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3. GEREÇ VE YÖNTEM
3.3. İstatistiksel Analiz
A sobrevivência humana demanda uma ação transformadora do homem sobre a natureza e, em conseqüência, sobre si mesmo. Por isso, ele transforma-se ou reproduz-se ao transformar a natureza. A isso Marx e Lukács denominam de processo de trocas orgânicas entre o ser social e a natureza que se configura por intermédio do trabalho. É pelo trabalho que o homem deixa de ser apenas uma “entidade biológica”, conforme acentua Lukács (1979a, p. 87):
[...] O trabalho é antes de mais nada o ponto de partida da humanização do homem, do refinamento das suas faculdades, processo do qual não se deve esquecer o domínio sobre si mesmo. Além do mais, o trabalho se
apresenta, por um longo tempo, como o único âmbito desse desenvolvimento.
O trabalho, diferentemente do capital, é o elemento ou mediação imprescindível à existência do ser social. Isso não significa dizer que a realidade do homem reduz-se ao elemento trabalho, mas que este – em face do seu caráter ontológico - não pode ser superado. Resulta, ainda, que o homem, ao distinguir a essência a-histórica do trabalho e o caráter histórico do capital, conceba as condições e as possibilidades de um dia vir a superar o modo de produção capitalista.
Se no modo de produção capitalista as relações sociais (relações entre os homens) são mediadas e “transformadas” numa relação entre coisas (coisificação), não numa relação entre idéias, torna-se razoável deduzir-se que a centralidade ontológica está no trabalho proveniente do intercâmbio homem e natureza, ou seja, aquele que gera os meios de subsistência e de produção. Essa conclusão demanda a explicitação do conceito de trabalho produtivo e de sua conexão com o tipo de intercâmbio no qual o ser social está envolvido.
Interessa ao presente debate o estudo de dois tipos de intercâmbio33: o do homem com a natureza; e o dos homens entre si. Essa distinção é importante na medida em que aí se estabelece um divisor teórico entre aqueles que consideram o trabalho como elemento fundante do ser social (a exemplo de Marx) e outros que procuram a razão de ser do trabalho fora do intercâmbio entre o homem e a natureza.
A relação entre essas duas espécies de intercâmbio mencionadas subsiste na medida em que as conexões internas à categoria do trabalho se dão pelas mediações que envolvem a totalidade social. O trabalho, sob esse aspecto, é algo concreto e só separável da totalidade social com escopo meramente didático. É nesse sentido que a explicitação do caráter ontológico do trabalho passa a ser explorada aqui a partir das contribuições teóricas de Lukács (1979a, 2004) e de Sérgio Lessa (2002, 2006).
33 Segundo Lessa (2006), é possível se falar de um intercâmbio interno entre duas esferas da natureza (a inorgânica e a biológica). Lukács não deu destaque a esse tipo de intercâmbio mesmo porque a sua pretensão não era trabalhar uma ontologia dos seres em geral, mas uma ontologia do ser social (LESSA, 2002).
Falar em ontologia implica adentrar na chamada substância das coisas. O termo ontologia deriva do verbo grego einai (ser, ente). A ontologia “é a doutrina que estuda os caracteres fundamentais do ser, os caracteres que todo ser tem e não pode deixar de ter.” (ABBAGNANO, 1992, p. 795).
Para Lukács (2004), a ontologia – considerando-se a realidade na qual se constitui - é um complexo de complexos que guarda em si uma essência (lei universal) última, unitária e histórica. Dentro do complexo “ser em geral” há o complexo mundo dos homens (o ser social) que, diversamente da natureza, baseia- se em atos teleológicos. O objetivo do autor húngaro, longe de tratar-se de uma ontologia geral, direciona-se especificamente para explicar que o homem procura suprir as suas necessidades vitais por meio de uma processualidade mediada pelo complexo chamado trabalho (intercâmbio com a natureza).
Marx, ao explicitar essa noção de processualidade, não despreza o seu interesse pela consciência sobre o concreto. Com efeito, ele sustenta em A Ideologia Alemã (1989, p. 13) que se pode “distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião e por tudo que se queira. Mas eles próprios começam a se distinguir dos animais logo que começam a produzir os seus meios de existência.” Dessa forma, há que se distinguir o começo da consciência, que é meramente prática (“consciência do meio sensível”), da consciência sobre as relações concretas. Esta última é uma espécie de consciência tardia, haja vista que ela se percebe enquanto estágio posterior ao advento da divisão do trabalho.34
Perceber a importância do trabalho como categoria fundante é o que justifica a possibilidade da crítica e da superação da sociedade na qual se verifica o trabalho abstrato. A classificação do trabalho em produtivo e improdutivo só tem sentido quando se faz uma referência ao trabalho abstrato (relação social produtora de mais- valia). Se é admissível afirmar-se que com o aprofundamento da divisão do trabalho emerge uma tendência redutora do trabalho abstrato, igualmente é defensável a tese de que cada vez mais o trabalho evidencia-se ao homem como categoria fundante que reproduz o ser social. Essa reprodução social se dá pela unidade
34 “[...] Marx entendia a consciência como um produto tardio do desenvolvimento do ser material. [...] O produto tardio não é jamais necessariamente um produto de menor valor ontológico. Quando se diz que a consciência reflete a realidade e, sobre essa base, torna possível intervir nessa realidade para modificá-la, quer-se dizer que a consciência tem um real poder no plano do ser e não – como se supõe a partir das supracitadas visões irrealistas – que ela é carente de força.” (LUKÁCS, 1978, p. 3).
trabalho não como ato isolado de uma pessoa, mas como algo que existe na processualidade do complexo social.
Para Lukács, o ser social tem em si a propensão a reduzir o tempo de trabalho socialmente necessário à sua reprodução material. Isso importa que nem todo trabalho abstrato é necessariamente trabalho (intercâmbio orgânico entre homem e natureza), embora em ambos haja o elemento teleológico.
Em relação à ontologia do ser, Marx esclareceu que o ser dos homens é o seu processo de vida real. Lukács (1979a, p. 108) explicita que essa vida real do ser decorre da articulação de um complexo de relações:
[...] a realidade é constituída pela infinita interação de complexos que têm relações heterogêneas em seu interior e com seu exterior, relações que são por sua vez sínteses dinâmicas de componentes freqüentemente heterogêneos, cujo número de momentos ativos pode ser infinito.
A essência do ser, segundo Lukács (2004), não é algo inato, mas um complexo que se conserva transformando-se, revelando-se de modo dinâmico e contínuo na processualidade histórica do desenvolvimento ontológico. Mas a processualidade do ser social, além daquilo que comparece com caráter de continuidade, imprescinde do fenômeno.
O fenômeno é uma dimensão do real e, por isso, ao invés de se apresentar como uma contestação da existência do ser, revela-se emergindo ocasionalmente suas contradições em relação à essência. Por isso, ambos (essência e fenômeno) são elementos ou entidades sociais que interagem. Mas essa interação não significa que o fenômeno é uma determinação da essência.
A essência e o fenômeno, enquanto momentos do ser, atuam reflexivamente um em relação ao outro, sendo que o primeiro comparece de forma recorrente e o segundo de modo ocasional. E não apenas a essência, mas os fenômenos são em igual intensidade portadores de determinações do ser social. Por isso mesmo, essência e fenômeno apresentam-se na realidade como elementos indissociáveis e complexos, de sorte que a sua separação só é algo percebido a posteriori. Ambos são caracterizados pela sua relação dialético-histórica e articulam-se segundo a necessidade. Essa articulação dialética não é mecanicista. Não há uma lógica determinista em tal relação capaz de a metamorfose se reduzir à negação do ser. Na ótica de Lukács (1979a), a transformação do ser em “ser-outro” não modifica
necessariamente a essência do complexo ontológico que se dinamiza na processualidade social. A transformação do ser provém de atos teleológicos – mediados pela ação humana - que podem instituir uma nova “legalidade” incompatível com a restituição da essência pré-existente.
Se o fenômeno, portanto, não é uma determinação absoluta e passiva da essência, logo o real não é algo determinado pela essência, haja vista que esta se apresenta apenas com o caráter relativo e reflexivo. Desse modo, pode-se dizer que a práxis humana, se não é determinada de modo absoluto pela essência, possibilita uma tendência de transformação. Em suma, no processo ontológico não há determinações absolutas, por isso que a práxis – enquanto exteriorização da posição teleológica - é quem desentranha da realidade a sua possibilidade ou impossibilidade de transformação. Essa tendência de mudança, de criação de outras perspectivas, é colocada pelo próprio homem ao intervir teleologicamente na realidade. É pela práxis que o homem, ao negar ou superar os limites objetivos que lhe são impostos na realidade, tende a reproduzir a consciência sobre a concepção do mundo e da classe que lhe comparece.
A historicidade do ser tem um caráter universal, mas o mundo dos homens tem um caráter puramente social, o que não significa conceber-se a natureza como uma categoria inferior, haja vista que sem a natureza não haveria o intercâmbio e, necessariamente, não existiria o mundo dos homens.
O complexo que envolve o trabalho, isto é, o intercâmbio entre o homem e a natureza, é o mesmo que está contemplado na totalidade social. Assim, totalidade social e trabalho são duas categorias analíticas indissociáveis, de modo que a distinção entre ambas é uma abstração de teor puramente teórico.
Sem se compreender o sentido da totalidade não há como se compreender o trabalho. Este envolve uma conexão entre teleologia (presente no trabalho) e causalidade, sendo que a teleologia é uma peculiar e exclusiva categoria do ser social. Segundo Lukács, só a religião é capaz de conceber a teleologia fora do ser social, ou seja, de admitir que a consciência seja algo exterior ao próprio homem, relegando, portanto, o poder do agir humano. O fato de o homem estabelecer uma finalidade não reduz seu ato a um puro subjetivismo, mesmo porque suas escolhas são permeadas pelas condicionalidades materiais.