“Ao dizer quem nós somos estamos também lutando para conseguir expressar o que nós somos, no que acreditamos, e o que desejamos. O problema é que essas crenças, necessidades e desejos estão muitas vezes notoriamente em conflito, não somente entre comunidades diferentes, mas nos próprios indivíduos.”11
(WEEKS, 1990, p. 89, tradução minha)
Susan Stanford Friedman afirma que, na atualidade, é impossível pensar em identidades sem que se considerem os vários aspectos geopolíticos que as influenciam (1998, p. 3). Por geopolítica a autora compreende a interligação que há entre o espaço e os diversos fatores que interferem nos processos identitários, tais como gênero, classe social, etc. Friedman os denomina “constituintes identitários” (1998, p. 18). O termo identidade, por sua vez, remete ao sujeito cartesiano, coeso, racional e agente de sua história (HALL, 2004, p. 21). Recordemos que, segundo o filósofo René Descartes, haveria a divisão entre matéria e mente, sendo que no centro da mente estaria uma essência. O sujeito individual, indivisível, seria então fruto da capacidade humana de raciocinar e de pensar, daí sua famosa frase “Penso, logo existo”. Dessa forma, o conceito de sujeito racional, cognitivo e consciente, com uma identidade coesa, passa a ser conhecido, portanto, como o sujeito cartesiano (HALL, 2003a, p. 27). Ao longo do tempo, porém, o sujeito cartesiano, esse sujeito da razão, é problematizado por várias linhas de pensamento, como as teorizações de Charles Darwin e o processo reconhecido como de descentralização do sujeito, desenvolvido a partir da segunda metade do século 20 (HALL, 2003a, p. 34). Por descentralização compreende-se uma desagregação e também um deslocamento da identidade moderna, construída a partir da premissa humanista segundo a qual o homem era o centro do universo e não qualquer força divina, como se acreditava na época medieval (HALL, 2003a, p. 26). Constituíram forças para essa descentralização as teorias marxistas, a psicanálise de Freud e o impacto do feminismo, provocando mudanças de perspectiva a respeito da construção de identidades.
11 “By saying who we are, we are also striving to express what we are, what we believe and what we desire. The
problem is that these beliefs, needs and desires are often patently in conflict, not only between different communities but within individuals themselves.”
As teorias marxistas são reinterpretadas na década de 1960 sob o viés de que “os indivíduos não poderiam de nenhuma forma ser ‘autores’ ou agentes da história já que eles podiam agir apenas com bases em condições históricas criadas por outros e às quais eles já nascem submissos” (HALL, 2003a, p. 34). O Marxismo desloca, portanto, a noção de uma essência do sujeito e do estabelecimento de uma individualidade ou agência individual a partir dessa essência (HALL, 2003a, p. 35). Tem-se a ideia de um sujeito social. Já Freud introduz a perspectiva de que há processos psíquicos e simbólicos do inconsciente sobre os quais o sujeito não tem domínio (HALL, 2003a, p. 36). Dessa forma, o sujeito que possui consciência completa de si, como fazia crer o sujeito cartesiano, é de novo revisto. Finalmente, no século 18, Mary Wollstonecraft já teria uma visão de cunho feminista ao ver limitações no entendimento de Descartes e de filósofos do Iluminismo, como Jean Jacques Rousseau (HALL, 2004, p. 32). Em A Vindication of the Rights of Woman, Wollstonecraft coloca suspeitas sobre a existência um sujeito humano essencial (como cogita Descartes) e de papéis definidos e inatos de gênero, como mencionados nas teorias de Rousseau (WOLLSTONECRAFT, 2007, p. 379). Já na década de 1960, movimentos feministas abordam mais diretamente a questão da descentralização do sujeito, segundo Stuart Hall (2003a, p. 45), ao afirmarem que somos sujeitos também gendrados. Com essa afirmação, o feminismo problematiza a ideia de um sujeito universal. Também no século 20 os movimentos em prol de direitos civis nos Estados Unidos desperta, segundo Hall (2003a), para novos descentramentos, tendo-se em foco, principalmente, lutas contra o preconceito racial.
Caminhando em direção aos tempos atuais, Stuart Hall convida, mais uma vez, a uma reflexão sobre identidades, sob o ponto de vista de um sujeito migrante. O teórico discute processos de identificação a partir, principalmente, do conceito de identidade cultural, que, segundo ele, seriam “aspectos de nossas identidades que surgem do nosso ‘pertencimento’ a culturas étnicas, raciais, lingüísticas, religiosas e [...] nacionais” (HALL, 2003a, p. 8). Ainda que identidade cultural possa supor a possibilidade de alguma identidade coesa, Hall (2003a, p. 9) afirma que o sujeito contemporâneo é antes de tudo fragmentado e deslocado. Nesse contexto de fragmentação, haveria, então, não sujeitos portadores de identidades indivisíveis e fixas, mas sim sujeitos que vivem processos contínuos de identificações. Ele sugere o conceito de identificação, ou “celebrações móveis” (2003a, p. 13), que desestabiliza uma ideia coesa de identidade, enfatizando a problematização desse termo.
Avtar Brah também sinaliza uma preferência pelo termo identificação ao discutir processos identitários na contemporaneidade. Segundo a autora, aprendemos a ter um primeiro senso de pertença em uma determinada comunidade, mas logo nos percebemos parte de uma gama de comunidades imaginadas, a partir de uma política de identificações. Brah (1994, p. 93) propõe que a constituição de subjetividades implica práticas discursivas heterogêneas, e que nós habitamos identidades que se articulam e se movem devido à concatenação de relações em meio à diferença (como de gênero, classe, sexualidade). O importante é estar ciente de que
a forma como trabalhamos nossas “diferenças” dependeria das estruturas políticas e conceituais que orientam nossa compreensão dessas “diferenças”. São nossas perspectivas políticas e coalizões que determinam a base para uma efetiva construção de coalizões. Acredito que coalizões são possíveis por meio de uma política de identificação ao invés de uma política de “identidade”12
(BRAH, 1994, p. 93, tradução minha).
Essas identificações, por sua vez, só podem ser compreendidas a partir do reconhecimento das ideologias que as provocam: de suas interconexões e de suas especificidades (BRAH, 1994, p. 93).
Tendo em mente a problematização feita em torno do conceito de identidade, opto, na presente tese, pelo termo “identificações” ao me referir especificamente aos posicionamentos das personagens. Assim enfatizo a fragmentação desses sujeitos e os deslocamentos dos seus pontos de articulação nas narrativas: cada identificação é um ponto de articulação provisório, ou um lugar, em meio aos espaços sobre os quais discorro em cada capítulo. As negociações identitárias em Breath, Eyes, Memory; The Agüero Sisters e Geographies of Home apontam para identificações não fixas e muitas vezes até contraditórias no espaço diaspórico e de rediasporização.