificamos as frases do instrumento original a partir dos sentimentos e qualidades apontadas por eles.
A seguir apresentamos as categorias com suas respectivas frases relacionadas, vale ressaltar que os respondentes não sabiam a que categorias pertenciam tais afirmações. Essa escala nos deu uma análise estatística complementar que permitiu uma discussão mais detalhada dos resultados da pesquisa.
• Agradabilidade – aqui encontramos palavras que mostram sentimentos de vinculação ao ambiente esportivo e suas qualidades positivas, as frases que designavam essa imagem foram:
Sinto-me confortável no ambiente onde treino É um ambiente tranqüilo
É um ambiente agradável É um ambiente surpreendente
• Pertencimento – nesta categoria encontramos sentimentos e emoções de identificação do atleta com seu ambiente esportivo, incluindo as pessoas que o compõem como outros atletas e técnicos representados pelas seguintes frases:
Sinto-me muito apegado(a) ao clube onde pratico meu esporte Tenho bons resultados nesse ambiente esportivo
É um ambiente em que me sinto confiante
Sinto-me familiarizado no meu ambiente esportivo
• Contrastes – temos aqui sentimentos, emoções e palavras contraditórias em que há uma polarização positiva e negativa apontados nas frases:
No meu ambiente esportivo há ordem e desordem No meu ambiente esportivo há união e intriga No meu ambiente esportivo há alegria e tristeza No meu ambiente esportivo há saúde e dor
• Insegurança – nessa imagem percebemos sentimentos e palavras que envolvem algo inesperado, instável e, às vezes, negativo, como:
É um ambiente tenso É um ambiente sufocante
É um ambiente cheio de incertezas Sinto-me só nesse ambiente
Sinto vontade de abandonar esse ambiente
Além dessas categorias representadas na escala Likert, na análise final dos mapas surgiram espontaneamente mais duas categorias (atração e destruição). Para essas categorias não há frases relacionadas, pois elas não haviam aparecido no pré-teste, são elas:
• Atração: a imagem de atração vincula-se aos sentimentos e qualidades tendencialmente potencializadoras dos indivíduos no seu ambiente esportivo; e
• Destruição: é aquela que articula qualidades e sentimentos considerados despontencializadores da ação dos indivíduos no ambiente esportivo.
h) Perguntas adicionais em relação ao contexto esportivo
No instrumento dessa pesquisa acrescentamos três perguntas ao final.
Na primeira delas fizemos relação à idéia de sucesso e fracasso dos atletas ao pedirmos para que eles lembrassem um momento típico do seu esporte, dos detalhes que chamavam sua atenção e os sentimentos em relação a esses momentos. A hipótese era que, as imagens potencializadoras do ambiente gerariam lembranças de momentos de sucesso, enquanto que as imagens mais despotencializadoras trariam à tona momentos relacionados ao fracasso.
Vale ressaltar que nessa pesquisa consideramos as imagens de agradabilidade, atração, pertencimento e contrastes como sendo potencializadora. Apesar da imagem de contraste ter aspectos despotencializadores, na análise dos mapas percebemos que ela está ligada a estima positiva e negativa, mas que nesse ambiente favorece a potencialização dos sujeitos. Já as imagens despotencializadoras são as de insegurança e destruição.
As segunda e terceira perguntas nos auxiliavam a compreender o que seria um bom desempenho esportivo na concepção dos próprios atletas e o que poderia interferir positiva e negativamente nesse desempenho.
O objetivo dessas perguntas foi relacionar as imagens dos ambientes esportivos, encontradas por meio dos mapas afetivos, ao significado de desempenho cunhado pelos atletas.