O Projovem Urbano (PJU) é um Programa do Governo Federal vinculado à Educação de Jovens e Adultos sobre o qual falei de uma forma geral no capítulo II, no momento em que apresentei as políticas mais recentes do governo brasileiro. A pesquisa empírica que tomou como referência as percepções das/os jovens sobre as contribuições do Programa para seus (re)posicionamentos identitários aconteceu em um núcleo51, denominado neste estudo de Núcleo X. Porém, quando possível, as observações se estenderam a outros contextos, tendo em vista que algumas ações do Programa transcendem o espaço físico dos núcleos.
51
Essa é a terminologia utilizada no Programa. Portanto, quando falo de Núcleo, estou me referindo à escola. Conforme acordado com as/os educadoras/es e jovens participantes da pesquisa não será revelado nenhum nome: da escola, das/os educadores e, principalmente, das/os jovens.
A Imagem 1, a seguir, apresenta a fachada do Núcleo X. Pela fotografia é possível observar que a instituição está localizada numa área privilegiada, que se encontra na zona sul da cidade de João Pessoa, capital da Paraíba, cuja parte significativa da população é formada por professores/as, estudantes universitários e funcionários públicos. É um bairro que na última década apresentou grande crescimento, em função da intensa especulação imobiliária. Bem servido de infraestrutura urbana, sendo considerado um dos melhores lugares para se morar, nesta zona.
Imagem 1- Núcleo X
Fonte: Pesquisa de campo
Para o Projovem Urbano o núcleo representa sua unidade de organização pedagógica fundamental. É nele onde acontece a maior parte das ações de ensino e aprendizagem. Os núcleos funcionam dentro de escolas da rede pública municipal. Para a formação desta unidade são necessários alguns requisitos. Primeiro, é preciso que estejam matriculados e enturmados de 150 a 200 jovens e que estes sejam distribuídos por 5 turmas.
O Núcleo X, como já informado, teve 180 jovens matriculados no sistema, mas cotidianamente a frequência sempre foi muito baixa, como destacado no capítulo III. Durante o período do trabalho de campo, na maioria dos dias a frequência não chegava a 50 jovens. Apenas nas provas, atividades externas, viagens e passeios relacionados ao arco de Turismo e Hospitalidade este número crescia significativamente. Tal realidade é uma questão que precisa ser repensada no campo do currículo.
A instituição que acolheu o Núcleo X garantia seu funcionamento, pois dispunha de: cinco salas de aulas, sala dos professores, laboratório de informática, biblioteca, sala para
atividades de ensino e aprendizagem comuns a todos os estudantes, salas para plantões pedagógicos e salas que poderiam ser usadas para as oficinas de Estudos Complementares. Estrutura mínima exigida para que um Núcleo do Programa possa funcionar. Na prática esta formalidade, em especial, com relação aos quatro últimos espaços não se concretiza. A maioria dos encontros se concentrava na sala dos/as professores/as.
É comum à tensão entre gestão da escola e do núcleo, em especial no que diz respeito ao uso dos espaços, o que não era tão recorrente no caso do Núcleo X. Acredito que com a inclusão do Projovem Urbano como parte da Educação de Jovens e Adultos, do Ministério da Educação (MEC), essas tensões tendam a diminuir, já que antes o PJU era visto como um intruso na escola por estar vinculado a Secretaria Nacional de Juventude e não ao MEC.
Ainda com relação aos espaços percebi que a sala de informática não era usada com potencialidade, por várias razões, uma delas, como já destacado noutro momento, estava relacionada ao fato da EJA utilizar a sala no mesmo horário. Outra exigência para funcionamento de um núcleo é a sala de acolhimento dos/as filhos/as do alunado do Projovem Urbano e da EJA. De uma forma geral, as instituições geralmente têm um espaço que passa a ser adaptado para esta ação. No Núcleo X o atendimento das Cuidadoras era realizado na sala de vídeo da escola. Como já destacado antes, este serviço não equivale à creche, à pré-escola, ou a escola de ensino fundamental, por isso a criança não precisa ter frequência obrigatória, diária e nem sistemática. É um serviço que deve estar disponível sempre que as jovens precisarem.
A instituição onde funciona o Núcleo X atende nos três horários. Nos períodos da manhã e da tarde recebe crianças e adolescentes do Ensino Fundamental I e II e da Educação Infantil. No horário noturno atende a Educação de Jovens e Adultos e ao Projovem Urbano. Como outras escolas do bairro apresenta uma boa estrutura física: salas de aula; diretoria; secretaria; sala para os especialistas; laboratório de ciências; almoxarifados; sala de professores/as; sala multifuncional; gabinete odontológico; refeitório; cozinha; sala de informática; sala de vídeo; biblioteca; ginásio de esportes; banheiro para os/as professores/as e funcionários/as; banheiros masculinos e femininos para os/as alunos/as, e uma área de serviço.
A instituição possui três entradas. A principal funciona para acesso dos alunos/as e funcionários/as. Outra para o ginásio poliesportivo e uma terceira para o estacionamento de carros. Como visto na Imagem 2, a entrada principal têm árvores rodeadas por bancos onde os/as alunos/as ficam até o sinal de entrada. Só a partir da sirene podem acessar o ambiente interno da escola, sempre monitorado por uma inspetora.
Depois desta entrada principal tem uma primeira grade, que sempre está com cadeado. Depois dela é que se tem acesso a secretaria da escola, que possui meia parede de vidro e uma pequena abertura para comunicação com quem chega. No lado oposto, a sala da equipe técnica. Uma segunda grade separa estes espaços do recreio coberto e dos demais ambientes da instituição. Assim, após esta grade se encontra o laboratório de ciências, que já estava fora de funcionamento e permaneceu durante todo período da pesquisa.
O recreio coberto é no centro, um espaço quadrado. Em torno dele se localiza a sala dos/as professores/as, um espaço multifuncional, um almoxarifado, de um lado. Do lado oposto, o refeitório, com toda uma parede feita por tijolos vazados, o que possibilita a visualização de quem está neste ambiente. Noutro lado se encontra a sala da direção que igualmente tem uma parece de tijolos vazados, mas protegida por um grande vidro, de onde é possível ter uma visão ampla do recreio coberto. Ao lado da direção se encontra uma pequena cozinha e, em seguida, a sala de informática.
Os banheiros masculinos são externos, sendo acessados por uma pequena passarela. Outro corredor dá acesso a um segundo almoxarifado e a um conjunto de salas de aula. Em oposição à direção, outro conjunto de salas de aula e a sala de vídeo. Um corredorzinho dá acesso aos banheiros femininos, mais resguardados que os banheiros masculinos. Através de outro corredor se acessa o último conjunto de salas e a biblioteca. A instituição é ladeada por dois grandes terrenos livres, num deles está seu ginásio poliesportivo. A Imagem 2 apresenta uma visão da aérea da escola onde funciona o Núcleo X.
Imagem 2 – Vista aérea da escola onde funciona o Núcleo X
Fonte: Google Maps.
Ginásio Recreio
Coberto
Entrada Principal
Como se pode deduzir a partir do detalhamento anterior, quem está no recreio coberto pode ser visto de diferentes lugares e por distintos profissionais. Funciona quase como um “Panóptico” (FOUCAULT, 1987), só não se é visto quando se vai aos banheiros. A escola afirma-se como um espaço estruturado e organizado para manter o controle e o monitoramento de alunas/os. Quando algum aluno/a sai da sala e foge do raio de visão do/a professor/a basta perguntar a inspetora que sempre está neste espaço e a mesma deverá saber informar se a/o aluna/o seguiu em direção aos banheiros, ou se entrou em alguma sala de aula, ou saiu do Núcleo, o que não é disponível a qualquer momento, já que tem sempre um cadeado no portão.
O único objeto encontrado no recreio coberto era um banco que ficava encostado na parede vazada da direção. Sempre que o diretor não conseguia convencer os/as alunos/as que nele se encontravam a voltar para suas salas ameaçava retirar o banco do recreio. Em muitos momentos, o banco funcionou como um lugar de encontro, um espaço de acolhimento e abrigo de conversas que não aconteciam no espaço na sala de aula, um quase confessionário, em que a maioria dava um jeito de passar para compartilhar os acontecimentos cotidianos, para contar as novidades e claro para saber o que estava “rolando” fora da sala de aula.
A maioria das/os jovens matriculados/as no Núcleo X vive na Comunidade Y, sobre a qual falarei a seguir.