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2.5. BPH’ DA TEDAVİ SEÇENEKLERİ

2.5.2. İNVAZİV TEDAVİLER

As trajetórias de Liberdade Livre, João e Luiz são marcadas pela inserção precoce e precária no mercado de trabalho. Os dois primeiros evidenciam estratégias comuns a muitas famílias em situação de pobreza de utilizar o maior número possível de membros da família em atividades que gerem rendimentos.

Fui arrimo de família. Eu com 14 anos tive que sair de casa para trabalhar, tanto por conflitos em casa, com meu pai, e também porque não tinha condições. Se eu ficasse em casa seria mais uma boca para alimentar e a gente ia passar fome. (Liberdade Livre, 30 anos)

[...] antes da ONG também já trabalhei em algumas casas de família, como mão de obra, você vai lá limpar um quintal, cuidar da casa, fazer um serviço de mão de obra, então, desde a minha infância eu sempre vivenciei isso... essa questão do trabalho infantil, não só eu como também as minhas irmãs, meu irmão. [...] lembro que nos meus 04 anos eu já vendia chupe chupe geladinho, já sabia o que era R$ 0,10, passar um troco, então... ah, já serve para fazer alguma coisa. (João, 23 anos)

Diversos escritos acerca do trabalho infantil apontam a condição de criança trabalhadora como uma barreira ao desenvolvimento escolar. Conforme Miranda (2006), o trabalho precoce concorre para um amadurecimento precoce, além de contribuir para a supressão de oportunidades que possibilitariam o pleno desenvolvimento da criança e o acesso

ao exercício da cidadania. Para essa pesquisadora que investigou a realidade de crianças trabalhadoras no Vale do Mucuri, mesmo que a criança tente conciliar escola e trabalho, o cansaço toma conta e não há disposição para frequentar a escola. Disso decorrem muitas situações de abandono e evasão escolar, distorção idade/série, retenção e encurtamento da escolaridade. Apesar de não ter acontecido isso com João e suas irmãs porque foram alvo de políticas compensatórias, essa é a realidade de milhares de crianças e jovens dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, incluindo Liberdade Livre, conforme veremos mais adiante.

Para Luiz, o trabalho aparece mais como um valor cultivado pela família do que como necessidade de subsistência do grupo familiar.

Pai e mãe criou a gente... bem aquela coisa assim: você tem que trabalhar. Entendeu? Então, desde novinho eu sempre trabalhei. Antes de entrar na universidade, durante todo o ensino médio eu trabalhava numa fábrica de biscoito e num projeto social. Eu trabalhava de manhã na fábrica de biscoito e de tarde eu ia para o projeto em que eu trabalhava como assistente administrativo, e, de noite eu estudava. (Luiz, 21 anos)

Luiz relatou, ainda, que não tinha carteira assinada e que recebia cerca de R$160,00 por quatro horas de trabalho diário na fábrica de biscoitos e aproximadamente R$ 260,00 no projeto social. Sua inserção no trabalho permitia-lhe contribuir com o pagamento de algumas contas da casa- embora não fosse obrigado a fazê-lo- e a manter suas necessidades: “lembro que comprei um DVD, primeira coisa, celular... gastava com bobagem mesmo como lanche na escola... esse tipo de coisa” (Luiz, 21 anos). Gilson também faz referência ao trabalho ainda na adolescência; todavia, não remete este processo a um ethos de valorização do trabalho em si, mas visando a sua autonomia financeira em relação à família.

Dayrell (2007, p. 1.109) chama a atenção para a diversidade de situações e posturas juvenis em relação ao trabalho e ressalta que, no Brasil, “para grande parcela de jovens, a condição juvenil só é vivenciada porque trabalham, garantindo o mínimo de recursos para o

lazer, o namoro ou o consumo”. Para o mesmo autor, ancorado em Sposito (2005), “o trabalho também faz a juventude” e, apesar de influenciar no percurso escolar, a sobreposição

trabalho/escolarização não significa, necessariamente, o abandono da escola, o que verificamos na trajetória dos estudantes pesquisados, à exceção de Liberdade Livre, conforme veremos adiante.

O “estar no mundo” é também clivado pela raça/etnia, além do pertencimento de

aquisitivo não é a mesma coisa que ser jovem branco, de pais com formação superior e de família abastada.

Na escola era bem complicado, porque era uma escola de um bairro de classe média, classe média baixa, mas classe média, e estudava muito filho de papai [...]. Os negros da escola eram separados, os mais pobres negros eram separados e eram educados, colocados à parte. O processo pedagógico era diferenciado.

[...] naquele momento eu não tinha consciência do que era racismo, mas foi um processo que até hoje me marca. (Liberdade Livre, 30 anos)

Situações referentes à inserção no mundo do trabalho, à igualdade de oportunidades, à discriminação racial, à desigualdade socioeconômica, à falta de acesso ao lazer, entre outras, permeiam a sociabilidade de muitos jovens negros e adiantam, em muitos casos, alguns ritos de passagem para a idade adulta – como a inserção precoce no mercado de trabalho, a qual provoca, por vezes, um certo encurtamento da juventude.

Eu saí de casa para trabalhar, com 14 anos. [...] Foi muito difícil o período que eu vivi em Vitória. Período de muita humilhação, porque era o melhor que eu tinha. Minha madrinha, minha mãe foi empregada da mãe dela. Eles são daqui, uma grande família tradicional da exploração de pedras preciosas, hoje está falida, mas já foi bem tradicional. Minha madrinha foi amiga da minha mãe, mas minha mãe foi empregada da mãe dela. [...] Quando eu fui morar em Vitória, ela falou com a minha mãe que eu estava indo morar em Vitória, mas que eu ia arrumar um emprego e ia me formar. Só que, aí, o que acontece, ela jogou toda a responsabilidade dos afazeres domésticos nas minhas costas, os filhos me tratando como se eu fosse empregada e meus estudos capengando, numa escola pública lá de Vitória, enquanto o filho dela estudava numa escola particular. (Liberdade Livre, 30 anos)

A trajetória de Liberdade Livre ilustra a tese de que as heranças da escravidão estão presentes no cotidiano26 e nas experiências de vida das mulheres negras. Deixaram de ser escravas domésticas e passaram a ser empregadas domésticas, cujos vínculos trabalhistas são marcados por relações de favor e compadrio, “com forte apelo afetivo acrescido de uma falsa ideia de pertencimento, que perpetuavam práticas de subordinação e dependência estratificadas como naturais, inerentes à mulher negra (ex-escrava)” (PEREIRA, 2011).

26 Devido a limitações teórico-metodológicas da pesquisadora referentes ao recorte da área de interesse de pesquisa, não nos propomos ao aprofundamento dessa reflexão. Para tanto, sugerimos a obra de Florestan Fernandes (1965), “A integração do negro na sociedade de classes” e “Estrutura social, mobilidade e raça” de HASENBALG e VALLE e SILVA (1988).

Eu morava num bairro de classe média alta em Vila Velha, na praia da Costa, e lá, para fora, eu era tipo a filha adotiva dela, para dentro, eu era empregada da casa. Um belo dia ela falou assim, foi na hora que eu despertei que a relação estava muito desigual, não sei o que a gente estava falando, ela disse assim: é desse jeito que uma empregada fala com a patroa? Aí eu falei, então essa relação mudou, eu não sou mais sua afilhada, sou sua empregada. Eu não falei isso com ela, eu conversei isso comigo. Aí eu comecei a arrumar jeito para sair para fora da casa, não ficar mais lá. (Liberdade Livre, 30 anos)

Liberdade Livre relata ter sido “o arrimo de família”, ou seja, sua inserção no mercado de trabalho foi essencial para a manutenção econômica da família. Além desse fator, o espaço de socialização em uma família de alto poder aquisitivo constituiu-se enquanto espaço contraditório, pois- ainda que na condição de empregada doméstica- possibilitou-lhe uma educação diferenciada no sentido do acúmulo de um capital cultural e escolar ao qual, segundo seu relato, não teria acesso se tivesse permanecido na comunidade e na família de origem, o que acabou acontecendo com suas irmãs.

Eles [patrões/madrinha] me deram um processo de educação diferente, diferenciado, porque talvez se eu tivesse continuado na Taquara eu não teria a educação, de me comportar numa mesa, dos gostos musicais, estas coisas. O meio foi me fazendo diferente, eu sabia conversar de muita coisa, eu lia muito, enfim. No terceiro ano do segundo grau, já num processo de querer fazer cursinho para ir para a faculdade, eu queria fazer cursinho, mas não tinha como. Primeiro, eu não tinha condições de pagar e eu tinha que trabalhar o dia inteiro e à noite não tinha cursinho, eu tinha que terminar o terceiro ano. Enquanto o filho dela fazia o segundo grau e o cursinho, eu tinha que terminar o segundo grau. (Liberdade Livre, 30 anos)

O relato de Liberdade Livre evidencia um duplo movimento de possibilidades e desigualdades da sua condição juvenil e estudantil em relação ao filho da patroa. Elas são traduzidas, dentre outras formas, pela condição de estudante trabalhadora -reveladora da sua condição de classe-, ao passo que o filho da sua patroa gozava da chamada “moratória social”, que lhe concedia o privilégio do preparo para o ingresso na universidade. Tal desigualdade constituiu fator impulsionador dos projetos de Liberdade Livre referentes à inserção no ensino superior, o que é explicitado no relato a seguir:

[...] eu estava lavando o banheiro e eu lembro que a filha dela virou e falou, elas discutindo comigo e eu falando que queria administrar [um dinheiro que ganhara de presente] e chorando. Ela virou e falou assim: “deixa mãe, esse povo vai ficar assim, lavando privada dos outros a vida toda”. Aquilo para mim foi uma coisa que me marcou. Eu esfregava o vaso e dizia assim para mim, “eu não vou ficar lavando privada dos outros a vida toda”. (Liberdade Livre, 30 anos)

Para Liberdade Livre e Luiz, parte da sua escolarização pautou-se na articulação trabalho/estudo, o que implicou a sua inserção no ensino noturno, realidade de muitos jovens brasileiros. No caso de Liberdade Livre, as condições de articulação trabalho/estudo agravaram- se no período em que morou em Vitória e contribuíram para a interrupção do seu processo de instrução formal, revelando sua trajetória não linear de escolarização. Tal situação é recorrente entre jovens dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri27que, em sua maioria, ficam relegados a subcontratações e/ou ao desemprego28.

Eu acordava 6h da manhã e ia dormir quase meia noite. Eu chegava da escola ainda tinha que arrumar a cozinha e dar a janta para os meninos que ficavam me esperando para dar a janta para eles. Menino de 16 anos, 17 anos. Eu queria muito ir para a faculdade, mas eu não via muita perspectiva. (Liberdade Livre, 30 anos)

Luiz ressalta as condições precárias de escolarização a que se submetem boa parte dos estudantes trabalhadores:

Em relação à educação, em relação ao que foi passado para mim, eu vejo uma deficiência extrema. Principalmente quando eu entrei aqui, sabe? Eu estudava com um tanto de gente que também trabalhava o dia inteiro, povo que vivia na roça, então, o professor não tinha aquela coisa de... tipo assim, jogava mesmo só pra... dar aquela disfarçada, para não falar que não deu nada. (Luiz, 21 anos)

Seu depoimento traz à tona uma questão que vem sendo discutida há tempos por sociólogos da educação: a ampliação da oferta do ensino médio pela implantação das escolas noturnas significou democratização do ensino? Mafra (1994) pondera sobre as contradições que permeiam este processo, ressaltando que a escola noturna, ao mesmo tempo que é apontada como a principal via de continuidade educacional para as camadas populares, impõe propostas de formação, práticas de ensino e estratégias pedagógicas que acabam por expulsá-las dessa

27 Conforme Fundação João Pinheiro/IMRS (2011), a taxa de matriculados no ensino médio com 18 anos ou mais de idade, em 2010, era de aproximadamente 41,5%. Este indicador é medido da seguinte forma: “Número de matrículas no ensino médio de pessoas de 18 anos ou mais de idade dividido pelo total de matrículas no ensino médio, em percentual. Pressupõe-se que os alunos de 18 anos de idade já deveriam ter concluído esse nível de ensino e, em caso negativo, que estejam cursando o Ensino para Jovens Adultos”.

28 De acordo com o Atlas Brasil (2013), em 2010, o grau de formalização do trabalho das pessoas ocupadas no Vale do Mucuri era de 30,92% e, no Jequitinhonha, 35,78%. Este índice é determinado pela “razão entre o número de pessoas de 18 anos ou mais formalmente ocupadas e o número total de pessoas ocupadas nessa faixa etária multiplicado por 100. Foram considerados como formalmente ocupados os empregados com carteira de trabalho assinada, os militares do exército, da marinha, da aeronáutica, da polícia militar ou do corpo de bombeiros, os empregados pelo regime jurídico dos funcionários públicos, assim como os empregadores e trabalhadores por conta própria que eram contribuintes de instituto de previdência oficial”.

mesma escola. Neste sentido, “as escolas médias noturnas estariam contribuindo para manter e ampliar as distâncias culturais e sociais que separam os alunos trabalhadores dos jovens de outras camadas sociais” (MAFRA, 1994, p.94).

Benzer Belgeler