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Madde 3.5 Açısından incelenmesi

5.1. İncelenen Binalar Hakkında Genel Bilgiler

Considerando a literatura - e por que não a arte e o cinema, em seu sentido mais amplo - como o outro que permite à psicanálise se constituir, Sampaio (2002) afirma que a presença frequente das referências literárias nos textos psicanalíticos se deve, primeiramente, ao fato de Freud servir para nós como um modelo de escritor, e, em segundo lugar, ao fato de suspeitarmos que a literatura auxilie o psicanalista a pensar psicanaliticamente, por favorecer a compreensão do funcionamento psíquico. Lembremos que Freud destaca, em A questão da análise leiga (1926), a importância da literatura para a formação dos analistas.

Procurando distanciar-nos da perspectiva que toma a obra de arte como um mero objeto de interpretação e a entende como sintoma de um artista neurótico, e tomando a arte, em sentido amplo, como o outro que permite a constituição da psicanálise a partir de seu constante diálogo, foi nosso objetivo desenvolver o presente trabalho de pesquisa justamente na interface, no espaço entre a psicanálise e a arte, mais especificamente na interface entre psicanálise e cinema, entre sublimação e a problemática sublimatória que marca os personagens de Woody Allen (Kon, 2001).

Nosso intuito não foi o de tratar a arte/os personagens de Woody Allen como um campo favorável à interpretação psicanalítica, do qual procuraríamos extrair as “verdades” recalcadas, mas de procurar resgatar o movimento freudiano inaugural, no sentido de “solicitar à criação artística as suas interpretações sobre a alma humana, que permitiriam ver, num jogo de espelhos, a própria face da construção psicanalítica” (KON, 2001, p. 95) e, assim, promover uma fecundação recíproca.

Tem-se por objetivo, assim, realizar uma fecundação recíproca entre psicanálise e os personagens de Woody Allen, entre sublimação e Eve, Renata,

Joey e Flyn, buscando avançar e quiçá contribuir para a teoria psicanalítica – e não apenas provar uma hipótese teórica inicial – e, ao mesmo tempo, abrir caminhos para novas possibilidades de entendimento do trabalho de Woody Allen.

Entendo, nesse sentido, ser necessário destacar que a estratégia primordial a ser utilizada é a de uma leitura flutuante transferencial - e contratransferencial, ressaltaria Kon – a partir de minhas associações acerca dos personagens do filme escolhido, sem prejuízo, sobretudo, para a inscrição de outras leituras, o que permitiria, eventualmente, “uma leitura reflexiva que, justamente por seu caráter transitivo, criará novas versões para a obra, mas também, para aquele que se propõe a ela como seu leitor” (KON, 2001, p. 112). A respeito de seu trabalho sobre Edgar Allan Poe e Freud, Noemi Moritz Kon complementa sua estratégia:

Essa leitura se pautará, portanto, num vai-e-vem em que não só a leitura psicanalítica abrirá novos veios de entendimento para a literatura de Poe, mas também em que a visão do escritor poderá permitir novas aberturas para o próprio olhar psicanalítico” (KON, 2001, P. 112-113).

Nesse vai e vem entre psicanálise e arte, entre sublimação e a questão do impasse no trabalho sublimatório de Eve, Renata, Joey e Flyn, personagens criados por Woody Allen para o filme Interiores, é que desenvolvo esta dissertação.

2 SUBLIMAÇÃO

A sublimação é certamente uma das cruzes (em todos os sentidos do termo: ao mesmo tempo um ponto de convergência, de cruzamento mas também o que põe na cruz) da psicanálise e uma das cruzes de Freud.

Jean Laplanche9

Laplanche e Pontalis (2001) definem a sublimação como o processo descrito por Freud “para explicar atividades humanas sem qualquer relação aparente com a sexualidade, mas que encontrariam seu elemento propulsor na força da pulsão sexual” (p. 495) Seria sublimada, nesse sentido, a pulsão que é derivada para um objetivo novo, não sexual, e para objetos socialmente valorizados. Se por um lado esta definição parece bastante objetiva e clara, por outro a história da construção do conceito no pensamento psicanalítico nos revela outra realidade. De fato, a sublimação se configura como uma noção absolutamente controversa, em relação à qual não há univocidade.

Com efeito, como bem expressam as palavras de Joel Birman, a noção de sublimação nos coloca frente a frente com “uma das caixas-pretas do pensamento freudiano” (2002, p. 90) e, embora apareça diversas vezes em sua obra, não conta com um texto de Freud inteiramente dedicado a ela. Ainda que se tenha notícia de que Freud teria escrito um texto específico sobre o tema (Strachey, 1969b, em introdução aos Artigos sobre metapsicologia de Freud) no contexto da elaboração dos artigos sobre metapsicologia, é provável que ele tenha sido um daqueles que se perdeu ou foi destruído pelo próprio autor (Laplanche, 1989; Garcia-Roza, 1995; Birman, 2007). Como nos lembra Daniel Kupermann, “Com seu desaparecimento, dispomos apenas de algumas indicações, preciosas, porém, na maioria das vezes, enigmáticas, distribuídas ao longo da obra freudiana” (2010b, p. 497). Dessa maneira, não há um texto freudiano que trabalhe especificamente o       

tema; o que há são fragmentos a respeito da sublimação inseridos em diversos ensaios, escritos em momentos distintos de seu pensamento.

Se não há um texto que disserte sobre a questão da sublimação, também não há apenas um entendimento a respeito do processo sublimatório no discurso freudiano, o que complica ainda mais a sistematização da ideia – seja do ponto de vista metapsicológico, seja do ponto de vista clínico (Laplanche, 1989; Garcia-Roza, 1995). Ao longo da obra freudiana, a noção de sublimação foi antes citada que desenvolvida ou explicitada, como um verdadeiro “conceito em estado prático” (Birman, 1997; Ungier, 2011), cujos questionamentos e compreensão restaram lançados para um momento futuro, como tarefa pendente (Laplanche, 1989; Hornstein, 1989; Garcia-Roza, 1995). Embora não restem dúvidas na obra freudiana quanto à condição de destino pulsional da sublimação, é possível encontrar em Freud não só trechos em que o autor parte da concepção de sublimação como um processo caracterizado pela dessexualização pulsional (muito próximo, assim, do mecanismo de recalque), como trechos em que a sublimação é pensada claramente como um destino pulsional distinto do recalque, pautado justamente na sexualidade.

Enquanto forma de satisfação pulsional, a sublimação está intimamente relacionada à Trieb – ou seja, tratar-se-ia de um fenômeno psíquico que descreve algo que acontece à pulsão, que seria desviada de seu alvo sexual inicial – mas que corresponde a um processo vinculado à libido de objeto – objeto que deve ser socialmente valorizado (Garcia-Roza, 1995). Segundo Laplanche (1989), inicialmente Freud aponta que haveria apenas uma modificação das metas, uma dessexualização para chegar, posteriormente, à ideia de sublimação com um processo que envolve meta e objeto, ao mesmo tempo.

A construção do conceito de sublimação é, no transcurso do pensamento freudiano, não só marcada por “idas e vindas” e hesitações, como também por atravessamentos múltiplos de diversos outros conceitos fundamentais ao pensamento psicanalítico, como os de sexualidade, pulsão, narcisismo, castração, que também passaram por reformulações ao longo do tempo. A reformulação de cada um desses conceitos implicava a necessidade de revisão e

reformulação dos demais – o que repercutia também na elaboração do conceito de sublimação.

A complexidade do conceito de sublimação também pode ser constatada na estreita relação que mantém não apenas com as formulações metapsicológicas da teoria, como também com as formulações sociais e técnicas da psicanálise.

Assim, é importante que consideremos a sublimação em seu contexto na história da psicanálise, como uma noção controversa em relação à qual não há interpretação inequívoca, não só dentre os autores pós-freudianos, como também, e especialmente, na própria obra de Freud. Recuperemos, então, as passagens freudianas acerca da noção de sublimação.