2.3. Nanosıvılar Termofiziksel Özellikleri
2.3.2. Isıl iletkenliğin ölçümü
Estas posições, no domínio social, daquela que foi a nossa principal figura literária finissecular, pelo menos em termos de visibilidade pública, não devem esconder, como já atrás dissemos, outros vultos porventura sem o mesmo engenho mas eles próprios empenhados em analisar e sobretudo expor as condições de vida das camadas populacionais mais desfavorecidas. E isto sem esquecerem, pelo menos alguns deles, os
329 - Eça de Queirós, Notas Contemporâneas, pp. 189 e ss. 330 - Cf. Jaime Cortesão, Eça e a Questão Social, p. 69. 331 - Idem, ibidem, p. 69.
332 - Idem, ibidem, p. 215-230. 333 - Idem, ibidem, p.221 e ss.
146 comportamentos considerados transgressores à luz da moral burguesa dominante, os interditos raramente mencionados, fossem eles a ninfomania, a homossexualidade, a loucura sob diversas formas ou outros problemas considerados chocantes. Positivistas, diversos com formação científica, valem as obras, por vezes, mais pelo testemunho do que pela construção literária ou prosa apurada. Todos parecem acreditar nas potencialidades incomensuráveis da ciência, menos em certos casos no homem, sujeito a debilidades várias, segundo análises muito dependentes da psicologia, que, em meados do século XIX, está muito ligada a aspectos fisiológicos, as degenerescências capazes de influenciar o ser humano que tem prometidos amanhãs felizes graças aos avanços científicos e tecnológicos em todos os domínios. A figura dominante à época é Auguste Comte (1798-1857), sobretudo filósofo, fundador do positivismo, que será considerado como um dos precursores das ciências sociais. Estas deveriam reger-se pelas leis das ciências positivas, como a matemática e a física, posteriormente denominadas exactas. Comte enunciará a lei dos três estados para o espírito humano, que passaria, sucessivamente, por uma idade teológica à qual se seguiriam a metafísica e a positiva. Só através das demonstrações científicas se atingiria a chamada verdade — e havia que eliminar as especulações de cariz metafísico, nocivas pelo seu carácter abstracto, enveredando-se pelo estabelecimento dos critérios da racionalidade dos conhecimentos, para se atingir a compreensão das leis da organização social. Publicados entre 1830 e 1842, os quatro volumes do seu Curso de Filosofia Positiva alcançariam grande repercussão na Europa e mesmo noutros continentes, sobretudo junto de homens de ciência, nomeadamente médicos. Atento ao papel do Estado (escreverá o Sistema de
Política Positiva), o filósofo também se interessará pelos fenómenos religiosos, elaborando um Catecismo Positivista e enunciando a Síntese Subjectiva. Quanto à sua posição no domínio da política, esta sairá abalada quando depois de ter visto com olhos críticos a ascensão à Presidência da República do sobrinho do falecido imperador, o príncipe Luís Napoleão Bonaparte, apoia o golpe de Estado de 1851 que o converterá em Napoleão III. As ideias de Comte marcam gerações nos mais diversos domínios do saber, influindo, por exemplo, em Jules Verne e nos seus romances, e, muito depois da sua morte, no teórico do nacionalismo francês Charles Maurras (1868-1952), fundador da Action Française e colaborador do governo de Vichy, liderado pelo marechal Philippe Pétain (1856-1951), durante a Segunda Guerra Mundial. Maurras teria influenciado, por sua vez, o pensamento de António de Oliveira Salazar, nos seus tempos de Coimbra.
147 Com a criação da sociologia, o pai do positivismo pretendia apontar um caminho para a resolução dos problemas da sociedade, através da chamada organização social (leis da estatística e da dinâmica sociais) — e a sua doutrina, além de ter ficado intimamente ligada aos republicanos franceses, dado que opunha a claridade da Ciência ao alegado
obscurantismo da Religião, faria um percurso iniciado na esquerda até à extrema-direita do período entre duas guerras da passada centúria. No século XIX, no entanto, cativou homens como Ernest Renan, Hippolyte Taine, Claude Bernard, Zola, John Stuart Mill ou Emil Durkheim. Portugal foi particularmente receptivo às doutrinas positivistas, que se fizeram sentir nas goradas Conferências do Casino,334 e que estão presentes em Francisco Teixeira de Queirós (1848-1919), médico, vereador da Câmara de Lisboa e deputado durante a Monarquia, e deputado constituinte e ministro dos Negócios Estrangeiros com a República. Escreveria duas séries de contos e romances (Comédia
do Campo e Comédia Burguesa), num programa naturalista-realista — não isento de um tardo-romantismo, parece-nos —, que mereceu elogios rasgados a diversos especialistas. António José Saraiva e Óscar Lopes, por exemplo, colocaram-no em alto pedestal.335 Usou o pseudónimo de Bento Moreno e Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921), que teve em sua casa um salão literário frequentado por Eça, Camilo, Ramalho e alguns mais, escreverá sobre Teixeira de Queirós:
Bento Moreno apareceu logo com um estilo seu. Era duro esse estilo; não tinha as maleabilidades, as ductilidades e as graças que se assinalam simpaticamente ao instinto do leitor; havia nele um não sei quê de primitivo, de ingénuo, de não cultivado, que o tornava talvez ainda defeituoso e tosco, mas as qualidades poderosas do observador e o sentimento vivo e profundo do pitoresco revelavam-se já neste livro dum modo surpreendente. A alma primitiva e rude do minhoto, a paisagem deliciosamente verde, e singelamente idílica do Minho, retratavam-se ali, naquele primeiro livro, em traços admiráveis de verdade e de encanto. Observar e sentir, não serão estas as duas faculdades principais de todo o artista? (…) e não havia nas páginas desse livro, como de resto continuou a não haver nas obras de Bento Moreno, reminiscências literárias, ecos de vozes já ouvidas, cópia ou imitação de processos estrangeiros, pastiches de criações alheias! (…) São almas simples as que ele melhor analisa e disseca. (…)
334 - As Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, com início em Maio de 1871, foram proibidas pelo chefe do Ministério, marquês de Ávila e Bolama, em 26 de Julho desse ano, sob a acusação de que sustentavam doutrinas e propostas de natureza diversa atentatórias da religião católica e das instituições do Estado.
335 - Cf. António José Saraiva e Óscar Lopes , História da Literatura Portuguesa, Porto, Porto Editora, 3.ª edição corrigida, s/d.
148 Mesmo o drama, quando aparece como no António Fogueira, é um drama sem complicações estranhas, sem contradições, sem complexidade, sem mistérios de indecifrável profundeza. Ou selvagens, ou pueris, ou violentas ou ingénuas, estas almas sentem impetuosamente, numa explosão de instintos irredutíveis e ardentes; ou vegetam numa doçura inconsciente de planta que medra ao sol, bebendo a luz sem saber que a bebe, amando sem ter a impressão de que ama! (…) O Amor Divino (patologia duma Santa) foi talvez um dos melhores assuntos, que Bento Moreno encontrou no seu caminho de observador e analista científico das doenças e manias do animal humano. A influência do missionário na alma rude, ingénua e cândida da mulher do povo das nossas províncias do Norte, é, como todos sabem, poderosíssima. Quantas raparigas do povo enlouquecem ao ouvi-los!... Quantas, fugindo para o convento ou fazendo-se irmãs de caridade procuram, na lida esmagadora ou na clausura estreita agravada pelos cilícios e pelos jejuns, o perdão de imaginários pecados e de fantásticas culpas!... Pois o Amor Divino é isto que pinta dramaticamente, com verdade, com animação, com muita diversidade de tipos e de figuras reais, e bem tocadas. O Amor Divino é a acção exercida pela palavra candente e inflamada dum missionário, no espirito, no coração, na vida interior, duma robusta e alegre minhota, risonha, sensual, fortemente retemperada por aquele belo sol luxuriante e quente para as sãs alegrias da vida e da maternidade feliz! O missionário transfigura-a, e pouco a pouco, por uma gradação escrupulosamente notada, leva a pobre moça à exaltação, ao histerismo, ao delírio, ao misticismo das visionárias e das estigmatizadas, à morte enfim, acompanhada de torturas e de alucinações pavorosas!... (…) Tem defeitos o livro? Tem. Mas é um dos melhores, dos mais exactos, dos mais bem feitos que devemos à pena de Teixeira de Queiroz, e é um documento soberbo de verdade, e de vigor naturalista. (…) O António
Fogueira é outro dos meus estudos favoritos. Que belas páginas de paisagem, que notação exacta no estudo desse tipo tão característico e tão popular de feirante, amando os bons cavalos, o bom vinho, as robustas e alegres cachopas, vivendo com a inconsciência vegetativa dum belo e forte bruto, que nenhuma lei flexibilizou, em que nenhum princípio moral actua, cujo duro crânio não abriga uma ideia, mas em cujo temperamento vegetam ― no luxo enorme, na floração purpúrea, no regurgitamento sensual da seiva mais opulenta, ― os instintos do selvagem, do animal bravio independente e feroz. (…) Tanto o Amor Divino como o António Fogueira, tanto o primeiro volume como o último dos contos soltos, não poderiam ter sido escritos, pensados, sentidos, senão em Portugal, senão na província em que têm a sua origem e a sua raiz vigorosa e tenaz. Este mérito é enorme numa literatura como a nossa, em que muitos dos melhores livros de costumes ou de análise psicológica parecem traduzidos do francês! (…) No mundo actual em que triunfa o materialismo, o mercantilismo, o
149 amor do ganho, ele adora com tocante desinteresse a Arte, que nem sempre o tem recompensado dos seus extremos, o trabalho que prossegue infatigável, sempre em busca do melhor, sempre aspirando ao ponto mais alto e à compreensão mais ampla do seu assunto, sempre perseguindo aquela verdade relativa que é dado a cada homem possuir ou sonhar... (….)336
Convirá assinalar que Maria Amália Vaz de Carvalho escreveu estas certeiras palavras cerca de vinte anos antes de Teixeira de Queirós falecer, longe de haver concluído, portanto, a chamada opera omnia. Quanto a António José Saraiva e Óscar Lopes, afirmam ter o escritor em causa escolhido Balzac e não Zola para modelo principal,
afastando-se do positivismo, quando afirma que a sua época é de ‘dúvida filosófica, de certeza científica’, e quando considera como propulsores da imaginação científica ou artística o imprevisto e o acaso.337 Consideram que a sua sátira da vida política
nacional é talvez mais realista e corajosa que a de Eça e que Teixeira de Queirós é,
sem dúvida, o maior romancista português do século XIX, depois de Eça, e talvez mais audaz do que este.338 Abel Botelho (1856-1917), por seu turno, militar de carreira e diplomata (faleceria em Buenos Aires como nosso ministro, designação dada à época ao cargo de embaixador), escreveu sobre temas ousados, que vão desde a prostituição à homossexualidade, passando pela gula desmedida por poder e dinheiro, bem como a histeria e outras degenerescências. Captado por António Ramalho (1858-1916) em tela exótica um pouco à Manet, ergueria Botelho uma Patologia Social em cinco romances (O Barão de Lavos, O Livro de Alda, Amanhã, Fatal Dilema e Próspero Fortuna), que, embora possuidora de fragilidades — e abordando patologias individuais e não sociais, como Saraiva e Lopes ajustadamente sublinham,339 — não deixa de apresentar-se como denunciadora de algumas doenças da própria sociedade, como acontecia, aliás, um pouco por toda a Europa que depositara demasiadas esperanças no positivismo — e encarava os médicos como sacerdotes de uma nova religião. Médico não era Júlio Lourenço Pinto (1842-1907), mas, sim, político, crítico literário e escritor, bacharel em Direito por Coimbra, descendente de gente da toga. A carreira administrativa levá-lo-ia a diversos pontos do País, chegando a governador civil de Santarém, conselheiro (honorífico) do soberano e presidente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. A sua Estética Naturalista,340 enunciação teórica dos seus ideais literários, muito presos a Zola, afirmou-se como mais credora de interesse do que a sua ficção, embora resultasse tão-somente da refundição dos artigos já dados à estampa na revista
336 - Maria Amália Vaz de Carvalho, Alguns homens do meu tempo, impressões literárias, s/d, p. 225 e ss. 337 - Saraiva e Lopes, op. cit., p. 866.
338 - Idem, ibidem, p. 870. 339 - Idem, ibidem, p. 867.
340 - Júlio Lourenço Pinto, Estética Naturalista, Porto, Livraria Portuense, 1884. Ver também João Gaspar Simões, História do Romance Português (1967-1972), que muito se interessou por este autor.
150
Estudos Livres, órgão do Positivismo em Portugal,341 dirigida por Teófilo Braga e Teixeira Bastos. Recusando-se a distinguir entre realismo e naturalismo (este seria a arte do futuro, expressão literária dos progressos da ciência), faz uma distinção entre a moral convencional, que deverá ser repudiada pelo artista, e a moral verdadeira, um anseio
para um estado melhor, um impulso da própria arte;342 demonstra capacidades de teorização que vão muito além do que consegue como ficcionista. Se lermos o final de
O Bastardo,343 por exemplo, dado à estampa em 1889, repararemos nas patentes fragilidades dramáticas:
Roberto [protegido de um homem importante na terra e que acaba por destruir a própria família] interrompeu a leitura sufocado de cólera, e fitou no padre um olhar tão odiento que ele recusou num impulso instintivo de defesa, assaltado pelo receio de uma agressão brutal, cuja intenção suspeitava naquele olhar que o apunhalava rancorosamente. Mas Roberto, num súbito reviramento de ideias, desanuviou o semblante raivoso, e forçando um sorriso cínico, chasqueou com voz agridoce:
— (…) Não fui o mais forte, e fui vencido. Os meios não estragam o triunfo, padre Leonardo, não é verdade? O que monta é vencer; o vencedor é sempre aclamado, e que não seja honesto pouco importa. Os honestos, já o sabia, são um obstáculo importuno, degenerado em superfetação com tendências ao estado de fóssil, que convém e é fácil espavorir arredando-os da corrente moderna. (…) — Um homem novo e ousado, que entra na posse de uma herança de cem contos, não pode, não deve ser um vencido.(…) — Tem razão, padre Leonardo, com cem contos só um imbecil não tira partido da vida, e eu lhe prometo que não serei um imbecil. (…) Seguirei os conselhos do Valdez; vou para Lisboa: entrarei na política.(…) Ia contente o padre Leonardo (…) e, como ainda lhe ressoavam nos ouvidos as últimas palavras de Roberto, comentou-as de si para si no bom humor do triunfo que o aprumava radiosamente: — Acertou com a carreira que lhe quadra melhor; na política este leproso fica como peixe na água. Strugle for life? Sim, talvez tenham razão os inventores deste chic científico, que está servindo para coonestar tanta cousa. Mas quem são hoje os fortes e vencedores?344
Em Vida Atribulada (1880) ou O Homem Indispensável (1884), também pertencentes como o romance atrás mencionado ao ciclo Cenas da Vida Contemporânea, Júlio Lourenço Pinto não deixará de transmitir a imagem da política como a mais rasteira das actividades, servida por criaturas vis, tocadas de deficiências psicológicas, ou seja, produtos das degenerescências que não podem escapar ao determinismo das leis
341 - Saraiva e Lopes, op. cit., p. 790. 342 - Idem, ibidem, p. 790.
343 - Júlio Lourenço Pinto, O Bastardo, scenas da vida contemporânea, Porto, Lopes & Cia, 1889. 344 -Idem, ibidem, pp. 335-338.
151 científicas. Tal não o impediu de fazer a vida numa carreira administrativa que sempre teve ligações com a política…e aceitar a mercê de conselheiro.
O último dos vultos literários mais esquecidos do nosso século XIX final (há quem sustente que ele terá começado a finar-se por volta da década de 70…) e princípios da vigésima centúria, que resolvemos recordar neste ponto da dissertação, para
enquadramento da sociedade geradora/consumidora do fado, numa altura em que já se
apresentavam mudanças de gosto evidentes, é Alfredo Gallis (1859-1910). Hoje quase totalmente esquecido, este jornalista e escritor, antigo escrivão, secretário do governador civil de Lisboa e administrador (pouco assíduo) do concelho do Barreiro, colaborador de um sem-fim de periódicos, desde o Diário Popular ao Liberal,345 com crónicas e folhetins, usou pseudónimos como Antony, condessa de Til ou Rabelais. Poderíamos ter optado, mergulhando no lago dos esquecidos, por escritores ou poetas menos problemáticos, como por exemplo José Augusto Vieira (1856-1890), cirurgião militar e autor, nomeadamente, do romance naturalista A Divorciada, louvado por Camilo e Teófilo Braga. E porque não lembrar alguém mais próximo no tempo, o dramaturgo Afonso Gaio (1872-1941), autor de O Desconhecido, O Quinto
Mandamento, Máxima ou O Condenado,346 que viria a ser adaptado ao cinema? O seu
poema social em dez cantos Os Escravos entusiasmou Federico García Lorca ao ponto de o começar a verter para castelhano.
Não, definitivamente pareceu-nos que deveria ser Alfredo Gallis e explicaremos porquê. Embora esta figura literária tenha pecado por não se ilustrar um pouco mais e apurar estilo potenciador de outros voos, é hoje apenas conhecido, nalguns círculos mais curiosos, como autor de obras eróticas ou mesmo pornográficas, como se quiser, dado a polémica sobre tal matéria ser infinda e para aqui pouco chamada. Podem creditar-se- lhe (pelo menos) as seguintes obras, algumas delas vendidas então às escondidas, por alegadamente ofenderem a moral pública: A Amante de Jesus (1893), Helena Lourenço
(O Preço da Virgindade), O Sensualismo na Antiga Grécia (1894), O Marido Virgem.
Patologia do Amor (1900); O Que os Noivos não Devem Ignorar (1900?), As Mártires
da Virgindade. Romance Patológico (1900?); As Doze Mulheres de Adão (1901), O
345 - Com efeito, tendo-se estreado no jornal Instituições, foi autor de vasta produção de crónicas e folhetins, que publicou em diversos periódicos, como o Diário Popular (onde assinava sob o pseudónimo de Antony ou ainda de Condessa de Til), Ecos da Avenida, Jornal do Comércio, Liberal, Tempo e Universal.
346 - Realizado e produzido por Ernesto de Albuquerque (1883-1940), exibido em 1920, nele se estreou a actriz (mais tarde com certa notoriedade) Maria Sampaio.
152
Senhor Ganimedes (1906), Amor ou Farda. Romance contra o Militarismo (1907); A
Devassidão de Pompeia (1909), O Abortador. Romance Filosófico contra a
Propagação da Espécie (1909); Para Rir. Anedotas Galantes (1909), assinado por
Duquesa Laureana; A Luxúria Judaica (1910), A Baixa. Lisboa no Século XX (A
Grande Aldeia) (1910); O que as Noivas Devem Saber. Livro de Filosofia Prática (1910), firmado pela Condessa de Til; O Chiado, Lisboa no Século XX (1911)… Quase todos estes livros foram popularíssimos na nossa aparentemente pura e casta sociedade, conhecendo sucessivas edições durante as primeiras décadas do século XX. Apresentam, nalguns casos, observações interessantes e posições avançadas para a época. Vejamos alguns passos do curioso proémio de O Marido Virgem: 347
Na essência moral da alma da mulher, existem sentimentos que as leis e os costumes sociais têm esmagado duma maneira verdadeiramente despótica e cruel. O homem não se digna mesmo inquirir do direito natural que assiste a estes sentimentos, e a maioria das mulheres, sufocam-nos para não sofrerem mais, pelo convencimento positivo e irredutível de que se os quisessem reivindicar seriam tidas à conta de loucas ou desequilibradas perigosas. Todas as conquistas que pelo evolucionar da civilização têm sido concedidas à mulher, não bastam ainda para nas sociedades cultas lhe assegurarem uma posição moral idêntica à do homem. É perante o matrimónio, o acto mais importante da vida da mulher, que a distância incomensurável que existe entre a sua posição social e a do homem surge a seus olhos na vastidão enorme do seu horizonte nunca limpo de nuvens. A lei concedeu à mulher o direito de tomar contas ao homem pelo crime de adultério, mas fez-lhe essa concessão em condições tão excepcionais, que, raríssimas vezes ela poderá esperar da justiça razão prática para a sua causa. A mulher pode ser adúltera por vingança, por temperamento, por miséria ou por abandono do homem.O homem é adúltero por hábito. (…) Mesmo na humildade circunscrita da vida das aldeias e lugarejos ínvios, a versatilidade do homem surge sempre como prova evidente de que ele não nasceu para possuir uma mulher só. Nas grandes cidades, onde as condições da vida são outras muito diferentes e propiciatórias para esta espécie de delitos, eles florescem a cada canto e a cada momento. A maior parte das mulheres resignam-se aceitando um facto mau para não adquirirem e sofrerem consequências piores. Outras há porém, de carácter reactivo e caprichoso, dotadas de amor próprio excessivo e sensibilidade extrema, que de maneira alguma se conformam, e estabelecem na sua vida doméstica um tal inferno de incompatibilidade com o marido, que terminam
153 pela separação ou pelo adultério. (…) Em qualquer dos casos porém, evidencia-se que a situação social da mulher em referência ao direito adulterino do homem é sempre inferior. (…) Se o homem exige quando casa com uma mulher solteira, que esta traga intacta a casta flor da virgindade, porque motivo não assiste à mulher o mesmo direito quando se consorcia com homem em idênticas condições! (…) Possuir por marido um homem que nunca houvesse conhecido outra mulher, tal é a tese deste livro que se reduz a uma simples questão de direito moral. Se o marido exige que sua esposa seja virgem, também à mulher assiste a razão de consciência de exigir igual circunstância física em seu marido. Pretendo com isto modificar o estado social (…) que têm a sua sanção absoluta nos propagandistas do amor livre para os dois sexos? Certamente que não. (…)