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2. GEREÇ VE YÖNTEM

2.3. İstatistiksel Analiz

A quintessência da abordagem funcional, reitere-se, é a competência comunicativa. Isso equivale a dizer que, na verdade, o que se examina é a capacidade dos Sujeitos de usar e interpretar as expressões linguísticas numa situação de interação determinada socioculturalmente.

No modelo de Simon Dik (1978 apud Neves, 1994), o “fundo” da língua agasalha o léxico que, por sua vez, contém o somatório dos predicados básicos e dos termos básicos. Já a estrutura linguística requer, antes de tudo, um predicado, que designa propriedades e relações, e se aplica a um certo número de termos que, enfim, referem-se a entidades. Resulta daí a predicação que indica um estado-de-

coisas, ou seja, uma codificação linguística da situação.

Na esteira dessas ideias, Neves discute exemplos que, aqui, aparecem adaptados a fim de evitar a mera repetição:

Predicação: Entregar (Sean Penn) (o Oscar) (à atriz Sandra Bullock)

Entregar: predicado/ Sean Penn: entidade 1/ o Oscar: entidade 2/ à atriz Sandra Bullock: entidade 3.

Em tal predicação, cada entidade desempenha um papel semântico. Assim: Sean Penn: agente / o Oscar: objeto / à atriz Sandra Bullock: recebedor.

A autora sustenta que uma predicação como a acima descreve um estado-de- coisas: algo que pode ocorrer em algum lugar do mundo real ou mental. Ressalta- se que um constituinte circunstancial (em Hollywood) mais um operador de tempo (passado) podem conferir uma localização espaço-temporal ao estado-de-coisas.

Também se adverte que os constituintes “Sean Penn”, “o Oscar” e “à atriz Sandra Bullock” estão condicionados à semântica do predicado, por conseguinte, são os argumentos exigidos por “entregar”. Enquanto constituintes como “em Hollywood” trazem apenas informação complementar e, não fazendo parte da rede argumental do verbo, são denominados satélites.

Passado [[entregar (Sean Penn) (o Oscar) (à atriz Sandra Bullock)] (em Hollywood)]

Ocorre, ainda, que uma predicação pode aparecer como argumento de outro predicado, resultando, então, numa predicação encaixada em uma predicação

matriz, como:

Meryl Streep viu que Sean Penn entregou o Oscar à atriz Sandra Bullock em Hollywood.

Pass [ver (Meryl Streep)]

Pass [[entregar (Sean Penn) (o Oscar) (à atriz Sandra Bullock)] (em Hollywood)]

Nesse ponto, a autora faz uma ressalva: não se confundem predicação encaixada e proposição encaixada. No exemplo, o que se diz que Meryl Streep viu é um estado-de-coisas, ou seja, assume-se que existe um mundo (pode ser visto ou,

de alguma forma, percebido) em que uma pessoa chamada “Sean Penn” entrega alguma coisa a alguém.

Entretanto, numa expressão como “Meryl Streep acreditou que Sean Penn entregou o Oscar à atriz Sandra Bullock em Hollywood”, não se tem, na encaixada, um estado-de-coisas; afinal, as coisas nas quais se pode dizer que as pessoas acreditam são “proposições”, “fatos possíveis”.

Pass [acreditar (Meryl Streep)]

Pass [[entregar (Sean Penn) (o Oscar) (à atriz Sandra Bullock)] (em Hollywood)]

Dessa maneira, uma predicação, que designa um estado-de-coisas, pode se realizar dentro de uma estrutura de ordem mais alta, a proposição, que manifesta um “conteúdo proposicional”, um “fato possível”.

A análise do exemplo inicial, contudo, não se esgotou ainda, pois é preciso considerar os operadores ilocucionários. A proposição revestida de força ilocucionária constitui a chamada cláusula ou ato de fala. Assim:

Declaração

Pass [[entregar (Sean Penn) (o Oscar) (à atriz Sandra Bullock)] (em Hollywood)]

Pouco a pouco, pelo que se viu, as regras de expressão vão definindo a forma, a ordem e o padrão entonacional dos constituintes linguísticos. Em suma, o predicado é o primeiro nível de que se parte para a organização subjacente de cláusula. Finalmente, assim se configura essa organização em níveis:

Nível 1: predicados e termos Nível 2: predicação

Nível 3: proposição Nível 4: ato de fala

Em tempo: a gramática funcional é, então, uma teoria funcional da sintaxe e da semântica que se desenvolve dentro de uma teoria pragmática, ou seja, dentro de uma teoria da interação verbal. Requer-se dela que seja “pragmaticamente adequada”, embora se reconheça que a linguagem somente funciona comunicativamente por meio de arranjos sintaticamente estruturados (NEVES, 1994).

2 Da Gramática Funcional para uma Gramática Discursivo-Funcional

Na Holanda, revisões das formulações da Gramática Funcional de Dik têm servido para elaborar a teoria da Discourse Functional Grammar. Embora a Gramática Funcional e a Gramática Discursivo Funcional (doravante GF e GDF, respectivamente) conservem os mesmos princípios funcionalistas, elas se distinguem em alguns aspectos.

Cite-se uma diferença significativa entre a teoria da GF e a sua recente versão, a GDF: a guinada do modelo de análise, bottom-up na GF, para top-down na GDF.

O modelo da Gramática Discursivo-Funcional, proposto por Hengeveld (2004), elege o ato discursivo, num percurso top-down, como unidade básica de análise. Donde o falante, parte vital dessa teoria gramatical, toma decisões comunicativas para deflagrar a construção linguística de suas ideias.

Portanto, a arquitetura geral da GDF, em apertada síntese, contempla as construções da língua como resultado de um processo descendente que se inicia com a intenção do falante e termina na articulação (acústica, grafológica ou em sinais) da expressão linguística.

Figura 1. Outline of FDG (HENGEVELD, 2004, p. 4)

Mapping rules

BB

Expression rules

B GRAMMAR

Esse quadro sintetiza bem o modus operandi da GDF: o eixo central do modelo constitui-se dos seguintes níveis: interpessoal, representacional e de

expressão, nos quais se acomodam as funções pragmáticas, semânticas e

morfossintáticas, respectivamente.

Assim, poder-se-ia depreender, à luz dessa dimensão teórica, um trajeto orgânico da expressão linguística pelos três níveis de forma invariável. Na prática, contudo, algumas funções sintáticas tradicionais conseguem abreviar esse caminho.

Nada a estranhar, por exemplo, se o falante se servir de um elemento do léxico com potencial para extravasar sua reação emotiva num ato discursivo. Exemplo:

– Praga!

Uma vez introduzida no nível interpessoal e, dependendo fundamentalmente do contexto e da entoação, a palavra “praga” adquire força capaz de permitir ao falante migrar diretamente para o nível de expressão. Isso ocorre porque essa

INTERPERSONAL LEVEL REPRESENTATIONAL LEVEL EXPRESSION LEVEL C O G N I T I O N C O M M U N I C A T I V E C O N T E X T

palavra se presta à manifestação de estado emocional disfórico, donde se reveste de conteúdo pragmático, não semântico.

Os nomes próprios também são postos no nível interpessoal. Seja o exemplo:

– O Glauco desenhava criaturas incríveis e cheias de pernas.

Caso os interlocutores não partilhem, no nível pragmático, o conhecimento de quem foi o cartunista Glauco, assassinado recentemente em Osasco, o enunciado acima não terá nenhum sentido.

Sendo assim, no modelo da GDF, os substantivos próprios, ao contrário dos comuns, não são descritivos e, portanto, não se originam no componente semântico, mas, sim, no próprio ato discursivo.

O emprego do vocativo também oferece reflexões interessantes, uma vez que pode ser entendido como elemento de realização discursiva. Exemplo:

– “Toque outra vez, Sam.”

Ficou famosa a cena do filme Casablanca, em que a atriz Ingrid Bergman faz um apelo ao pianista Sam: “Play it again, Sam”. Esse chamamento inicia-se no nível interpessoal, passa pelo nível fonológico e eclode no fonético, sem passar pela sintaxe, ao fim e ao cabo.

Outro enunciado marcante, em que se insere um vocativo, é este: – “Bonita camisa, Fernandinho!”

Em comercial da década de 80, essa era a expressão elogiosa dirigida a um funcionário que ganhara prestígio de seu chefe por usar camisas da marca USTOP.

Também aqui, o vocativo Fernandinho tem origem no nível interpessoal. Interessante notar, nesse caso, que o nome próprio converte-se em comum, quando se pode aplicá-lo genericamente.

Desse modo, ainda hoje, algumas pessoas usam essa expressão, quase que como um traço da cultura popular, para homenagear os homens que se apresentam bem vestidos em determinadas ocasiões, mesmo que não atendam pelo nome Fernandinho.

Fica como saldo a seguinte conclusão: a organização top-down da GDF será importante nesta pesquisa, tanto na análise dos dados quanto nas sugestões de trabalho pedagógico que se farão a posteriori. Sua importância reside no fato de que propõe uma releitura de algumas categorias linguísticas ensinadas, tradicionalmente, nas aulas de língua portuguesa.

Benzer Belgeler