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A circulação simples de mercadorias manifesta-se pelo movimento M–D–M. Esta forma de circulação acarreta a substituição de um valor de uso, de certa qualidade, por outro, de qualidade distinta. Do ponto de vista do valor posto em circulação, contudo, não há alteração. Uma vez que as mercadorias são trocadas por seus equivalentes, não existe acréscimo de valor no interior deste movimento. Se os guardiões ganham no que toca aos valores de uso aos quais têm acesso, de nada lhes serve a circulação simples do ponto de vista da ampliação do valor inserido no circuito:

“Na circulação simples de mercadorias – explica Marx –, ambos os extremos têm a mesma forma econômica. Eles são ambos mercadorias. Eles são também mercadorias de mesma grandeza de valor. Mas eles são qualitativamente valores de uso diferentes, por exemplo, grãos e roupas. O intercâmbio de produtos, a mudança dos diferentes materiais em que o trabalho social se representa, constitui aqui o conteúdo do movimento”148.

A circulação simples de mercadorias é a forma geral do processo de troca. Por isso, na superfície da sociedade capitalista aparecem apenas relações por meio das quais guardiões fazem o intercâmbio de valores de uso que não lhes têm serventia, por valores de uso cujas qualidades lhes são necessárias. O conteúdo do movimento, como afirma Marx, é a mudança das diferentes substâncias em que o trabalho social se representa: metabolismo social.

Não é difícil compreender, contudo, que não existem quaisquer empecilhos para que o movimento tenha início com a forma que faz a mediação do circuito. Nada impede que, no lugar de iniciar a circulação pela mercadoria, os guardiões deem início ao circuito pelo dinheiro. O possuidor do cristal monetário (D) o lança na circulação com o intuito de obter uma mercadoria (M); de posse desta, volta ao mercado para trocá-la por dinheiro (D). A forma do movimento se expressa da seguinte maneira: D–M–D. Quer dizer, dinheiro que se troca por mercadoria para, depois, ser trocada novamente por dinheiro.

90 No movimento da circulação simples todos precisam vender para comprar. A pessoa apenas tem acesso à mercadoria da qual necessita se, antes, alienou a mercadoria da qual dispunha em troca de dinheiro. Nada impede, contudo, que executem o movimento oposto, isto é, que comprem para vender. Se a metamorfose M–D é necessária para que o indivíduo tenha acesso aos bens que garantem sua subsistência, não há qualquer proibição no que toca à execução inicial da metamorfose D–M. De posse do cristal monetário, a pessoa lança-o na circulação dando início a um circuito diferente daquele representado pela forma M–D–M. Marx explica:

“A forma direta de circulação de mercadorias é M-D-M, transformação de mercadoria em dinheiro e retransformação de dinheiro em mercadoria, vender para comprar. Ao lado dessa forma, encontramos, no entanto, uma segunda, especificamente diferenciada, a forma D-M-D, transformação de dinheiro em mercadoria e retransformação de mercadoria em dinheiro, comprar para vender”149.

Ao longo da exposição marxiana fica claro que o circuito M–D–M “transpira” o cristal monetário, quer dizer, expulsa o dinheiro como resultado do movimento. Se é correto afirmar que as mercadorias, depois que cumprem suas metamorfoses, caem na esfera do consumo e desaparecem, não é menos correto dizer que o dinheiro, por outro lado, permanece como consequência desse movimento. O cristal monetário é o resultado necessário do processo de circulação das mercadorias e nada impede que ele mesmo inicie o circuito de trocas.

A forma D–M–D representa dinheiro (D) que se troca por mercadoria (M) para, depois, ser trocada novamente por dinheiro (D). Conclui-se, pois, que o conteúdo do movimento não pode ser a troca de substâncias sociais, quer dizer, de trabalhos diferentes representados em valores de uso de espécies distintas (metabolismo social). O conteúdo do circuito, pelo contrário, é o próprio dinheiro, a forma universal do valor. Dinheiro que se troca por dinheiro. À primeira vista, trata-se de uma tautologia. Ora, não faz sentido trocar dinheiro por dinheiro. Como afirma Marx, contudo, “o processo D–M–D não deve seu

149 MARX, Karl. O capital I (1), p.126; Das Kapital I, p.162. Grifo meu. Perceba que Marx afirma que “ao lado” (Neben) da forma M–D–M existe a forma D–M–D. Quer dizer, ambas as forma de circulação têm

lugar no capitalismo. Ele começa a exposição com a forma M–D–M porque é a mais geral e, também, a mais simples do sistema. É o desdobramento “natural”, digamos assim, da oposição encerrada na mercadoria: valor de uso e valor (valor de troca). “Considerado com atenção – explica Marx na Contribuição – o

processo de circulação apresenta dois ciclos de formas diferentes. Se designamos por M a mercadoria e por

D o dinheiro, podemos exprimir do seguinte modo essas duas formas: M-D-M e D-M-D”. MARX, Karl.

91 conteúdo a nenhuma diferença qualitativa de seus extremos, pois ambos são dinheiro, mas apenas à sua diferença quantitativa”150.

A circulação D–M–D seria mera tautologia se não tivesse como finalidade a ampliação do valor lançado na circulação. De fato, não há qualquer sentido em lançar no movimento certa quantia em dinheiro para retirar a mesma soma. Entretanto, iniciar o circuito com o cristal monetário faz todo o sentido quando se tem como objetivo extrair um valor mais elevado do que aquele que iniciou o percurso.

A forma do movimento, portanto, para não se tornar tautológica, não pode ser D– M–D, em que os valores presentes nos extremos são iguais. É preciso que, ao final do percurso, o valor tenha recebido um acréscimo. A forma da circulação, portanto, só pode ser D–M–D’. Em outras palavras: dinheiro (D) que se troca por mercadoria (M) para, posteriormente, ser trocada por dinheiro, mais um acréscimo (D’). “Esse incremento, ou excedente sobre o valor original – explica Marx –, chamo de – mais-valia (surplus value). O valor originalmente adiantado não só se mantém na circulação, mas altera a sua grandeza de valor, acrescenta mais-valia ou se valoriza”151.

No circuito M–D–M, como vimos, o dinheiro cumpre uma série de funções. É medida dos valores e padrão dos preços, funciona como meio de circulação, desdobrando- se em meio de compra e moeda, e assume, finalmente, a forma de dinheiro como dinheiro, quer dizer, funciona como elemento de entesouramento, meio de pagamento e dinheiro mundial.

Na forma de circulação D–M–D’, não é difícil perceber, o dinheiro cumpre uma função essencialmente diferente. Sua finalidade não é fazer a mediação do intercâmbio entre mercadorias. Pelo contrário. O cristal monetário inaugura o movimento, de maneira que o valor, mais exatamente a expansão do valor, é sua finalidade. “Dinheiro que em seu

150 MARX, Karl. O capital I (1), p.128; Das Kapital I, p.165.

151 MARX, Karl. O capital I (1), p.128; Das Kapital I, p.165. “Mais-valia” é a opção consagrada para a tradução da palavra “Mehrwert”. Literalmente, contudo, “Mehrwert” significa “mais-valor”. Parece que esta última expressão revela-se mais adequada porque não deixa dúvida de que ocorre um acréscimo de valor. Quer dizer, de uma objetividade social que apenas tem lugar em relações de trocas de mercadorias. A palavra “mais-valia”, por outro lado, não remete diretamente à relação social em que aparece o valor. O que acarreta certas situações desconfortáveis em que mesmo alguns marxistas afirmam que o senhor de engenho, por exemplo, extraía a “mais-valia” de seu escravo. Ou que o senhor feudal extraía a “mais-valia” do servo da gleba. Ora, “Mehrwert” é algo que aparece apenas na relação em que “Wert”, “valor”, esteja em jogo.

92 movimento descreve essa última circulação – explica Marx – transforma-se em capital, torna-se capital e, de acordo com sua determinação, já é capital”152:

“Comprar para vender – diz Marx –, ou melhor, comprar para vender mais caro, D-M-D’, parece ser decerto apenas uma espécie do capital, a forma peculiar do capital comercial. Mas também o capital industrial é dinheiro que se transforma em mercadoria e por meio da venda da mercadoria retransforma-se em mais dinheiro. Atos que ocorram eventualmente entre a compra e a venda fora da esfera da circulação nada mudam nessa forma de movimento. No capital a juros a circulação D-

M-D’ apresenta-se, afinal, abreviada, em seu resultado sem a mediação, por assim dizer em estilo

lapidar, como D-D’, dinheiro que é igual a mais dinheiro, valor que é maior do que ele mesmo. De fato, portanto, D-M-D’ é a fórmula geral do capital como ele aparece diretamente na esfera da circulação”153.

O movimento por meio do qual o dinheiro transforma-se em capital projeta duas relações jurídicas: D–M ou contrato de compra, e M–D’ ou contrato de venda. A circulação simples, como vimos, move-se em sentido oposto, pelos contratos de venda e compra. Feita, contudo, a abstração da forma com a qual se inicia o movimento, se pela mercadoria (M) ou dinheiro (D), tanto a circulação simples como a circulação complexa movem-se por relações jurídicas absolutamente idênticas: dois contratos, um de compra, outro de venda.

A relação de direito, portanto, expressa um quiproquó. Se a troca de mercadorias for captada fora do movimento dentro do qual está necessariamente inserida, projeta apenas a forma jurídica; portanto, sempre a mesma aparência de uma relação contratual pactuada entre pessoas e fundada na troca de equivalentes. Capte-se o movimento pela forma D–M ou pela forma M–D, tem-se sempre um contrato de compra ou venda. Uma relação jurídica fundada na troca de valores idênticos. A abstração do movimento da circulação põe apenas relações de igualdade formal e material.

152 MARX, Karl. O capital I (1), p.126; Das Kapital I, p.162. “Dinheiro como dinheiro (Geld als Geld) e dinheiro como capital (Geld als Kapital) diferenciam-se primeiro por sua forma diferente de circulação”.

Idem, ibidem, p.125; p.161. “O dinheiro como capital é uma determinação do dinheiro que vai além de sua determinação simplesmente como dinheiro. Pode ser considerado como realização superior, do mesmo modo que pode ser dito que o macaco se desenvolve no ser humano. Mas, nesse caso, a forma inferior é posta como sujeito predominante sobre a forma superior. De qualquer modo, o dinheiro como capital é diferente do

dinheiro como dinheiro. A determinação nova tem que ser desenvolvida. Por outro lado, o capital enquanto dinheiro parece a regressão do capital a uma forma inferior. O dinheiro reaparece novamente em todas as

relações posteriores; mas aí já não funciona mais como simples dinheiro. Se, como aqui, o importante é, antes de tudo, segui-lo até sua totalidade como mercado monetário, o desenvolvimento restante é pressuposto e deve ser incluído quando for o caso. Desse modo, trata-se aqui da determinação universal do capital, antes de passarmos à sua particularidade como dinheiro”. MARX, Karl. Grundrisse. Op. cit., p.193. 153 MARX, Karl. O capital I (1), p.131; Das Kapital I, p.170.

93 Os agentes que participam da troca, as pessoas, não procedem à análise do movimento completo. Da perspectiva empírica da qual se situam, seus nervos ópticos refletem apenas uma relação: o contrato de compra e o contrato de venda. Sequer têm a noção de que se trata da apenas da forma de uma relação econômica, quer dizer, de que o conteúdo do movimento corresponde ao fruto do trabalho humano aplicado a substâncias da natureza. Assim, a superfície da sociedade capitalista aparece como uma série infinita de vendas e compras, sujeitos de direitos que se encontram constantemente no mercado para travar relações de equivalência por meio das quais mercadorias e dinheiro trocam de posição. O fundo econômico da relação desaparece e aflora apenas o movimento jurídico como o único e exclusivo fundamento dos circuitos.

Como a riqueza da sociedade capitalista aparece como uma imensa coleção de mercadorias e a mercadoria individual como o único meio por cujo intermédio as necessidades humanas são supridas, o circuito M–D–M, isto é, a circulação simples de mercadorias, aparece como o único movimento existente. A forma da circulação complexa simplesmente desaparece. Mesmo nos momentos em que ela efetivamente tem lugar, a mediação jurídica, a forma do direito, não permite que ela venha à superfície. Sob todos os pontos de vista empíricos, portanto, na sociedade capitalista existem apenas guardiões de mercadorias, sujeitos de direito, trocando equivalentes e travando, para tanto, relações jurídicas, contratos de venda e compra.

Benzer Belgeler