4. JEOKİMYASAL İNCELEME
4.2. İz Element jeokimyası
Dentro do amplo quadro de reformas políticas e institucionais do primeiro governo Vargas (1930-1945), que tinham por objetivo mais geral a centralização político-administrativa e o fortalecimento da capacidade de intervenção do Estado, tanto no domínio político quanto econômico, é que se deu a criação do Conselho Federal de Comércio Exterior (CFCE) pelo Decreto nº 24.429 de 20 de junho de 1934. Assim, o órgão nasceu como parte importante de uma complexa engenharia administrativa prevista pela Constituição de 1934, principalmente no seu artigo 103, que, através do sistema de interventorias e da criação e aperfeiçoamento de institutos, autarquias e dos conselhos técnicos, materializou um novo desenho institucional.
89Vianna (1920, 1938, 1939, e 1947); Amaral (1930, 1934, e 1938).
90A existência do órgão se deu entre 1934 e 1949. Entretanto, o período mais efetivo de atuação como órgão de
planejamento do desenvolvimento econômico e industrial, mesmo que incipiente, foi até 1945. Muitos autores destacam o CFCE como o primeiro órgão de planejamento governamental, tendo em vista o extenso âmbito de suas atividades. A esse respeito ver: Almeida (1950); Pereira (1975); Monteiro e Cunha (1974); Diniz (1978); Draibe (1985).
É importante para os objetivos desta tese delinear o âmbito de suas atribuições e de sua composição, visando extrair informações significativas que ajudem na análise do processo de formação de uma elite estatal voltada para o planejamento econômico e industrial.
Inicialmente, a finalidade do CFCE era centralizar, racionalizar e expandir a política de comércio exterior do país dentro de um quadro onde se buscava a formulação de políticas econômicas voltadas para a redução da dependência externa. Como definia a apresentação do próprio Decreto nº 24.429 de 20 de junho de 1934 sobre a criação do órgão:
a solução racional dos problemas do comércio internacional exige combinações, acordos, favores, trocas e operações que são da iniciativa ou da alçada do poder público; considerando a oportunidade e a urgência de ser criado para esse fim um órgão coordenador de todos os departamentos federais e estaduais de produção do país e das suas classes produtoras, como têm feito as grandes nações.91
Se nos seus primeiros anos o CFCE ateve-se à elaboração de estudos e pareceres referentes à política tarifária, cambial, e de comércio exterior, entretanto, ao longo do tempo, suas atribuições foram sendo expandidas para além da política ordinária de comércio exterior, passando a resoluções, à coordenação da política econômica, e à definição de diretrizes de planejamento do desenvolvimento econômico e industrial.92
Dessa forma, o CFCE surge como um instrumento para expansão da capacidade de controle estatal sobre as atividades econômicas tendo como função assessorar o Estado na formulação de diretrizes políticas e na tomada de decisões. Durante sua existência o CFCE propôs medidas visando à coordenação do fomento da produção nacional, com o objetivo de ampliar as exportações. Assim, exerceu função de planejamento e coordenação junto aos órgãos de política econômica, atuando na regulamentação e controle dos vários setores produtivos. Entretanto, o órgão enfrentou dificuldades para a atuação efetiva como órgão de planejamento econômico, pois como aponta a literatura, havia certa superposição de órgãos, falta de integração entre suas esferas de competência, controvérsias em torno do planejamento econômico, e um modelo de desenvolvimento.93
91Apresentação do Decreto nº 24.429 de 20 de junho de 1934. 92Monteiro e Cunha (1974); Diniz (1978); Draibe (1985). 93Idem.
No que diz respeito a sua composição, era presidido nominalmente pelo próprio Presidente, mas possuía na prática um diretor-executivo. O conselho era composto inicialmente por treze membros distribuídos da seguinte forma: quatro membros indicados pelos ministérios (Ministério das Relações Exteriores; Ministério da Fazenda; Ministério da Agricultura; Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio); por um membro representante do Banco do Brasil; e por um membro representante de Associação Comercial; e três representantes de competência reconhecida nos assuntos; e por quatro consultores técnicos; todos os membros deveriam ser escolhidos diretamente pelo Presidente.94
Cabe ressaltar que, na composição do CFCE, inicialmente, não participavam diretamente os ministros de Estado, somente membros representantes dos ministérios, ainda que fosse comum a presença dos próprios ministros nas reuniões do plenário. Os membros eram pessoas que possuíam influência sobre as diretrizes da política econômica, já os consultores técnicos participavam das sessões plenárias, mas só possuíam o direito de voto no impedimento dos demais. (Monteiro e Cunha, 1974: p. 06).
Sua estrutura interna era dividida em três câmaras: a de crédito e propaganda; a de produção, tarifas e transportes; e a de comércio e acordos. Nessas câmaras eram produzidos os pareceres e propostas que eram levados à apreciação do conselho, e assim era encaminhado, se aprovado, para o Presidente da República, e somente com a aprovação destes seus atos poderiam adquirir força de lei.
Em sua primeira fase, de 1934 até 1937, foram realizadas 170 sessões ordinárias que elaboraram estudos e pareceres relativos à política de comércio exterior e a política tarifária e cambial, sugerindo medidas ligadas à política industrial. Gradativamente, as funções do CFCE foram se alargando e este passou a assessorar o governo na área de comércio exterior e a dar pareceres sobre quaisquer assuntos relacionados aos interesses econômicos do país, quando encaminhados pelo Presidente.95
A partir de 1937, e dadas às condições políticas do Estado Novo, o raio de ação do CFCE se ampliou ainda mais, tornando-se um órgão se assessoramento do Presidente da República para, praticamente, quaisquer assuntos de relevância econômica. Assim, a partir das alterações
94Conforme artigo 3º do Decreto nº 24.429 de 20 de junho de 1934. 95Diniz (1978).
atribuídas pelo Decreto-Lei nº 74 de 16 de dezembro de 1937, o CFCE adquire uma nova organização, até que se instale o Conselho Nacional de Economia (CNE) previsto pela Constituição de 1937. No seu artigo 2º fica estabelecida a nova composição com quinze (15) membros sendo dez (10) conselheiros e cinco (5) consultores técnicos. A distribuição do conselho é a seguinte: um (1) membro representante do Ministério da Fazenda; um (1) membro representante do Ministério da Agricultura; um (1) membro representante do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio; um (1) membro representante do Ministério da Viação e Obras Públicas; um (1) Membro do Ministério das Relações Exteriores; um membro (1) representante do Banco do Brasil; três (3) membros representantes de classe, respetivamente da agricultura, indústria, e do comércio tirados de listas tríplices, submetidas ao Presidente da República pela Confederação Rural Brasileira (CRB), pela Confederação Industrial do Brasil (CIB) e pela Federação das Associações Comerciais do Brasil; e um (1) membro escolhido entre pessoas de comprovada competência em assuntos e estudos econômicos e financeiros. Já os cinco (5) consultores técnicos deveriam ser escolhidos entre especialistas de tarifas alfandegárias; estatística; transportes; economia rural e direito comercial.96
Essa primeira reformulação do CFCE, com a inclusão de um membro representante do Ministério da Viação e Obras Públicas (MVOP) e de mais um conselheiro técnico, deu-se para formalizar uma dinâmica do primeiro período de existência do órgão, que já contava com a presença informal desse ministério, e também visava o maior prestígio através da ampliação da representação dos ministérios e de sua capacidade técnica. Essa reformulação está em consonância com a busca de uma melhor intermediação política dos interesses entre os ministérios e a Presidência, e com uma característica marcante desse primeiro período, qual seja, a busca de um órgão central de coordenação econômica e de planejamento do desenvolvimento.
Nesta segunda fase de 1937 até 1939, quando se operou uma nova reformulação do órgão, o CFCE realizou 60 sessões ordinárias analisando e elaborando pareceres sobre variadas questões de natureza econômica, destacando-se o projeto de lei que deu origem a criação do Conselho Nacional do Petróleo (CNP).
O CFCE foi mais uma vez reorganizado pelo Decreto-Lei nº 1.163, de 17 de março de 1939, que como aponta Diniz, “ representou o reconhecimento da evolução de fato do órgão, ao
longo dos anos anteriores, significando mais especificamente a tentativa de concretizar a idéia de um órgão central de coordenação econômica”97. A Constituição de 1937 previa a criação do Conselho Nacional de Economia (CNE), que só foi instalado posteriormente. Assim, o CFCE passou a ser reorganizado nos moldes do que seria o CNE, e desempenhou as funções de coordenação e fomento da produção, passando a ser órgão consultivo da Presidência para assuntos econômicos.98
No que diz respeito à composição do órgão, o Decreto 1.163, eleva o número de conselheiros para dezesseis (16) sendo três (3) representantes das organizações de classe da agricultura, da indústria e do comércio, sendo cada um deles escolhido dentre três nomes aposentados, respectivamente pela CRB, pela CNI e pela Federação das Associações Comerciais do Brasil. Os restantes dos membros eram escolhidos dentre pessoas de “notória competência”.
Assim com as alterações sofridas em 1937 e 1939, respectivamente, o órgão teve suas funções ampliadas ocupando posição de destaque como órgão de assessoria econômica do governo, passando a atuar como órgão consultivo da Presidência para as questões econômicas e cumprindo a função de planejamento econômico e de coordenação dos outros órgãos de política econômica. Como afirma Diniz, “o CFCE refletia um certo esforço, característico, da experiência centralizadora do período, no sentido de ensaiar formas embrionárias de planejamento econômico”.99
Segundo depoimento de Jesus Soares Pereira, “o CFCE foi a máquina deliberativa e até mesmo legislativa do Estado Novo. O verdadeiro órgão criador de legislação econômica do país”.100 Durante seu período de existência, o CFCE se destacou como um dos órgãos mais importantes e refletiu o esforço centralizador do Estado varguista a partir de um modelo incipiente de planejamento do desenvolvimento econômico e industrial. Concretamente, delineou importantes soluções para algumas das questões prioritárias da época, como a questão da instalação da siderurgia e a questão do petróleo. Assim, o CFCE é considerado por muitos autores como o primeiro órgão de planejamento das atividades econômicas no Brasil.101
97Diniz, Eli. Conselho Federal do Comércio Exterior. Verbete. In: DHBB.
98 A Constituição de 1937 previa a criação do Conselho Nacional de Economia (CNE) que seria presidido
diretamente por um Ministro de Estado e que atuaria como um órgão centralizador das questões econômicas.
99Diniz, Eli. Conselho Federal do Comércio Exterior. Verbete. In: DHBB. 100Pereira (1975: p. 49).
Conforme anteriormente descrito, segue a tabela que representa as mudanças de composição do CFCE em suas diferentes fases.
Tabela 02 - Composição e Representação no CFCE102
Composição Períodos
1934-1937 1937-1939 1939-1945
Presidência da República P P P
Min. Fazenda 1 1
Min. Trabalho, Indústria e Comércio
1 1
Min. Agricultura 1 1
Min. Viação e Obras Públicas 1
Min. Rel. Exteriores 1 1
Pres. do Banco do Brasil 1 1
Representantes das Classes Produtoras
1 3 3
Consultores Técnicos 4 5
Outros Membros 3 1 13
Total 13 15 16
Legenda: Diretor-Executivo; Representantes de reconhecida competência; P = Presidência do órgão; Min. = Representante de ministério; Pres. = Presidente.
Como mostra a tabela 02, o CFCE no seu primeiro período era composto por uma ampla representação dos ministérios interessados nos aspectos econômicos e de comércio exterior. Conforme foi se institucionalizando como órgão de planejamento econômico aumentou a representação classista e foi recrutando cada vez mais membros de “reconhecida competência”, tornando seu processo de recrutamento menos rígido e suas sessões plenárias com ampla
102 Tabela elaborada com base nos dados de Monteiro e Cunha (1974), Almeida (1950); Diniz (1978; e nos
Decretos: Decreto n. 24.429 – de 20 de Junho de 1934; Decreto-Lei n. 74 – de 16 de Dezembro de 1937; e Decreto- Lei nº 1.163, de 17 de Março de 1939.
participação dos ministérios (que agora não compunham mais formalmente o órgão) e dos representantes classistas.
O CFCE sofreu várias alterações no seu formato institucional até dezembro de 1949, quando foi extinto e deu lugar ao CNE, criado pela Constituição de 1937 e só instituído pela Constituição de 1946, e que será analisado no próximo capítulo.