A segunda dimensão dos direitos fundamentais dominou o século XX e comporta os direitos sociais, culturais e econômicos, além dos afamados direitos coletivos.
São inspirados pelo princípio da igualdade e serviram de combustível dos ideais contrários ao Estado totalmente liberal, sugerindo que o Estado seja um ente mais preocupado com o social.
Originariamente, foram proclamados nas Constituições marxistas e nas nações que adotavam a social-democracia, em especial na Alemanha, com sua Constituição de Weimar, e nas constituições do pós-guerra de modo geral.
Devido à dificuldade de serem efetivados, tendo em vista, muitas vezes, a escassez de recursos por parte dos Estados, tais direitos tiveram um grande período de baixa normatividade, tendo até mesmo a sua natureza questionada em vários ordenamentos.
No Brasil, a doutrina hoje parece não mais discutir a natureza dos direitos sociais, sendo pacífico o entendimento de que se tratam, sim, de direitos fundamentais e, portanto, têm imediata aplicabilidade, mesmo que estejam positivados em normas de caráter programático, como se verá a seguir.
Destarte, importa registrar que, além de terem enfrentado uma fase inicial de baixa normatividade, passaram por uma crise de aplicabilidade, que se encostava na afirmação de que eram direitos de aplicabilidade programática, ou seja, não se garantia ou exigia que tais direitos fossem imediatamente aplicados, mas, sim, que, pelo menos, estivessem contidos numa norma que previsse a sua aplicação progressiva ao longo do tempo.
Não parece mais cabível, em face das disposições trazidas na Constituição Federal de 1988, a interpretação de que, para que tais direitos sejam reconhecidos como fundamentais, basta que estejam programados, pois hodiernamente entende-se que todos os direitos fundamentais possuem aplicabilidade imediata.
Nesse ponto, importante a lição do Professor Ingo Wolfgang Sarlet sobre o tema:
Ponto de partida de nossa análise será, aqui, também a constatação de que mesmo os direitos fundamentais a prestações são inequivocamente autênticos direitos fundamentais, constituindo (justamente em razão disto) direito imediatamente aplicável, nos termos do disposto no art. 5º, § 1º, de nossa Constituição. A exemplo das demais normas constitucionais e
independentemente de sua forma de positivação, os direitos fundamentais prestacionais, por menor que seja a sua densidade normativa ao nível da Constituição, sempre estarão aptos a gerar um mínimo de efeitos jurídicos, sendo, na medida desta aptidão, diretamente aplicáveis, aplicando-se-lhes (com muito mais razão) a regra geral, já referida, no sentido de que inexiste norma constitucional destituída de eficácia e aplicabilidade. O quanto de eficácia cada direito fundamental a prestações poderá desencadeardependerá, por outro lado, sempre de sua forma de positivação no texto constitucional e suas peculiaridades de seu objeto. Convém salientar, ademais, que estamos tratando de eficácia como diretamente decorrente da Constituição, e não da eficácia de direitos derivados, no sentido de direitos legais, oriundos da concretização – em nível infraconstitucional – das normas constitucionais definidoras de direitos fundamentais13.
Assim, não se pode olvidar de que a efetiva aplicação de tais direitos fundamentais de segunda dimensão é um dever do Estado, aqui um status positivo, uma postura facere, que, caso não seja cumprido, pode ser buscado por via judicial.
Em muitos Estados, até pouco tempo atrás, ainda prevalecia o entendimento de que somente os direitos de primeira dimensão, ou seja, aqueles direitos voltados para as liberdades individuais, é que eram de aplicabilidade imediata, não se atribuindo aos direitos fundamentais de segunda geração tal característica. Pensamento este absolutamente superado e que não prevalece mais nos Estados Democráticos de Direito. Atualmente, mencionada questão não mais possui relevância, ante a firme e coerente posição doutrinária de que os direitos fundamentais, independentemente de a qual dimensão pertençam, possuem, sim, aplicabilidade imediata.
De outro lado, não se pode deixar de frisar que alguns autores defendem que fatores como a globalização, novas tecnologias e avanços científicos, em conjunto, ajudaram a criar uma verdadeira crise de efetividade dos direitos fundamentais, que é sentida primeiramente no que tange aos direitos sociais e, a partir daí, contamina todas as outras dimensões dos direitos fundamentais.
Nesse ponto, vejamos o posicionamento do Professor Doutor Ingo Wolfgang Sarlet:
13
SARLET, Ingo Wolfang. A eficácia dos Direitos Fundamentais – Uma Teoria Geral dos Direitos Fundamentais na perspectiva Constitucional. 10 ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 294.
Esta sim denominada crise dos direitos fundamentais, ao menos na sua feição atual, a a despeito de ser aparentemente mais aguda no âmbito dos direitos sociais (em função da redução da capacidade prestacional do Estado, da flexibilização dos direitos trabalhistas, etc.) é, contudo, comum a todos os direitos fundamentais, de todas as espécies e “gerações”, além de não poder ser atribuída, no que diz com suas causas imediatas, exclusivamente ao fenômeno da globalização econômica e ao avanço do ideário e da “práxis” neoliberal. Basta neste contexto, apontar para o impacto da tecnologia sobre a intimidade dos indivíduos (de modo especial no âmbito da sociedade informatizada), sobre o meio-ambiente, isto sem falar no desenvolvimento da ciência genética, experiências com a reprodução humana, etc, demonstrando que até mesmo o progresso científico pode, em princípio, colocar em risco direitos fundamentais da pessoa humana. (...). Para além disso, convém que fique registrado que – além da crise dos direitos fundamentais não se restringir aos direitos sociais – a crise dos direitos sociais, por sua vez, atua como elemento de impulso e agravamento da crise dos demais direitos. Assim, apenas para ficarmos com alguns exemplos, constata-se que a diminuição da capacidade prestacional do Estado e a omissão das forças sociais dominantes, além de colocarem em cheque a já tão discutível efetividade dos direitos sociais comprometem inequivocadamente os direitos à vida, liberdade e igualdade (ao menos no sentido de liberdade e igualdade real), assim como os direitos à integridade física, propriedade, intimidade, apenas para citar os exemplos mais evidentes.14
Dessa forma, nota-se que, a priori, até mesmo o que poderia ser um bem para o desenvolvimento social – a globalização – pode se tornar uma ameaça para a efetivação dos direitos fundamentais, em especial os direitos de segunda dimensão.
Tal fenômeno global atinge de forma negativa, sem dúvidas, principalmente os países subdesenvolvidos e aqueles que possuem frágeis e jovens democracias, uma vez que nessas nações as instituições são ainda pouco estruturadas e as suas populações possuem menos possibilidades de usufruir o lado bom da tecnologia e da informação que a globalização permite de forma abrangente aos países desenvolvidos, o que agrava a problemática da efetividade e aplicabilidade dos direitos fundamentais de segunda dimensão.
14
SARLET, Ingo Wolfgang. Revista de Diálogo Jurídico. Ano I, vol.I, nº1. Abril de 2001. Salvador/BA – Brasil. P. 07/08.