Quando se pensa em espaço diaspórico e em processos de identificação na diáspora, um elemento importante a ser considerado é a memória. Tendo a diáspora como uma de suas premissas a dispersão, é a partir da memória que é possível pensar em uma ligação entre várias comunidades diaspóricas (de uma determinada diáspora) ao redor do globo e também entre os membros de uma mesma comunidade no espaço diaspórico que habitam. De acordo com Marie- Aude Baronian, Stephan Besser e Yolande Jansen (2007), a memória atua como um elo para uma certa consciência diaspórica ao apontar para uma origem que é compreendida como comum, a partir da qual a dispersão teria se configurado (p.10). Vale lembrar, contudo, que, consciência diaspórica é um produto de culturas e histórias tanto em diálogo quanto em colisão (CLIFFORD, 1994, p.319), estando sempre em certo processo de devir. Se, por um lado, ela permite que comunidades se reconheçam diaspóricas no passar das gerações, por outro ela não é estável ou generalizável. Avtar Brah (1996) a descreve como um espaço discursivo, sempre em revisão, no qual tradições são continuamente inventadas, apesar de parecerem datar de tempos longínquos (1996, p.208). A consciência diaspórica, segundo Brah (1996), diria respeito, assim, a um espaço no qual os posicionamentos dos sujeitos seriam justapostos, contestados, legitimados e desautorizados. O que é ressaltado nesse espaço, segundo ela, seria a miríade de fissuras e fusões culturais que estão nas entrelinhas das formas contemporâneas de identidades transnacionais (1996, p.218). Nesse contexto, a memória constitui um processo fundamental ao permitir que o espaço discursivo da diáspora seja revisitado, no decorrer das gerações de comunidades diaspóricas.
1 “The past is always with us, and it defines our present; it resonates in our voices, hovers over our silences, and
Ademais, a importância da memória na diáspora está contida nas próprias definições de diáspora, como a citada no primeiro capítulo desta tese, de William Safran (1999), que atribui ao fenômeno a retenção de uma memória coletiva ou mito sobre o lar de origem (SAFRAN, 1999, p. 365). Não afirmo, todavia, que haveria um determinado lugar de identificação, comum e fixo a ser compartilhado e resgatado por meio da memória. A memória é, em si, influenciada por vários fatores, que serão apontados adiante neste capítulo. No caso da diáspora africana, Stuart Hall é enfático ao dizer que o que une essas comunidades diaspóricas não é, por exemplo, a ideia de uma África, pura e essencial (2003, p. 31), uma vez que mesmo que houvesse tal local, hoje ele já não existiria devido à própria ação da história (2003, p. 30). Para Hall, a relação de continuidade na diáspora africana se forma, assim, não por causa de uma origem físico-geográfica comum, mas via uma ruptura original em comum, estabelecida no tráfico de escravos (2003, p. 30). O teórico sugere que a memória, então, não estabeleceria relações de continuidade com lugares antropológicos como terras ancestrais ou mitológicas, mas constituiria elos com culturas e línguas interrompidas pela escravidão. Outro aspecto a ser levado em consideração quando se discute a relação entre memória e diáspora está no processo de memória em si. Ele possui certos pontos de tensão que devem ser problematizados.
Antes de discutir esses pontos, vale lembrar que Platão compara o processo de memória a impressões em um bloco de cera. Essas impressões formariam lembranças que seriam resgatadas toda vez que se houvesse vontade. A analogia do bloco de cera é didática e inspira várias teorizações posteriores sobre a memória, conforme relata Anne Whitehead (2009, p.15), porém, é problematizada pelo próprio Platão quando ele pondera, por exemplo, no diálogo que registra entre Sócrates e um matemático (Theodorus), sobre o porquê de certas pessoas não conseguirem fazer o resgate de tais impressões toda vez que têm vontade (PLATÃO, 1987, p.99). Também surge quando problematiza que não há como se afirmar o que é lembrado é realmente o que teria acontecido (PLATÃO, 1987, p.98). Paul Ricoeur, já na contemporaneidade, lança ainda outros questionamentos à metáfora das impressões na cera quando diz que nem sempre é a vontade do sujeito que as imporia ao bloco: muitas impressões seriam gravadas mesmo que se desejasse o contrário. É o que acontece com memórias traumáticas, como é o caso de Martine, em Breath, Eyes, Memory.
A teorização de Ricoeur nos dá substrato para refletir sobre os processos da memória, quando nos fala que o esquecimento faz parte da memória e que esse não é, como acreditava
Platão, oriundo da perda de um dito saber pré-natal, já que Platão acreditava que ao nascer o ser humano esquecia verdades, as quais deixariam apenas rastros no bloco de cera. O filósofo contemporâneo também descreve a memória como um complexo processo de evocação de lembranças, problematizando o que ele chama de “ambição veritativa” da memória, que seria a ambição de que ela é fiel a um suposto passado (RICOEUR, 2007, p. 40).
A memória é, de fato, descrita de formas diferentes ao longo da história, sendo que cada teorização permite novos entendimentos da complexidade dessa ferramenta cognitiva. Ressalto, contudo, que nesta tese ela não é abordada como uma representação mimética, como a metáfora de Platão tende a sugerir, ou algo fixo e fiel, como Ricoeur já problematizava. Aqui ela é tratada como um espaço de construção, acompanhando teorizações de Jacques Le Goff (1992). Segundo ele, a memória é “um grupo de funções psíquicas que nos permite atualizar informações passadas ou informações que nós representamos para nós mesmos como passado2” (LE GOFF, 1992, p. 51, tradução minha). Le Goff enfatiza, portanto, o caráter simbólico da memória: ela atualiza informações que nós representamos como passado, e não o passado em si. Esse seria um primeiro ponto de tensão ao avaliarmos a memória, visto que ela subjetiva, apesar de lidar, a princípio, com fatos passados.
Já o segundo ponto de tensão que existe no processo de memória é também sinalizado por Le Goff, ao se referir à memória como a capacidade de conservar “certas informações” (1992, p. 51). Ela é, portanto, seletiva. Nesse mesmo sentido, Tzvetan Todorov afirma que o esquecimento é parte constituinte da memória (2000, p. 15-16), e não uma falha de memória, como o senso comum tende a pressupor (ou a metáfora de Platão sugeriria). Pode-se afirmar, portanto, que a memória é construída a partir de lembranças e de esquecimentos, de forma que ela não se configura como um registro contínuo, destituído de lacunas.
Assim, a memória deve ser concebida como um espaço aberto, em processo contínuo de reconstrução, já que pode ser atualizado, e não um arquivo fechado e fixo. Em suma, se por um lado a memória é um processo, sendo instável em sua própria constituição, por outro é conferido a ela o papel de perpetuação de um certo espaço discursivo, por meio de uma consciência diaspórica. Por isso, apesar de parecer simples a associação entre o fenômeno da diáspora e a memória, ela não o é.
2 “A group of psychic functions that allow us to actualize past impressions or information that we represent to
A fim de dar continuidade à análise comparatista da presente tese, tendo-se em mente diferentes identificações das personagens na diáspora, proponho, portanto, um olhar para os espaços da memória em Breath, Eyes, Memory; The Agüero Sisters e Geographies of Home. As lembranças das personagens são revisitadas em diversas ocasiões, de forma que elas atualizam, a partir de novas leituras desses espaços, seus posicionamentos presentes. Divido o presente capítulo em três seções: memória e diáspora, memórias e nostalgia, e memória cultural e tradição. Uma vez discutida a relevância da memória na diáspora, apresento agora as vertentes que pretendo seguir em relação aos outros dois tópicos citados: memórias e nostalgia, e memória cultural e tradição.