Para enfrentar a questão da atuação do Judiciário, é necessário inicialmente tecer considerações acerca da competência para julgar o delito. Inicialmente, a respeito do tráfico de seres humanos que se dá mediante o cruzamento de fronteiras entre países, tem-se que a competência será da Justiça Federal (JESUS, 2003; PEREIRA, 2013). Isso porque, de acordo com o art. 109, V, da CR/88, compete à Justiça Federal brasileira processar e julgar “os crimes previstos em tratado ou convenção internacional, quando, iniciada a execução no País, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro ou reciprocamente”. Deve-se considerar que o Brasil é signatário do Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial de Mulheres e Crianças, que, conforme se pôde evidenciar, é hoje o principal documento internacional que aborda a temática.
Tendo em vista a amplitude das possibilidades de configuração do delito que a definição do Protocolo traz, é necessário concluir que a Justiça Federal brasileira é competente para julgar os crimes de tráfico internacional de pessoas, tráfico de crianças (nos termos do art. 239 do ECA) e tráfico de trabalhadores (dando aplicação ao tipo previsto no art. 206 do Código Penal) que se processem em âmbito internacional.
Abordando o tráfico interno, já se entendeu que a competência será da Justiça Estadual (PEREIRA, 2013). Ainda que seja aplicado o disposto no art. 203 e/ou art. 207 do CPB e, por essa razão, seja hipótese de crime contra a organização do trabalho, não incidirá automaticamente a regra do art. 109, VI da
CR/88, que atribui à Justiça Federal a competência para julgamento116. O
Superior Tribunal de Justiça já decidiu que, caso a frustração de direito trabalhista com base no art. 203 seja perpetrada em face de um único trabalhador, competirá à Justiça Estadual processar e julgar o feito (Conflito de Competência- CC 108.867/SP, Terceira Seção, Rel. Ministro Jorge Mussi, DJe de 19/4/2010). Do mesmo modo, já se manifestou o Supremo Tribunal Federal, para quem somente
116 Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar: [...] VI - os crimes contra a
organização do trabalho e, nos casos determinados por lei, contra o sistema financeiro e a ordem econômico-financeira.
será atribuída competência à Justiça Federal para julgar os crimes contra a organização do trabalho (Título IV da Parte Especial do CP/B - arts. 197 a 207 do CPB) quando estes causarem prejuízo à ordem pública, econômica ou social e ao trabalho coletivo (RE 599943 AgR, Relator Min. Cármen Lúcia, Primeira Turma, julgado em 02/12/2010).
Além disso, é de se enfatizar que a doutrina e a jurisprudência têm entendido que não há correspondência exata entre o conteúdo da expressão “crimes contra a organização do trabalho”, prevista no art. 109, IV da CR/88, e os delitos previstos no Título IV da Parte Especial do CPB. Assim, em alguns casos, o delito estará no título específico do CPB, mas não deverá ser compreendido como crime contra a organização do trabalho ou, ainda, o delito não estará previsto nesse título, mas haverá de ser enquadrado como um crime contra a organização do trabalho.
A propósito, esse entendimento já foi manifestado pelo Min. Joaquim Barbosa, para quem os delitos que agridem a organização do trabalho não são tão somente aqueles que atentam contra o sistema de órgãos e instituições vigentes, mas também que lesionam a dignidade do homem como trabalhador:
Em realidade, a expressão "crimes contra a organização do trabalho" comporta outras dimensões, que vão muito além dos aspectos puramente orgânicos até hoje levados em conta pela doutrina e jurisprudência nacionais. Não se cuida apenas de velar pela preservação de um "sistema de órgãos e instituições" voltados à proteção coletiva dos direitos e deveres dos trabalhadores.
A meu sentir, a "organização do trabalho" a que alude o dispositivo em discussão deve necessariamente englobar um outro elemento: o "homem", compreendido na sua mais ampla acepção, abarcando aspectos atinentes a sua liberdade, autodeterminação e dignidade. Com isso quero dizer que quaisquer condutas que possam ser tidas como violadoras não somente do sistema de órgãos e instituições com atribuições para proteger os direitos e deveres dos trabalhadores, mas também do homem trabalhador, atingindo-o em esferas que lhe são mais caras, em que a Constituição lhe confere proteção máxima, são, sim, enquadráveis na categoria dos crimes contra a organização do trabalho, se praticadas no contexto de relações de trabalho.
[...]
A Constituição, no art. 109, VI, determina que são da competência da Justiça Federal “os crimes contra a organização do trabalho”, sem explicitar que delitos se incluem nessa categoria. Embora no Código Penal Brasileiro haja um capítulo destinado a tais crimes, o entendimento doutrinário e jurisprudencial dominante é no sentido de que não há correspondência taxativa entre os delitos capitulados no referido Código e aqueles indicados na Constituição, cabendo ao intérprete verificar em quais casos se está diante de um “crime contra a organização do trabalho” (RE 398.041-6).
Também no sentido de flexibilizar a caracterização dos crimes contra a organização do trabalho, já concluiu o Min. Gilmar Mendes:
Com efeito, o art. 109, VI, da Constituição Federal, estabelece a competência da Justiça Federal para julgar os crimes contra a organização do trabalho. Contudo, a Lei Maior não se interpreta a partir do Código Penal e o nomen iuris de um capítulo do Diploma Penal não tem o condão de definir a natureza jurídica de um delito, tampouco sua objetividade jurídica (ARE 706368 AgR / SP).
O presente estudo adere a esse posicionamento, já que entende que o tráfico de seres humanos, mesmo que interno, constitui crime contra a organização do trabalho em uma acepção material, na medida em que viola, antes de tudo, a dignidade humana, consagrada pela CR/88 como fundamento da República, motivo pelo qual seu julgamento deveria ser atribuído à Justiça Federal.
De todo modo, deve-se salientar que o § 5º do art. 109 da CR/88 traz a possibilidade de atribuição da competência à Justiça Federal, desde que fique constatada hipótese de grave violação de direitos humanos. Nesses casos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.
Conforme aqui já se discutiu, diante da precariedade da legislação brasileira, em não raras hipóteses de tráfico de seres humanos com fins de exploração laboral aplica-se o disposto no art. 149 do CPB, isto é, o tipo referente à redução de outrem à condição análoga à de escravo. Esse delito encontra-se previsto no Título I do Código Penal, que trata dos “crimes contra a pessoa” e, assim, ao menos em tese, não seria caso de competência da Justiça Federal. Porém, deve-se levar em conta o aludido entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) no sentido de que a simples topografia do delito, isto é, seu tópico de inclusão no Código Penal, não é substrato suficiente para atribuir ou retirar a competência da Justiça Federal para apreciar a matéria.
Assim, nos termos do entendimento da Corte Constitucional, é perfeitamente possível que haja delitos previstos no Título IV do Código Penal
que não implicarão a incidência da norma constitucional trazida pelo art. 109, VI. Do mesmo modo, há delitos outros, não previstos no Título IV do Código Penal, que poderão representar ofensa à organização do trabalho, de forma a atrair a competência da Justiça Federal (ARE 706368 AgR / SP).
Levando em conta esses elementos e o que já decidiu o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o STF, conclui-se que caberá à Justiça Federal julgar o delito insculpido no art. 149 do CPB, conforme se extrai dos julgamentos proferidos no RE 398.041 (rel. Min. Joaquim Barbosa, sessão de 30/11/2006) e no RE 541627 (Relatora Min. Ellen Gracie, Segunda Turma, julgado em 14/10/2008). Seguindo a
mesma linha, já se manifestou o STJ no AgRg no REsp 1067302/PA (Rel. Min.
Jorge Mussi, Quinta Turma, julgado em 12/06/2012, DJe 22/06/2012) e no RHC 25.583/MT (Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Sexta Turma, julgado em 09/08/2012, DJe 20/08/2012), nos quais se salienta, já na ementa, que a “Terceira Seção desta Corte já pacificou o entendimento de que compete à Justiça Federal processar e julgar os autores do delito previsto no art. 149 do Código Penal, haja vista a violação aos direitos humanos e à organização do trabalho”.
O que se pode constatar é que o modo pelo qual a competência é fixada acarreta alguns problemas de ordem prática. Isso porque os delitos de tráfico internacional e a redução à condição análoga à de escravo são de competência da Justiça Federal, ao passo que a competência para julgar as hipóteses de tráfico interno recairiam na Justiça Estadual. Melhor seria se a mesma justiça julgasse todas as hipóteses. Aliás, conforme já foi mencionado, entende-se aqui que o tráfico viola direitos essenciais do indivíduo e, por isso, atenta materialmente contra a organização do trabalho, motivo pelo qual deveria ser julgado, em qualquer de suas manifestações, pela Justiça Federal.