A década de quarenta foi marcada por novos avanços legais. A Constituição Federal de 1946 institui a obrigatoriedade da realização do ensino primário para as crianças brasileiras e disponibilizou autoridade a União para legislar sobre as diretrizes e bases da educação nacional (considerado até então, apenas como um ordenamento aparente). Por conseguinte, o artigo 166 designava a educação como direito de todos e obrigação das famílias e do Estado, conformando internamente, assim, os princípios de liberdade e solidariedade postos em voga no mundo após a Segunda Guerra Mundial. O artigo 167 assinalava que os díspares níveis de ensino seriam disponibilizados por diferentes níveis de poder público de forma gratuita e que era facultativo ao setor privado participar da oferta desse serviço, considerado socialmente meritório. Como complementação, o artigo 168 impôs a participação das empresas industriais, comerciais e agrícolas com mais de cem empregados na formação de seus trabalhadores através da disponibilização gratuita do ensino primário, bem como, tornou opcional a associação do discente ao ensino religioso.
Por extenso, os artigos iniciais envolvidos com o contexto educacional da Constituição Brasileira de 1946, propunham:
Art. 166 - A educação é direito de todos e será dada no lar e na escola. Deve inspirar-se nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana. Art.. 167 - O ensino dos diferentes ramos será ministrado pelos Poderes Públicos e é livre à iniciativa particular, respeitadas as leis que o regulem.
Art. 168 - A legislação do ensino adotará os seguintes princípios: I - o ensino primário é obrigatório e só será dado na língua nacional;
II - o ensino primário oficial é gratuito para todos; o ensino oficial ulterior ao primário sê-lo-á para quantos provarem falta ou insuficiência de recursos;
III - as empresas industriais, comerciais e agrícolas, em que trabalhem mais de cem pessoas, são obrigadas a manter ensino primário gratuito para os seus servidores e os filhos destes;
IV - as empresas industriais e comerciais são obrigadas a ministrar, em cooperação, aprendizagem aos seus trabalhadores menores, pela forma que a lei estabelecer, respeitados os direitos dos professores;
V - o ensino religioso constitui disciplina dos horários das escolas oficiais, é de matrícula facultativa e será ministrado de acordo com a confissão religiosa do aluno, manifestada por ele, se for capaz, ou pelo seu representante legal ou responsável. (BRASIL, 1999, p. 23)
Observando de modo mais direcional o aspecto da descentralização, a Constituição de 1946 estabeleceu através do artigo 169 que anualmente, a União teria de aplicar nunca menos de dez por cento, e os estados, o Distrito Federal e os municípios nunca menos de vinte por cento da renda resultante dos impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino. No artigo 170 foi determinado que a União organizasse o sistema federal de ensino e dos territórios, tendo o sistema federal de ensino o caráter supletivo, estendendo-se a todo o país nos estritos limites das deficiências locais. No artigo 171 vinculou aos estados e o Distrito Federal a organização dos seus sistemas de ensino, tendo para o desenvolvimento desses sistemas a União como parceira financeira com auxílio pecuniário, sobretudo, para o ensino primário (que era obrigação do Estado), através do provimento do respectivo Fundo Nacional.
Como ressalva fica explicado à ausência dos municípios na configuração administrativa da educação nacional, a carência de investimentos em instituições educacionais rurais (predominante, naquele momento no país), a falta de aborde legal ao amparo financeiro e de capacitação da magistratura, bem como, o direcionamento dos recursos destinado aos anos iniciais da formação escolar. Sobre este último ponto, alguns decretos-lei foram constituídos como complementação na busca da aborde de criação de núcleos de pesquisas e centros de ensino superior.
Contudo, o maior problema desse período tenha sido a inexistência da aprovação da Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional, onde seriam expostos legalmente e detalhadamente pontos que envolviam os fins e os deveres da educação, as metas e os objetivos dos distintos níveis de ensino, a partilha administrativa e financeira do sistema de formação, e o papel da assistência social da escola, além de seus dispositivos gerais e transitórios.
Tabela 25 – Outros acontecimentos relevantes da educação brasileira e mundial
Data Fatos da década de quarenta
02 de janeiro de 1946 Decreto-lei nº 8.529 que regulamentava o ensino primário.
02 de janeiro de 1946 Decreto-lei nº 8.530 que regulamentava o ensino normal.
10 de janeiro de 1946 Decreto-lei nº 8.621 e nº 8.622 que origina o Serviço Nacional de
Aprendizagem Comercial – SENAC.
20 de junho de 1946 Decreto-lei nº 9.388 que institui a criação da Universidade Federal de Pernambuco.
20 de agosto de 1946 Decreto-lei nº 9.613 que regulamentava o ensino agrícola.
22 de agosto de 1946 Decreto-lei nº 9.632 que funda a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
01 de julho de 1947 Abonado para a criação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica – ITA. 1948
O governo federal, por meio do Ministro Clemente Mariani, conduz ao Congresso Nacional o projeto de Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional (foram necessários treze anos de debate até a
definição do texto final). 1948
Realização do I Congresso Nacional da Campanha do Ginasiano Pobre que passou a ser denominado de Campanha Nacional dos Educandários
Gratuitos.
1948 É elaborada a Organização Mundial de Educação Pré-Escolar –
OMEP, vinculada ao setor privado internacional. Fonte: Autor (2013).
A propósito da distribuição federativa dos estabelecimentos escolares a grande maioria ficava sobre responsabilidade do Estado. Considerando as escolas de ensino primário no ano de 1947, apenas 13% eram providas pela esfera privada, ficando o restante diluído na esfera pública, na proporção de 49,9% para os estados e 37,1% para os municípios. Apesar de expressiva a participação dos governos locais na oferta do ensino primário e da quase inexistência do governo federal, os recursos e as deliberações políticas e administrativas eram centralizadas pela União.
Os estados da região Norte eram os que apresentavam maior concentração de estabelecimentos sobre a tutela da esfera regional, ficando os municípios com apenas 5,5% e os estados com 87,7% do ensino primário, enquanto a rede particular era incumbida de 6,8%. Já a região Sudeste demonstrava a partilha mais equilibrada, simultaneamente com a menor participação estadual no ensino primário, o que correspondia a 49,7%, os municípios detinham 29,4% e o sistema privado ocupava-se com 20,9%. Como extremo, pode ser citado o Amapá com 100% do ensino primário oferecido pela rede estadual, o Rio Grande do Sul com 69,8% disponibilizada pela rede municipal e a Guanabara com 73,9% oferecido pela rede particular.
Tabela 26 – Percentual de estabelecimentos do ensino primário sobre responsabilidade das distintas esferas de poder público e do setor privado em 1947
Estados Governo
Federal Estadual Municipal Particular
Rondônia* --- 90,0 --- 10,0 Acre --- 60,7 32,8 6,6 Amazonas --- 89,0 --- 11,0 Roraima --- 92,3 --- 7,7 Pará --- 94,0 0,1 5,9 Amapá* --- 100,0 --- --- Maranhão --- 27,5 61,7 10,7 Piauí --- 70,1 22,9 7,1 Ceará --- 57,2 31,8 11,0
Rio Grande do Norte --- 67,0 --- 33,0
Paraíba --- 81,4 --- 18,6 Pernambuco --- 16,7 53,8 29,5 Alagoas --- 31,6 45,6 22,8 Sergipe 0,1 58,9 23,2 17,7 Bahia --- 74,5 15,5 10,0 Minas Gerais --- 21,6 71,7 6,8 Espirito Santos --- 95,2 0,7 4,1 Rio de Janeiro --- 58,4 31,3 10,3 Guanabara** --- --- 26,1 73,9 São Paulo --- 73,5 17,3 9,2 Paraná --- 93,1 1,4 5,5 Santa Catarina --- 56,4 41,7 1,9
Rio Grande do Sul 0,1 12,4 69,8 17,7
Mato Grosso --- 74,7 12,5 12,7
Goiás --- 86,8 --- 13,2
Brasil 0,0 49,9 37,1 13,0
Fonte: IBGE. Anuário Estatístico do Brasil - 1947. *Territórios da Federação na época;
**O estado da Guanabara foi o Distrito Federal (até 1960).
De modo estrutural, neste período, o sistema de ensino básico foi composto doze anos de duração média, sendo rateado em cinco anos de curso primário, quatro de curso ginasial e três de colegial. Do mesmo modo era opcional ao aluno a escolha por uma formação na modalidade clássica ou científica. O ensino colegial suprimiu o seu aspecto propedêutico, de formação para o ensino superior, e adveio a se focar no direcionamento da formação geral do discente. Salienta-se, que a despeito dessa divisão do ensino secundário, entre clássico e científico, a prevalência efetiva de escolha foi pela preparação científica, congregando cerca de 90% dos alunos do colegial.