4. GEREÇ VE YÖNTEM
4.2. Yöntem
4.2.10. İstatistikî analiz
Cardoso e Dornbusch279 isentam o Brasil da culpa da crise por aqui vivenciada nos anos 1980. Na opinião dos autores, a condição internacional nos anos 1970, além da percepção em 1981 de que uma eventual crise da dívida seria de rápida solução, teriam levado o governo brasileiro a implantar ajustes incompletos ou a manter a estratégia de rolagem da dívida.
278 PEREIRA, “Moratória parcial no final de 1982” ,Folha de S. Paulo, 04.01.1983
O diagnóstico do FMI era que a crise dos países endividados era, acima de tudo, uma crise de liquidez. Segundo este diagnóstico, um choque ortodoxo traria uma rápida solução. Assim, o melhor a se fazer para os países desenvolvidos seria propor medidas austeras aos países endividados, de modo que estes, por si só, sem a necessidade de ajuda externa, continuassem a pagar suas dívidas.
A posição proposta pelo FMI isentava os bancos dos países desenvolvidos do risco e colocava o peso da crise unicamente nas costas dos países endividados, que, deveriam promover ajustes recessivos para cumprir seus compromissos. A estratégia recebera, mais tarde, o pejorativo rótulo de “muddling through”, literalmente “empurrando com a barriga”. A crença apontava que, com o tempo, ocorreria a retomada do crescimento da economia mundial e dos países subdesenvolvidos por consequência, sem ser necessárias eventuais ações específicas. Seria uma questão de tempo para o problema das dívidas ser solucionado. O crescimento econômico e as receitas com exportação garantiriam o pagamento das dívidas e o mercado voluntário de empréstimos seria restabelecido naturalmente para os países da América Latina. Interessante perceber que a idéia de que a dívida em moeda estrangeira estava na raiz do problema (o “Pecado Original”) não fora cogitada naquele momento.
Segundo Cardoso e Dornbusch, em geral, se via o Brasil com otimismo, pois a situação parecia caminhar para uma solução rápida. Não obstante a moratória mexicana, bastava a recuperação da economia mundial corresponder às expectativas para o Brasil voltar a ter acesso ao mercado voluntário de empréstimos.
Porém, os autores afirmam que algo saiu errado nos anos 1980 e a crise, que se imaginou de solução rápida, arrastou-se dolorosamente por toda uma década. As exportações brasileiras, que segundo projeções do FMI deveriam ter dobrado em 1986 ante 1982 cresceram apenas 10%. A fuga de capital e a escassez de influxos também destoaram das expectativas do mercado. O texto fora escrito em 1989:
Os desenvolvimentos dos últimos cinco anos tiveram resultados que foram em direções muito diferentes das expectativas de 1982-1983. Fica evidente que não está programado um retorno do Brasil ao mercado voluntário de empréstimos. Ainda que em 1986 um retorno ao mercado de capital parecesse possível, pelo menos na retórica dos credores, as chances hoje são mias uma vez muito remotas. A moratória de 1987 e a desordem interna, incluindo mais de 600% de inflação, foram suficientes para desenganar qualquer emprestador da noção de que a estratégia da dívida estava em andamento.280
Em meados da década de 1980, percebia-se claramente que a estratégia de empurrar com a barriga resultara num estupendo fracasso. Ao mesmo tempo, parecia claro que o problema não foi o crescimento da economia mundial, dado que os países industrializados cresceram acima das expectativas.
O problema não era com o crescimento em países industrializados. A perspectiva econômica do FMI em 1982 no argumento básico, para usar uma marca de nível específica, antecipou uma taxa de crescimento de 2,2% em média para o período de 1984-1986, enquanto a taxa real de crescimento foi, na verdade, de 3,1%.281
A tabela 16 ilustra esta informação. Nela vemos o crescimento econômico para um grupo selecionado de países entre 1976 e 1985. Como já registramos anteriormente, observa-se que até 1980, os países em desenvolvimento apresentam taxas elevadas de crescimento. Após 1981, porém, a tendência se inverte e os países industrializados recuperam rapidamente seu bom desempenho. Para esta tabela inserimos Japão e Alemanha, por entendermos que já era findo o excepcional período de “milagre econômico” vivenciado por estes países nos anos 1960 e início dos anos 1970. No período de 1976 a 1985, a economia destes, assim como do Canadá, comporta-se de modo semelhante ao experimentado pelo conjunto formado por EUA, Reino Unido e França.
Tabela 16 – Crescimento Anual do PIB para países selecionados, 1976- 1985.
Nos primeiros anos da década de 1980, a economia mundial crescia, mas o mesmo não ocorria com os países endividados. Em 1984 e 1985, as economias industrializadas voltaram a apresentar taxas elevadas de crescimento, mas o ritmo não foi acompanhado pelos países em
desenvolvimento. Ainda que alguns países como o Brasil apresentassem ganhos com a balança comercial, puxado pela retomada da economia mundial, a situação geral ainda era de crise para os paises em desenvolvimento, com inflação alta e crescimento abaixo da média. Cardoso e Dornbusch se perguntam então qual teria sido o problema. Os autores propõem quatro fatores que levaram o crescimento dos países latino americanos, Brasil incluso, a divergir das previsões feitas em 1982:
1- As taxas de juros caíram menos do que o esperado. “A perspectiva era de que elas chegassem a uma média de apenas 2% em 1984-1986 (…). Na verdade, porém, as taxas reais atingiram média de 5,4%”.282
O Gráfico 3 ilustra isto, nele se observa como, após o aumento que culminou em 1981, as taxas de juros internacionais cederam, mas mantiveram-se elevadas nos anos 1980:
Gráfico 3 – Evolução das taxas de juros interna internacionais: 1973 – 1990. Fonte: CERQUEIRA, 2003, p. 143.
2- Esperava-se que o preço das commodities voltasse a subir, o que não ocorreu. Até 1982, havia uma crença mundial de que os baixos preços destas eram fruto de um movimento cíclico, logo o aumento deveria vir mais cedo ou mais tarde. Na verdade, os preços continuaram caindo, mesmo quando comparados aos preços de 1982. Em 1987, Cardoso e
Dornbusch283 citam que o preço das commodities não derivadas de petróleo era o mais baixo desde os anos 1930. Este seria o resultado de uma queda irreversível devida à expansão da capacidade produtiva (lado da oferta) e de inovações e substituições que poupavam o consumo (lado da demanda).
3- O assim chamado “problema da transferência”, segundo o qual, recursos essenciais para o crescimento dos países do terceiro mundo teriam sido transferidos para o os países credores. Dada à impossibilidade de rolar a dívida, em virtude da falta de novos empréstimos do exterior, os governos viam-se obrigados a comprometer seus recursos para além do orçamento, o que, não raro, levava à criação inflacionária de moeda (elevando a dívida interna) para adquirir recursos para o serviço da dívida externa. Soma-se a isto a necessidade da economia nas contas nacionais, com menor consumo e investimento público e privado, o que reduz o crescimento potencial284.
4- Por último, os autores apontam a falta de coesão entre os diferentes tipos de bancos e empresas credoras das dívidas do terceiro mundo, o que levava a negociações isoladas esgotadas e a políticas propostas desgarradas, o que não colaborava com a busca de uma solução efetiva para o problema.
Ainda segundo os autores, a única boa notícia no campo internacional para o Brasil ao longo da década de 1980 teria sido a queda dos preços do petróleo, o que possibilitou ao Brasil pagar seus juros de 1985 contando somente com seu superávit comercial, que naquele ano teria sido mais elevado.
Na análise de Cardoso e Dornbusch, fatores externos seriam determinantes para se explicar o fraco desempenho brasileiro na década de 1980. Bresser Pereira também procura analisar a crise brasileira desta década, porém busca explicações internas. Num texto de 1989, publicado em 1991, expõe sua percepção de que o Brasil, via crise fiscal, teve sua grande parcela de culpa no fraco desempenho econômico da década.
A crise pode ser explicada de várias maneiras. Está bem clara sua relação com a dívida externa. A crise fiscal que se desenvolveu a partir da dívida está, obviamente, no centro da estagnação econômica.285
283 CARDOSO e DORNBUSCH, “Crises da dívida brasileira: passado e presente”, 1989, p. 172. 284 CARDOSO e DORNBUSCH, “Crises da dívida brasileira: passado e presente”, 1989, p. 172 e 173. 285 PEREIRA, “A lógica perversa da estagnação”, 1991, p. 187.
Em sua opinião, a crise da economia brasileira teria iniciado claramente em 1979, no momento da elevação dos juros internacionais. A partir daquele momento, o Brasil deveria ter-se empenhado profundamente num forte processo de ajustamento interno, coisa que não fez. O ajuste de 1981 teria sido atrasado e insuficiente. Naquele momento, a dívida tomara-se alta demais para ser paga. Problema criado, ter-se-ia desenvolvido um efeito bola de neve similar ao “problema de transferência” proposto por Cardoso e Dornbusch:
O processo de ajustamento assim descrito mostrou-se, de várias formas, perverso ou
self-defeating: em primeiro lugar, porque foi conseguido pela redução das
importações, pelo aumento das transferências reais de recursos e pela redução dos investimentos; em segundo lugar, porque foi acompanhado pela estatização da dívida externa, o que agravou o desequilíbrio das contas públicas; em terceiro, porque o aumento dos juros a serem pagos pelo Estado implica a redução da poupança pública e o aumento do déficit público - uma vez que as despesas correntes e os investimentos públicos têm que ser minimamente mantidos; em quarto lugar, porque as desvalorizações reais da taxa de câmbio, ao lado de uma inflação em aceleração, aumentaram ainda mais o déficit público; quinto, porque, como os bancos estrangeiros decidiram não aumentar suas exposições em relação aos países altamente endividados, o financiamento do déficit público, causado pela necessidade de pagar juros sobre uma dívida externa elevada, teve que ser realizado à custa do aumento do endividamento interno ou da emissão de moeda.286
O fim do fluxo de capital internacional para financiar a estratégia de rolagem da dívida teria levado o país a vivenciar uma crise que, mais tarde, seria apontada como a raiz do colapso econômico que configurou toda a década de 1980. Apesar do fato externo, mais uma vez, porém, para o autor o problema seria interno. O argumento de Bresser Pereira é que a crise brasileira possuía uma origem fiscal:
A crise fiscal tem duas consequências. Não apenas reduz a capacidade de poupança do Estado e portanto a capacidade de investimento do país, mas ao levar o setor público a emitir moeda para financiar os juros crescentes sobre sua dívida extenua e interna, provoca a aceleração da inflação. Incluo a dívida interna no raciocínio porque, com a suspensão de novos financiamentos internacionais, o Estado não tem outra alternativa para financiar seu déficit senão através da emissão de moeda e do aumento da dívida mobiliária interna, que passa a crescer rapidamente.287
Cumprir o serviço da dívida significava ao governo brasileiro gastar um recurso escasso e, com isto, reduzir a poupança pública e o investimento. Nas palavras de Pereira:
Quando a poupança pública deixa de ser positiva para se tornar negativa, o governo reduz seus investimentos (e seu consumo), ou aumenta o déficit público. Mas a redução dos investimentos pode se também relacionada diretamente coma redução do déficit público. Foi o que ocorreu em 1983 e 1984, quando a redução do déficit foi obtida principalmente através da diminuição do investimento público.288
286 PEREIRA, “A lógica perversa da estagnação”, 1991, p. 193. 287 PEREIRA, “Da Crise fiscal à redução da dívida”, 1989, p. 31. 288 PEREIRA, “Da Crise fiscal à redução da dívida”, 1989, p. 29.
O desequilíbrio do setor público ao longo da década de 1980 teria levado à queda de investimentos e à alta inflacionária. O serviço da dívida representava uma evasão de divisas. Para captar mais recursos via Balança Comercial, o governo desvalorizava a moeda, gerando a aceleração do processo inflacionário. A inflação por sua vez, desestabiliza qualquer investimento e dificulta a retomada do crescimento econômico.
Na verdade, a dívida externa é o pano de fundo da crise econômica brasileira. A redução da taxa de crescimento da economia brasileira nos anos 80 para uma média muito próxima ao crescimento da população explica-se em termos de causalidade direta, de um lado pela redução da taxa de investimentos, e de outro pela aceleração da inflação, que desorganiza ou torna mais ineficiente o investimento. O desequilíbrio financeiro estrutural do setor público e a dívida externa, interligados, são por sua vez a causa da redução dos investimento e da inflação.289