Existem três posições sobre a possibilidade do surgimento da globalização. A primeira aceita que a globalização surgiu, com a própria civilização humana e particularmente, com o surgimento das religiões universalistas. A segunda posição situa a globalização, com o surgimento do capitalismo no século XVI, denominada teoria dos sistemas mundiais. E a terceira localiza o processo de globalização como um fenômeno recente, iniciada na metade do século XX, mais precisamente nas
últimas décadas (MORROW e TORRES, 2004). Ainda que as posições divirjam sobre o início desse processo, parece ser concordante que o atual movimento de globalização é um fenômeno qualitativamente novo (SANTOS, 2005).
Não é nosso objetivo, aqui, aprofundar-se na origem histórica do surgimento do processo de globalização, pois muito já foi escrito sobre esse tema (GIDDENS,1991; SANTOS,2005) - ainda que ele seja importante - mas é compreendê-lo, em sua dinâmica, no atual momento histórico.
Giddens (1991, p. 69) define globalização como um processo de
[...] intensificação das relações sociais mundiais que ligam comunidades distantes de modo que os acontecimentos locais são moldados por eventos que ocorrem muitas milhas de distância e vice-versa.
Segundo o autor esse processo é sim dialético, pois os acontecimentos podem se mover em uma direção inversa às relações distanciadas que os modelam. Ao fazer essa afirmação, o autor indica que os processos sociais não são sistemas fechados. Isso é importante, pois aponta que o processo é permeado por contradições, ou seja, a globalização, ainda que tenha uma arquitetura para um determinado fim, revela também expressões que se opõem a sua finalidade original. Por isso, segundo Santos (2005, p. 27)
A globalização, longe de ser consensual, é, [...] um vasto e intenso campo de conflitos entre grupos sociais, Estados e interesses hegemônicos, por um lado, e grupos sociais, Estados e interesses subalternos, por outro; e mesmo no interior do campo hegemônico há divisões mais ou menos significativas.
Segundo o mesmo autor, o processo de globalização não pode ser visto de forma linear, pelo contrário ele é multifacetado e por isso extremamente, complexo. As dimensões econômicas, políticas, culturais estão intimamente entrelaçadas. A dimensão econômica tem grande força, nesse processo, mas as demais dimensões não podem ser desprezadas.
Sob o aspecto econômico, há um consenso que norteia o processo – denominado de consenso neoliberal, ou consenso de Washington. Há pelo menos três inovações institucionais (SANTOS, 2005) que vão dar sustentação à implantação das mudanças. A primeira delas é uma drástica restrição ao controle do Estado sobre a economia, ou seja, há um cerceamento do Estado como um condutor da economia nacional. O Estado assume uma função coadjuvante, no desenvolvimento econômico. Mudam-se as terminologias, assim como os conceitos: já se fala em governança ao invés de governo. Esse conceito específico muda o modelo de regulação social e econômica, deslocando o papel central do Estado para parcerias e outras formas de associação das organizações governamentais e não governamentais e paragovernamentais. Nesse modelo, o Estado assume apenas o papel de coordenação. A segunda mudança é a das legislações nacionais acerca do direito de propriedade internacional, para que os investidores estrangeiros sejam favorecidos e desse modo incentivam a captação de recursos internacionais. Isso refere-se desde a isenção de impostos, na circulação de capitais, no mercado financeiro, à autorização do capital internacional a atuar em áreas, outrora consideradas estratégicas para o Estado. E a terceira inovação ocorre na subordinação dos Estados nacionais às agências multilaterais (BM, FMI e OMC), que tornam os Estados nacionais laboratórios de experiências econômicas, vindas de outras realidades e defendendo interesses outros (SANTOS, 2005).
As mudanças mais significativas vêm ocorrendo no âmbito da produção, ou seja, a organização produtiva passou a ser orientada pelo conhecimento e informação. Desse modo, a produção fragmentou-se ao redor do planeta, pois a economia, agora global, tornou-se mais fluída e flexível, horizontalizando as tomadas de decisões. Por outro lado, vem tornando as relações de trabalho cada vez mais precárias, pela busca frenética de espaços geográficos produtivos, em que a força de trabalho seja qualificada, pouco organizada e desprovida de legislação de proteção e por isso de baixo custo. E por outro lado, nos espaços geográficos, em que a classe trabalhadora é organizada,ocorre contínua perda de capacidade de negociação, em função dos altos índices de desemprego pela substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto.
Sob o ponto de vista da questão social, o processo que se instalou revela dados alarmantes. A lógica estabelecida transformou o conceito de cidadão em consumidor e o critério da “[...] inclusão deixa de ser o direito para passar a ser a
solvência” (SANTOS, 2005, p. 35). Ou seja, os desvalidos e incapazes de consumirem são os que margeiam o campo da solvência. A estes se devem tomar medidas que minimizem seu estado, mas não eliminem completamente a pobreza, pois a exclusão é um efeito inevitável do processo de crescimento global. Tudo isso, iniciou-se nos países de capitalismos centrais e que se impõem às demais economias do mundo, por meio dos agentes econômicos multilaterais. Os dados revelam um processo de empobrecimento global estarrecedor e ao mesmo tempo grande concentração de renda, no controle de poucos.
Nos EUA, como nas demais regiões do mundo esse processo vem se intensificando a cada dia (SANTOS, 2005, p.35),
A diferença de renda entre o quinto mais rico e o quinto mais pobre era, em 1960, de 30 para 1, em 1990, de 60 para 1 e, em 1997, de 74 para 1. As 200 pessoas mais ricas do mundo aumentaram para mais do dobro de sua riqueza entre 1994 e 1998. [...] os três mais ricos bilionários do mundo excedem a soma do produto interno bruto de todos os países menos desenvolvidos do mundo onde vivem 600 milhões de pessoas.
Segundo Santos (2005, p.34) os dados do Banco Mundial de 1995 constataram que o
[...] conjunto dos países pobres, onde vivem 85,2% da população mundial, detém apenas 21,5% do rendimento mundial, enquanto o conjunto dos países ricos, com 14,8% da população mundial, detém 78,5% do rendimento mundial.
Esses dados apresentados revelam que o processo de empobrecimento global, em curso, atinge tanto países ricos como aqueles que já são considerados pobres.