O cuidado em saúde é um termo complexo cuja definição/noção, uso e aplicação, no campo da saúde, têm assumindo diferentes significados, conforme a perspectiva em que é abordado. Em seu sentido etimológico, cuidar aparece com vários significados: “imaginar, meditar, cogitar, julgar, supor, aplicar a atenção, o pensamento, a imaginação, ter cuidado, fazer os preparativos, prevenir- se, acautelar-se” (FERREIRA, 1977, p. 134).
Sua origem está relacionada à cura, que em latim é coera e “era usada num contexto de relações de amor e amizade. Expressava a atitude de cuidado, de desvelo, de preocupação e de inquietação pela pessoa amada ou por um objeto de estimação” [...]. A palavra também é derivada de “cogitare-cogitatus e de sua corruptela coyedar, coidar, cuidar, cujo sentido é o mesmo de cura: cogitar, pensar, colocar atenção, mostrar interesse, revelar uma atitude de desvelo e preocupação” (BOFF, 1999, p.91).
Do ponto de vista filosófico, o cuidado não é uma atribuição ou uma área de saber específica de nenhuma profissão, e sim uma atribuição humana. Enquanto tal, conforme se depreende do pensamento de diferentes autores consultados, com destaque para Leonardo Boff e Michel Foucault, implica um modo-de-ser-no-mundo, envolve múltiplas dimensões da vida, entre as quais o trabalho, e as relações com os outros e consigo mesmo.
Recorrendo ao pensamento de autores que analisam a produção do cuidado em saúde17, tais como Emerson Elias Merhy, Gastão Wagner de Souza Campos, Luiz Carlos de Oliveira Cecílio, José Ricardo Ayres, entre outros, procuramos apresentar algumas reflexões sobre o cuidado enquanto categoria que vem sendo debatida no campo da saúde coletiva. As reflexões em torno do cuidado têm contribuído, como afirma Ayres (2004, p. 85), para destacar a potência de reconstruir “as práticas assistenciais e a vida”, de “fugir de uma objetivação ‘dessubjetivadora’, quer dizer, de uma interação tão obcecada pelo ‘objeto de
intervenção’ que deixe de perceber e aproveitar as trocas mais amplas que ali se realizam”.
Partimos do pressuposto de que o cuidado em saúde, apesar de constituir-se em uma ação que é produzida entre quem cuida e quem é cuidado, extrapola procedimentos técnicos. Nessa perspectiva, a construção de práticas
cuidadoras no campo da saúde está vinculada aos valores e concepções de
saúde, doença e cuidado dos sujeitos que se constituem neste campo, tanto na formação (ensino) quanto no exercício profissional (trabalho).
Compartilhamos do entendimento de que
o cuidado à saúde, como prática social, se insere nesse conjunto de elementos de um modo específico, uma vez que através dele se dá corpo às representações que atuam na construção do mundo concreto e são construídas a partir daí (MINAYO; GUTIERREZ, 2010, p.1.502).
Embora não tenhamos a pretensão de construir uma definição precisa sobre o cuidado em saúde, nossa reflexão está pautada numa imagem que reconhece o seu caráter polissêmico, multidimensional, e, ao mesmo tempo, identifica perspectivas de análise que possibilitam aproximações ao objeto de estudo. Uma delas é tomá-la como uma categoria que, por si só, pode orientar as ações em saúde, articulando e integrando práticas, saberes e responsabilidades em direção às necessidades dos indivíduos.
Nessa incursão, nosso principal objetivo é compreender em que sentido as concepções de cuidado encontradas podem estabelecer um diálogo com os propósitos do serviço social no campo da saúde na atualidade. O texto apresenta-se em tópicos, destacando algumas dimensões do tema que podem contribuir com esse objetivo e para a problematização dos dados da pesquisa, a ser apresentada posteriormente.
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ILOSÓFICOEnquanto dimensão humana, o cuidado está relacionado à sobrevivência, à saúde e à qualidade de vida. Mas, o fato do ato de cuidar ser do domínio de qualquer pessoa, trabalhador da saúde ou não, o seu sentido varia de acordo com a perspectiva teórico-filosófica que se adota em diferentes contextos históricos. Entre os autores que estudaram essa temática, destaca-se o filósofo Heidegger, cujo entendimento do cuidado diz respeito à
totalidade das estruturas ontológicas do ser-aí enquanto ser-no-mundo [...] compreende todas as possibilidades da existên-cia que estejam vinculadas às coisas e aos outros homens e dominadas pela situação. Heidegger lembra a fábula 220 de Higino como um testemunho pré- ontológico da sua doutri-na do cuidado (ABBAGNANO, 2007, p.224).
Para expressar a relação do cuidado com a natureza humana, inclusive como algo que antecede e constitui o próprio Homem, Boff(1999, p. 46) também se utiliza da fábula-mito elaborada por Higino (século I, a. C) para construir suas reflexões sobre o cuidado:
Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma idéia inspirada. Tomou um pouco do barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. O que júpiter fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado quis dar nome á criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome. Enquanto Júpiter e o Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da terra. Originou-se então uma discussão generalizada. De comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu justa: Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura. Você, terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer. Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. E uma vez que entre vocês há acalorada discussão acerca do nome, decido eu: essa criatura será chamada Homem, isto é, feita de húmus, que significa terra fértil (BOFF, 1999, p. 46).
Com base nessas origens, o significado que o autor atribui para o cuidado reúne atitudes de desvelo, de atenção, zelo, mas também de preocupação, responsabilidade e inquietação. Para Boff (1999), tal atitude de
cuidado expressa tanto um modo de ser, um sair de si e voltar-se para o outro com solicitude, quanto o envolvimento e ligação afetiva com o outro e, também, de preocupação.
Para o autor, esse modo de ser é uma “forma como a pessoa humana se estrutura e se realiza no mundo com os outros” que expressam basicamente “dois modos de ser-no-mundo: o cuidado e o trabalho”. O modo-de-
ser-trabalho, projetado pela razão e por uma lógica de dominação da natureza,
seria caracterizado pela objetividade e uma relação sujeito-objeto. O modo-de-ser-
cuidado não se opõe ao trabalho, mas não seria uma relação de domínio sobre os
outros como objetos de intervenção, e sim de inter-ação e comunhão, uma relação sujeito-sujeito (BOFF, 1999, p. 92).
No mundo contemporâneo, o modo-de-ser-trabalho tem prevalecido sobre o modo-de-ser-cuidado, aumentando o descuido, a competitividade e a hostilidade nas relações de trabalho, cuja lógica “configura o situar-se sobre as coisas para dominá-las e colocá-las a seu serviço” (BOFF, 1999, p. 94). A importância de resgatar a condição humana, em sua relação com a natureza, é reforçada por Morin (2001), no livro Os sete saberes necessários à
educação do futuro quando diz
[...] o ser humano é um ser racional e irracional, capaz de medida e desmedida: sujeito de afetividade intensa e instável. Sorri, ri, chora, mas sabe também conhecer com objetividade; é sério e calculista, mas também ansioso, angustiado, gozador, ébrio, extático; é um ser da violência e de ternura, de amor e ódio; um ser invadido pelo imaginário e pode reconhecer o real, que é consciente da morte, mas que não pode crer nela; que secreta o mito e a magia, mas também a ciência e a filosofia; que é possuído pelos deuses e pelas Ideias, mas que duvida dos deuses e critica as ideias; nutre-se dos conhecimentos comprovados, mas também de ilusões e de quimeras (MORIN, 2001, p. 59).
Ao considerarmos que o cuidado em saúde é um campo que não se restringe à dimensão profissional e/ou formal, que se estende principalmente à família e/ou às relações sociais de quem precisa de cuidados, as intencionalidades que orientam as práticas dos sujeitos, profissional ou não, podem estar mais vinculadas aos afetos, ao pathos (sentimentos) do que ao logos (razão).
Nesse sentido, Ayres (2001, p. 71) salienta também que o cuidado pode exigir procedimentos técnicos, mas não se restringe a eles, pois "cuidar da saúde de alguém é mais que construir um objeto e intervir sobre ele"; no cuidado, a razão e o afeto estão misturados e é preciso captar, no ato de cuidar, quais
projetos de felicicidade” de quem quer ser cuidado; projeto de felicidade entendido enquanto experiência vivida, como “aquilo que move e identifica as pessoas em seu existir concreto. Como dispositivo compreensivo- interpretativo e referência normativa para as práticas de saúde, o projeto de felicidade é o pano de fundo que confere contornos a identidades,valores, vivências dos sujeitos (AYRES, 2007, p. 57).
Para o autor, o cuidado se dá na inter-relação entre saberes instrumentais e saberes práticos orientados por racionalidades distintas que denominou de êxito técnico e sucesso prático18. Nessa direção, o cuidado estaria vinculado a um tipo de saber advindo da práxis, ou atividade prática, denominada de sabedora prática, voltada para a realização de sujeitos e não objetos (AYRES, 2000).
Considerando os diversos significados que podem ser atribuídos ao termo, as reflexões sobre o tema se aproximam mais de noções, tornando difícil identificar uma definição de cuidado que preencha todos os seus significados. Por outro lado, é possível identificar pontos comuns em diferentes enfoques do cuidado.
Nesse sentido, o estudo realizado por Minayo e Gutierrez (2010), por exemplo, mostra que, em vários textos, a palavra cuidado é utilizada no senso comum ou sem explicitar o seu significado ou conceito. Apesar disso, sistematizaram um conjunto de propostas distintas e complementares que abrangem: 1) conceitos existenciais em que o cuidado pertence à essência
18 Segundo Ayres (2007, p. 53), o termo êxito técnico está sendo utilizado para se referir “à
dimensão propriamente instrumental da ação - por exemplo, a relação entre o uso de um vasodilatador e a redução do risco de agravos cardiovasculares em um paciente, ou da incidência desses agravos numa população”. Já o sucesso prático remete “à dimensão de atribuição de valor às implicações simbólicas, relacionais e materiais dessas ações na vida cotidiana - por exemplo, o que significa na vida de um usuário ou de uma população a identidade de hipertenso, tomar remédios, fazer controles periódicos, ser vítima de um infarto do miocárdio etc”.
humanidade, extrapola ações técnicas e implica compartilhar projetos de vida; 2) propostas que enfatizam tanto o cuidado físico e material ofertados pelos serviços de saúde quanto aqueles promovidos pela atenção doméstica;