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I V.- KARARLAR A) ÇALIŞMA ESASLARINA İLİŞKİN

2008 (WDR) ao tema ―agricultura para o desenvolvimento‖, lançado em 2007. O WDR é um relatório anual publicado pelo Banco desde 1978, tendo se tornado uma das publicações de maior prestígio dentro da instituição. Segundo Pereira (2009), o relatório serve para sumarizar o ―estado da arte‖ em várias áreas relacionadas a políticas de desenvolvimento e estabelecer um roteiro autorizado de discussão, ancorando-se e dando visibilidade à literatura afinada com os paradigmas da instituição. Sua confecção consumiria cerca de 10% do orçamento anual do Banco para pesquisa, entre US$ 2,5 e US$ 3 milhões (PEREIRA, 2009).

A cada ano, uma temática diferente, apontada pelo presidente da instituição, é abordada nesta publicação. Gênero, mudanças climáticas, juventude, equidade, papel do estado, economias em transição, trabalho, saúde e infraestrurura são alguns temas recentes. A equipe que elabora o WDR é liderada por um membro sênior do Banco, com o suporte de um grande número de especialistas e consultores internos e externos à instituição, sob orientação de seu Economista Chefe.

A justificativa para dedicar sua 30ª edição ao tema ―agricultura para o desenvolvimento‖ reside, segundo o Banco, no fato de que três em cada quatro pessoas pobres vivem em áreas rurais de países em desenvolvimento, e a maioria delas depende direta ou indiretamente da agricultura para sobreviver. O relatório pretendia, desta forma, orientar governos e a comunidade internacional no desenho e na implementação de agendas que

―fizessem a diferença na vida de centenas de milhões de pobres rurais‖ (WORLD BANK, 2007).

O WDR 2008: Agriculture for Development serviu de base à publicação, em 2009, de outro documento, chamado ―Implementing Agriculture for Development – World Bank Group Agriculture Action Plan: FY 2010-2012‖52, que sumariza o programa pretendido pelo Banco para o desenvolvimento rural nos três anos em questão. ―O Action Plan: FY 2010-2012 pretende descrever como nós, do Banco Mundial, planejamos dar suporte ao grande consenso internacional representado pelo WDR 2008‖ (WORLD BANK, 2009, p. vii, tradução da autora). O Banco afirma que este documento é amplamente consistente com seu predecessor, o Reaching de Rural Poor, de 2003, além de seguir as diretrizes específicas traçadas no WDR 2008. Essas informações novamente ilustram como o Banco Mundial tenta operar os procedimentos de controle e organização dos discursos – no caso, vontade de verdade, comentário, autor, ritual, rarefação de quem fala -, tais como explicados por Foucault (2009).

Um importante aspecto conjuntural tornava oportuno o lançamento de tais publicações: os preços dos produtos agrícolas mais do que dobraram entre 2006 e meados de 2008, tendo recuado de 30% a 40% em meados de maio de 2009 (WORLD BANK, 2009). A volatilidade dos preços, sobretudo nos momentos de alta, tem impactos negativos aos consumidores de baixa renda, mas também afeta os países desenvolvidos que importam alimentos. Assim, o objetivo de promover o crescimento da agricultura – e conter picos de altas de preços - soa como legítimo para diversos grupos sociais.

Em comparação ao relatório de 2003, os documentos do Banco Mundial publicados em 2007 e 2009 conferem atenção relativamente maior à: a) necessidade crítica de aumentar a produtividade agrícola, especialmente dos pequenos produtores pobres, visando progredir no alívio à pobreza; b) diferenciação no mix de ajuda no âmbito dos ―três mundos da agricultura‖ (países de base agrícola, países em transformação e países urbanizados), descritos no WDR 2008; e c) o papel da agricultura em prover serviços ambientais, incluindo o contexto das mudanças climáticas (WORLD BANK, 2009).

Reformas nas políticas de comércio, preços e subsídios, políticas fundiárias, investimentos em ciência e tecnologia (sobretudo melhoramento genético e biocombustíveis), manejo e conservação de recursos naturais, diversificação da renda nas famílias rurais (através

52 Implementando a Agricultura para o Desenvolvimento – Plano de Ação do Grupo Banco Mundial para a Agricultura nos anos fiscais de 2010 a 2012. Este relatório não é abordado em profundidade neste texto porque excede a delimitação temporal que restringe a análise dos documentos ao período de vigência do Programa de Microbacias do Estado de São Paulo (até 2008), sendo mencionado em comparação do WDR 2008 sempre que possível.

da migração temporária de alguns membros e de empregos em atividades não-agrícolas), bem como a melhoria nas questões de saúde e educação, são apontados pelo Banco como instrumentos efetivos para que a agricultura contribua para o desenvolvimento – em sentido amplo e, particularmente, nos espaços rurais.

Relativizando a euforia das propostas de desenvolvimento endógeno que haviam tomado boa parte da literatura e das propostas políticas nos anos 1990 e início de 2000, o Banco revela uma posição, em certo aspecto, mais ponderada sobre descentralização, largamente estimulada nos relatórios anteriores.

Ao trazer o governo mais próximo da população rural, a descentralização tem potencial de lidar com os aspectos localizados e heterogêneos da agricultura, especialmente para a extensão. Mas nem todos os serviços agrícolas devem ser descentralizados, pois alguns deles, como pesquisa científica e vigilância sanitária de animais, têm importante economia de escala. (WORLD BANK, 2007, p. 23-24, tradução da autora).

As particularidades das agendas propostas pelo Banco Mundial para os três distintos grupos de países são um elemento importante do WDR 2008. Grosso modo, aos países de base agrícola (na África Subsaariana, por exemplo) deveriam ser aplicados programas e políticas que ―revolucionassem a produtividade‖ nas pequenas propriedades rurais. Nos países em transformação (sul e leste da Ásia, Oriente Médio e norte da África), o foco central deveria ser diminuir a disparidade da renda, através de mudanças em direção à agricultura de alto valor (pecuária e horticultura, por exemplo) e às atividades econômicas não-agrícolas no meio rural. Nos países urbanizados (como a maioria da América Latina e Caribe, Europa e Ásia Central), a agricultura poderia ajudar a reduzir a pobreza rural se os pequenos produtores se tornassem fornecedores diretos de modernos mercados de alimentos, se bons empregos na agricultura e agroindústria fossem criados e se mercados para serviços ambientais fossem introduzidos53 (WORLD BANK, 2007). Com isso, o Banco sugere uma sofisticação para o papel que a agricultura desempenha nas economias, à medida que elas se mostram mais urbanizadas/desenvolvidas. O discurso54 está alinhado à literatura que observa uma diminuição da contribuição do setor agrícola ao conjunto das atividades econômicas dos países mais desenvolvidos, como mencionado na seção 2.

53 No tocante ao meio ambiente, o Banco afirma que a agricultura é o maior segmento usuário de água do mundo, contribui para a poluição agroquímica, exaustão do solo e mudanças climáticas, emitindo gases do efeito estufa. Por outro lado, é também a maior prestadora de serviços ambientais, geralmente não reconhecidos nem remunerados, colaborando para o seqüestro de carbono, o manejo de bacias hidrográficas e a preservação da biodiversidade, por exemplo (WORLD BANK, 2008).

54 O Banco afirma: ―A contribuição da agricultura é essencial mas declinante para o crescimento, à medida que o país se desenvolve‖ (WORLD BANK, 2008, p. 27, tradução da autora).

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A análise dos documentos publicados pelo Banco Mundial mostra que a instituição se situa no alto de uma cadeia de hierarquias porque domina os processos de produção e troca de informações peritas, que são fundantes da distinção social nas sociedades informacionais. Afinal, quanto mais democráticas as instituições de uma sociedade, mais as elites têm de se distinguir para preservar a coesão e os interesses de seu grupo.

A legitimidade do poder da instituição (entendido como um potencial de exercício da sua autoridade) não se baseia apenas em sua função econômico-financeira – ou nas fichas simbólicas representadas pelo dinheiro. Está calcada também na perícia que o Banco produz e transfere, seguindo técnicas de controle e sujeição do discurso, como mostrou esta seção.

A instituição articula e lidera redes de especialistas que circulam no espaço de fluxos – vide os arranjos entre o Banco Mundial, Estados nacionais, organizações como a FAO, universidades, empresas, etc. Essas redes estabelecem, não sem conflitos, pretensos consensos (ou vontades de verdade) acerca do que é ou como deve ser o desenvolvimento rural, qual o papel da agricultura e que grau de prioridade deve-se relegar às preocupações ambientais, os quais se revelam capazes de afetar, em maior ou menor grau, as dinâmicas dos lugares em extensões deslocadas de tempo-espaço.

Nesses consensos, outros grupos, majoritários em número, podem ver seus próprios interesses parcialmente representados dentro de uma estrutura de interesses dominantes. Partindo disto, podemos entender que, no que concerne a esta pesquisa, grupos de produtores rurais geralmente têm interesse em projetos de desenvolvimento rural (a idéia não é apenas imposta externamente), do mesmo modo que o governo paulista e os órgãos de extensão rural também almejam executar políticas públicas desta natureza. No caso do Programa Estadual de Microbacias Hidrograficas de São Paulo, a viabilidade prática destes interesses é possível porque eles se inserem dentro dos interesses do Banco Mundial em atuar desta forma. A iniciativa de solicitar recursos do BIRD partiu da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, mas o desenho final do projeto foi fruto de diversas negociações e adaptações conforme as diretrizes do Banco, como mostra a próxima seção.

5 FLUXOS E PERÍCIA NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE MICROBACIAS

Benzer Belgeler