Trombosit Fonksiyonları ve Akım Sitometri (AS) Yöntem
III – GEREÇ VE YÖNTEM
PRESSUPOSTOS DA PSICANÁLISE
A importância da linguagem e do Outro da cultura na constituição dos sujeitos (do conhecimento e do desconhecimento) foi sendo delineada nos dois campos teóricos tratados em nossa investigação. Vimos que, ao longo da história, linguagem e cultura sofreram transformações que se refletem necessariamente na formação humana, sendo importante que o pesquisador, em ambos os campos teóricos,
considere os sujeitos inseridos em um contexto histórico-cultural sempre em movimento.
No entanto Freud e os estudiosos da psicanálise citados nesta pesquisa nos fazem pensar na participação da educação e da cultura de uma maneira mais significativa no trabalho psíquico da adolescência. E é a psicanálise que nos alerta sobre a importância de ofertar a palavra aos adolescentes, considerando a "subjetividade de nossa época", como sugere Lacan (1966/1998), em que o Outro da linguagem lhes falta (às crianças e aos adolescentes) ou não lhes oferece referenciais suficientes que lhes auxiliem nessa difícil passagem da adolescência.
Dada a complexidade do nosso objeto de estudo e tentando alcançar os objetivos propostos, a saber, as implicações do analfabetismo funcional entre os adolescentes sujeitos da nossa pesquisa, lançamos mão de diferentes abordagens e recursos metodológicos baseados na pesquisa qualitativa em educação. Ludke e André (1986) apontam algumas características básicas que podem fundamentar nossa proposta, entre elas, o caráter mais descritivo dos dados coletados; a preocupação com o processo em curso e não com o produto; e o foco nos sentidos que as pessoas dão às coisas e à sua vida. Nessa perspectiva, a pesquisa qualitativa pode assumir diversas formas.
Nessa pesquisa, pudemos identificar alguns de nossos procedimentos de coleta de acordo com as características do tipo pesquisa-ação. Algumas dessas características também são comuns ao tipo de pesquisa etnográfica. E isso porque, segundo esses autores, no campo educacional, tais abordagens implicam na redescoberta do problema no campo, a atuação mais intensa do pesquisador e a duração maior do trabalho no campo, que, no nosso caso, atravessou todo o ano escolar em 2014, sendo que algumas observações começaram a ser registradas ao longo dos dois últimos anos, quando se deu a pesquisa. Outra característica desse tipo de abordagem em pesquisa qualitativa, no campo da educação, é a diversidade dos métodos de coleta. Em nossa pesquisa, utilizamos a observação direta e participativa, as entrevistas não dirigidas com os professores, a pesquisa documental, com análise da proposta pedagógica do Programa Floração e a análise dos cadernos de memorial produzidos pelos alunos, nesse caso, os textos sobre o tema adolescência e algumas rodas de conversas com grupos de adolescentes.
Assim, a diversidade dos métodos de coleta gerou, também, uma grande quantidade de dados primários a ser analisada e tivemos de optar por aprofundarmo-nos em algumas categorias desse sistema de significados psicossociais e culturais ─ que é a relação dos sujeitos adolescentes com a escola, com a linguagem escrita e com os saberes escolares.
Inseridos no espaço escolar e no cotidiano das turmas de aceleração de estudos em uma das gerências regionais de educação, foi possível colher e registrar, em diário de campo, dados importantes a partir da observação participativa em sala de aula, com visitas semanais nas turmas com as quais atuamos na coordenação regional.
Além disso, fizemos entrevistas semidirigidas com duas professoras que atuam nas turmas do Floração em diferentes escolas. Uma das entrevistas foi com uma professora especialista em alfabetização, que trabalha no Centro de Alfabetização e Letramento da Faculdade de Educação da UFMG, para nos auxiliar na análise dos textos escritos pelos alunos. A segunda entrevista foi realizada com a professora de uma das turmas na qual trabalhamos com as rodas de conversa, assim, propiciando-nos compreender a dinâmica de funcionamento dessa turma que trazia problemas mais acentuados de desinteresse, apatia e altos níveis de indisciplina e agressividade.
Baseados na oferta da palavra, que norteou nossa proposta de produção de textos, propusemos aos estudantes que escrevessem sobre a temática da adolescência, o que aconteceu em todas as oito turmas que acompanhamos ao longo de 2014. A análise dos discursos escritos nos pareceu um interessante instrumento metodológico para esta pesquisa porque a maneira como eles escrevem, não só do ponto de vista do aspecto formal da escrita, mas também de seu conteúdo, possibilitou uma série de questionamentos sobre seus dilemas e quanto aos impactos da situação de fracasso escolar em suas vidas. Na análise dos textos, levamos em consideração tanto o sujeito do conhecimento, proposto pelo enfoque histórico-cultural, como o sujeito de desejo, ou do desconhecimento proposto pela psicanálise.
A oferta da palavra, todavia, não se deu apenas no convite à escrita de textos sobre a adolescência, mas, também, no convite a falarem sobre si. Ao delimitar o campo, tornou-se necessário situar a especificidade do aporte da psicanálise
aplicada no contexto fora da clínica, porém com orientação clínica, como propomos trabalhar com os grupos de adolescentes dentro da instituição escolar, utilizando a metodologia da pesquisa-intervenção. Esse modelo tem como referenciais as metodologias participativas e as pesquisa-ação, desenvolvidas no campo das ciências sociais.
Os estudos de pesquisa-intervenção têm crescido muito no campo da infância e da juventude e revelam-se como um modo diferente de investigação já que propõem pesquisas com crianças e jovens e não sobre eles. Essa metodologia tem se mostrado relevante em pesquisas com grupos politicamente minoritários e “está afinada com uma construção sociocultural do que é investigado” (CASTRO; BESSET, 2008:12).
Dentro da proposta metodológica de pesquisa-intervenção, propomos como procedimento o “grupo de reflexão”, desenvolvido pelo NIPIAC – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Intercâmbio para a Infância e Adolescência, do I.P./UFRJ (BESSET et al., 2002). Aqui, acrescido pela abordagem clínica sustentada pela psicanálise, propõe-se que, ao mesmo tempo que se investigue, também se viabilize “a construção de um espaço de fala e intercâmbio entre jovens sobre as questões que lhes afligem” (BESSET; COUTINHO; COHEN, 2008:95). Neste espaço se privilegia o ponto de vista dos próprios adolescentes sobre sua situação no espaço público, inclusive, permitindo-lhes falar de sua experiência de exclusão no espaço escolar (COUTINHO, 2011). O trabalho envolve também um questionamento sobre as repercussões dessa experiência de exclusão (neste caso, a situação de analfabetismo funcional) que, muitas vezes, é reproduzida por eles próprios na maneira com que se apresentam e posicionam-se no social.
Assim, a criação de espaços de fala em grupos de conversação ou de reflexão pôde proporcionar aos adolescentes pesquisados a oportunidade de construir novos sentidos às suas experiências privadas e individuais a partir da interlocução entre eles, desse modo, estimulando os processos subjetivos que devem acompanhar e viabilizar a educação e a construção do sentimento de cidadania (CASTRO, 2008; COUTINHO, 2011).
Em consonância com Coutinho et al. (2012) e Zimmermann (2007), temos como pressuposto que o encontro do adolescente com a escola toma parte no trabalho subjetivo em curso na adolescência. A “escola enquanto meio de
transmissão da cultura e de inserção na linguagem contribui para fornecer o material necessário para dar forma à fantasia, participando das novas amarrações que selam os destinos pulsionais na adolescência” (COUTINHO et al., 2012:25). Mesmo estando em um grupo e em um contexto social específico, sendo reconhecido em sua singularidade, o adolescente pode tomar a palavra para si e criar um sentido para a sua vida e dos demais.
Na UFRJ, esse espaço de fala é proposto pelo Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Intercâmbio para a Infância e a Adolescência Contemporâneas (NIPIAC), no qual se delimitam pesquisas em contexto do que denominam uma “clínica em extensão” através de Grupos de Reflexão (BESSET; COUTINHO; COHEN, 2008: 95).
Na UFMG, este “espaço de fala” é proposto, entre outros, pelo Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Psicanálise e Educação (Nipse) da Faculdade de Educação como método de pesquisa, denominado Conversação (SANTIAGO, 2008: 115). Entre seus objetivos está o de promover estudos e investigações psicanalíticos em temas concernentes à inserção de crianças e jovens na educação (MIRANDA; VASCONCELOS; SANTIAGO, 2006). Essa metodologia se baseia na proposta criada pelo psicanalista francês Phillipe Lacadée (2011).
Podemos extrair dos estudos do Nipse alguns apontamentos sobre a aplicação da psicanálise à educação, a partir desses dispositivos que abrem o espaço para a fala como metodologia de pesquisa (MIRANDA; VASCONCELOS; SANTIAGO, 2006):
A oferta da palavra.
Abertura de possibilidades para interrogar os discursos já prontos, ou seja, questionar as máximas impostas pela cultura em vez de concordar com a nomeação dada pelo Outro.
Organização dos grupos sem uma determinação prévia que diga onde se deseja chegar com tal procedimento, sendo mais importante analisar o que é expresso pelos discursos dos participantes. A palavra dos participantes é tomada como material de análise.
O número de reuniões é predeterminado. Preveem-se, comumente, quatro a cinco encontros, por livre escolha dos participantes, e em média oito a dez participantes por grupo.
Assim, o trabalho em "grupos de reflexão", "rodas de conversa" ou "conversação" com os adolescentes, baseado no método clínico e proposto no tipo de pesquisa-intervenção com os referenciais teóricos da psicanálise, favoreceu a investigação e a intervenção em uma situação de sociabilidade entre os adolescentes, atravessados pelos significantes escolares, o que foi de grande relevância para esta pesquisa.
Na bibliografia pesquisada, encontramos a pesquisa de Coutinho et al. (2012), que realizou um estudo em uma turma no Rio de Janeiro, muito semelhante às turmas de Aceleração de Estudos Floração. Aliás, trata-se da mesma proposta, feita em parceira com o Governo do Rio de Janeiro e a Fundação Roberto Marinho. O nome do projeto naquela cidade é denominado “Autonomia” e é inspirado em um samba de Cartola, de mesmo título, e reforçado pelos ideais de Paulo Freire (1996), no livro "Pedagogia da Autonomia". O objetivo do projeto, segundo Coutinho et al. (2012:344), é também o mesmo: “trata-se de um programa de educação baseado nos telecursos que têm por objetivo escolarizar alunos do ensino fundamental e ensino médio que estão em distorção idade-série”. O público-alvo é semelhante: adolescentes entre 14 e 18 anos. Essa pesquisa, publicada na Revista Fractal, em 2012, foi de fundamental para organizarmos nossos próprios procedimentos metodológicos, guiados pela pesquisa-intervenção, nas rodas de conversa nas escolas.
Nos próximos capítulos, trataremos, então, da análise dos discursos escritos e falados dos adolescentes do Floração. Em cada um deles, inserimos os dados da observação participativa e das entrevistas com as duas professoras.