1. İLKÖĞRETİM OKULLARINDA İNGİLİZCE ÖĞRETİMİNDE
2.3. İngilizce Öğretiminde Alan Kültürünün Niteliğinden Kaynaklanan
Lorenzo Fernandez constrói uma paisagem, um cenário sonoro percussivo, escuro, surdo, dissonante, tenso, cravado pelos dilacerados lampejos vivos de cor presentes na fala da senhora. O compositor emprega tonalidades que se definem principalmente pela linha vocal e pelo baixo do piano e escolhe uma base funcional simples. A linha da voz contrói-se então com cores fortes e definidas das tonalidades. A harmonia por quintas, entretanto, cria um padrão tonal indefinido que mascara de certa forma as funções e distorce as tonalidades devido às dissonâncias. O fato de a harmonia se modificar caleidoscopicamente produz um contínuo ambíguo de cor que perpassa toda a obra, gerando um contínuo de tensão. As seções nas canções são claramente articuladas por justaposição, definindo os diversos momentos da fala da senhora, como cenas, como recortes, enquanto a harmonia por quintas e o ostinato rítmico conferem continuidade à sequência dos quadros. A distorção das tonalidades, a angulosidade das linhas e os recortes abruptos apontam para uma escrita expressionista na qual se revela a expressão dilacerada de um personagem retratado. Já a harmonia por quintas é procedimento que pode ser
encontrado no Impressionismo. Entretanto, aqui o compositor não usa as “meias tintas” e as tonalidades diluídas, indefinidas, típicas deste estilo – como, por exemplo, na canção
Berceuse da onda na qual a tonalidade oscila entre os modos com a utilização da escala pentatônica – pois a definição é dada pela linha melódica e pelas notas do baixo. O compositor trabalha com os diferentes eixos de harmonia, num procedimento multifacetado. Essa mistura de procedimentos técnicos composicionais cria uma nova paisagem estilística dentro do modernismo brasileiro, contraditória e multifacetada.
2.2.4 A tradução de Lorenzo
Se no poema de Jorge de Lima o poeta demonstra uma certa simpatia pela escrava, na canção Lorenzo Fernandez não abre concessões. As ternas cantigas da escrava são omitidas, assim como as estrofes iniciais que introduzem a mucama com expressões como Uma negra bonitinha... ou Essa negrinha Fulô, na qual o adjetivo negrinha perde seu tom típico pejorativo. Mas Lorenzo omite também os desmandos da senhora, a sua preguiça, a sua dependência da escrava para realizar as mais simples tarefas, e a intimidade entre as duas sugerida pela expressão ... Vem me fazer cafuné.
Lorenzo Fernandez omite várias estrofes do poema e coloca a senhora da fazenda no foco da ação, circunvolteada pela presença da escrava, sugerida pela linha do piano. A unidade de cor na canção nos sugere que a fala do narrador bem poderia ser a fala da própria senhora, recontando os episódios, que poderiam ter sido perfeitamente presenciados por ela ou terem sido de sua ciência. Lorenzo Fernandez omite as frases em terceira pessoa, nas quais o narrador introduz as falas da senhora. As falas da senhora se dirigindo à escrava, então, se transformam em monólogo. Desta forma, a personagem situa-se solitária, imersa nos sons dos tambores, como num delírio, num transe que vai tomando proporções cada vez maiores, mais dramáticas. A canção torna-se terrível porque perde o tom de ironia ou de deboche que pode ser notado no poema, principalmente na fala do narrador, que, como podemos imaginar pelo início do poema de Jorge de Lima, tratava- se provavelmente de um neto do Sinhô.
O modo narrativo na primeira pessoa, que percebemos nessa canção, se aproxima de um monólogo. Da mesma forma, a fala do narrador, também em primeira pessoa, mistura o modo de construção do discurso indireto livre e se confunde com a fala da senhora de tal maneira que não sabemos mais quem está narrando, causando um
embaralhamento das vozes. Esse embaralhamento é sentido na parte musical pelo contínuo de cor, de tensão harmônica, e pelo ostinato rítmico que perpassa a obra. A voz narrativa, sendo conduzida desta forma na canção, causa esse mesmo efeito de embaralhamento no intérprete, tornando mais complexa a performance, na medida em que o modo de narrar força o apagamento ou o cancelamento da distância entre o narrador e a senhora, e exige uma postura do intérprete que, englobando os personagens, de certo modo deve simular a narração em forma de discurso indireto livre. O personagem do monólogo também deve retratar, pelo ritmo, a personagem representada pelo estrato do piano. Entretanto, o ritmo dinamogênico conferido pelos acordes percutidos, se é sentido visceralmente pelo intérprete, não é permitido que se manifeste no corpo da senhora que sucumbe. Ora, seria possível a senhora da fazenda se expressar no ritmo dos escravos? É aí nessa contradição que a canção testa um intérprete, que lida, concomitantemente, com a dor da senhora e a tensão rítmica dos atabaques que presentificam a escrava.
Senhora e escrava são representadas pelo compositor, cada qual em um estrato musical diferente e, de certa forma, independentes, mas que interferem um no outro. Mais interessante é como se dá a interferência do estrato da linha do piano, mais material, na linha da voz, mais discursiva, e vice-versa. Funcionando como massa sonora de efeito tímbrico, remetendo a tambores, a harmonia dissonante do estrato do piano mascara as funções da harmonia e distorce as tonalidades dadas pela linha da voz e pelo baixo, ou seja, o estrato que representa a negra distorce o estrato que representa a senhora. Este último, por sua vez, imprime no primeiro a força das funções harmônicas. O ininterrupto contínuo de tensão se acumula ao longo da canção e jamais se resolve, como num delírio. A canção retrata a senhora da fazenda como uma personagem dilacerada pela dor, furiosa, dramática, distorcida, delirante, e a negra como um organismo pulsante de extrema tensão.
Os dois personagens, escrava e senhora, se apresentam em estratos musicais diferenciados. Mas, se um estrato distorce o outro, as duas mulheres se unificam no mesmo ritmo que integra linha vocal e acompanhamento da parte do piano. O estrato musical da senhora, cuja tensão se manifesta em suas linhas angulosas, seus saltos vertiginosos, suas notas agudas histéricas, dilaceradas, se funde ao estrato da linha do piano, aos sons surdos dos atabaques, à tensão harmônica, num crescendo que toma formas de um transe.
Mais do que representação de personagens, essa canção torna-se uma representação dramática de tensões. Lorenzo Fernandez, ao traduzir o poema de Jorge de Lima em música, não ironiza a dor, nem da escrava nem de sua senhora, nem tampouco
mede essa dor numa escala de valores. A canção, ao enfatizar a dramaticidade, a distorção, o delírio, traz à tona a condição tensa entre duas mulheres completamente distintas, mas de certa forma unidas em suas situações degradantes, cada qual à sua maneira, cada qual com sua própria dor, lidando com os mesmos objetos, presenteados ou roubados – os lenços, os frascos de cheiro, os broches, as roupas... Com uma potência extraordinária, Lorenzo Fernandez introduz o conflito e desmascara a tensão existente nas relações entre brancos e negros, de certa forma encoberta pelo poema.