• Sonuç bulunamadı

3. GEREÇ VE YÖNTEM

3.3. İstatistiksel değerlendirme

As sensações de que o mundo não é mais o mesmo, de que as coisas estão meio fora do lugar, desencaixadas, de que não se tem mais tempo para nada e de que seria necessário mais do que 24 horas para se fazer tudo que é possível fazer ou que se tem vontade de fazer são todas sensações do homem moderno. Nas sociedades pré-modernas, tudo se passava mais lentamente porque o espaço e o tempo coincidiam totalmente e as dimensões espaciais da vida social eram dominadas pela presença, ou seja, por atividades localizadas.

Para Anthony Giddens,

o advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo, fomentando relações entre outros ‘ausentes’, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face. Em condições de modernidade, o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico: isto é, os locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências sociais bem distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente o que está presente na cena; a ‘forma visível’ do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza.(GIDDENS,1991,p.27)

De sorte que a modernidade inaugurou modos de vida que “nos desvencilharam de todos os tipos tradicionais de ordem social, de uma maneira que não tem precedentes” atesta Giddens, para quem as mudanças ocorridas nos últimos três ou quatro séculos foram “tão dramáticas e tão abrangentes em seu impacto” que, embora não se possa negar que haja algumas continuidades entre o tradicional e o moderno, “as transformações envolvidas na modernidade são mais profundas que a maioria dos tipos de mudança característicos dos períodos precedentes”. (GIDDENS, 1991, p.14)

A separação entre tempo e espaço foi, talvez, uma das mais significativas e interessantes características introduzidas pela modernidade, propiciando à era moderna um dinamismo impressionante. O tempo, agora mensurado pelo relógio mecânico1, adquiriu uniformidade e passou a ser organizado socialmente, esclarece

1 Um fenômeno que data em seus primórdios do final do século XVIII, conforme GIDDENS. As conseqüências da Modernidade,

Giddens, que considera que o tempo esvaziado cria as condições para o esvaziamento do espaço, o qual, por sua vez, se separa do lugar. O que acontece, na verdade, é que tempo e espaço se rompem para se recombinarem em relação à atividade social.

Ainda conforme Giddens, a separação entre tempo e espaço possibilita o que ele denomina de “desencaixe”, ou seja, o “deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço”. O “desencaixe” ocorre, segundo ele, a partir de dois tipos de mecanismos “intrinsecamente envolvidos no desenvolvimento das instituições sociais modernas”, que são as “fichas simbólicas” e os “sistemas peritos”. (GIDDENS, 1991, p.28-30)

Por “fichas simbólicas”, Giddens compreende os “meios de intercâmbio que podem ser ‘circulados’ sem ter em vista as características dos indivíduos ou grupos que lidam com eles em qualquer conjuntura particular”. (GIDDENS,1991, p. 30) O dinheiro é o exemplo de ficha simbólica que ele mais analisa. Os sistemas peritos, por sua vez, constituem, para Giddens, os “sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje”. (GIDDENS, 1991, p.35)

É o caso de todas as diferentes áreas de conhecimento com as quais nos envolvemos, diversas vezes no dia, nas mais simples atividades que desempenhamos. Por exemplo, quando dirigimos um veículo, acionamos uma torneira, um chuveiro, um ferro elétrico, uma máquina de lavar roupas, etc., fazemos uso dos benefícios oferecidos pelos mais diversos dispositivos sem necessariamente termos a menor idéia de como ele funciona. Habitamos um apartamento, viajamos por estradas, voamos de avião, acatamos as recomendações médicas, nos submetemos a cirurgias, tudo isso porque confiamos nesses sistemas peritos, pois nada entendemos deles.

Os sistemas peritos são mecanismos de desencaixe porque, em comum com as fichas simbólicas, eles removem as relações sociais das imediações do contexto. Ambos desencaixam fornecendo ‘garantias’ de expectativas através de tempo-espaço distanciados. Este ‘alongamento’ de sistemas sociais é conseguido por meio da natureza impessoal de testes aplicados para avaliar o conhecimento técnico e pela crítica pública (sobre a qual se baseia a produção do conhecimento técnico), usada para controlar sua forma. (GIDDENS, 1991, p.36)

Os mecanismos de desencaixe, portanto, dependem da confiança neles depositadas por nós. Giddens considera a confiança como “uma forma de ‘fé’ na qual a segurança adquirida em resultados prováveis expressa mais um compromisso com algo do que apenas uma compreensão cognitiva”, ou melhor, confiamos que tudo sairá conforme o esperado, embora pouco ou nada conheçamos a respeito. Como explica Giddens, nossa fé não é tanto no profissional - ainda que tenhamos de confiar em sua competência -, mas “na autenticidade do conhecimento perito que eles aplicam – algo que não posso, em geral, conferir exaustivamente por mim mesmo”. (GIDDENS, 1991, p.35)

É precisamente nesse esquema giddeniano de funcionamento da modernidade que o jornalismo se situa; pelo menos o jornalismo tal como o conhecemos hoje, ou seja, o jornalismo moderno, surgido em meados do século XIX e dirigido a milhões de pessoas, em que a circulação da informação possui um caráter comercial de mercado. Porque, embora as primeiras publicações periódicas tenham aparecido na Europa no final do século XVI e ao longo do século XVII, no bojo de grandes mudanças como o Renascimento, a Reforma, o incremento da urbanização, da alfabetização e do cientificismo, bem como com o surgimento dos primeiros Estados, é na modernidade que o jornalismo se molda e finca as bases sobre as quais ele vai funcionar até os dias de hoje. Que bases? As bases mercadológicas de produção, consumo e venda de informações.

A despeito, portanto, da noção fundante do jornalismo, que o entende como uma necessidade permanente da sociedade de trocar palavras e idéias entre si, isto é, de estabelecer sempre alguma forma de comunicação – em que o jornalismo seria nada mais do que a concretização de uma tendência natural da natureza social do ser humano -, o que se interessa realçar aqui é o jornalismo enquanto um tipo de palavra diferenciada, especializada, marcada e conformada por particularidades e singularidades que o capacitam a cumprir uma função determinada e talhada no social.

Daí a noção de “desencaixe” de Giddens a partir das fichas simbólicas e dos sistemas peritos servir para o entendimento da inserção do jornalismo na estrutura de funcionamento da vida moderna. Compreendendo o modo como a modernidade passa a lidar de forma socializada e desatrelada com o tempo e com o espaço mediante a aquisição de mediadores simbólicos específicos e da institucionalização do conhecimento, fica relativamente descomplicado depreender

como o jornalismo e a imprensa – ambos na condição de “sistemas peritos” especializados na produção e circulação de informações – e o jornal – entendido, em sua materialidade simbólica como uma “ficha simbólica” – puderam ser absorvidos pela sociedade moderna, conquistando um lugar e uma função próprios.

O jornalismo toma assento na modernidade, então, mediante condições propiciadas pelo próprio funcionamento da sociedade moderna. Uma sociedade que funciona, essencialmente, através da mediação simbólica especializada baseada na confiança e na fé, para se deter no ponto de vista de Giddens. Isso permite afirmar que a imprensa moderna não impõe à sociedade nenhuma condição que ela, sociedade, não esteja capacitada e ávida por acolher. A informação passa a ser um segmento específico e importante para a sociedade moderna que, ciente da sua incapacidade de gestá-la por si própria, credencia e transfere confiança para a imprensa, o jornalismo e os meios de comunicação de massa, bem como os profissionais que nela atuam, exercerem a função de informadores sociais.

Benzer Belgeler