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4.1 Isı Yalıtımı
Passo a seguir a considerar o evangelho na missão integral na busca da evangelização do mundo, segundo R. Padilla. De início me pareceu importante expor qual é o seu conceito de teologia, considerando que toda sua ação missionária está comprometida com sua definição teológica. Ao ser questionado por Victor Rey “para você, o que é a teologia?” Padilla (apud, REY, 2010, p. 4) respondeu:
A teologia é um esforço humano para entender e articular o propósito de Deus para a vida humana, para a vida da igreja e para a vida na sociedade. Cumpre uma função crítica, especialmente em relação à igreja e faz a vez da função construtiva apontando a direção na qual cabe mover-se a igreja, sob a direção do Espírito Santo, segundo a instrução da Palavra de Deus. Tem muito a ver com um diálogo entre a Palavra de Deus, a revelação em Cristo Jesus, a revelação escrita e a situação do mundo, os problemas que nos rodeiam, o contexto em que vivemos; sem esse diálogo não existe teologia. A teologia é um esforço humano, a palavra última que tem o Senhor em sua revelação, pois, nós temos a responsabilidade de entender o que essa revelação em Jesus Cristo significa para nossa própria vida.
A definição de “teologia” para Padilla mostra que ela é um ato do espírito que deve ser vinculado à vida física para que estas vidas somadas, façam surgir uma sociedade melhor, fraterna. A teologia tem duas funções: a crítica e a construtiva. A primeira nos remete a uma reflexão bíblica, a nos questionarmos e com isso suscitarmos dúvidas que a partir das mesmas nos coloquem em condições de pensar criticamente a palavra. Isto nos leva a descobrir de forma pessoal e de forma conjunta, com a igreja e com os estudiosos, novas formas de vermos o mundo criado por Deus para assim, podermos construir uma sociedade melhor, centrada na palavra que nos remete a
praticar as boas obras. O diálogo deve fazer o elo entre o que pensamos teologicamente e o que vivemos no dia a dia, unindo a igreja em torno do objetivo indissociável de proclamar o Reino de Deus aqui e cuidar dos necessitados agora.
É interessante notar que Padilla frisa duas vezes a expressão “teologia como esforço humano”. Ele procura fazer uma associação entre este esforço e a compreensão sobre a igreja, a palavra de Deus, o Espírito Santo e a revelação em Cristo Jesus. Em poucas e densas palavras definiu-se teologia e se demonstrou que ela existe aqui, no mundo presente, cabendo a cada um de nós procurar entendê-la para saber contextualizar a obra missionária integral no espaço real em que vive o ser humano. Este esforço deve resultar em boas obras. Sobre a Bíblia, Zwetsch (2008, p. 150) afirma que “três pressupostos constituem uma constante no pensamento e na obra literária de René Padilla: Bíblia – palavra viva de Deus – hermenêutica e realidade contextual”. Kilpp (2008, p. 957) afirma que “a teologia bíblica está estreitamente vinculada à hermenêutica bíblica”, um fator interessante e relevante na visão teológica de Padilla.
Retornando à questão do evangelho, este é considerado uma mensagem que precisa ser direcionada a cada pessoa e a todas as pessoas. Cada qual deve receber o evangelho de Jesus Cristo para compreender melhor as razões de sua existência, descobrir como viver melhor no singular e expandir esta melhora em seu meio social. Isto envolve o ser em si, a família e a igreja. Padilla (1992, p. 15) trata da seguinte forma: “O evangelho de Jesus Cristo é uma mensagem pessoal: revela um Deus que chama a cada um dos seus pelo nome. Mas é ao mesmo tempo uma mensagem cósmica: revela um Deus cujo propósito abarca o mundo interior”. Evangelizar é uma tarefa a ser realizada pelos cristãos e não pode se limitar à pregação de coisas futuras.
Padilla (1992, p. 23) define o que é evangelizar:
Evangelizar é proclamar Jesus Cristo como Senhor e Salvador, por cuja obra o homem é liberto tanto da culpa como do poder do pecado, integrando-se ao propósito de Deus de colocar todas as coisas sob o mando de Cristo.
A chamada do evangelho é para que o ser humano se volte para Deus e venha a fazer parte de uma humanidade constituída por pessoas que desejam ardentemente estar juntas, possuir muitas coisas em comum, como a realização religiosa, na leitura e proclamação da palavra e, juntas, realizar ações sociais, movidas pelo amor a Deus e ao
próximo como a si mesmas. O indivíduo não existe isoladamente. É um ser social por natureza e precisa se compreender ao se relacionar com outros seres humanos, porque para Padilla (1992, p. 15) “não se pode falar de salvação sem que se faça referência à relação do homem com o mundo do qual ele faz parte”. Por vivermos no mundo, devemos ter esta dimensão.
A extensão da terra, o conhecimento e o conceito de mundo, se ampliou na medida em que os conquistadores ampliavam seus territórios. As ciências, principalmente a geografia e a astronomia, deram conta de ampliar não só o conhecimento de nosso mundo terreno, como apresentar mundos distantes, espalhados pelo universo. Para Davis (1993, p. 407) “no Novo Testamento a palavra mundo designa tudo quanto pertence à terra e a suas condições atuais”. O termo mundo originado de kosmos, em grego, significa o universo considerado como um todo organizado e harmonioso.
O mundo em uma perspectiva bíblica é a soma total da criação, o universo que Deus criou. O cosmos foi criado por meio do Logos. Para Padilla (1992, p. 16) “O Cristo proclamado pelo evangelho como o agente da redenção é também o agente da criação de Deus”. Isto implica dizer que tudo começou num caos, e Jesus Cristo organizou esta criação, a natureza. Numa alusão ao ser humano, compreendo que ele pode organizar a vida de cada pessoa e da sociedade, basta que assim se queira, como fez ele com o cosmos. A ordem começou em Cristo e deve terminar nele, isto é o princípio e o fim de tudo. Por esta e outras razões, o cristão deve ser otimista, esperançoso de uma vida melhor, salva por Cristo, uma vida em abundância como o próprio Jesus prometeu aos que nele confiam, a ser vivida em sua concretude, imediata e no futuro.
Num sentido mais limitado, o mundo é a presente ordem de existência humana, o contexto espaço-temporal da vida do homem, que Padilla (1992, p. 17) coloca como sendo “o mundo dos bens materiais, onde os homens se preocupam com coisas que são necessárias, mas que facilmente se convertem em um fim em si”. Este mundo terreno para ele está visível nas coisas corpóreas, como habitação, alimentação, vestuário, isto é, sem as quais não se pode manter vivo o corpo físico. Os cuidados com a saúde, com a alimentação, com a higiene, precisam ser uma preocupação de cada cristão e no
conjunto da igreja, até para se detectar as pessoas que por alguma razão (geralmente financeira) estão em falta de coisas materiais.
Compreendo que Padilla coloca estas necessidades de forma clara e bem explícita para levar-nos a entender que o evangelho está repleto de exemplos de cuidado para com o corpo, para com a própria vida e também preocupado com a vida coletiva, onde o cristão costuma se encontrar, que é no espaço da igreja, e ali se ajudar, se compreender, se amar, como manda Jesus Cristo. O tempo limitado e transitório que o ser humano tem para existir aqui no mundo, deve ser preenchido com o cuidado material. Este pode ser realizado por meio das ações de responsabilidade social, quando se percebe alguém necessitado, indo em seu socorro, sem escapes, sem rodeios, mas fazendo da existência pessoal uma possibilidade de fazer com que o outro (próximo) possa também existir melhor.
O mundo é a humanidade, reclamada pelo evangelho e muitas vezes escravizada. Padilla (1992, p. 18) diz que:
Jesus Cristo não é o salvador de uma seita, mas o salvador do mundo. O mundo é o objeto do amor de Deus. Jesus Cristo é o cordeiro de Deus, a luz do mundo, a propiciação não somente pelos pecados dos seus, mas ainda pelo do mundo inteiro. Para isto ele foi enviado pelo Pai: não para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
Este texto de Padilla vem com diversas referências bíblicas que o justificam. Ele tece um diálogo profundo com o evangelho. É segundo ele, a proclamação do evangelho, um ato de fé, uma chamada universal para que todos venham e creiam no Cristo ressurreto. O Senhor Jesus ao dar sua própria vida para resgatar a dos seres humanos, abre uma porta comum a todos aqueles que assim desejarem recebê-lo, aceitando-o como forma de salvação, que se traduz em vida em abundância aqui e agora e na vida eterna com o Deus Trino. Sem a dupla identificação, isto é, do ser humano com Cristo e vice-versa, não há possibilidade de salvação. Jesus fez sua parte entregando-se na cruz. Agora cabe ao ser humano pela fé entregar-se ao Cristo que lhe dará uma nova vida, melhor e cheia de graça. Para Padilla é desta universalidade do evangelho que deriva a universalidade da missão evangelizadora da igreja.
Neste ponto, percebo que existe uma via de mão dupla. O Senhor Jesus já fez sua missão mundana, isto é, já pagou o preço da redenção do pecado de todos os seres
humanos na cruz, na qual sofreu por amor ao mundo. Agora, cabe a cada ser humano dispor-se por meio da fé a caminhar ao seu encontro e com isso, redimir sua alma do pecado e passar a gozar desde já, as bem aventuranças proposta no evangelho. É de vida nova que o ser humano precisa, e o evangelho proporciona isto em todas as esferas de sua existência. Não devemos nos afastar do mundo, criando um grupo de separados, uma igreja que se afaste com temor de se “contaminar”. Não foi assim que o Senhor Jesus agiu e não é assim que devemos agir. Devemos sair, ir ao mundo, proclamar o evangelho e anunciar a toda criatura que só Jesus Cristo é Deus, que ele tem a fonte de água viva para saciar a sede terrena causada pelas necessidades do agora e a fonte de água que brota nos corações para saciar a sede eterna. Devemos compartilhá-la com os que estão sedentos, pois esta “água que jorra” não se esgota com o aumento das pessoas que se dispõem a beber. Ela se multiplica, com a propagação do evangelho, ao qual podemos chamar sem reservas, evangelho do amor de Deus para com os seres humanos.
Outro ponto tratado por Padilla é a referência ao “mundo hostil a Deus e escravizado pelos poderes das trevas”. Outra caricatura que se pode fazer do termo “mundo” é sua referência negativa, no sentido de as pessoas habitantes do mundo serem opositoras ao Senhor Jesus. Esta oposição se dá principalmente pela falta de amor ao próximo que se apresenta em constantes situações da vida concreta. Padilla (1992, p. 19) nos apresenta um fato interessante: “Aprofundando-se um pouco mais a análise do conceito mundo nos escritos joaninos e paulinos, torna-se óbvio que por trás da rejeição de Jesus Cristo por parte dos homens está a influência de poderes espirituais hostis aos homens e a Deus”. São estes poderes hostis que crucificam a Cristo ainda hoje, por rejeitá-lo, por não aceitarem a ele como Deus Filho. É a cegueira da incredulidade que vigora no mundo e permite a ação do “inimigo” nas vidas das pessoas. E complementa:
O universo não é um universo fechado, no qual tudo pode ser explicado na base de coisas naturais. É, antes, a arena onde Deus – um Deus que atua na história – está travando uma batalha contra poderes espirituais que escravizam os homens e obstacularizam sua percepção da verdade em Jesus Cristo.
Tenho comigo a impressão, refletindo sobre o texto de Padilla, que estas hostes malignas, fazem uso da mentira como essência do pecado, porque conforme o evangelho, “o diabo é o pai da mentira” e esta forma de proceder pode demonstrar quem está operando no mundo, se o Senhor Jesus, ou se é satanás. O pecado pode ter a
dimensão pessoal, quando “sai de dentro do ser”, ou social, quando afeta diretamente outras pessoas. Podemos perceber no mundo secular tanto a gigantesca onda de desvios e fraudes veiculadas rotineiramente pelos meios de comunicação de massa, quanto as atitudes desonestas de inúmeros políticos e agentes públicos, que para se beneficiarem, mentem, roubam, e provocam o pecado social. Este é muitas vezes revestido por outros nomes, como “corrupção”, “engano” e outros rótulos, com maior ou menor dosagem de falta de ética e pecado contra o próximo, provocando muita dor e sofrimento nas vítimas destas atrocidades.
Em sequência ao que foi dito anteriormente, Padilla (2009, p. 75-76) denuncia o pecado social dizendo que:
Em cada país, rico ou pobre, há setores poderosos da população que impõem as regras do jogo para seu próprio benefício. Não é preciso ser marxista para afirmar que por trás da pobreza que fatidicamente assombra nossa América estão a injustiça e a exploração – o pecado institucionalizado em estruturas de poder em nível nacional e internacional.
A busca desenfreada do consumo, do acumulo de dinheiro, da posição social destacada e de tantas outras coisas mundanas, tem feito vítimas que podemos ver espalhadas pelo mundo, jogadas na sarjeta da sociedade e desprezadas pelos seres humanos, seus semelhantes. Muitos destes que desprezam o próximo infelizmente têm se apresentado como “cristãos”. Faço uso das palavras de Padilla (1992, p. 21) para minhas últimas observações sobre a presença do mal no mundo: “a proclamação do evangelho que não toma a sério o poder do inimigo tampouco poderá tomar a sério a necessidade dos recursos de Deus para a luta”.