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ILICALARIN MİMARİSİ VE ARKEOLOJİSİ

O tradutor deve manter, no texto traduzido, as marcas textuais encontradas no original, mas como fazê-lo se cada língua é um sistema diferente, se sua evolução se processa de modo diferente e suas características fonéticas, prosódicas e ortográficas são diferentes?

No Brasil, no início do século XX, a preocupação não era, como na França, a diferença entre língua falada e escrita, mas a distinção entre o português falado no Brasil e o português de Portugal. “No Brasil, a questão de uma língua nacional e popular distinta do português era colocada através do romance social do Nordeste de Jorge Amado e, em 1928, pelo modernismo de Mário de Andrade em Macunaíma, a personagem do índio negro branqueado”. 146

145 No sentido dado por Lawrence Venuti: “o fato da tradução é apagado através da supressão das

diferenças lingüísticas e culturais do texto estrangeiro, assimilando-o aos valores dominantes na cultura da língua-alvo, tornando-o reconhecível e, dessa forma, aparentemente não traduzido. Com essa domesticação o texto traduzido passa por original, uma expressão da intenção do autor estrangeiro” (Venuti, L. O escândalo da tradução. In: Tradterm 3, São Paulo, 1996. p. 111)

146 “Au Brésil, la question d’une langue nationale et populaire distincte du portugais était posée à travers le

roman social du Nordeste de Jorge Amado et, en 1928, par le modernisme de Mário de Andrade dans Macounaïma, le personnage de l’Indien noir blanchi.” (ROUSSIN, Philippe. Misère de la littérature, terreur de l’histoire. Paris: Gallimard, 2005, p. 263).

A afirmação de Philippe Roussin é corroborada por Mário de Andrade, que escreve na introdução de sua Gramatiquinha:

Essa língua oficial se chama língua portuguesa e vem feitinha de cinco em cinco anos dos legisladores lusitanos. O governo encomenda gramáticas de lá e os representantes da nossa maquinaria política, os chamados empregados públicos, que com mais acerto se chamariam de empregados governamentais, presidentes, deputados, senadores, chefes-de-seção etc. etc. etc. são martirizados pela obrigação diária de falar essa coisa estranha que de longe vem. Só por eles, os empregados governais de graduação rica, essa língua escrita é mais ou menos, muito menos, falada. 147

Uma das possibilidades de se restituir numa tradução brasileira os elementos de língua falada do francês seria a utilização dessa língua brasileira. De fato, há um certo paralelismo entre língua brasileira e língua portuguesa e francês falado e francês escrito, mas isso não basta, porque a diferença entre a língua escrita e a língua falada em que “há a espontaneidade que envolve e dá cor à expressão do pensamento e torna a gramática instável”

148,, característica que Queneau identificou no francês e procurou introduzir em seus romances,

está presente em todas as línguas vivas, inclusive na própria língua brasileira. pois “a língua escrita não pode (...) fazer descobrir as verdadeiras características de uma língua viva; pois, por sua própria essência, ela está fora das condições da vida real” 149.

Há, no entanto, diferenças importantes entre os sistemas linguísticos francês e português. O francês possui categorias e ferramentas especializadas para a escrita. Há, por exemplo, sistemas verbais distintos para a narrativa e para o discurso, o sistema do “passé

simple”, praticamente obrigatório na narrativa, e o do “passé composé”, utilizado na língua falada. Trata-se de dois tempos verbais concorrentes, cuja distribuição corresponde – em parte – ao escrito e ao oral, uma vez que o primeiro é um tempo verbal que manifesta a ruptura com a situação de enunciação, e o outro, ao contrário, revela uma relação com a situação de enunciação. Em português, embora tenhamos um tempo verbal, o mais-que-perfeito simples, que não é mais utilizado na língua falada, assim como a questão da colocação pronominal, em que a mesóclise também já não se encontra na língua falada, essas características não podem ser comparadas ao “passé simple” do francês, porque não são obrigatórias nem na narrativa,

147 PIMENTEL PINTO, Edith. A Gramatiquinha de Mário de Andrade. São Paulo: Duas Cidades, 1990, p.

321.

148 “il y a la spontanéité qui enveloppe et colore l’expression de la pensée et rend la grammaire instable”

(ROUSSIN, Philippe. Misère de la littérature, terreur de l’histoire. Paris: Gallimard, 2005, p. 272).

149 “la langue écrite ne peut (...) faire découvrir les véritables caractères d’une langue vivante ; car, par son

essence même, elle est en dehors des conditions de la vie réelle” (ROUSSIN, Philippe. Misère de la littérature, terreur de l’histoire. Paris: Gallimard, 2005, p. 275).

isto é, se sua presença caracteriza a língua escrita, sua ausência não caracteriza a língua falada.

Além disso, o francês possui uma grafia muito variada para representar o mesmo som, resultado de um grande número de palavras homófonas que só são distinguidas pela ortografia, e que se prestam à elaboração de trocadilhos e jogos de palavras. Nesses casos são consoantes não pronunciadas, na maior parte de origem etimológica, que permitem que se distingam, na escrita, palavras de sentidos diferentes, mas que na pronúncia são exatamente idênticas. São exemplos disso as 12 formas gráficas diferentes que correspondem ao mesmo som [o]: “au, aux, aulx, eau, eaux, haut, hauts, ho, o, ô, oh, os”, significando respectivamente “ao, aos, alhos, água, águas, alto, altos, ho, o, ho, ó, ossos”, e ainda as sete formas para o som [vér]: “vair, ver, verre, verres, vers, vert, verts”, significando “pele de animal, verme, vidro, vidros, verso, verde, verdes”. De modo geral, como diz Jean-Pierre Jaffré em seu artigo

Pourquoi distinguer les homophones?, a ambiguidade dessas palavras pode ser resolvida por vários meios de que a língua dispõe: muitas vezes ela é resolvida pelo contexto e outras vezes pelo fato de a palavra pertencer a categorias gramaticais distintas, mas a heterografia permanece um excelente meio distintivo quando os outros fatores linguísticos falham. Em seguida, chega à conclusão de que “distinguindo o que o oral não distingue, a ortografia dispõe efetivamente de um certo número de procedimentos que, se não existissem, deveriam ser compensados na melhor das hipóteses por opções linguísticas comuns ao oral e ao escrito”. 150

Em um livro didático antigo, em que se defende a necessidade da distinção dos homônimos pela ortografia, encontramos a seguinte observação: “Contam-se, em francês, cerca de dois mil homófonos” 151 seguida de uma extensa lista dos mais freqüentes, entre os quais amande/amende, ancre/encre, dessein/dessin, maître/mettre, raisonner/résonner,

tante/tente, voie/voix, que se traduzem respectivamente por amêndoa/multa, âncora/tinta, desígnio/desenho, mestre/metro, raciocinar/ressoar, tia/tenda e via/voz. O falante do francês tem consciência dessa diferença entre grafia e fonética, ao passo que o português, tendo uma representação gráfica mais próxima da fonética, dá a seu falante a impressão, como já dissemos, de que “se escreve como se fala”, não tendo, portanto, a mesma preocupação com a ortografia. Isso explica porque a sociedade francesa sempre foi muito avessa a qualquer

150 “En distinguant ce que l’oral ne distingue pas, l’orthographe dispose en effet d’un certain nombre de

procédés qui, s’ils n’existaient pas, devraient être compensés dans le meilleur des cas par des options linguistiques communes à l’oral et à l’écrit”. (JAFFRÉ, Jean-Pierre. Pourquoi distinguer les homophones ?, p. 35.

reforma ortográfica, pois apenas a ortografia atesta fenômenos fonéticos há muito desaparecidos, enquanto as reformas ortográficas do português ocorrem com relativa frequência, sempre que se percebe um afastamento muito grande entre a realização fonética e a ortografia, pois a escrita é sentida como a representação da fala.152

No entanto, ainda que seja considerada como representação da fala, é inegável que em português também existe a diferença entre a língua escrita, culta, e a língua popular, falada quotidianamente e que “a essa língua popular, que se confunde com a língua falada, prestam- se um conjunto de traços de qualidade que faltam à língua escrita e que os linguistas atribuem à emoção e à necessidade de expressividade dos falantes” 153. As distinções entre a língua falada e a escrita não se resumem à representação ortográfica, mas se manifestam também no registro, no nível de língua, com diferenças sintáticas e lexicais. Essas manifestações ocorrem tanto no francês quanto em português, pois sempre “há uma discordância entre língua falada e língua escrita, uma vez que, em favor da economia, da naturalidade, da simplicidade e da expressividade, a língua oral sacrifica a concordância, a regência, a ordem; quando não, sons, sílabas, palavras e frases”. 154

Essa discordância se manifesta, evidentemente, de modo particular em cada língua. No francês ocorre, por exemplo, a supressão do “ne” na negação, que é uma marca de oralidade (deformação sintática) que ocorre no francês falado e que não pode ser reproduzida em português, devendo, pois, ser compensada de outra forma, para que seja mantido o efeito de fala espontânea. “A fala popular (...) parece caracterizar o aspecto espontâneo da língua: a ordem das palavras, a topicalização, a justaposição dos enunciados, as frases inacabadas” 155.

Para que se possam compensar as marcas de língua falada encontradas num texto francês a ser traduzido para o português, deve-se verificar quais as características do português falado que são encontradas no português do Brasil. Urbano cita, entre outras, as seguintes características do português falado no Brasil:

152 Cf. DAHLET, V. B. L'orthographe française: entre langue et résistences. e FIORIN, J. L. L'accord sur

l'orthographe: une question de politique linguistique. In: Synergies Brésil Numéro spécial 1/année 2010

153 “À cette langue populaire, confondue avec la langue parlée, sont prêtés un ensemble de traits et de

qualités censés faire défaut à la langue écrite, que les linguistes rapportent à l’émotion et au besoin d’expressivité des sujets parlants.” (ROUSSIN, Philippe. Misère de la littérature, terreur de l’histoire. Paris: Gallimard, 2005, p. 279).

154 URBANO, Hudinilson. Oralidade na Literatura (O caso Ruben Fonseca). São Paulo: Cortez, 2000, p.

104.

155 “Le parlé populaire (...) paraît caractériser l’aspect spontané de la langue : l’ordre des mots, la mise en

relief, la juxtaposition des énoncés, l’inachèvement des phrases.” (ROUSSIN, Philippe. Misère de la littérature, terreur de l’histoire. Paris: Gallimard, 2005, p. 280).

a) fonéticas:

redução de ditongo (mantega por manteiga);

reduções aferéticas ou sincopadas (tava por estava ou pra por para); redução de nd a n e de mb a m (falano por falando ou tamém por também); adições e prolongamentos (voceis por vocês);

supressão do r final dos infinitivos em ar (precisamos pará por parar); b) sintáticas:

colocação pronominal (Me dá um copo d’água?);

regência verbal (assistir [a] um filme / tenho a impressão [de] que ele ficou magoado / fui

na feira);

concordância (aqueles monte de pedra / temos que se unir);

correlação de tempos verbais (se eu pudesse, também era empresário).

Esses são, segundo Urbano, os recursos disponíveis para que se possam apresentar, em português do Brasil, diálogos em que se reconheçam elementos de língua falada.

Nossa tradução do romance Les Fleurs bleues pretende ser uma tradução que permita ao leitor brasileiro perceber as camadas de sentido percebidas pelo leitor do original. Katharina Reiss, quando trata da tradução de um texto literário, afirma que, nesses textos, os conteúdos no texto alvo devem ser transmitidos em uma organização artística análoga. Nesse caso é necessária uma tradução por identificação, em que o tradutor identifica-se com a intenção artística e criativa do autor a fim de manter a qualidade artística do texto 156.

Cabe aqui uma consideração que julgamos importante sobre a “intenção do autor”. O tradutor tem diante de si um texto, cujas marcas textuais e organização lhe permitem, na sua leitura, construir um sentido, sentido que não é, pois, inerente ao texto. Não é possível, portanto, saber qual o sentido que o autor quis dar ao texto nem qual a intenção do autor. Na realidade, como já dissemos, o tradutor enquanto leitor do original identifica nele os elementos que lhe permitiram construir um sentido e se propõe, como sua intenção, transmitir esses elementos ao seu leitor.

156 REISS, Katharina. Type, kind and individuality of text – Decision making in translation. In: VENUTI,

O tradutor, na sua leitura do original constrói um sentido, mas esse sentido não é único, por isso, na criação do texto traduzido, ele deve procurar manter as características do original para que seu leitor também possa construir um sentido na sua leitura do texto traduzido. Segundo Laranjeira, “não se trata, para o tradutor, de ‘conseguir dizer’ aquilo que o autor ‘quis dizer’, mas sim de ‘fazer’ algo semelhante ao que o autor ‘quis fazer’” 157. Imbuído do sentido criado nele pelo original, o tradutor escreve seu próprio texto, segundo sua intenção em relação ao seu leitor, “o bom tradutor é o que produz um bom texto, um bom poema, autônomo, como objeto que, uma vez criado, passa a valer e a viver por si mesmo na relação que gera com seu leitor” 158.

O resultado dessas considerações é uma tradução que, com o objetivo proposto de permitir ao leitor brasileiro ter a mesma percepção que o leitor do original, procura manter as marcas textuais e a oralidade do original. Trata-se de uma tradução em que ocorrem negociações que não pretende ser nem completamente domesticadora a ponto de, como diz Vanuti, produzir a invisibilidade do tradutor, 159 nem essencialmente estrangeirizadora, mas que, considerando o texto como um conjunto de marcas a serem transpostas para outra língua, adota soluções que permitam ao seu leitor brasileiro a construção da significância, procurando, seguindo Meschonnic, “abandonar a representação da tradução como ‘transporte’, e encará-la como ‘relação’ (...) a relação ética não implica num literalismo rigoroso, como pensava Berman, mas um respeito ao texto em sua coerência material, isto é, antes de tudo, sua rítmica”. 160 Procuramos realizar uma tradução que, poderíamos denominar “transcriativa”, segundo a poética de Haroldo de Campos: “Então, para nós, tradução de textos criativos será sempre recriação, ou criação paralela, autônoma porém recíproca. [...] Numa tradução dessa natureza, não se traduz apenas o significado, traduz-se o

próprio signo, ou seja, sua fisicalidade, sua materialidade mesma”. 161

Veremos, no próximo capítulo, exemplos de oralidade e de língua falada presentes em Les Fleurs bleues e as soluções por nós adotadas na tradução.

157 LARANJEIRA, Mário. Poética da Tradução. São Paulo: Edusp, 1993, p. 35. 158 Ibid, p. 38.

159 Cf. VENUTI, L. The Scandals of Translation: Towards an Ethics of Difference, New York: Routledge,

1998 p. 11

160 “abandonner la représentation de la traduction comme « transport », et l’envisager comme « rapport »

(...) le rapport éthique n’implique pas un rigoureux littéralisme, comme le pensait Berman, mais un respect du texte dans sa cohérence matérielle, c’est-à-dire, avant tout, sa rythmique.” (SUCHET, M. Outils pour une traduction postcoloniale. Paris: Éditions des archives contemporaines, 2009, p. 173)

161 CAMPOS, H. “Da tradução como criação e como crítica”, In: Metalinguagem & outras metas. São

Benzer Belgeler