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A articulação entre o singular e o plural é fundamental para a compreensão das relações de circularidade e apropriação das ideias, de continuidade e de ruptura, bem como de subordinação e hegemonia. Em outros termos, ao investigar um determinado período histórico, faz-se necessário inserir o tema na perspectiva de sua discussão local/nacional e internacional, observando o movimento de circularidade das ideias nos âmbitos micro e macro. Essa perspectiva também permite observar de que maneira ocorre o processo de apropriação dessas ideias e como elas refletem um processo de continuidade das ideias anteriores ou se colocam como ruptura em relação ao passado. Além do mais, observar as diferentes ideias presentes no período permite vislumbrar quais delas estão em circulação e quais ganham hegemonia/poder, tornando-se o discurso oficial de um determinado grupo, e também as outras que não ganham a mesma projeção, mas que são gestadas no período.

O movimento das escolas novas é um movimento internacional, com diferentes nuanças apresentadas por seus protagonistas e contextos nacionais, como apresentado na literatura educacional. Entretanto, na historiografia, a periodização das fases de desenvolvimento desse movimento de âmbito internacional nem sempre é consensual, como também não o é no contexto brasileiro. Sobre essa questão trabalharemos em breve.

É possível, portanto, observar uma circularidade das ideias que representou diferentes formas de apropriação desse ideário, desde o uso de uma teoria adotada em países com um sistema nacional de educação formalizado e instituído a partir do final do século XIX, e um Brasil que iniciava, com a formação da republica, a necessidade de organizar o seu sistema nacional de ensino, até também as diferenças regionais em termos de provimento de escolas (acesso) e formação de professores. A esse respeito, Valdemarin (2010, p.13) aponta para as interpretações acerca de ideias gerais que resultaram em diferenças: “(...) num contexto de mudanças aceleradas, próprio da Modernidade, importa conhecer as diferentes interpretações construídas em torno da mesma ideia central para avaliar as diferenças encobertas pelos princípios gerais e verificar as atualizações que garantiram sua permanência” ou, ainda, na seguinte passagem: “Sendo a mudança de mentalidade um processo longo, a apropriação das novas concepções se deu, a principio, pela propagação da nova concepção, num processo de

apropriação conceitual e de recombinação” (VALDEMARIN, 2010, p.127). Nesse segundo período, muitos manuais estavam voltados às escolas normais e à uma formação de professores que se apropriavam dessas ideias. Entretanto, uma análise mais apurada ainda faz- se necessário para investigar as formas dessa apropriação. Segundo Hosfstetter e Schneuwly (2009), a frequência de traduções dentro de um dinâmico movimento editorial permitiu, ao mesmo tempo, reforçar as ideias centrais do movimento, bem como as operações de seleção de autores e conteúdos. Em outros termos

(…) while certainly reinforcing the centres in their role, the translations helped to redefine that role, by the operation of selections (of sites, authors, works, concepts), by resort to new media which are themselves the product of other cultural and linguistic vehicles, and which moreover may even convey quite fundamental reinterpretations of the concepts, doctrines and original theories, the latter having undergone adaptation and reappropriation in accordance with the specific needs of the new context in which they are enunciated. HOSFSTETTER; SCHNEUWLY (2009, p.458)

Dentro desta perspectiva, Depaepe, De Bont e Dams (2012) consideram a importância de evidenciar como os conceitos foram desenvolvidos, aplicados, distorcidos, mal- compreendidos, negados e disputados dentro das circunstâncias socioculturais. Essa questão é, assim, apresentada pelos autores:

Much more than a tribunal that must determine which paradigm ultimately prevailed, the history of science, in our opinion, is the discipline in which it must be shown how scientific concepts were developed, applied, appropriated, distorted, misunderstood, denied, and disputed in well-defined social and cultural circumstances” (DEPAEPE; DE BONT; DAMS; 2012, p.284)

Adicionalmente, as experiências entre os escolanovistas, no âmbito internacional e nacional, apresentam aproximações e distanciamentos e, muitas vezes, são apropriadas conjuntamente pelos slogans renovadores e inovadores da educação que exigem ainda um cuidado no tratamento dos dados/fontes. Em nossas fontes, há um intercalamento entre autores estrangeiros e nacionais e uma referência das ideias estrangeiras pelos autores.

Como afirma Certeau (2008), compreender a singularidade do discurso a partir das fontes por nós utilizadas é considerar uma sistematização realizada frente a pluralidade apresentada. O conteúdo (história) e as operações (historiografia) permitem a (re)construção e a (re)apresentação dos fatos do passado pela prática (história) e pelo seu discurso (historiografia), dentro de um contexto sociocultural e econômico que também é parte

constitutiva da (trans)formação da mentalidade e as tensões provocadas pela posição de cada sujeito. Em outros termos,

O recurso às opções pessoais provocava curto-circuito no papel exercido, sobre as ideias, pelas localizações sociais. O plural destas subjetividades filosóficas tinha, desde então, como efeito discreto, conservar uma posição singular para os intelectuais. Sendo as questões de sentido tratadas entre eles, a explicitação de suas diferenças de pensamento equivalia a gratificar o grupo inteiro com uma relação privilegiada com as ideias. Nada dos ruídos de uma fabricação, de técnicas, de imposições sociais, de posições profissionais ou políticas perturbava a paz destas relações: um silêncio era o postulado desta epistemologia (CERTEAU, 2008, p.68). No tocante à análise do discurso, é importante observar que as tendências de um período histórico permitem compreender as principais categorias que homogeneízam o discurso, como a discussão do desenvolvimento (infantil), a centralidade da escola e a renovação da educação a partir da relação entre psicologia e aprendizagem. Entretanto, a investigação histórica precisa aprofundar a análise e observar que um processo de interpretação diferenciada entre os autores/teóricos, cujas apropriações e realidades permitem diferentes compreensões, revela a heterogeneidade desse discurso.

Esse processo demonstra a importância da pesquisa histórica e da (re)escrita da história, como passamos a observar no próximo item.