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Nosso objetivo neste trabalho foi apresentar a teoria sobre leis da natureza de D. M. Armstrong, bem como o caminho argumentativo que ele segue para sustentá-la. Apesar de bastante difundida, a teoria de Armstrong se apresenta como uma alternativa a outra teoria, que tem como vantagem o fato de ter sido a posição ortodoxa sobre leis em momentos em que a questão não era explicitamente investigada, possuindo também formas mais sofisticadas que são amplamente defendidas atualmente, e também de apresentar uma simplicidade ontológica considerável – trata-se da explicação mais imediata para a natureza das leis. Trata-se da teoria regularista das leis da natureza, segundo a qual leis se reduzem a regularidades cósmicas, ou, na nomenclatura de Armstrong, a regularidades humeanas. A primeira parte da obra de Armstrong, e também a primeira parte deste trabalho, é constituída, assim, de uma crítica a essa teoria. É preciso mostrar a insuficiência da teoria regularista para mostrar a urgência de uma teoria de leis menos simples, mas com um poder explicativo consideravelmente maior. Apresentamos as críticas de Armstrong contra a teoria regularista ingênua, evidenciando a infinidade de problemas que ela carrega – desde a incapacidade de lidar com tipos especiais de leis até a sua insuficiência para lidar com problemas estreitamente relacionados ao problema das leis naturais, como contrafactuais e indução – o que leva, assim, à sua rejeição. Tratamos também de como propostas de sofisticação da teoria, ainda que apresentem ganhos significativos em relação à forma ingênua, não são bem-sucedidas ao enfrentar dificuldades centrais, levando à conclusão de que a teoria regularista não é, em nenhuma de suas versões, uma explicação aceitável sobre a natureza das leis.

Está aberto, assim, o caminho para uma nova teoria sobre leis. A teoria desenvolvida por Armstrong – e defendida também, de forma independente e concomitante, por M. Tooley e F. Dretske, ainda que com algumas diferenças – alcançou grande popularidade e sucesso em lidar com pontos sensíveis de uma análise de leis. Ela está baseada, por sua vez, em outra teoria de Armstrong a respeito de um tema metafísico controverso: a natureza das propriedades e relações. Trata-se de uma versão contemporânea do famigerado problema dos universais, que remonta à filosofia grega. Armstrong defende um realismo sobre universais, ou seja, que propriedades e relações são entidades reais que se repetem, estritamente idênticas, em cada uma de suas instâncias. O realismo de Armstrong defende que essas entidades não têm existência independente dos estados de coisas em que se instanciam, levando-o também à defesa de um realismo a posteriori – a ideia de que essas entidades se dão a conhecer através da experiência sensível e que cabe à investigação científica nos dizer quais elas são.

leis que, apesar do seu peso ontológico considerável advindo de uma grande quantidade de pressupostos a respeito da existência de entidades teóricas, é capaz de oferecer respostas para muitos dos problemas enfrentados pela teoria regularista. A tese de Armstrong é que leis da natureza são relações entre universais, e, dada a ideia de que um universal está presente em cada uma de suas instâncias, compreende-se que a relação se transfere para os casos particulares, gerando e explicando as uniformidades humeanas. Armstrong defende a existência de um universal de segunda ordem, N, que é uma relação binária de necessitação entre universais. A lei é, assim, entendida como um estado de coisas 'N(F,G)', em que F e G são universais relacionados por N. Mas N(F,G) tem uma dupla função: é um estado de coisas completo mas é também, ao mesmo tempo, uma relação (portanto, um universal) cujos termos são eles mesmos estados de coisas. Assim, a instanciação da relação entre universais nos casos particulares pode ser expressa por 'N(F,G)(a ser F, a ser G)'. Conceber leis da natureza dessa maneira tem diversas vantagens – permite dar conta dos casos problemáticos de leis naturais que a teoria regularista não contemplava: leis funcionais, leis não-instanciadas e leis probabilísticas, e também fornece sustentação para contrafactuais e a indução, produzindo um conjunto bastante funcional de conceitos metafísicos.

A maior dificuldade da teoria é, talvez, a relação de necessitação N, que tem papel primordial e sobre a qual muito pouco é dito. Armstrong a considera um elemento primitivo da teoria e, no entanto, sugere uma teoria de necessitação independente do contexto das leis para iluminar sua natureza. Mas a relação N é apenas um de três sentidos de necessidade relacionados à teoria de leis de Armstrong – e nos parece que está aqui o ponto central para sua compreensão. Em primeiro lugar, há a relação de necessitação N entre universais (que se transfere, devido ao segundo sentido, para cada caso particular). Em segundo lugar, há a passagem necessária da necessitação do nível dos universais para o nível dos particulares, gerando uniformidades humeanas. Essa passagem só pode ser entendida a partir da ideia de instanciação presente em um realismo sobre universais. Em terceiro lugar, há a ideia de que leis são metafisicamente necessárias, ou seja, que leis não poderiam ser diferentes do que são – existem em todos os mundos possíveis. Enquanto Armstrong propõe uma concepção de leis fundada nos dois primeiros tipos de necessidade – a necessitação entre universais e sua instanciação necessária na natureza –, ele sustenta que leis não são metafisicamente necessárias, mas contingentes. A concepção de leis de Armstrong está, portanto, baseada em uma distinção entre necessidade nômica – a ideia de que leis regulam o comportamento do mundo e não são apenas regularidades em uma descrição total deste comportamento – e necessidade metafísica – a ideia segundo a qual leis não poderiam ser diferentes do que são. A teoria de Armstrong se constitui pela defesa do primeiro tipo e pela rejeição do segundo.

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