É fundamental destacarmos a noção de texto e de textualidade que estamos assumindo neste trabalho, bem como suas implicações para o ensino da língua escrita.
Como ponto de partida, definiremos texto como “a unidade básica de comunicação escrita que tem significado” (CURTO, MORILLO, TEIXIDÓ, 2000, p. 69). O texto se caracteriza por ser uma unidade de linguagem em uso, cumprindo uma função sociocomunicativa, pelo fato de se constituir uma unidade semântica e por sua unidade formal e material.
De acordo com Costa Val (2006, p.03), há diversos fatores que contribuem para a construção de seu sentido. Dentre eles, podemos destacar as intenções do produtor, o jogo de imagens mentais, o tema e o contexto sociocultural. O texto é definido como “ocorrência linguística falada ou escrita de qualquer extensão, dotada de unidade sociocomunicativa, semântica e formal”. Ainda segundo a autora, um texto deverá ser avaliado sob três aspectos para uma compreensão adequada: “o pragmático, que tem a ver com seu funcionamento enquanto atuação informacional e comunicativa; o semântico-conceitual, de que depende sua coerência; e o formal, que diz respeito a sua coesão” (COSTA VAL, 2006, p.05).
Koch (2009) defende que o texto, na concepção interacional (dialógica) da língua, é “o próprio lugar da interação e os interlocutores, como sujeitos ativos que – dialogicamente – nele se constroem e são construídos”. Portanto, é uma atividade consciente e criativa desencadeadora de estratégias de ação, tratando-se de uma atividade intencional e interacional, um evento dialógico, nos dizeres de Bakhtin.
Sendo assim, corroboramos com Beaugrande (1997, p. 10) ao definir o texto como “evento comunicativo no qual convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais”.
Neste trabalho, assumimos o texto como uma unidade de ensino e destacamos a leitura e a produção de textos orais e escritos como relevante para o processo de alfabetização, considerando essencial a organização do trabalho pedagógico em torno de quatro eixos: leitura, produção de textos escritos, oralidade e análise linguística.
Ressaltamos a importância da análise linguística para auxiliar no desenvolvimento das capacidades de compreensão e produção de textos orais e escritos, tomando cuidado para não termos interpretações distorcidas sobre o que vem a ser. Diferente da “gramática contextualizada”, a qual se refere ao ensino de nomenclaturas e classes gramaticais a partir de textos, a análise linguística inclui os conhecimentos sobre gêneros que circulam socialmente além dos aspectos normativos da língua.
É importante focalizarmos determinadas questões da língua em situações de ensino, especificando um aspecto a ser destacado, refletido e analisado. É preciso estabelecer prioridades nos âmbitos da textualidade e da normatividade, elencando determinados aspectos a serem analisados linguisticamente.
Um grande desafio atual é incluir a reflexão sobre a língua articulando às situações de leitura e de produção de textos e abandonar o ensino descontextualizado e com ênfase na memória das classes e regras gramaticais.
Tratando o texto como unidade de ensino e realizando análises linguísticas sobre ele, estamos favorecendo a internalização de conhecimentos que envolvem também a textualidade. Isso permite ao aprendiz a noção de recursos linguísticos, tendo como consequência uma melhor compreensão e produção de textos.
Nesse sentido, é importante compreendermos que textualidade é o conjunto de características que constitui um texto. Costa Val (2006), citando Beaugrande e Dressler (1981), aponta sete fatores essenciais para a textualidade: a coerência e a coesão, a intencionalidade, a informatividade, a aceitabilidade, a situacionalidade e a intertextualidade.
A seguir, faremos um breve comentário sobre esses fatores, seguindo os estudos de Beaugrande e Dressler (1981), com o objetivo de esclarecer a função de cada um deles no texto:
a) coerência: é considerada o fator fundamental da textualidade, porque é ela que confere sentido ao texto, envolvendo aspectos lógicos, semânticos e cognitivos. A coerência do texto deriva de sua lógica interna e do conhecimento de mundo do recebedor. Por isso, considera-se um texto ou discurso coerente quando este apresenta uma configuração conceitual compatível com o conhecimento de mundo do receptor, pois o sentido do texto é construído pelo produtor e pelo leitor.
b) coesão: é a manifestação linguística da coerência. Dar-se por meio da expressão dos conceitos e relações subjacentes na superfície textual, sendo responsável pela unidade formal do texto, por meio dos mecanismos gramaticais e lexicais.
Para Costa Val (2006, p.10), “o fundamental para a textualidade é a relação coerente entre as ideias. A explicitação dessa relação por recursos coesivos é útil, mas nem sempre obrigatória. Entretanto, uma vez presentes, esses recursos devem ser usados de acordo com regras específicas, sob pena de reduzir a aceitabilidade do texto”.
c) intencionalidade: é a meta que vai orientar a produção do texto. Reportar-se ao empenho do produtor em construir um discurso coerente, coeso e capaz de satisfazer os objetivos de uma determinada situação comunicativa.
d) aceitabilidade: refere-se à expectativa do receptor quando se defronta com o texto. Para isso, o texto deve ter clareza, precisão, ordenação, coerência e coesão, além de ter informações relevantes.
e) situacionalidade: diz respeito à adequação e à relevância do texto no contexto em que ele ocorre. O contexto define o sentido do texto, tanto para quem escreve como para quem o recebe.
f) informatividade: o interesse do receptor depende das informações que ele necessita e que são ofertadas pelo texto.
g) intertextualidade: relaciona-se aos fatores que fazem a utilização de um texto dependente de outro texto. Pode ser considerada como “diálogos de textos”, fazendo um convite a diversas leituras, promovendo assim a construção de sentidos.
Koch e Travaglia (1989) apresentam mais três fatores:
h) focalização: relacionado diretamente com as questões de conhecimento de mundo e conhecimento partilhado. A focalização torna a comunicação eficiente e possível, por afetar a capacidade e a possibilidade do ouvinte de estabelecer a coerência de um texto interpretando- o convenientemente.
i) relevância: é uma das principais condições para o estabelecimento da coerência. Ela não se dá linearmente entre pares de enunciados, mas sim entre conjuntos de enunciados e um tópico discursivo.
j) inferências: aquilo que se usa para estabelecer relações não explícitas no texto. Elas surgem de uma necessidade e do conhecimento de mundo do leitor para que possa dar continuidade ao processo de compreensão textual.
Os PCNs também enfatizam a necessidade desses aspectos que compõem a textualidade, definindo o texto como “uma sequência verbal constituída por um conjunto de relações que se estabelecem a partir da coesão e da coerência” (BRASIL, 1997, p.25).
Schneuwly e Dolz (2004, p. 74) ressaltam que “é através dos gêneros que as práticas de linguagem materializam-se nas atividades dos aprendizes”. Daremos continuidade à discussão envolvendo gêneros textuais no tópico seguinte, salientando, conforme Schneuwly e Dolz, que, ao falarmos em situações de aprendizagens envolvendo gêneros textuais na escola, devemos lembrar que “o gênero não é mais instrumento de comunicação somente, mas é, ao mesmo tempo objeto de ensino-aprendizagem” (p. 76).