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De tudo o que foi discutido até aqui resta dizer que definir uma ferramenta metodológica que atendesse aos objetivos desta tese e ao mesmo tempo estivesse de acordo com os pressupostos teóricos das duas correntes norteadoras da pesquisa não se mostrou tarefa fácil, particularmente porque nenhum dos dois arcabouços conceituais – Teoria do Meio e Interacionismo Simbólico – dispõe, como adiantado no início deste capítulo, de uma orientação consistente no âmbito da coleta de dados.

À parte às críticas que ambos sofreram por causa dessa particularidade, tal característica também se configura como um desafio para os pesquisadores, pois implica saber que, embora com pressupostos bem consolidados, principalmente no que tange à sua orientação sobre a pergunta de pesquisa e o seu viés de análise – as modificações sociais por interferência do canal diz respeito à Teoria do Meio; e o papel da comunicação interpessoal no que se refere ao Interacionismo Simbólico –, é, igualmente, fazer uso de teorias em construção. Não que sejam incompletas, mas, substancialmente, um conjunto de princípios dinâmicos que consentem ao analista a adequação de sua estrutura metodológica de acordo com as necessidades de cada objeto. Talvez por essa razão sejam, antes, duas teorias que consistentemente têm sido revisitadas nos estudos do ciberespaço, um ambiente que não existia quando do surgimento de seus pressupostos.

Sem amarras na busca pela sustentação ou contestação de seus preceitos, esses vieses de investigação valorizam a experiência empírica deixando o campo dar pistas e construir o universo da apreciação. Com isso, nesta tese, o olhar guia-se menos pela busca de sancionar hipóteses e prefere descrever e descobrir, a partir dos dados que emergem do campo, as respostas para as perguntas-guia do estudo e dessa forma estabelecer uma compreensão sistêmica da complexa funcionalidade e serventia dos comentários de leitores na web.

Assim, ao edificar uma metodologia para a tese, propôs-se ter como base três frentes de indagação: um levantamento quantitativo-descritivo, por meio do mapeamento, para conhecer as condições de uso do dispositivo; outro estudo, qualitativo-analítico, guiado pelas bases de ambas as teorias; e, por fim, uma indicação taxonômica, para criar taxionomias de comentários de leitores, tentando abarcar categorias a partir do uso pelo canal, pelo usuário e pelo veículo.

A ideia de mesclar diferentes ferramentas metodológicas parece ser bem aceita nos estudos das ciências sociais e, também, do ciberespaço. Segundo Fragoso, Recuero e Amaral (2011), mesmo que por muito tempo os modelos qualitativos e quantitativos tenham sido apontados como excludentes e até incompatíveis, as abordagens complementares entre essas duas perspectivas podem trazer um olhar sistêmico para objetos complexos como os da internet. As próprias autoras, ao fazer um levantamento das análises mais comuns nos diferentes formatos de investigação no ciberespaço, mostram que diversas pesquisas mesclam estudos com enfoques variados, unindo vieses estatísticos, etnográficos, estudos de caso, entre outros. O hibridismo é mesmo apontado como uma boa estratégia para contemplar pesquisas cujas perguntas não são bem resolvidas com a escolha de uma abordagem metodológica exclusiva.

Questões complexas e universos heterogêneos e dinâmicos como a internet, frequentemente requerem observações em diferentes escalas de análise, bem como desenhos metodológicos que combinam diferentes estratégias de amostragem. A composição multiescalar e multimetodológica favorece percepções holísticas e viabiliza o cruzamento de informações, potencializando a validade dos resultados da pesquisa (FRAGOSO et al, 2011, p. 69).

Um dos modelos citados pelas autoras e que tem se tornado referência no campo da comunicação on-line é a metodologia híbrida adotada pelo GJol e que já foi apresentada

aqui como uma boa estratégia para abarcar tanto as questões da Teoria do Meio quanto as do Interacionismo Simbólico. Nesse modelo os pesquisadores mesclam estudos quantitativos e qualitativos afim de envolver novos e mais completos sentidos aos seus objetos de observação. Noci e Palácios (2007) apontam nomes que, como eles, têm preferido uma metodologia com esses dois braços de análise aos modelos unilaterais. Entre eles estão Schwingel (2003) e Moherdaui (2005), que mesclam estudos quantitativos com pesquisas de campo do tipo participante; Machado (2000) e Silva Junior (2000), com levantamentos quantitativos e observação descritiva simples; Machado, Borges e Miranda(2005) e Palacios e Munhoz (2005); que adotam a “observação sistemática a distância, complementada com entrevistas e aplicação de questionários” (NOCI e PALÁCIOS, 2007, p.03).

O modelo metodológico adotado pelo Gjol, mesmo apresentando certas características específicas para pesquisas no campo digital, tem larga tradição no campo do Jornalismo (Park, 1921; Rosten, 1937; Breed, 1952; Tunstall, 1970; 1972; Tuchman, 1978; Gans, 1980; Machado, 1992; Ribeiro, 1993). Para o pesquisador do Gjol o fenômeno jornalismo assume a configuração de um processo que, para fins esquemáticos,consta de quatro etapas: 1) apuração 2) produção 3) circulação e 4) consumo de informações. Essas quatro etapas são consideradas como parâmetros essenciais para a organização de modelos de produção de conteúdos jornalísticos em sociedades complexas (MACHADO E PALÁCIOS, 2007, p. 03).

A metodologia híbrida tem sido apontada como uma referência aos estudos do jornalismo já que permite um entendimento aprofundado dos fundamentos teóricos que norteiam suas alterações, aliado à descrição real das particularidades das organizações e sua prática diária. Conforme Machado e Palácios (2008) defendem, o modelo híbrido é mais democrático porque, ao ter acesso, inicialmente, aos dados quantitativos, o pesquisador encontrará mais subsídios para pensar a organização e a escolha do enfoque na pesquisa qualitativa. Segundo os autores, esse formato permite que cada pesquisador – depois da averiguação quantitativa do seu objeto – crie suas categorias de análise com maior liberdade e, por causa da aproximação inicial com seu corpus de estudo, mais eficiencia. O esqueleto dessa metodologia, conforme apontam, prevê três etapas:

1) Revisão preliminar da bibliografia, acompanhada da análise de organizações jornalísticas relacionadas ao objeto de estudo; 2) Delimitação do objeto com formulação de hipóteses de trabalhos e estudos de caso com pesquisa de campo (participante ou não) nas organizações jornalísticas e 3) Elaboração de categorias de análise, processamento do material coletado e definição conceitual sobre as particularidades dos objetos pesquisados (MACHADO E PALÁCIOS, 2008, p. 201).

A análise isolada de cada um desses dados não traria uma descrição fiel da real utilidade e dos sentidos que essa ferramenta agrega nos seus diferentes modos de uso e apropriações. “Neste modelo híbrido, procedimentos de pesquisa qualitativa e quantitativa são ações complementares no processo contínuo de compreensão conceitual sobre a produção de informações nas organizações jornalísticas [...]” (MACHADO E PALÁCIOS, 2008, p. 200).

Ao defender o modelo quali-quantitativo nos estudos das ciências sociais, Goldenberg (2004) argumenta que a quantificação tem se mostrado produtiva para a compreensão de um problema e pode ser até reveladora na orientação do recorte analítico, desde que não ignore as singularidades que serão apontadas nos estudos qualitativos. Pelo seu argumento, conclui-se que, como é impossível a um pesquisador chegar ao conhecimento completo da realidade, quanto mais possibilidades de abordagens, mais luz será lançada às questões propostas no estudo. E são justamente as diversas formas de abordar as questões e ter acesso aos dados que vão permitir uma visão inteligível de relações complexas, como as da comunicação mediada pelo computador por exemplo. Segundo a autora, a integração dos dois modelos produz mais confiança ao pesquisador, confiança de que seus dados não são um caso específico, particular, isolado, mas representativos da realidade no recorte proposto no estudo.

Enquanto os métodos quantitativos pressupõem uma população de objetos de estudo comparáveis, que fornecerá dados que podem ser generalizáveis, os métodos qualitativos poderão observar, diretamente, como cada indivíduo, grupo ou instituição experimenta, concretamente, a realidade pesquisada . A pesquisa qualitativa é útil para identificar conceitos e variáveis relevantes de situações que podem ser estudadas quantitativamente. (GOLDENBERG, 2004, p. 63).

A escolha da metodologia híbrida atende à expectativa deste projeto porque busca dar conta das duas necessidades deste levantamento: inicialmente traçar um perfil geral da função dos comentários, para que servem do ponto de vista estrutural e de uso por meio de veículos e usuários; e em segundo lugar entender sua função como objeto social. Nesse sentido tentar compreender se são capazes, nas condições oferecidas e utilizadas, de acompanhar o frêmito em torno das novas tecnologias na mídia. Essa seleção

representa exatamente a tentativa de encontrar uma abordagem que englobe as duas dimensões: as condições de escolha e as apropriações.

A mescla do estudo quantitativo com o qualitativo permite conhecer a realidade geral do dispositivo e as particularidades com relação à disponibilização de recursos tecnológicos que gerem maior aproximação com o público; na etapa do mapeamento podemos enxergar, por exemplo, como é efetivamente a plataforma, se se apresenta de maneira diferente em mídias distintas – revistas, jornais etc –, suas regras de uso e formas de instigar ou inibir a interação; por outro lado, no âmbito da análise qualitativa, vai relacionar esse perfil com os apontamentos teóricos e permitir enxergar os processos e transformações que esse recurso promove e, ao mesmo tempo, o papel do usuário na sua construção de sentido.

Com a escolha do modelo híbrido, a etapa descritiva, por meio do mapeamento pareceu adequada porque ela dialoga diretamente com a proposta de enxergar o canal na sua estrutura, mas também permite averiguar os processos interativos.

A metodologia descritiva, baseada na observação do meio, é a mais usada pelos estudiosos que, dentro do âmbito da comunicação, centram seu objeto de estudo na estrutura. Se aplica tanto para analisar a estrutura completa da web, como para estudar a incorporação de elementos mais específicos, como podem ser as imagens, os elementos multimídia e os serviços interativos. (NOCI E PALÁCIOS, 2007, p.54 - Tradução livre) 20

Dos modelos de estudos descritivos, o mapeamento tem sido uma tendência nas Ciências Humanas e Sociais, incluindo pesquisas em áreas como Psicologia, Informática, Política etc. No campo da Comunicação, desde 2007 os mapeamentos organizados pela equipe do programa Rumos-Itaú Cultural têm se destacado como uma referência nessa metodologia. Ao todo já foram publicados pelo programa, que oferece bolsa de pesquisa a professores de Jornalismo de diversas instituições de ensino superior pelo Brasil, três trabalhos com esse perfil, sendo que o último levantamento, de 2012, mapeou os programas de treinamento ofertados pelas empresas de comunicação no país e no exterior, voltados para estudantes ou jovens recém-formados.

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La metodología descriptiva, basada en la observación del medio, es la más extendida entre los studiosos que, dentro del ámbito de la Comunicación, centran su objeto de estudio en el diseño. Se aplica tanto para analizar la estructura completa de la web, como para estudiar la incorporación de elementos más specíficos, como puedan ser las imágenes, los elementos multimedia o los servicios interactivos.

O mapeamento pode ser uma ferramenta adequada no estudo dos comentários de leitores na web, dentro da perspectiva desta tese, porque como metodologia ele representa um olhar que vai além dos dados, e a partir da descrição detalhada traz informação de âmbito qualitativo. Ele compartilha da orientação desta pesquisa porque por meio desse instrumento é possível acessar dados, informações em diferentes "cenários de uso", mas, substancialmente, porque vai além e destaca os aspectos mais relevantes do ambiente em que está inserido.

A cartografia parte ainda de outra leitura da realidade, pois não quer só buscar o qualitativo, mas também romper com a separação sujeito e objeto. Em contraposição a uma forma de pensar dicotômica, essa vertente convoca a imanência, a exterioridade das forças que atuam na realidade, buscando conexões, abrindo-se para o que afeta a subjetividade. Esta última deve ser pensada como um sistema complexo e heterogêneo, constituído não só pelo sujeito, mas também pelas relações que ele estabelece (ROMAGNOLI, 2009, p. 170).

Passos (2010, p.17) defende a proposição de que na atualidade a cartografia ganhou ainda mais um atributo: apresenta-se como um método de “pesquisa-intervenção”. Como argumenta, o desafio, nesse contexto, é fazer dessa intervenção um caminhar de revelações, não de confirmações. Para ele, o papel do pesquisador, nesse modelo é acompanhar o processo, conectar-se com as múltiplas "entradas" para entender o objeto – os mesmos preceitos da pesquisa híbrida adotada pelo Gjol.

Por fim, uma vez mescladas as duas etapas da pesquisa, o último procedimento é propor uma taxionomia de comentários. Noci e Palácios (2007), ao falar da importância dos estudos de taxionomia dos cibermeios, lembram que vários autores já fizeram uso dessas categorizações para contribuir para as pesquisas envolvendo a comunicação no ciberespaço. Os autores até mesmo defendem a concepção de que as investigações desse modelo devem atender a pelo menos três etapas: a estrutura do meio de comunicação, as características específicas do meio e sua identificação; e, por último, sua dinâmica de relacionamento e interação.

O discurso atual sobre a mídia on-line requer estudar os tipos, no momento em que, de fato, enquanto alguns são mais ou menos consolidados, outros

estão em uma fase ainda de definição ou conceituação (NOCI E PALÁCIOS, 2007, p. 17 – tradução livre).21

A descrição encaixa-se com esmero na busca por uma categorização dos comentários de leitores da web.

21 El discurso actual sobre los cibermedios requiere el estudio sobre tipologías, en el momento en que,

efectivamente, mientras unos se encuentran más o menos consolidados, otros se hallan en una fase incluso de definición o conceptualización.

3.0 INTERAÇÃO, INTERATIVIDADE, PARTICIPAÇÃO E COLABORAÇÃO