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İSKOÇ YETERLİLİKLER SİSTEMİ ÜZERİNE BİR DEĞERLENDİRME

4- İSKOÇ YETERLİLİKLER SİSTEMİNİN İŞLEYİŞİ

A 138ª Menu criou um cenário dinâmico e com várias opções para que o sujeito possa alimentar o seu desejo com as mais diversas experiências. A revista apresenta um modelo de espetáculo em que o chef ocupa o papel de protagonista nos cenários, representando e apresentando os sonhos e as fantasias desejadas pelo sujeito. O profissional posa como um mensageiro entre o enunciador e enunciatário contribuindo para que o contrato de comunicação entre ambos seja mantido.

O perfil do chef atende a esse cenário, pois ele é apresentado como um profissional diferenciado, com um perfil que aponta inteligência com sensibilidade, um discurso que pode ser verificado que foi construído por outros meios de comunicação, como, por exemplo, as revistas francesas. Pietroluongo (1996, p. 71), que analisou estas publicações, ressalva o papel dos chefs encontrado ali:

No discurso gastronômico, o chef de cozinha é uma personalidade por excelência. Trata-se de alguém apresentado como tendo um temperamento sensível e inteligente, capaz de reunir a essência de um grande artista. Essa individualidade única goza do prestígio de ser um lugar para onde confluem e se fusionam metáforas de todos os domínios da arte.

Esse modelo de chef competente, artista, entre outras qualidades, já aparece com constância na Menu de maio 2010. Logo nas páginas 12 e 13 aparecem dois chefs (FIG.80). A imagem de Sergi Arola, um profissional brasileiro, ilustra o texto sobre um evento de gastronomia, que reuniria grandes chefs espanhóis e brasileiros. Ele posa sentado, com a mão no queixo, olhando para o lado, como se estivesse pensando. O tom esfumaçado às suas costas ratifica o simulacro do profissional na condição de um gênio pensante, ou um artista. Sua vestimenta é uma doma, acompanhada de calça jeans, relógio esportivo, anel e uma pulseira que se amarra ao pulso. Ainda que a personagem tenha cabelos grisalhos, sua vestimenta demonstra uma personalidade arrojada, moderna, despojada.

Na página ao lado (p.13) está a imagem de outro chef e bastante jovem, Raphael Despirite (FIG. 80), em que se destaca a relação do profissional com a música. Também de doma, a matéria divulga o seu projeto Bossa Nova, em que o seu restaurante Despirite “convida algum chef da nova geração para dividir sua cozinha durante a última semana de cada mês”. A ideia do projeto é fazer uma “analogia entre o movimento musical nacional e a cozinha brasileira atual”.

Figura 80 - Sergi Arola e Raphael Despirite..

Fonte: Menu (n. 138, maio de 2010, p. 12 e 13). Acervo do próprio autor

Outro evento é divulgado na página 12 (Menu n. 138, maio de 2010) (FIG.81) e nele o enunciador convoca o enunciatário para escapar da rotina que o enjaula: o dia das mães. A convocação em relação a esta data mostra-se bastante distinta dos demais números de Menu analisados quando se apresentou o tema, deixando claro que os dispositivos apontados passaram a primar pelas veias do consumo e o chef é o veículo para esse chamado. Para comemorar a data, o modelo das outras edições convocava o enunciatário a adentrar as suas cozinhas com o propósito de fazer delícias para aquela “que sempre faz tudo o que você

gosta” (editorial de Menu n. 18, maio, 2000)81, ou seguir o passo a passo de uma chef (Cristina Makibuchi)para preparar um bolo para sua mãe (Menu n.78, p. 57) (FIG. 72).

Figura 81 - Divulgação do dia das mães. O leitor é convocado para reservar os restaurantes com antecedência para comemorar o dia.

Fonte: Menu (n. 138, maios 2000, p. 12). Acervo do próprio autor

Na Menu 138 (maio de 2010, p. 12), o tema toma apenas um quarto de página da revista e a chamada traz “mães longe da cozinha” (FIG. 81). O texto sugere cinco nomes de restaurantes, expõe seus respectivos cardápios e preços, convocando o enunciatário a reservar os lugares o quanto antes para comemorar a data. Uma das opções sugeridas é ilustrada na matéria e mostra-se esteticamente com marcas barrocas, mas no padrão piramidal82, portanto, uma proposta diferente do farfalle com salmão da capa da revista de maio de 2000 (FIG. 60) ou do bolo de bem-casado da edição de 2005 (FIG.72). A chamada era encerrada com uma frase: “comer e beber mantêm a alma e o corpo juntos”. Desse modo, as palavras de “Heinrich Boll, escritor e pesquisador alemão (1917-1985)” que eram expressas logo abaixo, tornava-se um dispositivo a mais para convocar o enunciatário a estar junto de sua mãe naquela data, portanto, longe da cozinha.

81 A seção com as receitas para comemorar o dia especial é intitulada “Ocasiões especiais” e a chamada

apresenta: “com esta seleção de receitas, você vai poder preparar em casa um belíssimo almoço para o dias das mães. São pratos deliciosos, tradicionais e bem fáceis de fazer”.

82 O tema sobre as figuras geométricas que prevalecem na apresentação dos pratos servidos na gastronomia de

luxo foi tratado no capítulo anterior. O prato, em questão, foi intitulado de “Campo e Mare, com frutos do mar e legumes grelhados (R$68,00)”.

Assim, a edição de Menu, de maio de 2010, enuncia, logo nas suas primeiras páginas, imagens de empreendedores de sucesso na área da alimentação, ou seja, os chefs, e um convite aberto ao consumo (FIG. 80 e 81). Os restaurantes que oferecem cardápios, e com valores relativamente altos, precisam ser reservados com antecedência; para ir ao evento dos

chefs espanhóis e brasileiros e saber das últimas tendências gastronômicas também é preciso organizar-se em cotas de patrocinadores; e o projeto Bossa Nova, do chef Raphael Despirite, ao custo de R$98,00 por pessoa, já está com data marcada para acontecer o próximo.

Essas convocações oferecem propostas supostamente originais e estimulam o sujeito contemporâneo que anseia por satisfazer novos desejos em busca da felicidade, para sair de suas frias rotinas de seu mundo diário. Mas esse excesso de chamadas acaba por colocá-lo em outro círculo rotineiro.

Ferrer (2010, p. 167) ao apontar a condição do sujeito na relação com o consumo de espetáculos e a felicidade obrigatória que o ronda no sistema capitalista diz:

Ele não percebe que a apreciação do original só se torna possível em plena era da linha de montagem e da produção em série, e que o raro está, necessariamente, subordinado à repetição e à regularidade. As formas de administração da vida fazem do maravilhoso menos a aparição de um milagre do que um efeito especial dos meios de comunicação, de modo que as pessoas se dedicam a julgar como feitos estéticos os espetáculos que lhes são ofertados, premiando-os ou repudiando-os de acordo com a maneira como eles se encaixam em seus olhares ávidos por consumir paisagens encantadas, insólitas e excitantes que, por um breve momento, alternam a ordem instituída das coisas. É em torno dessa necessidade que confluem o espetáculo, a tecnologia e a permissividade erótica, em um contexto geral onde a saúde emocional é pouco menos que um imperativo social, para além de ser uma preocupação massiva. Veio ocupar o lugar da inquietação com o estado espiritual da paróquia, característica de épocas dominantes pela imaginação religiosa.

Ao ressaltar essa relação tomada pelo autor sobre o aspecto religioso, é possível trazê- la para o espetáculo da gastronomia e inclusive inferir que o chef possa ser contemplado como um sacerdote nessa área. No imperativo do modelo do consumo e do espetáculo o chef, assim como um sacerdote, ocupa o papel do Pai, orientando ao enunciatário os caminhos a seguir, do que e onde comer, e por tamanha importância, as iguarias que passam por suas mãos são santificadas. Seguindo as orientações do chef, o sujeito estará mais próximo a ele, sentindo-se mais seguro para satisfazer os seus sucessivos desejos, e sem culpa, pois sendo sugestões do

passam a estar ainda mais presentes e destacados, passando a ganhar novos espaços na revista, inclusive na capa83.

Benzer Belgeler