A escolha de um caminho metodológico para nossas investigações não ocorre de maneira aleatória, devendo partir da especificidade do objeto, do enfoque dado ao mesmo e dos processos que a ele são subjacentes.
O escopo da presente pesquisa consistiu em compreender como se apresenta o trabalho na perspectiva solidária e autogestionária e como a inserção nesses empreendimentos diferenciados influencia a construção dos sentidos do trabalho. Para tanto, a melhor maneira vislumbrada para investigação foi partir da percepção dos próprios trabalhadores associados por meio da realização de entrevistas individuais, enfocando a história de vida laboral.
Sobre a metodologia de pesquisa em psicologia social, Lane (1995, p. 75) segue este mesmo viés:
Nas pesquisas que partem para investigar a consciência, os “velhos” estudos de caso têm se mostrado muito ricos: relatos de história de vida, o discurso livre que se constitui em representações que o individuo faz de si e do mundo que o cerca constituem dado empírico a partir do qual procedimentos de análise do discurso podem permitir detectar o ideológico, as contradições e o próprio pensamento que engendrou o discurso.
A autora afirma ainda que esta técnica é inspirada na concepção de Vygotsky sobre linguagem e pensamento, os quais possuem uma relação estreita e imbricada.
A metodologia seguiu um referencial qualitativo, uma vez que se pretendia investigar uma realidade que não pode ser quantificada, focada no universo dos significados,
motivos, crenças, valores, atitudes e aspirações. Esse método não exige uma amostragem numerosa, haja vista que enfatiza o significado e não a frequência estatística de fatos observados. De acordo com Minayo (1994), o único critério para garantir a adequação da amostra é que os sujeitos estejam envolvidos com a questão estudada.
A metodologia qualitativa também se aproxima dos pressupostos teóricos da presente pesquisa. A Psicologia Histórico-Cultural desenvolvida por Vygotsky sugere um deslocamento da análise de processos com foco meramente individual para análise dos processos de interação social mediados semioticamente e, essencialmente, de forma linguística. Nesse sentido, a análise de um objeto deve envolver também a análise de seu processo.
Para Vygotsky, a consciência é constituída numa relação dialética com o meio e é mediada pela linguagem. A construção discursiva da realidade imbricará as representações, a significação, os sentidos atribuídos e as dimensões afetivas e simbólicas constituídas por cada sujeito.
A partir deste viés, foram realizadas entrevistas com trabalhadoras de empreendimentos solidários distintos, tais como associações e cooperativas.
A análise do material discursivo foi realizada por meio da técnica de Análise de Conteúdo (AC) proposta por Bardin (1977).
Utilizada inicialmente como uma técnica de pesquisa voltada para descrições objetivas de comunicações provenientes de fontes jornalísticas, tais como revistas, filmes, rádio, televisão e jornais, hoje ela é cada vez mais empregada para análise de material qualitativo obtido através de entrevistas de pesquisa em ciências humanas.
Bardin (1977, p. 42) conceitua a AC como:
[...] um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens. Efetivamente, a Análise de Conteúdo pode ser compreendida como uma técnica de pesquisa centrada na palavra, que permite produzir inferências acerca conteúdo da comunicação de forma sistemática e objetiva. Não obstante, tais inferências não podem ser desvinculadas do contexto no qual o discurso é produzido – a contextualização da fala é, inclusive, um de seus principais requisitos. A análise não se refere apenas ao conteúdo manifesto, mas a este compreendido dentro de sua produção cultural, ideológica e histórica.
A AC sugere ainda que a linguagem é construção social, não individual, e que só pode ser analisada considerando contexto histórico-social no qual se insere e suas condiçoes de produção. Dessa forma, indica também a necessidade de problematização de elementos teóricos que se mostram relevantes na análise.
Para análise do material discursivo coletado, seguimos as etapas sugeridas por Bardin (1977): 1) pré-análise, que consistiu na organização do material de pesquisa e no estabelecimento dos indicadores que fundamentaram a interpretação; 2) a exploração do material, na qual os dados foram codificados a partir de unidades de registro digital; 3) tratamento dos resultados e interpretação, que teve como suporte o material de pesquisa já organizado e avançou para o estabelecimento de relações entre a problemática pesquisada e contexto social no qual esta se verifica.
Na presente pesquisa, a análise das entrevistas foi realizada por meio do agrupamento em categorias temáticas. Ao contrário da dedução frequêncial, que privilegia a frequência (repetição) com que um signo aparece na construção discursiva, a análise categorial é realizada por meio do desmembramento do texto em unidades, organizadas por agrupamento analógicos (BARDIN, 1977). Assim, o material transcrito foi sistematizado a partir de categorias em comum, presente em todos os discursos coletados.
O início da pesquisa foi realizado a partir da atuação da pesquisadora como estagiária no Projeto Alinhando Sonhos / Construindo Realidades, desenvolvido pela UFC em parceria com o MDS/Governo Federal. O referido projeto objetivava a formação de dois grupos produtivos com mulheres beneficiárias do Programa Bolsa-Família, sendo um no município de Fortaleza e outro em uma comunidade de remanescentes de quilombos na cidade de Horizonte, também no Ceará. Esta participação exigiu a aproximação com a temática a partir do estudo, levantamento de publicações e de material bibliográfico, participação em feiras solidárias e visita a empreendimentos autogestionários já implementados.
Neste período, ocorreu também a participação em algumas reuniões promovidas pela Rede Cearense de Socioeconomia Solidária (RCES), articulação de produtores solidários e entidades de apoio no estado do Ceará, ocorridas no município de Fortaleza-CE. O intuito dessa participação era o de obter maior familiaridade com a temática e entender como ela é percebida pelas lideranças locais, além de entrar em contato com membros de empreendimentos solidários.
Nessas ocasiões, observamos que os discursos salientavam predominantemente os aspectos positivos da Economia Solidária, a qual era referida como propulsora de inclusão
social e econômica e de mudanças na existência dos trabalhadores pela geração de renda, autonomia e gestão coletiva.
A participação nas reuniões se iniciou no ano de 2009, mas não teve continuidade devido à mudança da pesquisadora para a cidade de Brasília-DF, em virtude de posse em concurso público. Nesta cidade, pudemos realizar visita à sede da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), responsável por subsidiar a definição e coordenar as políticas de economia solidária no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego. Na ocasião da visita, conversamos com alguns gestores e tivemos acesso a algumas publicações do referido órgão, a exemplo do material produzido no contexto na II Conferência Nacional de Economia Solidária. No Ceará, retomamos o contato com membros RCES ao fim do ano de 2010, o que possibilitou a indicação e o acesso às trabalhadoras entrevistadas.
A forma de coleta de dados utilizada foi a de entrevistas individuais. Ao todo, foram entrevistadas quatro trabalhadoras pertencentes a empreendimentos solidários distintos. Ressaltamos que o fato de as entrevistadas serem unicamente do sexo feminino não ocorreu em virtude de critério de seleção estabelecido, mas tão somente pela indicação e disponibilidade das mesmas em participar da pesquisa.
Três entrevistas foram realizadas no local da reunião mensal promovida pela RCES, sendo este um espaço situado em uma escola no município de Fortaleza-CE; a quarta entrevista ocorreu durante a realização de uma feira solidária na mesma cidade. Em virtude de a pesquisadora residir município diverso, não puderam ser realizadas visitas aos locais de funcionamento dos empreendimentos solidários, o que permitira uma maior apreensão da realidade destas iniciativas. Todavia, acreditamos que o material discursivo coletado forneceu subsídios suficientes ao alcance dos objetivos propostos.
Para o presente estudo, optamos por realizar análise das narrativas de apenas duas entrevistadas: uma que já possuía experiência de trabalho em outros segmentos, como indústria e confecção, e outra que teve na inserção do grupo produtivo solidário sua primeira experiência laboral significativa. Fizemos esta opção por entender que a diversidade da história de vida laboral de cada uma possibilitaria a problematização acerca dos significados e sentidos do trabalho nesse contexto específico. Ademais, acrescentamos que o conteúdo do material discursivo das entrevistas não utilizadas muito assemelhava-se ao conteúdo das falas utilizadas na análise. Como a abordagem qualitativa não se utiliza do critério numérico para assegurar sua representatividade, concordamos com Minayo (1994) quando afirma que a amostragem significativa é aquela que possibilita ao pesquisador o acesso ao processo investigado e seus significados.
O procedimento da entrevista foi planejado de modo a interferir o mínimo possível no discurso das entrevistadas, possibilitando a produção espontânea de significados, opiniões, crenças e representações. O objetivo de problematizar os impactos do engajamento em organizações solidárias sugeriu uma entrevista semiestruturada, o que permitiu às entrevistadas discorrer sobre sua história de vida laboral e sobre a atividade que exerce no momento atual.
Para tanto, as entrevistas foram norteadas por questões genéricas, tais como: 1) Histórico de vida laboral da entrevistada.
2) No caso de haver experienciado outras formas de inserção laboral, há diferenças entre o empreendimento solidário e as outras formas de organização em que trabalhou?
3) Como é o seu trabalho no empreendimento solidário? 4) O que é trabalho para você?
A escolha do método de entrevistas semiestruturadas ocorreu porque este oferece a possibilidade de acesso a informações além das listadas, permite esclarecer aspectos da entrevista, suscita pontos de vista, orientações e hipóteses para o aprofundamento da investigação. Ressaltamos, principalmente, que este método possibilitou a aproximação dos significados a partir da vivência do próprio sujeito inserido na realidade estudada.
As entrevistas foram gravadas com o prévio consentimento das entrevistadas. Posteriormente, foram transcritas, preservando-se o conteúdo original e estilo de fala de cada uma, inclusive erros linguísticos, repetições, atos falhos.
Cabe salientar que as entrevistas foram realizadas mediante expressa concordância das trabalhadoras, juntamente com assinatura de termo de consentimento livre e esclarecido no qual era explicado os objetivos da pesquisa e garantido o sigilo de suas identidades.
Não houve preferência por faixa etária ou escolaridade específica, mas estabelecemos o critério de engajamento do membro no empreendimento por um período cronológico significativo, que tenha possibilitado a vivência dos princípios, da forma de organização e as dificuldades que perpassam essas iniciativas. Nesse intuito, inferimos que um prazo mínimo de 01 (um) ano no empreendimento atendia a esses propósitos.
Fizemos a opção de entrevistar membros de empreendimentos solidários diversificados. O propósito não foi o de garantir uma representatividade, haja vista que este não é o escopo desta pesquisa, mas sim o de proporcionar a diversidade das experiências relatadas.
O material discursivo coletado foi submetido a uma análise de conteúdo semântico, no intuito de identificar as informações percebidas como de maior relevância para as entrevistadas. Os elementos comuns encontrados no teor das duas narrativas serviram como base para o estabelecimento das categorias de análise.
Seguindo os objetivos de nosso estudo - compreender como os sujeitos apreendem sua inserção no contexto da economia solidária e, a partir dela, constroem os sentidos sobre o trabalho - estabelecemos inicialmente a categoria “Trabalho” e designamos as demais tomando por referência aspectos comuns presentes nos dois discursos analisados. A última categoria, Afetividade, consiste em uma categoria empírica, formulada a partir da realização das entrevistas. De acordo com Minayo (1994), as categorias empíricas são aquelas que possibilitam apreender as determinações e as especificidades que se expressam no contexto da realidade estudada, observada.
Assim, inferimos as seguintes categorias de análise:
Trabalho, a qual contempla a problematização de questões como precarização laboral; autoestima e identidade; dualidade entre trabalho e emprego e cidadania. Contudo, visto a abrangência desta categoria e a relevância aos objetivos da pesquisa, salientamos que sua análise também perpassa as demais.
Organização Laboral na Economia Solidária, que abrange a verificação dos preceitos e princípios propostos por esta forma de atuação;
Proteção Social no mundo do trabalho contemporâneo, uma vez que a preocupação com ausência da proteção social ligada ao trabalho manifestou-se no teor das duas entrevistas;
Afetividade, a qual compreende as significações de sua história de vida laboral, a vivência dos princípios solidários e os sentidos atribuídos ao trabalho.