3. İNŞAAT SEKTÖRÜNÜN EKONOMİK KRİZLER İLE İLİŞKİSİ
3.3 İncelenen Ekonomik Krizler
Em 1950, Lina Bo e Pietro M. Bardi lançam a revista Habitat de arte348, arquitetura, design, teatro e crítica - com linha editorial semelhante à sua revista italiana “A cultura della vita”- a qual se tornou uma “importante fonte de referência para os arquitetos”349. Em seu segundo número, Lina Bo
publica o artigo Bela Criança, texto crítico seminal e talvez “o texto fundador de uma crítica brasileira independente”350.
Segundo análise de R. Zein, Lina Bo não estaria “engajada política ou doutrinariamente na construção de um discurso nacional”351, este muito presente nos anos 1930-40, e também não estaria filiada “a um discurso doutrinário ‘marxista’” 352, representado pelos militantes do PCB e nem tampouco
“fincada numa defesa ‘gremial’ da categoria profissional”353 como a Escola Carioca.
Neste texto, Lina Bo expressa pensamento divergente do contexto local, como observou R.Zein, contudo seu discurso estaria mais vinculado ao marxismo ocidental do que o comunismo soviético do PCB. Em seu texto há a busca do caráter nacional da arquitetura brasileira, no entando, seu discurso diverge do pensamento brasileiro nacionalista construído desde os anos 1930-40. Em Lina Bo há o compromisso de diferenciar o nacional, do nacionalismo, termo que nos países europeus assumira contornos terríveis a partir de: Hitler, Mussolini e Franco, cujo conceito de
nacionalismo guardava semelhanças com o Estado Novo. Deve-se entender que o ‘nacional’ para Lina
Bo é visto como o que há de mais autêntico numa cultura, nacional-popular, em suas palavras:
“Existe uma grande diferença entre as denominações nacional e nacionalista. O nacional popular é a identidade de um povo, de um país. O país nacionalista é, por exemplo, a Itália fascista, a Espanha de Franco e outros exemplos. O nacionalismo é um erro gravíssimo que confunde as ideias das pessoas, tirando o sentido do nacional. Você pode ser branco, preto ou amarelo, do norte ou do sul, e ser nacional, entrando no grande convívio internacional
com as características originais e sagradas de seu país, o que é digno de orgulho””354
348 A revista foi dirigida inicialmente por Lina Bo do número 01 ao 09; depois dos números 10 a 13, a direção passa a ser do arquiteto Flávio Motta com a presença de Lina Bo; nos números 14 e 15 a direção esteve a cargo de Lina Bo e P.M. Bardi quando Lina Bo encerra sua participação na revista.
349 CAMARGO, Mônica Junqeira de. Poéticas da razão e construção: conversa de paulista. Tese Livre Docência, FAUUSP, São Paulo, 2009, p. 137. 350 ZEIN, Ruth Verde. Arquitetura da Escola Paulista Brutalista 1953-1973. Tese Doutorado em Arquitetura - UFRGS, Rio Grande do Sul, 2005. 351 Ibidem, ibidem.
352 Ibidem, ibidem. 353 Ibidem, ibidem.
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Em “Bela Criança”, Lina Bo reconhece a “soberbia e a poesia do homem do sertão”355 e valoriza
o trabalho da “casa do seringueiro com seu soalho de troncos e o telhado de capim”356. Para ela esta
seria a origem da “força da arquitetura contemporânea”357 brasileira. Ela estabelece diálogo com B.
Zevi, que analisa as questões de ordem plástica que motivaram a solução de brise-soleil do MES,
denominados por Zevi de “fatores intencionais”.Lina Bo não concorda com B.Zevi e seu ponto de vista
de que a arquitetura brasileira estaria já no caminho da “academia” afirmando que a arquitetura brasileira não provém da arquitetura erudita dos Jesuítas e sim da “poesia do homem do sertão”358. Para
ela, a arquitetura contemporânea brasileira teria muito a buscar na “inspiração da poesia íntima da terra brasileira”359 através do reconhecimento da arquitetura do “pau a pique” do “homem solitário” e em “sua
resolução furiosa de fazer”360. Lina Bo discorda de seu amigo e assume a defesa da arquitetura de seus
novos concidadão,361 ponderando que problemas existem, mas que se deve acompanhar a evolução
dessa arquitetura como a de uma “bela criança” que acaba de nascer.
A revista Habitat segue este pensamento de Lina Bo em sua linha editorial, quando publica várias matérias que resgatam a cultura popular brasileira e sua arquitetura vernacular 362, como, por exemplo: cerâmica do nordeste363; Porque o povo é arquiteto364; fotografias da arquitetura vernacular,
favelas e festejos do carnaval nordestino365; jangadeiros do nordeste366 e a arte popular dos ex-votos367, entre outras. Neste conjunto, cabe destacar o artigo “Construir é viver”368 de E. Villa, que apresenta o
passo-a-passo da autoconstrução de uma casa de madeira, por José da Silva e Matto, migrante do sul do país, “numa localidade do Amazonas”369. Segundo E.Villa, o ‘arquiteto’ que “conhecia por tradição a
355 BARDI, Lina Bo. Bela criança. In. BARDI, Lina. BARDI, Lina Bo. Lina por escrito - Textos escolhidos de Lina Bo Bardi. org. Silvana Rubino e Marina Grinover, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 70.
356 Ibidem, ibidem. 357 Ibidem, ibidem. 358 Ibidem, ibidem. 359 Ibidem, ibidem. 360 Ibidem, ibidem.
361 Lina Bo Bardi se natularizou brasileira em 1950.
362 Outras matérias igualmente importantes: Amazônas:o povo arquiteto, Revista Habitat, n.01; Porque o povo é arquiteto, Revista Habitat, n° 02 e Casa de 7 mil
cruzeiros, Habitat, n° 03.
363 Revista Habitat, n° 2, mar/abr 1951, p.72-76.
364 CZERNA, Renato Cirell. Porque o povo é arquiteto? Revista Habitat, n° 3, São Paulo, p. 3-5.
365 Como a publicação do ensaio fotográfico da estudante Rachel Esther Prochnik. Cf. Revista Habitat, São Paulo, n° 8, p. 26-30.. 366 MARTINS, Francisco. A Jangada segundo Albuquerque. Revista Habitat, São Paulo, n° 8, p. 50-57.
367 Sobre ex-votos Cf. ARAUJO, A.M. Ex-votos e promessa. Habitat, n° 05, p. 42-45, out.dez. 1951; Cf. BORBA, R. Frontini.Os ladrões de ex-votos. Revista
Habitat, São Paulo, n.11, p. 67-71, jun. 1953.
368 VILLA, Emílio. Construir é viver. Revista Habitat, n° 7, São Paulo, p.3-9. 369 Ibidem, ibidem.
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arte de construir”370, sozinho, selecionou as melhores árvores e beneficiou a madeira, utilizou troncos
para estrutura de pilares e vigas da cobertura de palha. Para os vedos externos escolheu “cascas vegetais” aplicadas no sentido vertical e para os vedos internos taipa-de-mão. Para o piso elevado, utilizou madeira roliça estreita. O artigo destaca o jardim com bananeiras e lago com vitórias-régias. Segundo o autor a “belíssima casa alí está firme, espaçosa e agradável, no meio da natureza, em plena selva, no coração do Amazonas”371 e representa uma “singela, porém, profunda lição para todos
nós das cidades grandes”372. Este artigo contrasta [Fig.21] com os demais da revista que aborda obras
da arquitetura moderna brasileira, especialmente o que mostra a “Casa do Arquiteto”373 S.Bernardes, nas páginas seguintes.
21 - Ilustração do artigo Construir é viver, Fonte:. Revista Habitat, n° 7, p.3-9
O posicionamento crítico e independente de Lina Bo está representado na revista Habitat em vários artigos assinados ou não, como por exemplo: “Necessidade da Crítica na Arquitetura”374,
publicado na mesma edição de “Construir e Viver”,quando salienta a importância de uma crítica distanciada e dissociada da propaganda elogiosa. Segundo ela: “A Crítica da arquitetura começa exatamente pela apreciação dos materiais, pelas razões econômicas, pelas finalidades”375, em outra
passagem critica frontalmente seus pares: “todos os arquitetos que se mostram prontos a construir edifícios, por exemplo, em becos, são maus arquitetos, ou antes, não são nem ao menos dignos de serem considerados arquitetos”376. No artigo não assinado “Construir com simplicidade”377, Lina Bo tece
370 Ibidem, ibidem.
371 Ibidem, ibidem. 372 Ibidem, ibidem.
373 CHRISTOFANI, H. Verona. Casa de um arquiteto. Revista Habitat, n° 7, São Paulo, p. 10 374 BARDI, Lina Bo. Necessidade da crítica na aquitetura. Revista Habitat n° 7, São Paulo, p.53. 375 Ibidem, ibidem.
376 Ibidem, ibidem.
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nova crítica ao posicionamento de alguns arquitetos, que “fazem um grande esforço não de inteligência, mas de exibição”378, os quais não estariam aproveitando a grande demanda da construção civil daquela época para “construir a arquitetura moderna, a fisionomia do mundo de hoje”379. Este seria um sintoma alarmante da arquitetura brasileira, em suas palavras: “Há muitos sintomas alarmantes de que ‘moderno’ acabe por ser treinamento gráfico, preguiça, brincadeira, e muito de extravagância”380, em outra passagem, onde distingue arquitetura das demais artes, ressala que “arquitetura, senhores arquitetos, não é literatura. Nem é pintura, desenho ou escultura. A arquitetura é apenas arquitetura”381. Além da arquitetura, Lina Bo teceu críticas sobre temas variados como comportamento, costumes e cotidiano, publicados na revista Habitat sob o pseudônimo de Alencastro.
Nestes termos, no final dos anos 1940 e início dos anos 1950, o comportamento de Lina Bo destoava do das mulheres da sociedade brasileira de então - em sua maioria formadas por donas de casa e mães-de-família - presas aos valores patriarcais, lembrando que ainda nos anos 1970 gravidez e biquíni escandalizavam a sociedade brasileira382. Nos anos 1990, Lina Bo falou aos estudantes de arquitetura sobre sua postura: “No Brasil, eu sempre fiz tudo o que quis, nunca tive entraves nem por ser mulher. É por isso que digo que sou stalinista e antifeminista. Agora, se você é mulher e tem voz de galinha e não tem preparo, aí afunda tudo” 383. Sua fala é, no mínimo, provocativa.
Assim, seu posicionamento crítico, contundente, “do contra”384, aliado ao seu comportamento independente, caracterizam Lina Bo como uma mulher culta e de ideias próprias. Em sua parceria com o marido, no MASP e na revista Habitat, é possível identificar sua individualidade. Esta é uma das chaves para o entendimento do por que seu trabalho teria ficado à margem - ou “invisível” mesmo após a realização do MASP385 - no cenário da arquitetura paulista e cujo pleno reconhecimento tardaria ao final dos anos 1970. Importante também, para compreensão do trabalho de Lina Bo é sua aproximação
378 Ibidem, ibidem.
379 Ibidem, ibidem. 380 Ibidem, ibidem. 381 Ibidem, ibidem.
382 Em 1970, a atriz Leila Diniz escandalizou a sociedade carioca com seu comportamento ousado ao ir à praia de Ipanema grávida de sete meses usando biquini. Em entrevista ao jornal Pasquim, em 1969, L.Diniz falou abertamente sobre sexo e namoros, outro escândalo. Leila Diniz é reconhecida como um símbolo do feminismo brasileiro. Ela morreu aos 27 anos num acidente aéreo na Índia. Cf. O melhor do Pasquim.org. Sérgio Augusto e Jaguar. Rio de Janeiro: Ed. Desiderata, 2006, p.60-66.
383 BARDI, Lina Bo. Uma aula de arquitetura. Cf. BARDI, Lina Bo. Lina por escrito- Textos escolhidos de Lina Bo Bardi. org. Silvana Rubino e Marina Grinover, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 162-176.
384 Segundo Joaquim Guedes: “Veicularam muito uma imagem ‘do contra’, radical, provocadora, quase rude, mas era como ela mesma gostava de parecer.
Frases como ‘sou stalinista – militarista e antifeminista’ ou ‘detesto Roma’ se tornaram marcas suas.” Cf. GUEDES, Joaquim. Lembrança de Lina. Revista Caramelo, São Paulo, n° 4, 1992.
385 R. Zein analisa o isolamento de Lina Bo em relação à arquitetura paulista: “[...] o corpus profissional da arquitetura paulista daquelas décadas também torna
invisível (recusando-se a ver e acolher em seu seio) uma das obras mais importantes e significativas da tendência brutalista paulista: o edifício para o MASP - Museu de Arte de São Paulo, de Lina Bo Bardi [...] “Embora absurda, essa invisilidade talvez tivesse fundamentos (entre outras questões que não importa
abordar aqui por demasiado mesquinhas) na atitude militantemente revisionista de Lina Bo Bardi, sempre assumiu em sua atividade como crítica e editora de arquitetura.” Cf. ZEIN, Ruth Verde. Arquitetura da Escola Paulista Brutalista 1953-1973. Tese Doutorado em Arquitetura - UFRGS, Rio Grande do Sul, 2005, p. 133.
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