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1.2. II Meşrutiyet Dönemi Fikir Akımlarına Filibeli’nin Yaklaşımı

1.2.2. İslamcılık

O integrante Felipe Andreoli faz a cobertura de um seminário sobre sustentabilidade ambiental em Manaus, que teve a presença do cineasta americano James Cameron, diretor dos filmes Avatar e Titanic, e do ex-vice-presidente americano Al Gore, que protagonizou um documentário de grande repercussão sobre o aquecimento global: Uma verdade inconveniente. No quadro, Andreoli entrevista políticos, pessoas conhecidas da comunicação e da mídia, James Cameron e Al Gore (na verdade, ele tenta abordar Gore, mas não consegue).

A introdução repete o padrão dos simulacros de reportagem do CQC: os apresentadores anunciam de forma irônica o tema e, em seguida, o integrante do programa aparece em alguma situação encenada, relacionada ao assunto do quadro. Neste caso, Andreoli está dentro de uma lancha, no rio Amazonas, logo

depois de Marcelo Tas avisar que ele está no meio da selva. Corta para a entrada de um hotel, onde Andreoli mostra a chegada, no evento, do diretor James Cameron. Cameron está rodeado de seguranças e de fotógrafos e cinegrafistas. Andreoli pergunta de longe, em inglês: “O senhor não veio com o Titanic?” O cineasta sorri e responde: “Não, de avião”.

O integrante do CQC conversa, então, com políticos e artistas presentes no evento: a apresentadora e jornalista Ana Paula Padrão, o publicitário Nizan Guanaes, o governador do Amazonas, Eduardo Braga, o senador Aloízo Mercadante e o pesquisador Thomas Lovejoy, especialista em Amazônia. Em todos os casos, a questão ecológica e o evento são só desculpas para perguntas e comentários irônicos, em geral de duplo sentido, e desconcertantes, que abordam temas delicados para os respondentes. Andreoli questiona o publicitário Nizan Guanaes sobre o fato de a casa de Al Gore gastar 200 vezes mais energia do que a média de consumo das residências americanas. Para Lovejoy, faz perguntas sobre biopirataria – o cientista foi acusado de coletar ilegalmente amostras de plantas e animais da Amazônia.

Andreoli não entrevista Al Gore. Tenta, por duas vezes, entregar ao ex-vice- presidente americano uma calcinha de presente. Gore, rodeado de seguranças e assistentes, não aceita. O quadro se encerra com a entrevista coletiva de James Cameron. Em vez de perguntar, Andreoli se levanta de sua cadeira e vai até o cineasta, que está sentado de frente para os jornalistas, e entrega um presente: um óculos para ver imagens em 3D, como os usados na exibição do filme Avatar.

Em seguida, o integrante do CQC questiona se um Navi, raça extraterrestre de Avatar, poderá virar presidente dos Estados Unidos no futuro – repetindo a trajetória de Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia, protagonista do filme

O Exterminador do Futuro, de Cameron. O cineasta sorri e pede que todos

aplaudam a “grande performance” do integrante do CQC. Termina o quadro, volta para a bancada e Marcelo Tas comenta que “o pessoal fica fazendo piadinha, mas este negócio de meio ambiente é muito sério”.

SIMULAÇÃO: Como nos demais quadros, o integrante do CQC simula. Não representa, não é, não interpela o real conforme o método jornalístico (uma encenação de objetividade, mas que não é vista como tal). Neste caso, a encenação

é mais evidente e carregada. Uma simulação bastante próxima da representação – o

que leva o cineasta James Cameron a qualificá-la de uma “grande performance”. A impressão é de que o integrante do CQC representa um integrante do CQC – duplicação que cria um idêntico hiper-real, uma imitação insossa de si mesmo, um estágio cool (Baudrillard) sem ironia ou sedução.

Na teoria de Baudrillard (1991b), é tênue a linha que separa o jogo irônico e sedutor das aparências puras da simulação oca e niilista da hiper-realidade. Ao repetir as fórmulas, o CQC corre o risco de transformar-se em um simulacro de si próprio e ver a ironia e o traço de autenticidade desaparecerem. Continuará sendo simulação, mas vazia, repetitiva. Numa perspectiva baudrillariana, é este o mal de todo produto midiático: ainda que inusitado de início, acaba desaparecendo na mesmice da repetição – o CQC está no terceiro ano, o Big Brother, no décimo.

SIMULACRO: É um simulacro de reportagem e de jornalismo no sentido mais comum do conceito: fingimento, falsidade. Enquadra-se na primeira ordem do simulacro de Baudrillard (1996a), a da contrafação. É facilmente reconhecido na sua falsidade: encenado, performático. Por isso, não produz o mesmo efeito que os quadros Proteste Já, por exemplo, simulacros indistintos e irônicos. Neste, os entrevistados saem-se muito bem, respondem facilmente às questões de Andreoli. Al Gore não aceita os presentes e responde com sorrisos.

Ana Paula Padrão é mais espirituosa que Andreoli. James Cameron o desmarcara diante dos demais jornalistas. No terreno da encenação, do espetáculo, Gore e Cameron são mestres. Incorporaram o espetáculo na própria personalidade, vivem numa perpétua atuação, são simulacros puros, hiper-reais, estágio um passo adiante da sociedade do espetáculo (Debord).

HIPER-REALIDADE: Na verdade, Al Gore e James Cameron são mais do que hiper-reais: são ícones de um mundo tornado hiper-real, extremamente bem sucedidos no país que, para Eco (1984), é a pátria da hiper-realidade, os Estados

Unidos. Talvez o CQC não tenha conseguido atingir o nível de ironia necessário para lidar com tal dose de hiper-realismo. Não só dos dois ilustres americanos, mas de todo o seminário. A pauta do evento era nada mais do que o maior entre todos os problemas “reais”, o futuro do planeta. Local: Manaus, do lado da Amazônia, maior floresta do mundo. Isso, obviamente, em um hotel luxuoso. Entre os palestrantes, políticos brasileiros importantes, um cientista estrangeiro renomado, o político americano cuja imagem é a de maior defensor mundial do meio ambiente e o diretor de cinema mais bem sucedido da história, que acaba de bater todos os recordes de bilheteria com um filme cujo enredo aborda a sustentabilidade ambiental.

Na concepção de Debord (1997), um gigantesco espetáculo, cujo objetivo certamente não é lidar objetivamente com o problema “real” mas alienar-se deste. Afinal, uma discussão racional leva rapidamente à conclusão de que o problema é a ânsia por conforto e riqueza que geram um crescente consumo de energia e despejo de gás carbônico na atmosfera. Uma conclusão inviável para um evento em um hotel de luxo, certamente refrigerado, com palestra de um homem cuja residência

consome 200 vezes mais energia do que a do americano comum – que já vive uma

cultura de desperdício.

Numa visão baudrillariana, a hiper-realidade de um evento como este não tem mais nexo com o real. Nada mais é do que um comportamento simulado e um discurso vazio, simulacro puro e sem consequencias práticas “reais” – em Debord (1997), uma revolução comunista ou outra contraposição ao capitalismo. Baudrillard (1997) diagnostica um discurso de purificação dos males e violência cometidos no século XX, entre eles os discursos anti-poluição. São discursos-simulacros, estão

apenas no nível da aparência, não têm sentido ou racionalidade – apenas repetem-

se e multiplicam-se.

TRANSPARÊNCIA: Se há algo que pudesse ser transparecido aqui é o trato espetacular dado ao tema do meio ambiente no seminário e os discursos vazios e repetitivos (simulacros puros) comuns nos debates sobre sustentabilidade. Uma estratégia de transparência não serve para lidar com simulacros puros e com este nível de hiper-realidade pós-espetacular. Andreoli comenta o consumo elevado de energia gasta pela casa de Al Gore, contraponto racional ineficiente e que só reinjeta

real onde só há hiper-realidade. Ainda que Gore seja desmascarado e nunca mais receba convite para palestrar, outra personalidade (simulacro) ocupará o espaço.

IRONIA: O contragolpe, nos diz Baudrillard (1991b), só é possível no nível da aparência, de uma ironia desviante e sedutora. Não é o caso aqui. Na verdade, o

CQC não adota uma estratégia de transparência. É irônico, como costuma ser. Mas

a ironia é tímida se comparada ao hiper-realismo com que lida. A produção do quadro ficou no meio do caminho entre a indistinção e o exagero crônico. O

referente é o telejornalismo, mas não parece jornalismo. Parece encenação – o que

significa a falência da encenação, pois mesmo a representação ficcional, que é encenada, não pode parecer encenada.

Mas também não é a encenação irônica e exagerada do quadro Em Foco, analisado anteriormente, que gera uma certa cumplicidade com o público, ciente da representação enganadora de Warley Santana. A grande ironia talvez seja a de James Cameron, diretor de filmes ficcionais que se credencia a palestrar sobre o problema real que sua ficção de animação com tecnologia revolucionária e virtual aborda. Um hiper-simulador?

Benzer Belgeler