4. DENEY TESİSATININ TANIMI
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Consideramos três vias de acesso do município de Ceará-Mirim ao polo da RMNatal, compostas pela ferrovia, BR 101 e BR 406 como mostra o mapa a seguir.
Figura 26 – Eixos de Integração Metropolitana
Fonte: Produzido por ALMAPAS, 2015
O mapa acima delimita a área de estudo dos três eixos metropolitanos. Nota- se que apenas a BR 406 e a ferrovia cruzam em áreas urbanas no município, mais precisamente na sede do mesmo, enquanto que a BR 101 margeia o litoral possibilitando o acesso para os distritos litorâneos. A atual fase de expansão urbana da cidade de Ceará-Mirim (visualizada no primeiro capítulo) margeia um desses eixos, a BR 406 que será abordada no último subcapítulo.
A priori, é necessária a compreensão da inserção desses eixos em uma rede de interações e movimentos que ultrapassam os limites administrativos municipais. A noção de rede passa pelo entendimento abstrato de que existe um conjunto estruturado de ligações (fluxos) interligado a nós (fixos) que compõe uma trama integrada (SOUZA, 2013). Ou seja, as redes são a materialização de um tecido de articulações com ligações que podem se referir a fluxos de vários tipos, seja de pessoas, informação, bens materiais, entre outros.
As rodovias e ferrovias são componentes de uma rede por fazerem parte de uma infraestrutura que permite o transporte de matéria, pessoas e informação, servindo como arcos de transmissão entre as cidades. Santos, 2012 p. 270 afirma que “a existência das redes é inseparável a questão do poder”, o que associa essa infraestrutura a agentes de comando político e econômico que controlam, regulam e distribuem a parcela técnica da produção sobre o território. O autor ainda acrescenta que
A parcela técnica da produção permite que as cidades locais ou regionais tenham certo comando sobre a porção do território que as rodeia, onde se realiza o trabalho a que presidem. [...] Já o controle distante, localmente realizado sobre a parcela política da produção, é feito por cidades mundiais e os seus relés nos territórios diversos. (SANTOS, 2012, p. 273)
Procurou-se a partir de então, compreender a importância dos eixos viários metropolitanos na rede urbana que insere Ceará-Mirim à RMNatal. A pesquisa de campo estruturada nos conceitos de objetos naturais e objetos artificiais, elucidados nos capítulos anteriores, compondo e conferindo significado e dinamicidade ao espaço local e metropolitano.
Partindo de Natal, a ferrovia - Natal/Extremoz/Ceará-Mirim é composta pela linha Norte do sistema de Trens Urbanos da RMNatal, e a linha Sul que atende o município de Parnamirim. A linha férrea Norte foi inaugurada no município de Ceará- Mirim no início do século XX, mais precisamente em 1906. Essa obra teve como objetivo principal escoar a produção de cana-de-açúcar e viabilizar a ligação da cidade com a capital do estado, Natal, uma vez que Ceará-Mirim detinha 60% da produção de cana-de-açúcar do estado.
A partir da reestruturação econômica em meados do século XX e das sucessivas crises do setor sucroalcooleiro (discutidas em capítulos anteriores) a linha férrea deixou de ser priorizada em investimentos públicos num movimento de valorização das rodovias sobre o meio de transporte ferroviário. É nesse movimento que se torna perceptível a mudança de funcionalidade da ferrovia para a região. No contexto da RMNatal, a macrocefalia do polo Natal provocada pelos processos de metropolização ocasionou uma difusão de atividades entre os municípios vizinhos compreendida em distritos industriais, como é o caso de Extremoz.
A ferrovia norte, com ponto de partida em Natal, passa pela sede da cidade de Extremoz (Figura 27) e opera entre a área da lagoa e as áreas rurais do
município. No entanto, é o seu distrito industrial interligado a rede ferroviária que justifica o grau de movimentos pendulares elevado do município.
Figura 27 – Vista do embarque/desembarque de passageiros.
Fonte: Foto de autoria própria, 2014.
O transporte ferroviário também é a alternativa de locomoção de boa parte da mão de obra residente na Zona Norte de Natal e em Ceará-Mirim, atraída pelo baixo custo da passagem e a eficiência quanto aos horários de embarque e desembarque.
O uso e ocupação do solo às margens da ferrovia, entre os municípios de Natal, Extremoz e Ceará- Mirim, é percebido pela descontinuidade das construções. O distrito industrial juntamente com a lagoa de Extremoz são pontos em destaque pela dinâmica peculiar que os dois trechos proporcionam, destacando o primeiro como objeto artificial e o segundo como objeto natural frente às ações que constroem e reproduzem o ambiente propicio para investimentos. No entorno do distrito industrial há poucas moradias e as que ainda são encontradas possuem construção precária. Já no entorno da lagoa, casas, comércio e clubes de lazer interagem provocando uma mudança na paisagem. Esse cenário é composto de pequenas áreas de plantio familiar no entorno do reservatório natural.
Figura 28 – Lagoa de Extremoz.
Fonte: Foto de autoria própria, 2014.
Figura 29 – Hotel às margens da lagoa de Extremoz.
Fonte: Foto de autoria própria, 2014.
O setor turístico e imobiliário são exemplos de investimentos relacionados à instalação de objetos artificiais sobre os objetos naturais. A ferrovia, no entanto, ainda não aparece como catalizador dos processos que a caracterize como potencializadora de investimentos na região. Sua localização periférica ao polo metropolitano, herdada de uma estrutura econômica pautada no setor agrícola, fez com que ao longo do tempo o seu papel frente aos serviços urbanos fosse definido como principal meio de ligação entre os distritos rurais com a sede e a cidade.
Um exemplo disso é o distrito rural de Massangana/Ceará-Mirim, localizado após o município de Extremoz na penúltima estação da rota norte. O pequeno núcleo urbano do distrito apresenta bem definido e delimitado por meio de serviços de comércio local, moradias e reminiscências das usinas de cana de açúcar que dominam a paisagem da região.
Figura 30 – Estação em construção entre Extremoz e o distrito de Massangana (Ceará- Mirim).
Fonte: Foto de autoria própria, 2014.
A linha férrea é o eixo de integração advindo da economia açucareira que ao passar das décadas modificou a sua função de transporte de mercadorias para o transporte exclusivo de passageiros. É importante ressaltar que as comunidades e distritos ao longo da ferrovia, principalmente aquelas localizadas dentro do município de Ceará-Mirim, surgiram dos antigos engenhos que se localizavam na região. Percebe-se nesses distritos que o deslocamento de sua população é possibilitado principalmente pela linha férrea que são interligadas ao polo Natal e a sede do município.
Uma nova perspectiva de mudança de funcionalidade da ferrovia está prestes a acontecer com os novos projetos pautados pela CBTU (Companhia Brasileira de Transportes Urbanos). A partir do segundo semestre de 2014 a companhia recebeu as primeiras composições de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) que já estão em operação nas linhas regulares. De acordo com a CBTU a próxima fase do projeto de
reestruturação da malha ferroviária na RMNatal, será a construção de 30 novas estações modais (com integração com a malha rodoviária) ao longo da região metropolitana de Natal. O órgão demonstra por meio da figura abaixo as vantagens do novo tipo de transporte.
Figura 31 – Diferenças entre a locomotiva e o VLT.
Fonte: CBTU, 2014.
O projeto de reestruturação está em andamento e atualmente metade das viagens diárias entre Ceará-Mirim e Natal são realizadas pelo VLT, as demais viagens continuam a serem realizadas pelas locomotivas tradicionais como ilustra as figuras a seguir.
Figura 32 – Estação Ferroviária de Ceará-Mirim.
Fonte: Foto de autoria própria, 2014.
Figura 33 – Saída do VLT Na plataforma Ribeira (Natal/RN) em direção à Ceará-Mirim.
Fonte: Jornal de Hoje, 2014.
Seguindo o percurso de caracterização dos eixos viários metropolitanos e sua integração ao município de Ceará-Mirim, a rodovia BR101- Natal/Distritos litorâneos aparece como ponto chave na discussão sobre o turismo metropolitano.
A BR 101 tem seu ponto inicial na cidade de Touros/RN e percorre os municípios potiguares de Rio do Fogo, Maxaranguape, Ceará Mirim, Extremoz, Natal, Parnamirim, Monte Alegre, Brejinho, Goianinha, Nísia Floresta, Montanhas e Baía Formosa.
Essa rodovia é a porta de entrada das praias do litoral leste do estado, apontada como uma das principais rotas turísticas da região. A área de estudo se delimita a partir do entroncamento com os distritos litorâneos de Ceará-Mirim até o entroncamento com a BR 406. Abaixo, toda extensão da BR 101 em solo potiguar é destacada na Figura 34.
Figura 34 – Localização da BR 101 no RN.
Fonte: (DER - Departamento de Estradas de Rodagem) editada pelo autor.
No percurso norte da BR 101 em direção aos distritos litorâneos é perceptível o distrito industrial de Extremoz no entroncamento com a BR 406 como mostra a figura a seguir.
Figura 35 – Distrito Industrial de Extremoz às margens da BR 101.
Fonte: Foto de autoria própria, 2015.
Essa rodovia está associada à configuração espacial dos distritos litorâneos de Ceará-Mirim, no caso, Muriú e Jacumã. Segundo Clementino; Almeida, 2015 o turismo aparece como fator de expansão da mancha urbana metropolitana margeando a costa, articulando zonas de predominância e reforçando a centralidade da capital reforçando uma “descontinuidade ocupação entre os municípios que integram a RMNatal” (CLEMENTINO; SOUZA, 2015, p.27).
A indução dessa expansão acontece pelos investimentos do PRODETUR (Programa de Desenvolvimento Turístico) por eixos lineares que margeiam a costa litorânea tanto ao norte, quanto ao sul. Quanto ao PRODETUR,
se constitui em um programa de crédito para o setor público, financiado a maior parte com recursos do BID, possuindo o Banco do Nordeste, como órgão executor. O programa atua em duas frentes: 1) criar condições favoráveis à expansão e melhoria da qualidade da atividade turística, e 2) melhorar a qualidade de vida das populações residentes nas áreas em que o programa atua. (LIMA, 2013, p. 102)
No plano Diretor de Ceará Mirim, a área que compreende a BR101 é classificada como Zona de Interesse Turística e de Lazer onde,
[...] é possível o desenvolvimento de planos e programas de interesse turístico, bem como a uso econômico da área para dar suporte ao desenvolvimento da atividade turística e de lazer da população e dos turistas visitantes. (CEARÁ-MIRIM, 2006, p.28)
Além disso, os distritos litorâneos também são considerados no plano diretor da cidade como zonas urbanas, como observado no primeiro capítulo. O histórico de ocupação dessa faixa está relacionado à dinâmica veranista de parcela da população ceará-mirinense, representada principalmente pela elite oriunda da economia canavieira. No entanto, essa modalidade de ocupação não é privilégio apenas de camadas de alta renda, sendo comum no período anterior aos investimentos turísticos, transações imobiliárias de baixo capital e posses de loteamentos por diversos estratos da camada social como descreve Silva (2010, p. 293)
O processo de urbanização litorânea, comum na zona de praia nordestina entre 1970 e 1990, não está atrelado exclusivo a uma elitização excludente, embora a elite urbana do núcleo principal tenha a capacidade de conceder
status a determinado vilarejo ou distrito atraindo outras camadas populares.
Com a decadência da economia canavieira e a ascensão dos projetos de incentivo ao turismo a partir da década de 1980, novos usos foram possibilitados a esses espaços promovidos pela construção da BR 101 Relaciona-se esses novos usos a dinâmica imobiliária turística espraiada do polo Natal como aspecto relevante na expansão urbana desses distritos.
Esse aspecto evidencia a BR 101 Norte como principal eixo de infraestrutura na qual os fluxos criadores de objetos artificiais de interesse turístico se consolidam nos objetos naturais (que são as próprias praias e o complexo de dunas e lagoas) na lógica metropolitana. Santos (2012) corrobora dizendo que esses objetos são destinados a favorecer a fluidez e o valor das atividades que deles se utilizam, sendo a BR 101 Norte ao mesmo tempo “causa, condição e resultado” (SANTOS, 2012, p.274) da atividade turística no estado.
Desse modo, a própria rodovia serviu como vetor de interligação entre o polo Natal e as regiões litorâneas além do seu limite municipal, possibilitando a instalação de empreendimentos de interesse turístico e consolidando uma atividade econômica voltada a centralidade da capital do estado. Portanto, a BR 101 consolida-se em Ceará-Mirim como divisor de duas dinâmicas espaciais, sendo a sua margem leste compreendida pela predominância dos processos relacionados ao turismo, e a sua margem oeste compreendendo a macro zona da agricultura como mostra a figura a seguir.
Figura 36 – Macrozoneamento Ceará-Mirim-RN
Fonte: Ceará-Mirim, 2006, editada pelo autor.
Como observado na figura anterior, a BR 101 limita duas macrozonas do município de Ceará-Mirim, a porção Leste é aquela que se insere na faixa de Urbanização Litorânea da RMNatal e a porção Oeste representada pelas áreas destinadas à Agricultura Familiar. Na macrozona de Agricultura Familiar os conflitos de terra são frequentes, o histórico latifundiário e a disponibilidade de terras férteis próximas ao vale são condicionantes na busca pela realização da reforma agrária, sendo presente em boa parte desse espaço assentamentos e ocupações do Movimento dos sem Terras (MST).
O próximo subcapítulo o eixo da BR 406 será analisado. Esse eixo representa o principal vetor de crescimento urbano da sede municipal de Ceará-Mirim e aquele
que nas últimas décadas apresenta maior dinamicidade. Observaremos os principais equipamentos instalados no território municipal de Ceará-mirim e seus respectivos usos, além de compreender quais fatores o evidenciam como vetor de crescimento.