Sem nos distanciarmos demais do período prioritário na análise do nosso objeto é preciso lançarmos um olhar mais ao passado para verificarmos que a tradição intelectual dos comunistas brasileiros se formou embasada nas teses da III Internacional ou Internacional Comunista (IC) ou ainda como alguns preferem,
Komintern.30 Por mais que sua história tenha demonstrado oscilações mais ou
menos distantes desses princípios, é praticamente impossível compreender suas elaborações sem considerar suas origens no programa internacionalista liderado por Lenin como seu embasamento essencial.
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Komintern (Kommunistiche Internationale) era um órgão com sede em Moscou e que entre 1919 e 1943 manteve uma rede de agentes e informantes que supervisionavam as missões dos comunistas internacionalmente e, além disso, financiava os partidos comunistas espalhados por muitos países, inclusive no Brasil.
É possível identificarmos entre pecebistas uma forte influência das principais teses discutidas e aprovadas ao longo dos congressos da IC e publicadas de forma direta nos documentos oficiais ou indireta em textos e reportagens dos líderes soviéticos que se tornaram leitura obrigatória entre os comunistas no Brasil. Pode-se ver que em alguns casos a assimilação dessas ideias foi quase simultânea, automática, como no caso do que se propôs no VI Congresso da Internacional
Comunista entre 1928 e 1929, quando o movimento comunista internacional
começou a se ocupar mais com os países que consideravam “colônias” ou “ex- colônias”, marcados por intensa dependência externa, conforme seu esquema interpretativo qualificava.
Para Michel Zaidán, a influência dessas teses foi claramente assimilada ainda no III Congresso do PCB realizado em 1929. Segundo avaliou,
Para os comunistas brasileiros, essas inovações teórico-políticas terão uma tradução muito específica: obreirismo e revolução democrático-burguesa antiimperialista, cujos efeitos na prática seriam a depuração dos intelectuais “pequeno-burgueses” da direção do partido e a sectarização de sua linha política. (ZAIDÁN, 1991, p. 103)
Outro apontamento nesse sentido foi feito por José Antonio Segatto:
Depois de 1933, com a ascensão do nazismo ao poder na Alemanha e do avanço do fascismo no mundo, a Kominstern é levada a rever sua linha política de considerar as articulações de frentes democráticas como desvios “direitistas”. Já em 1934 começa-se adotar, ainda que timidamente, a política de Frente Popular contra o fascismo, incluindo comunistas, socialistas, liberais e outros. No ano seguinte (1935), no VII Congresso da Internacional Comunista, essa tática é definitivamente adotada, passando a se constituir em diretriz dos Partidos Comunistas a nível mundial. Essa tática aplicada no Brasil pelo PCB deu origem, em 1935, à Aliança Nacional Libertadora (ALN). Já em meados de 1934, o PCB havia começado a delinear a nova tática, visando unir todos os que se opunham ao fascismo e ao integralismo. (SEGATTO, 1989, p. 45)
Se, por um lado, a tática “frentista” passou a integrar a agenda dos comunistas brasileiros e não saiu mais dela (o que inclusive adotamos como um dos indicadores que nos mostram a permanência da concepção politicista na composição desse “pensamento democrático” que investigamos), não podemos afirmar que ela já estivesse consolidada na forma que se tornaria fundamento desse “pensamento democrático”, uma vez que a perspectiva das lideranças pecebistas naquele momento ainda era sustentada, de modo geral, por uma concepção
insurrecional. Embora se apresentasse em sua gênese, faltavam-lhe outros pontos
importantes que só vão surgir na elaboração da “nova política” na segunda metade dos anos 1950.
Naquele período a relação entre o PCB e a IC era de subordinação daquele a esta, especialmente no momento ao qual Ricardo Antunes chamou de “primeira inflexão” estalinista. Consta que o problema dos países latino-americanos entrou em definitivo na pauta da IC no seu VI Congresso, entre 17 de julho e 1 de setembro de 1928, quando foram discutidos relatórios e aprovadas resoluções específicas. O Brasil era concebido como país de tipo colonial ou semi-colonial, distante dos modelos canadense ou australiano e próximo aos modelos chinês ou indiano. Como observou Antunes,
Neste ponto encontrava-se, para a análise presente no VI Congresso da IC, a dimensão decisiva do mundo colonial: este via-se tolhido para buscar um desenvolvimento autônomo e acabava por desempenhar funções de apêndice econômico do mundo imperialista; os produtos dos trabalhos dos assalariados drenavam-se para as burguesias dos países centrais. (ANTUNES, 1995, p. 19)
E, mas adiante, reforçando esse problema crucial na base dos referencias de intepretação dos comunistas, apontou que
[...] apesar de conceber essa revolução democrático-burguesa no mundo colonial como "organicamente vinculada à luta nacional de libertação", através dela dar-se-ia o rompimento dos laços de subordinação ao imperialismo, realizando a nacionalização das concessões, ferrovias, bancos etc; pretendia-se também obter a unidade nacional onde esta ainda não houvesse sido conquistada, objetivando-se ainda a destruição do poder das classes exploradoras e a organização de conselhos operários e camponeses - os soviets - bem como a criação do exército vermelho e a instauração da ditadura do proletariado e do campesinato, com a hegemonia do primeiro. Enfatizava-se também a importância da revolução agrária como forma de libertação do campesinato frente às formas pré- capitalistas, coloniais e escravistas e propugnava ainda a nacionalização dos sub-solos, além da necessidade de ampliar os sindicatos operários e fortalecer os partidos comunistas. Era evidente que, além da contextualidade chinesa e indiana que moldavam a visão colonial para o universo latino-americano, já estava presente no seio da IC um forte
taticismo marcado pelo "oportunismo de esquerda", onde a tática da luta de classe contra classe, concebida para o cenário europeu, transplantava-se
sem mediações para o mundo latino-americano. (ANTUNES, 1995, p. 20, grifos do autor)
[...] essa primeira inflexão stalinista no PCB se fortaleceu nos dois anos seguintes, o que se evidencia na análise que o Partido fez da Revolução de 30. Pouco a pouco a ambiguidade, fruto do confronto entre sua postura anterior e as novas concepções da IC, foi sendo substituída por uma assimilação acrítica dos esquemas vigentes no centro hegemônico do movimento comunista. (ANTUNES, 1995, p. 32, grifos do autor)
Consideradas tais características constitutivas na base das formulações teórico-políticas dos comunistas brasileiros, o fato é que, fragilizados após o fracasso do movimento conhecido como Intentona Comunista de 1935 liderada pela Aliança Nacional Libertadora (ALN)31 sob comando de Prestes, os comunistas viveram um período de duras perseguições, torturas e mortes. O governo de Getúlio Vargas decretou Estado de Sítio e, depois, Estado de Guerra, tornando o ambiente hostil e perigoso para os comunistas, piorando após o Golpe de 1937, com o qual o governo getulista impôs um regime autoritário que se tornou conhecido historicamente como Estado Novo.
Os registros demonstram que o PCB quase desapareceu nesse período, seja pela repressão externa cada vez mais violenta, seja pelos constantes conflitos internos. Cresceram dentro do partido tendências defendendo a tese de que não era conveniente sua reestruturação naquele momento, pois isso acirraria ainda mais as perseguições; outras teses mais extremas chegavam a pregar a autodissolução da própria organização, posição defendida por grupos que ficaram conhecidos internamente como “liquidacionistas”. Outras alas, entretanto, assumiram o compromisso de reorganização e convergiram para o processo que se intensificou a partir de 1941 com a criação da Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP) que atraiu outros grupos e se colocou como representante “oficial” dos comunistas. Dessa forma, mesmo em condições adversas, na clandestinidade e sob forte vigilância, num local discreto na região da Serra da Mantiqueira, no Rio de Janeiro, em agosto de 1943 esses comunistas realizaram a II Conferência Nacional, que ficou conhecida como a Conferência da Mantiqueira, na qual elegeram sua nova direção nacional32 e definiram a linha política do partido em relação à política
31 A Aliança Nacional Libertadora (ANL) foi uma organização política e não um partido político. Foi criada em 1935 com propostas nacionalistas e em defesa da reforma agrária e uniu grupos de comunistas, militares, empresários, religiosos e liberais contra o governo de Getúlio Vargas. Surgiu como organização legalizada, mas, foi colocada na ilegalidade em pouco tempo. Em agosto de 1935 liderou um movimento armado para derrubar o governo, mas, o movimento foi contido e desestruturado pelas forças governistas. Esse episódio ficou conhecido como Intentona Comunista. 32 A composição do Comitê Central eleito na Conferência da Mantiqueira em 1943, bem como os demais comitês eleitos ao longo das décadas até os anos 1980 podem ser consultados no Anexo 02.
nacional ainda com forte fidelidade à política soviética e considerando a conjuntura internacional em meio a Segunda Guerra Mundial.
Na celebração de dez anos da Conferência da Mantiqueira, a Problemas –
Revista Mensal de Cultura Política,33 publicou em 1953 um documento do partido
chamado A significação histórica da Conferência da Mantiqueira, cujo conteúdo ufanista apontava o evento como fundamental na trajetória do partido.
Colhemos até hoje — velhos e jovens militantes do Partido — os frutos generosos da Conferência da Mantiqueira. Com ela aprendemos que não se pode traçar uma linha política efetivamente de acordo com os interesses de classe do proletariado sem partir do mais conseqüente internacionalismo proletário, da mais intransigente fidelidade à União Soviética, base e brigada-de-choque do movimento revolucionário mundial. Com ela aprendemos a zelar pelo Partido, como se fora o cérebro e o coração do proletariado, a defender o Partido em quaisquer circunstâncias, a dedicar os melhores esforços ao seu fortalecimento orgânico e ideológico, à sua construção como vanguarda consciente e organizada do proletariado, forjador e chefe da frente única democrática e nacional-libertadora, educador e dirigente de massas revolucionárias. (PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO in: PROBLEMAS, no 49, set/1953)
Prestes, mesmo ausente, pois estava preso na ocasião, foi eleito Secretário- Geral, cargo máximo na direção partidária, tornando-se o “chefe” do PCB a partir de então. No mesmo documento em homenagem aos dez anos da Conferência da
Mantiqueira era exatamente assim que o tratavam:
A Conferência prestou homenagem a Stálin, guia dos povos soviéticos e da humanidade progressista na luta contra o nazi-fascismo; ao chefe do Partido e herói do povo brasileiro, Luiz Carlos Prestes, então encarcerado; a Harry Berger (Arthur Ewert; dirigente comunista alemão que se sacrificou pela causa da libertação de nosso povo, e a outras figuras destacadas do movimento revolucionário. (PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO in: PROBLEMAS, no 49, set/1953)
33 A Problemas – Revista Mensal de Cultura Política foi lançada em agosto de 1947. Na primeira edição, a Apresentação começava reforçando o papel de publicações comunistas e o compromisso com o “marxismo de matriz soviética”, como pode se notar: “Iniciamos com o presente número de PROBLEMAS, a publicação mensal de uma revista de cultura política, tendo por base a divulgação e o debate de artigos e estudos marxistas. Nunca é demais repetir a clássica afirmação, tantas vezes já confirmada pelos fatos, de Lenin, de que sem teoria revolucionária não pode haver tampouco movimento revolucionário. Torna-se indispensável, de fato, em nossa terra, difundir o conhecimento e o debate das idéias marxistas-leninistas como uma contribuição básica para o desenvolvimento da luta de nosso povo, em defesa da democracia, da independência e do progresso de nossa Pátria. O marxismo-leninismo é a teoria de vanguarda do proletariado, a ciência social que conduz a humanidade à democracia e ao progresso, é um método de análise aplicado a todos os conhecimentos humanos, é a cultura em marcha, em seu duplo sentido geral de crítica e criação com a herança de todo o patrimônio cultural do passado, com a aquisição de novos valores e de novas experiências baseadas na atividade prática”. (PROBLEMAS, no 1, ago/1947)
Outra referência relevante sobre o encontro foi a publicação em agosto de 1953, também como celebração de seus dez anos, de uma edição do jornal Voz
Operária trazendo um balanço histórico e político do acontecimento. Além de um
Suplemento Especial celebrando o 50o aniversário do PCUS, o jornal trouxe um
texto cuja chamada era: Há dez anos se reunia a Conferência da Mantiqueira. Neste, tratavam o evento como um marco na história do partido, evento que lhe dera
[...] uma linha política fundamentalmente justa, rechaçando o liquidacionismo e reorganizando o Partido em bases leninistas, reafirmando a inquebrantável fidelidade do PCB à URSS, ao Partido Comunista da União Soviética e ao grande Stálin. (VOZ OPERÁRIA, no 222, 15 de agosto de 1953)
Em outro trecho do mesmo texto, um ponto que chamou a atenção foi sua perspectiva de classe, ou melhor, sua crença no protagonismo da classe operária.
No terreno ideológico, além da vigorosa afirmação que fez do internacionalismo proletário, a Conferência concentrou o fogo no combate ao liquidacionismo. Os liquidacionistas, preconizando o abandono do trabalho ilegal e a dissolução do Partido, constituíam uma corrente colocada a serviço dos piores inimigos de nosso povo e do Partido. A Conferência rechaçou energicamente a “teoria” liquidacionista, de que era um dos principais pregoeiros o renegado Silo Meireles. Mantendo-se fiel aos princípios leninistas de organização do Partido, a Conferência afirmou que as lutas do povo brasileiro só poderiam ser vitoriosas se à sua frente estivesse o partido independente de classe do proletariado – o Partido Comunista do Brasil. (VOZ OPERÁRIA, no 222, 15 de agosto de 1953)
O fato é que aquele ano de 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, ainda reservaria à história o encontro no mês de dezembro entre os “três grandes” países, Estados Unidos, Grã-Bretanha e União Soviética, representados pelos seus dirigentes, respectivamente, Franklin Roosevelt, Winston Churchil e Josef Stálin, que uniram esforços para vencer as forças do “Eixo”, a Alemanha, a Itália e o Japão. Nesse encontro, realizado em Teerã, capital do Irã, a política mundial começava se realinhar e esse realinhamento refletiu e interferiu diretamente nos rumos que os comunistas brasileiros tomaram nos anos que se seguiram, principalmente, o contexto internacional que caracterizou o que ficou conhecido como “guerra fria”.
E, para os comunistas brasileiros, o ano de 1943 vai marcar também seu entendimento aparentemente contraditório de que, apesar das perseguições que sofrera e da avaliação publicamente negativa em relação ao governo, naquele
momento era preciso “colaborar” efetivamente com o presidente Getúlio Vargas de modo incondicional.
O argumento principal utilizado se referia a “nova” postura de Getúlio Vargas adotara face ao contexto internacional da Segunda Guerra Mundial. Sabe-se que até 1942, pelo menos, seu governo manteve relações preferencialmente com os países do “Eixo”, sobretudo a Alemanha. Mas, assediado pelos países da “Aliança” e interessado nas condições e acordos comerciais oferecidos pelos Estados Unidos, principalmente (como no caso concreto do financiamento da construção da Siderúrgica de Volta Redonda), e vivenciando uma crise de relações com os alemães cujo ponto crucial (ou pretexto) para o rompimento seriam os navios brasileiros afundados supostamente por submarinos alemães em 1942, Getúlio Vargas decidiu se distanciar destes e se aproximar das forças das “Aliança”, compostas formalmente desde 1943, como vimos, também pela União Soviética. Logo, os comunistas avaliaram que tinham um “novo” aliado do ponto de vista internacional. O Brasil “entrava” na guerra ao lado da União Soviética, materializando o apoio, por exemplo, com o envio de milhares de soldados que compuseram a chamada Força Expedicionária Brasileira (FEB).
Jacob Gorender, que além de militante comunista foi soldado da FEB, em entrevista para a revista Teoria e Debate 34 se referiu aos episódios de maneira sensata, claro que expressando seu ponto de vista, mas esclarecendo pontos importantes para se compreender as condições na quais os comunistas precisavam deliberar, relativizando inclusive a participação de Prestes naquelas decisões, especificamente.
A linha que a CNOP adotava era de união nacional em torno do governo de Getúlio Vargas, na guerra contra o nazi-fascismo e na paz, o que revelava
forte inclinação adesista. Para que se faça justiça, deve-se esclarecer que
isso era decorrência de uma direção sobre a qual Prestes não tinha influência, porque estava preso e impossibilitado de fazer contatos. Os principais responsáveis por essa palavra de ordem de apoio a Getúlio, na guerra e na paz, eram homens que depois se tornaram ultra-esquerdistas, como João Amazonas, Diógenes de Arruda, Maurício Grabois e Pedro Pomar. (GORENDER in: TEORIA & DEBATE, no 11, 1990, grifo nosso)
34 Memória: Jacob Gorender - O PCB, a FEB e o marxismo. Entrevista concedida a Alípio Freire e Paulo de Tarso Venceslau para a Revista Teoria e Debate nº 11, de julho/agosto/setembro de 1990. Disponível também no site da Fundação Perseu Abramo no endereço: http://csbh.fpabramo.org.br/o- que-fazemos/editora/teoria-e-debate/edicoes-anteriores/memoria-jacob-gorender-o-pcb-feb-e-o- marxis
Nesse mesmo sentido, sugerindo que seria prudente relativizar o papel de Prestes especificamente nessas deliberações de 1943, Leandro Konder observou que os acontecimentos nos anos seguintes iriam “convencê-lo” em apoiá-las.
A evolução da posição política de Vargas em 1944-1945 fortaleceu a linha política adotada na Conferência da Mantiqueira e Prestes, na medida em que ia sendo quebrada sua incomunicabilidade carcerária, apoiou as resoluções tomadas na conferência. (KONDER, 1980, p. 51)
Observações como estas corroboram com nosso entendimento de que a deliberação “aparentemente contraditório” na verdade surgia como resposta às exigências no cenário nacional como “opção” pela política institucional sob uma
concepção politicista por parte dos comunistas naquele momento, tornando-se
historicamente um verdadeiro “traço” fundamental do modo de pensar e agir politicamente dos pecebistas. Também ajudam reconstituir uma posição de disciplina partidária por parte de Prestes que o levaria, muitas vezes, comportar-se, principalmente nos anos 1970, de modo confuso e oscilante entre suas convicções e as resoluções do partido, até ao ponto que suas divergências extrapolaram os limites partidários e se tornaram públicas, culminando com o rompimento entre Prestes e o PCB em 1980, como veremos nos capítulos seguintes.