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4. GEREÇ VE YÖNTEM

4.4. İstatistik

chego aos Jardins. Bairro nobre. Ruas com alta arborização e baixa circula- ção de pessoas. são mais de nove horas da noite e eu sinto calor. vivemos o verão mais quente da história de são Paulo. nas ruas, nada parece circular, nem ar, nem gente. ligo o projetor e começo minha jornada: buscar muros e portões para iniltrar minha câmera de vigilância.

É a primeira vez que projeto a câmera de vigilância neste bairro, tento desco- brir onde e como ela vai funcionar. estou hesitante, um segurança me olha, aceno com a mão e passo. Paro logo à frente e encaixo a projeção na janela de uma casa branca. A janela é feita de tiras de madeira, textura que impede que a projeção ique nítida, cria um ruído. mais à frente, vejo uma guarita e ajusto a projeção nela. Faz muito sentido projetar uma câmera em uma guarita, já que os dois aparatos fazem parte do sistema de segurança. A guarita é cinza- chumbo, não vejo ninguém dentro. A projeção não consegue icar nítida, parte

124 125 mais interessado. desconio. ele me vigia enquanto o vigio? Aponto a casa e

pergunto:

- É sua?

- É sim. o que você está fazendo? - nada, apenas vigiando a sua casa. - Pode olhar, não tem problema.

o dono fecha a janela do carro, abre o portão da casa e entra.

saio, mas não desligo o projetor. conforme avanço, observo a projeção da câ- mera de vigilância lutuar pelos muros. A vigilância me acompanha: sou o único observado. o movimento da câmera me seduz, furtivo, luido, sobrevoa as su- perfícies. esqueço a estratégia inicial e continuo em movimento. Pontos-ixos já não são minha prioridade, quero experimentar o deslocamento da imagem. sinto a necessidade de registrar minha fruição em movimento. conduzo a está sobre o cinza e ica escura, parte atravessa o vidro e vaza para o fundo da

guarita, mais escuro ainda. Ainda não encontrei um bom local para a projeção.

Pedalo pela sampaio vidal rumo ao interior do bairro e em busca de suas re- giões mais soturnas. Rapidamente encontro uma série de muros adequados. Inicio o processo de mapeamento e ajusto a escala da imagem que projeto: quanto mais próxima das câmeras de segurança de “carne e osso” (metais, plásticos e lentes), melhor. Posiciono meu dispositivo de controle (feito de imagem) ao lado de duas placas de empresas de segurança privada. minha câmera começa a olhar para os lados, com a rua deserta, sou o único monito- rado. Faço uma foto, gravo um vídeo e parto para o próximo muro.

Por todos os lados, já consigo prever projeções. são muros e mais muros, todos muito parecidos, brancos ou claros. os portões, por sua vez, diferem. escolho o vermelho da casa de número 176. começo a projetar uma imagem bem gráica. um carro para e ica olhando para a projeção. Parece cada vez

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Ele me vigia enquanto o vigio?

128 129 momento em que paro em uma esquina, para dar passagem a um dos poucos

carros que cruzam a rua, a imagem da projeção se ajusta sobre um poste per- to, a uns dois metros; refaço o foco e consigo projetar minha câmera de vigi- lância em escala real, em torno de vinte e cinco centímetros. naquela escala, a imagem da câmera encaixa perfeitamente no poste, parece ter sido feita para ele. uma sensação de que cada poste merecia sua câmera, sua imagem de controle absoluto: google street view modelo 1984, as novas tecnologias de visualização do espaço controladas pelo Grande Irmão.

um carro para e as pessoas que estão nele icam observando. Parecem re- almente interessadas; dessa vez não parei na frente de nenhuma garagem. o vidro baixa e surge novamente a pergunta:

- o que você está fazendo?

- estou vigiando as ruas. o que vocês acham?

- Interessante, vou pensar sobre isso - responde uma mulher no banco traseiro. bicicleta com a câmera no pescoço, uma das mãos no guidão e a outra na il-

madora. É difícil manter a estabilidade, as imagens tremem comigo. os mús- culos começam a dar sinal de fraqueza. Persisto. sou ajudado pela bicicleta, que é elétrica. A projeção acompanha minha persistência e começo a perce- ber nuances dos diferentes anteparos entre a calçada e a rua: postes, árvores, lixeiras, arbustos, carros.

A luz do projetor ilumina algo que chama minha atenção: é o segurança da rua. ele tem uma guarita de ibra de vidro com uma luz incandescente amarela. está sentado em sua cadeira. não usa traje de guarda especializado ou terno preto. camiseta, calça jeans. Informal, quase invisível, um segurança privado à moda antiga. Garante a segurança pela coniança que os vizinhos têm nele e em seus serviços: alertar qualquer movimento suspeito, desconiar de pes- soas diferentes ou esquisitas. sua presença não amedronta; mas ser um olho que observa e julga faz dele a exata descrição de sua função: um vigia.

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as novas tecnologias de visualização do espaço

132 133 paro. vigias aparecem e somem na paisagem, silenciosos.

o bairro deserto é vigiado. Ao me deslocar pelo bairro, sou um suspeito. outra classe social, outros costumes, outras roupas. nada homogêneo. Aponto minha câmera de vigilância como resposta às muitas outras que me vigiam. contra-câmera. uma contra-vigilância que, de alguma forma, se faz presente. Ao percorrer as casas com essa contra-câmera, devolvo aos vigias a sensação de estranhamento e nervosismo que se tem nesses ambientes vigiados.

eu vejo os vigias que saem das casas, atraídos por minha câmera: tão peri- gosos quanto eu. minha contra-vigilância os torna também suspeitos. minha contra-câmera faz deles parte dos excluídos, dos que perambulam, dos que passeiam, lança-os para fora dos enclaves fortiicados. somos nós. eu e eles, habitantes do deserto espaço público vigiado.

o vidro se fecha e, sem mais comentários, eles seguem seu rumo.

Avisto outro vigia noturno e sua cabine. dessa vez, paro. Projeto a câmera sobre um papelão colado na cabine. sentado, ele me olha.

- Posso projetar sobre esse papelão?

o vigia balança a cabeça airmativamente, mas segue iel a seu posto, em sua cadeira, da qual me pergunta:

- você trabalha em jornal? Passa a noite coletando imagens? - não, é um projeto de arte. você não quer ver a projeção?

ele responde que não. despeço-me. sigo em frente.

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Benzer Belgeler