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A notícia publicada no Jornal do Comércio da Corte, e depois reproduzida no Diário de Pernambuco, sobre as fotografias enviadas à Exposição Universal de Viena, revela a importância que Alberto Henschel e seu sócio Franscico Benque alcançaram na sociedade imperial, corroborando a hipótese de que foram usadas como recurso de representação nacional.

Embora não seja possível comprovar com fontes documentais que as imagens da família imperial e da quitandeira aqui apresentadas sejam as mesmas que as enviadas para Viena em 1873, o fato de essas corresponderem visualmente às descrições feitas no jornal leva-me a embasar minhas reflexões sobre elas. No que diz respeito ao retrato da baiana quitandeira, Margrit Prussat (2008) endossa essa possibilidade por tê-lo encontrado em diferentes coleções de fotografia na Alemanha e na Europa. A imagem da quitandeira faz parte do acervo do Leibniz-Institut für Länderkunde em Leipzig, Alemanha, no formato carte-cabinet. Trata-se do mesmo formato em que foi produzida a foto da família imperial. É curioso observar que, no formato carte-de-visite28, a imagem também faz parte da coleção de fotografia Gilberto Freyre em Recife, que está em processo de catalogação e digitalização e à qual tive acesso no início do ano de 2011.

Os dois retratos de Alberto Henschel e Francisco Benque que faziam parte do que aqui optamos por considerar como autorrepresentação do Brasil na Exposição Universal de Viena – Retrato da família imperial (Figura 1) e Vendedora de Frutas no Rio de Janeiro (Figura 2) –, quando comparados entre si, apontam distinções nas composições e na concepção do próprio termo retrato29. No primeiro, o que se apresenta é a família imperial, representante do

28 Esse aspecto não deve ser considerado como um mero detalhe porque, a partir dessa

informação, constatamos que também fazia parte do procedimento do fotógrafo produzir certas imagens no formato carte-cabinet, solicitadas pelos mais abastados, e recortá-las para o formato carte-de-visite. Isso permitia que o solicitante pudesse ter, por um custo reduzido, uma quantidade maior de uma mesma imagem para distribui-la aos amigos e familiares. No caso de retratos de personalidades, como do imperador, uma versão no formato de carte-de-visite tornava mais acessível a aquisição por quem o desejasse e alguns estúdios fotográficos chegavam a divulgar essa possibilidade em anúncios de jornais. O que nos leva a inferir que o

carte-de-visite era um recurso utilizado pelo fotógrafo para permitir a reprodutibilidade e

distribuição ampla das imagens.

29 Considero esses retratos como parte de uma autorrepresentação do Brasil na Exposição

poder brasileiro – e é bom lembrar que as famílias imperiais do Brasil e da Áustria mantinham relações próximas: D. Pedro II era filho de Dom Pedro I e da arquiduquesa Dona Leopoldina de Áustria. A ideia de retrato corresponde à diginificação do grupo de indivíduos, ou seja, a apresentação dos retratados de forma a que sejam destacados seus aspectos mais positivos. No segundo, temos o que chamamos de representação do Outro, ou seja, a apresentação de um tipo humano, categorizado de tal modo que se torna o negativo de quem o representa. Considere-se aqui também o título da imagem dada pelo próprio fotógrafo, que indica um tipo humano num lugar específico: vendedora de frutas no Rio de Janeiro.

Dando continuidade às reflexões sobre a construção da identidade e da diferença por meio da diferenciação, como proposto por Tomaz Tadeu da Silva (2000), podem-se visualizar nessas duas imagens uma faceta positiva e outra negativa na construção de uma identidade da nação brasileira e sua diferença. Metaforicamente falando, esses retratos parecem corresponder a duas instituições brasileiras do período: o desejo da Nação branca ou o Império, que deve crescer à imagem e semelhança das nações europeias; e a Escravidão negra, marca negativa, mas necessária, do desenvolvimento histórico do país que deve ser controlada e eliminada.

Silva (2000) explica que as oposições binárias baseiam-se em relações desiguais de poder e ordenam as relações de identidade e diferença. E, no que se refere aos termos “nós” e “eles”, não há dúvida sobre qual dos dois é dotado de positividade. O processo de diferenciação, retomando a perspectiva linguística, equivale a uma demarcação de posições nas relações de poder:

Essa demarcação de fronteiras, essa separação e distinção, supõem e, ao mesmo tempo, afirmam e reafirmam relações de poder. “Nós” e “eles” não são, neste caso, simples distinções gramaticais. Os pronomes “nós” e “eles” não são, aqui, simples categorias gramaticais, mas evidentes indicadores de

nacional com a participação do Imperador. Na primeira etapa da seleção os produtos que representariam o Brasil no exterior eram indicados a participar das exposições nacionais, consideradas preparatórias para as universais. (TURAZZI, 2009, p. 91 e 92). Também aqui, compreendo o termo autorrepresentação, não como autorretrato, mas como uma representação construída a partir da negociação entre os retratistas Alberto Henschel e Franciso Benque e o Império brasileiro.

posições-de-sujeito fortemente marcadas por relações de poder (SILVA, 2000, p.82)30.

Assim, tem-se a família imperial centrada no mundo masculino, protegida entre paredes sólidas, cercada de cultura e civilidade numa forte contraposição à quitandeira baiana, em meio à natureza equilibrada e controlada, numa encenação artificial do espaço externo. Cada qual ocupando o local e a posição que lhes foi determinado, indicado pela pose e gesto, vestimenta e cenário.

1.5 O que somos: brancos, comportados, elegantes, respeitosos e

Benzer Belgeler