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3. MALZEME VE YÖNTEM

3.2. Isıtma Yöntemi

3.2.2. Isıtma parametreleri

A partir de 1960, os efeitos corrosivos do capitalismo brasileiro determinavam ao Estado o cumprimento de uma série de reformas econômicas, institucionais e sociais. A euforia dos anos 1950, quando havia grandes esperanças do Brasil tornar-se uma nação moderna, cedia lugar ao conflito e à perplexidade da década subseqüente. Esse período foi o tempo de expressivas manifestações da sociedade civil; “[...] às novas experiências culturais [...] mesclavam-se propostas econômicas e sociais de caráter reformista. Era o tempo da cultura engajada, sobretudo nacionalista [...]”.1 Nessa etapa, o populismo, que em outros tempos restringia os movimentos sociais por meio da cooptação e da repressão, já não apresentava o mesmo resultado. As reivindicações de caráter nacionalista e reformista, de importantes campos da sociedade, ultrapassavam o limite imposto pelos setores das Forças Armadas, pelos integrantes dos partidos PR (Partido Republicano), pela UDN (União Democrática Nacional), pelos investidores de capital internacional e pelos departamentos do capital nacional – os últimos ocupantes da fração

dominante da classe dominante.

Segundo considerações de Argelina C. Figueiredo, a partir da década de 1960, em função das grandes mudanças que se processavam no país – nas esferas industrial, urbana e nos setores trabalhistas, principalmente a classe operária – tornava-se urgente fixar reformas institucionais profundas que abrangessem os diversos campos sociais.2 Foi em meio a essas transformações, exigidas pelo contexto sócio-político, somadas às contradições da fase de presidência de João Goulart – permeada pela disputa de grupos de interesses antagônicos e por uma política de conciliação entre ambos –, que se deu o Golpe de 1964, com a participação dos militares. A mesma autora argumenta também que no início dos anos 1960 – “[...] tornou-se impossível a construção de um compromisso que combinasse reformas e democracia em um projeto político consistente, porque democracia e reformas eram percebidas como objetivos políticos conflitantes [...]”.3 Portanto, a experiência frustrada do parlamentarismo e da fase posterior ao plebiscito – ocasião em que foi tentado um plano de consolidação econômica e uma reforma agrária – cerceou

1NEVES, Lucília de Almeida. Trabalhadores na crise do populismo: utopia e reformismo. In: TOLEDO, Caio

Navarro de. 1964: Visões críticas do golpe: democracia e reformas no populismo. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997, p. 56.

2 FIGUEIREDO, Argelina Cheibub. Democracia ou reformas? Alternativas à crise política: 1961-1964. Trad.

Carlos Roberto Aguiar. São Paulo: Paz e Terra, 1993, p. 22.

a possibilidade de atuação das forças partidárias às mudanças sociais “[...] condenando ao fracasso uma última tentativa de formar uma frente de centro-esquerda, visando obter acordo a respeito de um programa mínimo de reformas e deter o crescente movimento direitista contra o governo [...]”.4

Nessa conjuntura, a supremacia burguesa, de caráter populista, estabelecida desde a época de Getúlio Vargas, entrou em colapso. Assim, a burguesia nacional já não se apresentava mais como a única possuidora de um poder de fração dominante, passando a disputar o comando da economia brasileira com a burguesia internacional. Jacob Gorender ressaltou – sendo sua observação de extrema validade para se entender a dinâmica maior da qual o movimento Brasil,

Urgente fez parte – que:

Naquela época, somente alguns setores da esquerda, que não dispunham de influência de massas, falavam em implantação do socialismo. O PCB e outras forças da esquerda não tinham essa idéia. Falava-se de um governo que aplicasse medidas de reforma agrária, de distribuição de renda, de construção de casa populares para os trabalhadores, enfim medidas que também hoje estamos pleiteando, nas novas condições, dentro da legalidade.5

Reformar dentro da legalidade foi, portanto, um ideal partilhado pela grande maioria da população, não sendo – contra um tipo de interpretação substancialista – uma idéia restrita aos indivíduos ligados à Igreja. Nessas circunstâncias o movimento Brasil, Urgente se situou entre as duas possibilidades de transformações apontadas por Gorender, no fragmento supracitado. Padres e leigos que escreviam para o hebdomadário, Brasil, Urgente, em muitas ocasiões, aderiram ao socialismo em sua vertente marxista, visto que nessa época, a Doutrina Social da Igreja já fazia distinção entre os objetivos práticos de um determinado sistema doutrinário e a filosofia que o inspirava; deve ser ressaltado, outrossim, que a adesão ao sistema de pensamento marxista foi tributária do esforço iniciado por muitos cristãos sociais, visando dialogar a viabilidade de uma ação social comum. Não se pretendia substituir a mensagem cristã – expressamente nos referimos às pessoas que continuaram seu engajamento social motivado pelos princípios evangélicos – pelo socialismo de vertente marxista, ou vice-versa, mas, sim, instaurar uma justiça cujo principal referencial de inspiração fosse a doutrina cristã reorientada pela práxis social, com a finalidade de resgatar a espécie humana.

4 Ibid., p. 48. Caio Navarro de Toledo observa que a implantação do parlamentarismo foi “[...] uma ‘solução de

compromisso’ diante do ensaio golpista dos ministros militares, com o pleno respaldo dos setores civis conservadores [...]”. Sobre esse fragmento confira: TOLEDO, op. cit., p. 31.

Tendo em conta a participação dos universitários cristãos na luta – com Frei Carlos Josaphat – pela criação do semanário Brasil, Urgente, é interessante notar a avaliação feita por João Roberto Martins Filho acerca do movimento estudantil na conjuntura do golpe de 1964, principalmente dos quadros da JUC. Segundo o autor, a partir de 1955, quando o bloco nacionalista tomou a União Metropolitana dos Estudantes (UME) e, logo em seguida, a UNE, iniciou-se uma etapa de nítida ascensão esquerdizante. Este fato apontado por Martins Filho tem sua origem na década de 1950, momento em que se fez notável uma maior abertura da universidade aos setores médios da população, integrantes da fração dominada da classe

dominante. Para atender a situação da “[...] demanda por crescimento da universidade, num

contexto de deslocamento dos canais de ascensão da classe média brasileira [...]”,6 a política do Estado aumentava as formas de ingresso no ensino superior, aos jovens dos setores médios, por meio da criação de várias universidades, faculdades e institutos isolados gratuitos.

Observando o cenário de intensa politização dos estudantes universitários, Martins Filho aponta que esse processo não teria vindo dos socialistas ou comunistas, mas sim de uma disposição extremamente moderada – para os padrões de radicalização de outros movimentos do pós-1964 –, da JUC e da JEC, “[...] duas organizações vinculadas à Igreja, como o próprio nome diz, e que tinham uma grande penetração no mundo estudantil [...]”.7 Nessa ocasião, assumiu importância capital a JUC, que passou “[...] a ter peso nesta politização do movimento estudantil e, juntando existencialismo cristão com nacional-desenvolvimentismo [...]”, 8 tendo exercido, nos primeiros anos da década de 1960, a categoria de porta-voz dos estratos médios da população nas universidades. Um dos marcos importantes dessa caminhada pôde ser visto em 1961, no histórico

“Manifesto do Diretório Central dos Estudantes da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro”. No documento referido, defendia-se uma mudança radical das estruturas econômicas –

revelando, ainda que à revelia dos propósitos iniciais, uma preleção disfarçadamente marxista –, em cujo processo o cristianismo, por não ser uma ideologia, superava qualquer sistema de pensamento.9

6MARTINS FILHO, João Roberto. O movimento estudantil na conjuntura do golpe. In: TOLEDO, op. cit., p. 78. Na

mesma página, o autor nos informa que a taxa de crescimento do número de universitários no Brasil, foi muito superior ao aumento da população brasileira. Os números indicados pelo autor revelam esse amplo desenvolvimento: em 1945, eram 27.000 estudantes; 72 mil, em 1950; 93 mil, em 1960, atingindo 142 mil, em 1964.

7 Ibid., p. 79. 8 Ibid., p. 79.

9 Manifesto do Diretório Central dos Estudantes da Pontifícia Universidade Católica. In: GÓMEZ DE SOUZA, Luiz

Entre os anos de 1961 e 1964, desencadeou-se, igualmente, uma ampla mobilização em todos os setores sociais; os trabalhadores da indústria passaram a contestar o tipo de sindicalismo até então praticado pelos seus líderes; concomitantemente, ocorreu a atuação das Ligas Camponesas, empenhadas na conscientização do homem do campo, contribuindo para um aumento expressivo do número de sindicatos rurais;10 devem ser lembrados, também, os movimentos de cultura popular e de educação de base, cujo expoente principal foi o MEB (Movimento de Educação de Base) resultado de um acordo firmado, em 21 de março de 1961, entre a Presidência da República e a CNBB. Centrado em um método pedagógico que procurava alfabetizar e conscientizar a população rural a partir dos seus problemas concretos, o MEB (assim como Paulo Freire) defendia a idéia de troca de saberes entre professor e aluno e atribuía às massas um papel de responsabilidade no processo de libertação social. Questionava-se, assim, a visão tradicionalista que julgava o povo incapaz – e mesmo desinteressado – de transformar a sua própria situação. Para Luiz Eduardo W. Wanderley, o Governo via nesse movimento uma forma de responder à situação crítica da educação, além de ampliar o número de eleitores, conservar uma influência ideológica sobre os camponeses e limitar o poder das oligarquias rurais.11

No que se refere ao contexto mais imediato, o movimento social Brasil, Urgente teve como marco primeiro o trabalho realizado por Frei Carlos Josaphat a respeito dos principais assuntos versados na encíclica Mater et Magistra (1961), do Papa João XXIII (1958-1963). José Oscar Beozzo ponderou que a intensa receptividade da Mater et Magistra no Brasil “[...] só é compreensível à luz de três considerações, relativas à Encíclica, ao país e à Igreja [...]”.12 Quanto à Encíclica, há uma abordagem contundente da questão social no campo; no que se refere à situação do país, há de se observar o destaque dado à Reforma Agrária na década de 1960; e a respeito da Igreja, esta não se manteve insensível aos acontecimentos do campo.

10BANDEIRA, Moniz. O governo de João Goulart. Rio de Janeiro: Vozes, 1977, p. 116. Segundo Bandeira, em

julho de 1963, o setor rural contava com 300 sindicatos. Este número se elevou para 1500, em março de 1964.

11 WANDERLEY, Luiz Eduardo W. Educar para transformar: educação popular, Igreja Católica e Movimento de

Base. Petrópolis: Vozes, 1984, pp. 19, 20 e 49.

12BEOZZO, op. cit., p. 45. Beozzo investigou também a repercussão das encíclicas sociais na grande imprensa

nacional, no eixo Rio-São Paulo.Da pesquisa dos jornais de maior circulação, o autor constatou que os mesmos tiravam na época pouco mais de 100.000 exemplares e que a população habituada à leitura de jornais não excedia 1,5%. Dentro dessa parca circulação, Beozzo afirmou que o impacto direto das encíclicas foi decepcionante, pois a atenção dos jornalistas sobre os documentos papais se voltou tão-somente às diretrizes destes dividiam os católicos em torno de questões sobre a Reforma Agrária e conseqüentemente levavam os jornalistas a inserirem o projeto do pontificado de João XXIII para a situação nacional. Confira a obra citada: pp. 13-14.

Já em 1950, a Igreja – na pessoa de D. Hélder Câmara, então assistente geral da Ação Católica Brasileira – conclamava o empenho dos católicos na adesão ao movimento em favor do homem do campo. Segundo Beozzo, a Mater et Magistra “[...] deu vigoroso impulso à linha de compromisso social da Igreja do Brasil e, de modo particular, ao crescente engajamento nas questões relativas à reforma agrária, à sindicalização rural e à educação de base do campo [...]”.13 Nesse cenário, não se pode olvidar ter a Igreja se aliado ao Estado populista de caráter reformista. Nessa etapa, setores do laicato católico – sobretudo a JUC, quando de seu contato com os problemas da miséria e da opressão do camponês – acabaram por radicalizar suas posições.14

A ala mais progressista da Igreja hierárquica – representada, nesse momento, pelos bispos da CNBB – buscou apoio doutrinal para legitimar suas práticas sociais – (do mesmo modo que o grupo conservador) no Ensino Social de João XXIII. Em julho de 1962, a CNBB lançou um documento convocando os leigos e a Igreja para um maior compromisso social. Além de sua orientação fundada nas prerrogativas da Mater et Magistra, o documento dos bispos brasileiros evidenciou o caráter perene do engajamento social da Igreja: “[...] A Igreja, ontem como hoje, nunca deixou de pregar a doutrina do evangelho e, de acordo com as circunstâncias e o vigor mais ou menos veemente de seus ministros, de clamar por uma ordem social baseada nos princípios da verdade revelada e das normas da justiça e da equidade [...]”.15

Alceu Amoroso Lima – que também articulista do Brasil, Urgente – escreveu no Caderno 2°, da Folha de S. Paulo, a propósito desse documento. Em seu exame, a mensagem emitida pelos bispos ofereceu ao conhecimento da população brasileira, não apenas a católica, as linhas invariáveis do desenvolvimento da Igreja: “[...] a continuidade com o passado e a abertura para o

13 BEOZZO, José Oscar. Op. cit., p. 51. A grande receptividade dessas encíclicas se deveu à situação agrária do país.

Segundo Francisco de Oliveira, a economia brasileira, desde os anos de 1930, com exceção do período de 1930/33, superou a média da maioria dos países capitalistas centrais, com um crescimento de 10 a 11% ao ano. Todavia, o mesmo não se percebia no setor agrícola, o mais atrasado da economia brasileira na conjuntura de 1964. Para maiores informações, confira: OLIVEIRA, Francisco de. Dilemas e perspectivas da economia brasileira no pré-64. In: TOLEDO, op. cit., 27.

14Sobre a fase de radicalização da JUC (Juventude Universitária Católica), ver: COSTA, Lucas Aparecido. A Juventude Universitária Católica na “esquerdização” do catolicismo brasileiro (1950-1967). 2002. 83f.

Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso em História) – Faculdade de História Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2002.

15CNBB. Mensagem da Comissão Central da Conferência Nacional doa Bispos do Brasil. 30 de abril de 1963, apud:

MESQUITA, Luís José de. As Encíclicas Sociais de João XXIII. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1963, Vol.2. p. 627.

futuro [...]”.16 Segundo o autor, a atualização da mensagem cristã-católica nesse documento, conferiu grande respeito à autoridade da palavra dos bispos brasileiros, pois proporcionou uma visão de Igreja acima de qualquer ideologia e indicou “[...] a solução autêntica para as nossas perplexidades político-sociais do momento [...]”.17

Objetivando não dissociar teoria e prática, entre os meses de setembro e novembro de 1961, Josaphat ofereceu um curso sobre a Mater et Magistra, no Salão da Cúria Metropolitana de São Paulo.18 Esse curso foi distribuído ao longo de dez aulas, ministradas a um público calculado em dois mil alunos.

Para Frei Carlos, a Mater et Magistra chamou a atenção do mundo para a atualidade da Doutrina Social da Igreja. O objetivo central do sacerdote, nesse curso, foi destacar as grandes linhas da Bíblia e da história da Igreja, para depois situar o ensino da DSI, que desde Leão XIII, passando por Pio XI, foi completada por João XXIII. A visão integral do homem – uma contribuição do pensador católico francês Jacques Maritain – seria, para o frei, antes de tudo, pautada nos ensinamentos da Mater et Magistra. A concepção de prática social religiosa de Josaphat – como força de renovação das estruturas e, quando necessário, de revolução social – já se fazia presente nesse curso. O humanismo personalista e comunitário de Emmanuel Mounier também foi destacado pelo frei como um dos movimentos propulsores do cristianismo social. Segundo o frade: “[...] É em torno dessa encíclica que nós vamos ter as grandes conferências

16 LIMA, Amoroso. “Entre Imobilistas e Açodados. Folha de São Paulo, 23/05/1963, p. 2, 2° Caderno, apud:

MESQUITA, Luís José de. As Encíclicas Sociais de João XXIII. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1963, Vol.2. p. 632

17Ibid., p. 632. A solução a que Amoroso Lima se referiu foi a cristã. Assim, a posição do autor e também dos bispos,

em várias passagens do documento, fez parte do movimento da tentativa de modernidade, em sua primeira matriz – cujo conteúdo de crítica à sociedade se encerrava dentro dos princípios morais cristãos. Essa mensagem dos bispos nos faz lembrar da posição crítica de Souza Lima, que adverte ser infrutífero procurar nos documentos oficiais a radicalização. Os documentos estavam comprometidos com a maioria conservadora, ocultando assim, o compromisso real que muitos bispos e sacerdotes firmaram com os leigos. Há de se observar que não se devia esperar uma revolução dos que monopolizam o poder numa dada relação de força – para nosso caso o campo

religioso –, pelo fato de tenderem às estratégias de conservação da ortodoxia. A respeito da posição de Souza Lima,

cf: SOUZA LIMA, L. G. Evolução política dos católicos e da Igreja no Brasil, p. 33.

18 OLIVEIRA, Frei Carlos Josaphat Pinto de. A justiça social. Na Bíblia e no ensino da Igreja. São Paulo: Apostilas

Pró-manuscrito, 1961. Essa apostila – um documento raríssimo – se encontra na Biblioteca da Faculdade de História, Direito e Serviço Social da UNESP/Franca. Nosso acesso aos resultados desse trabalho foi possível graças à publicação dessas considerações, reunidas em uma apostila: A Justiça Social. Na Bíblia e no ensino da Igreja.

seguidas por centenas e centenas de pessoas e depois toda a multiplicação desse trabalho, por mim mesmo, e também por outros. [...]”.19

Em entrevista concedida ao autor, Josaphat enfatizou, novamente, a importância das encíclicas sociais e a preponderância do reinado de João XXIII. Contrapôs as inovações sociais deste pontificado em relação às posições mais conservadoras de seu antecessor – Pio XII (1939- 1958):

Eu me tornei dominicano em 1953, quando da incursão na ordem e a minha perspectiva era sempre de trabalhar para a renovação da Igreja, que ela fosse mais evangélica e que desse mais lugar aos leigos, e que estivesse mais presente no trabalho de promoção humana, sobretudo das pessoas com mais dificuldades, mais marginalizadas, das classes mais deixadas de lado pelo progresso social no Brasil. Nesse empenho, então, eu acolhi com grande entusiasmo a mensagem de João XXIII, porque meu entusiasmo, assim

como dominicano, não estava assim tão satisfeito diante da perspectiva do pontificado de Pio XII, em que havia assim muitos documentos importantes do ponto de vista cultural, religioso, mesmo social, mas, não havia tomadas de posição significativas no sentido do que nós chamamos assim, esse amor preferencial pelos pobres. Então, para

mim, o grande acontecimento foram as encíclicas do papa João XXIII – a encíclica

Mater et Magistra de 1961 e a encíclica Pacem in Terris de 1963. Agora, tudo isso num

contexto muito interessante, que havia um despertar da parte dos leigos, havia um entendimento dos jovens, a Ação Católica, a Ação Católica Universitária – a JUC – a Ação Católica no ensino secundário – a JEC.20

É importante observar – a respeito do depoimento de Frei Carlos Josaphat – as considerações de J. F. Régis Morais e João Batista Libânio. O primeiro autor registra em seu livro a situação da instituição eclesiástica que ao final do pontificado de Pio XII; em sua avaliação, “[...] a Igreja apresentava um discurso que pouco tinha a ver com a realidade de vertiginosas

19BETTO, Frei; MENESES, Adélia Bezerra de; JENSEN, Thomas (org). Utopia Urgente: Escritos em homenagem

a Frei Carlos Josaphat nos seus 80 anos. São Paulo: EDUC/Casa Amarela, 2002, p. 513.

20 Entrevista concedida ao autor em 07 de julho de 2006 (o grifo é nosso). Contemplamos, em nossa pesquisa, a

história oral como proposta metodológica, uma vez que a entendemos como método privilegiado para se apreender a memória de indivíduos que estiveram envolvidos no processo de formação da Igreja para o povo. Logo, adotamos como referencial de análise – tanto para as entrevistas feitas pessoalmente com Frei Carlos quanto seus depoimentos publicados, em 2002, no livro em comemoração aos seus oitenta anos – a proposta das autoras Janaína Amado e Maria Aparecida de Aquino. Segundo Amado a história oral, “[...] entendida como metodologia [...] remete a uma dimensão técnica e a uma dimensão teórica. Esta última evidentemente a transcende e concerne à disciplina histórica como um todo [...]” (AMADO, J. & FERREIRA, M. M. (org), 1996, viii). Na mesma obra, em outra passagem, Amado identifica a história oral como a ponte que possibilita a união entre teoria e prática. Apesar de não a considerar como sendo apenas uma prática, a autora é enfática ao afirmar que no campo teórico a história oral não pode “jamais solucionar, questões”. Para tanto, deve-se buscar as soluções e explicações “na boa e antiga teoria da

história”; para Aquino: “[...] o depoimento atua como contraponto à pesquisa empírica. Entende-se que no esforço

da interpretação humana, o depoimento do contemporâneo assume papel de um instrumento de análise privilegiado, na medida em que reveste ao mesmo tempo, das problemáticas vivenciadas no presente e no passado [...]”

Benzer Belgeler