No processo decisório para o emprego de uma OMP, a prática demonstrou que o CSNU é apoiado pelo Secretariado e considera, entre outros aspectos, a presença dos seguintes fatores:
- uma situação cujos desdobramentos poderão colocar em risco ou ameaçar a paz e a segurança internacionais;
- organizações e arranjos regionais ou sub-regionais prontos e aptos para ajudar a resolver a situação;
- cessar-fogo e comprometimento das partes em conflito com um processo de paz voltado para alcançar um entendimento político;
- objetivos políticos claros que possam ser refletidos no mandato;
- a possibilidade de ser formulado um mandato preciso para uma operação sob a égide das Nações Unidas; e
- a possibilidade razoável de se garantir a segurança do pessoal das Nações Unidas, inclusive contando-se com garantias das principais partes envolvidas.
Com a evolução da situação de conflito, as consultas se intensificam entre o Secretariado, os Estados membros, as partes envolvidas, atores regionais e os potenciais TCC, podendo ser complementadas por uma avaliação estratégica solicitada pelo SGNU a fim de levantar as opções possíveis para o engajamento da Organização. Esse estudo abrangente identifica as prioridades para a resolução do conflito e a construção da paz, somadas ao enquadramento adequado para o trabalho das Nações Unidas.
O Secretariado normalmente envia uma Equipe de Avaliação Técnica (“Technical Assessment Team” – TAM) até a área onde há possibilidade de ser empregada uma operação, assim que a situação de segurança permitir, para analisar os aspectos políticos, humanitários, de direitos humanos, militares, e estimar as implicações do emprego de uma OMP. Baseado nas constatações e recomendações da TAM, o SGNU elabora um relatório para o Conselho de Segurança recomendando opções para uma eventual OMP, incluindo vulto e recursos. Finalmente, o CSNU elabora e aprova uma resolução autorizando o emprego da OMP e determinando sua envergadura e mandato.
Pressões para deter a matança de civis ou evitar catástrofes humanitárias podem levar o CSNU a empregar uma OMP em circunstâncias não ideais, contudo, o Secretariado mantém a responsabilidade de prover uma avaliação dos riscos envolvidos na decisão de emprego e assegurar que o mandato e as capacidades estejam adequados à situação. Em qualquer caso, as lições aprendidas no passado indicam que as OMP têm poucas chances de sucesso se uma ou mais das seguintes condições não estiverem presentes:
- comprometimento das partes em conflito com um processo político para se chegar a uma paz que possa ser sustentável;
- engajamento de parcerias, arranjos e organizações regionais que possam exercer impacto positivo sobre a situação das partes em conflito;
- apoio unânime do CSNU que reflita o alinhamento de posições políticas no sentido de sustentar com determinação as ações da OMP;
- um mandato claro e exequível, com recursos em pessoal, material e finanças compatíveis, providos pelos países contribuintes e que visualize a possibilidade de evoluir para engajamentos de longo prazo em cenários não favoráveis.
Como as Nações Unidas não dispõem de contingentes próprios, as consultas com os países contribuintes têm alta relevância, tomam formas variadas e ocorrem durante as diversas fases de uma OMP, tais como:
- desenvolvimento do conceito da operação e a elaboração do mandato de uma nova operação;
- renovação ou mudanças no mandato (particularmente quanto a: ampliação ou redução no escopo da missão; introdução de funções, componentes novos ou adicionais; mudança na autorização para o uso da força);
- acontecimentos significativos políticos, militares ou humanitários; - rápida deterioração da situação de segurança;
- término, retirada ou redução da operação (inclusive quando ocorrer a transição de manutenção para construção da paz);
- antes e depois das visitas de comitivas do CSNU.
OMP multidimensionais são empregadas como parte de um amplo esforço internacional para ajudar países a fazer a transição do conflito para a paz sustentável. É necessário integrar nesse esforço de construção da paz todos os atores envolvidos, desde as autoridades nacionais até a população local. Também o sistema Nações Unidas precisa ter uma abordagem e visão integradas, por parte de todos os seus participantes, com um entendimento claro e compartilhado das prioridades, na direção de objetivos comuns. O planejamento integrado é indispensável para desenvolver essa resposta, equilibrando-se a necessidade de desenvolvimento, direitos humanos e questões de gênero, com o imperativo de prover estabilidade de segurança e humanitária. Requer um nível elevado na qualidade de cooperação, coordenação e comunicação, e pode não ser a forma ideal a ser aplicada em todas as situações, especialmente aquelas em que não há paz a ser mantida e a ação integrada pode colocar em risco a ajuda humanitária quando associada às operações de segurança.
Nesse raciocínio, uma missão integrada é aquela na qual existe, por parte de todos no sistema, uma visão compartilhada a respeito dos objetivos estratégicos da presença da ONU no nível nacional, incluindo a compreensão do ambiente operacional e a concordância na forma de maximizar a eficiência, a eficácia e o impacto das ações da Organização.
O Processo de Planejamento de Missão Integrada (“Integrated Mission Planning Process” – IMPP) visa a flexibilidade no atendimento das necessidades de uma OMP multidimensional, proporcionando um entendimento comum a todos os integrantes do sistema das Nações Unidas e podendo orientar até mesmo as operações clássicas. Em qualquer caso, a UNCT deve estar incluída no processo desde o início a fim de garantir que percepções realistas caracterizem o planejamento. Em um cenário de OMP multidimensional, é pouco provável que o processo integrado seja aplicado na íntegra devido à diversidade das pressões sofridas pelos diferentes atores presentes, contudo, é importante criar um ambiente inclusivo para favorecer elos de ligação com outros processos de planejamento associados a agências e organizações que estejam atuando no campo.