2. ALTERNATİF TURİZM VE TEKİRDAĞ
2.1.6. İnanç Turizmi
As ações que visam a garantia de um bom desempenho econômico (uma economia de recursos destinados à educação) no orçamento educacional aparecem aos olhos dos incautos como sendo propostas de cunho pedagógico, de fomento à teoria educacional e de atendimento às mais importantes e históricas reivindicações dos trabalhadores e das populações dos países pobres, bem como de seus educadores e militantes sociais.
O Banco Mundial está fortemente comprometido em sustentar o apoio à educação. Entretanto, embora financie na atualidade aproximadamente uma quarta parte da ajuda para a educação, seus esforços representam somente cerca de meio por cento (0,5%) do total das despesas com educação nos países em desenvolvimento. Por isso, a contribuição mais importante do Banco Mundial deve ser seu trabalho de assessoria, concebido para ajudar os governos a desenvolver políticas educativas adequadas às especificidades de seus países. O financiamento do Banco, em geral, será delineado com vistas a influir sobre as mudanças nas despesas e nas políticas das autoridades nacionais. (Relatório do Banco Mundial, 1995).
É desta forma que o Banco Mundial e a UNESCO publicam inúmeros textos que subsidiam governantes e teóricos dos governos nacionais a apresentarem a estas populações as suas propostas pedagógicas para resolver os problemas de educação nos países subdesenvolvidos.
Assim, passaram a fazer parte das propostas do Banco Mundial a democratização e a autonomia das escolas, a escolarização das mulheres e dos negros, a participação dos professores nas tomadas de decisões pelas escolas, a
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garantia do acesso à educação básica para todas as crianças, uma escola voltada para a formação do cidadão pleno etc. etc.
Neste sentido, a partir de 1990, a Conferência Mundial de Educação para Todos, convocada conjuntamente pela UNESCO, o UNICEF, o PNUD e o próprio Banco Mundial, é um marco. Tal Conferência norteou as ações do Banco e das grandes agências do capital internacional em relação à educação em todo o mundo, levando a uma profunda transformação na sua maneira de entendê-la e financiá-la.
Para o Banco Mundial, ocorreram seis mudanças consideradas fundamentais em relação à educação em todo o mundo. Essas mudanças determinaram a alteração do papel do Banco desde 1980, década em que a instituição publicou seu primeiro documento de políticas estratégicas em relação ao setor educativo. São elas:
1. Um notável incremento dos empréstimos para a educação;
2. Importância crescente concedida à educação de primeiro grau e, mais recentemente, aos primeiros anos da educação secundária;
3. Extensão do financiamento a todas as regiões do mundo; 4. Menor importância concedida às construções escolares; 5. Atenção específica à educação das meninas;
6. Transição de um enfoque estreito de projeto para um amplo enfoque setorial.
O relatório do BID, do ano de 1995, denominado de Prioridades e estratégias para a Educação , menciona também:
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b) Melhoria da qualidade (e da eficácia) da educação como eixo da reforma educativa;
c) Descentralização e instituições escolares autônomas e responsáveis por seus resultados;
d) Prioridade sobre os aspectos financeiros e administrativos da reforma educativa; e) Convocação para uma maior participação dos pais e da comunidade nos assuntos escolares;
f) Impulso para o setor privado e organismos não-governamentais como agentes ativos no terreno educativo;
g) Mobilização e alocação eficaz de recursos adicionais para a educação de primeiro grau;
h) Um enfoque setorial;
i ) Definição de políticas e estratégias baseadas na análise econômica.
Todas estas mudanças de rumo e novas estratégias e propostas, que foram e são defendidas pelos teóricos do Banco Mundial e das demais instituições representativas do grande capital internacional, vieram acompanhadas de inúmeras citações sobre a importância do atendimento às populações pobres e suas necessidades vitais, bem como da mudança de rumos na educação para que estas necessidades fossem atendidas. Há, ainda, a utilização dos autores e educadores vinculados aos movimentos sociais que sempre defenderam uma mudança de rumo para a educação nestes países subdesenvolvidos.
Os textos e discursos oficiais são, na sua maioria, repletos de termos vagos e genéricos, que abrangem uma gama grande de ilusões e de constatações daquilo que
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é necessário para uma nova educação e para que esta esteja disponível a toda a população.
Juntamente com estes textos e suas retóricas, encontram-se as principais diretrizes políticas e econômicas do grande capital internacional para os países subdesenvolvidos.
Dessa maneira, o imperialismo, principalmente através do Banco Mundial, apresenta ao mundo a política Cavalo de Tróia : em nome das reivindicações históricas das populações pobres destes países atrasados e das lutas de seus representantes teóricos e militantes sociais, define o corte de verbas e o enxugamento da máquina estatal justamente para a educação e as demais políticas públicas de atendimentos sociais (saúde, transporte, habitação, alimentação etc.).
Apoiados nas retóricas consensuais das necessidades dos pobres, o Banco Mundial define como prioridade o aspecto econômico de todas as medidas implementadas em relação à educação.
As políticas sociais são elaboradas para instrumentalizar a política econômica, mais do que para continuá-la ou compensá-la. São o Cavalo de Tróia do mercado e do ajuste econômico no mundo da política e da solidariedade social. Seu principal objetivo é a reestruturação do governo, descentralizando-o ao mesmo tempo em que o reduz, deixando nas mãos da sociedade civil competitiva a alocação de recursos, sem mediação estatal. Outro efeito importante é introjetar nas funções públicas os valores e critérios do mercado (a eficiência como critério básico, todos devem pagar pelo que recebem, os órgãos descentralizados devem concorrer pelos recursos públicos com base na eficiência da prestação de serviços segundo indicadores uniformes etc.) deixando como único resíduo da solidariedade a beneficência pública
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(redes de seguro social) e preferencialmente privada para os miseráveis. Em conseqüência, a elaboração das políticas setoriais fica subordinada às políticas de ajuste estrutural e, freqüentemente, entra em contradição com os objetivos declarados. (CORAGGIO, 2003. p. 78-79).
O capítulo 4 deste trabalho procurará demonstrar, no caso do estado de São Paulo, que, apesar de todo o discurso oficial e dos investimentos do Banco Mundial na educação, houve um gigantesco corte de verbas para este orçamento, acompanhado de uma profunda reestruturação física, estrutural e de pessoal, de forma a atender às exigências do Banco.
Também neste caso, poderemos constatar aquilo que a educadora Rosa Maria Torres advertiu como sendo uma análise econômica da educação, que passou a ser vista sob a ótica de mercado e com critérios estabelecidos para as empresas. Por isso, as propostas do Banco Mundial são feitas, em sua maioria, por economistas, a partir das concepções econômicas da sociedade capitalista atual.
O ensino resume-se a um conjunto de insumos (inputs) que intervêm na caixa preta da sala de aula - o professor sendo mais um insumo - e a aprendizagem é vista como o resultado previsível da presença (e eventual combinação) desses insumos. (TORRES, 2003. p. 140).
Estas idéias econômicas, no entanto, não se sustentam sozinhas. É necessário convencer os educadores, os governantes e as populações em geral do caráter inovador e próspero desta concepção. Pois estamos no começo de um novo século, em que uma nova sociedade está à disposição de todos, com todos os seus benefícios inovadores e de tecnologias modernas e eficientes. Para usufruí-la, basta que as
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pessoas estejam aptas e habilitadas, ou, como declarou o Presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, em 1999:
Este tipo de investimento e de perspectiva educacional irá criar oportunidades para que as pessoas pobres se desenvolvam, de modo que se alcance justiça social e estabilidade econômica. (Relatório do BID de 1999).
Esta opinião foi imediatamente absorvida pelo ex-ministro da Educação, Paulo Renato Souza, e pelos secretários de Educação dos principais estados do país, como Rose Neubauer, em São Paulo, que determinaram medidas de ajustes estruturais no campo educacional, em nome de uma maior participação das populações na educação, pois isso seria capaz de definir o próprio futuro dessas pessoas na economia do país.
Segundo o ex-ministro e consultor do Banco Mundial:
É no campo da educação que está se decidindo a sorte do próprio país e o seu papel no mundo. As diferenças de renda no Brasil (...) estão diretamente associadas às diferenças de escolaridade e estas refletem e perpetuam as nossas seculares desigualdades raciais. (...) O grande desafio está, portanto, na preparação das crianças e jovens para as transformações que virão no século XXI. Rápidos avanços tecnológicos, uma economia global interdependente e uma contínua mudança social marcarão suas vidas. Deve-se oferecer às crianças e jovens uma
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educação que lhes permita exercer as profissões do futuro e aproveitar os benefícios de viver em uma sociedade democrática3.
Mas, ainda assim, as retóricas de uma vida melhor, de que a escola e a educação são a condição chave para fazer um país desenvolvido e para que as populações pobres tenham uma vida digna, não seriam suficientes para que estas medidas pudessem ser implementadas pelos governantes dos países pobres. Além disso, foi e ainda é necessário que estas estejam apoiadas pelos autores e educadores que sempre estiveram à frente das lutas para que tivéssemos uma educação de qualidade e acessível para todos.
É esta apropriação indébita que provocou uma enorme confusão política entre os teóricos da educação e seus militantes sociais, bem como entre os professores, os estudantes e suas famílias de um modo geral.
É esta apropriação e esta confusão política que nos propomos a analisar no capítulo seguinte.
3 SOUZA, Paulo Renato; RILEY, Richard. Educação além das fronteiras: Brasil e EUA estão eliminando as lacunas existentes na história, na cultura e no desenvolvimento. Texto publicado no jornal Folha de S.
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3. Apropriação das idéias e das lutas sociais
Não há pensamento que não esteja refletido à realidade, direta ou indiretamente marcado por ela, do que resulta que a linguagem que o exprime não pode estar isenta destas marcas. (...) A propaganda, os slogans, os depósitos , os mitos, são instrumentos usados pelo invasor para lograr seus objetivos: persuadir os invadidos de que devem ser objetos de sua ação, de que devem ser presas dóceis de sua conquista. (FREIRE, 1970).
Mais do que nunca, a sobrevivência do capitalismo como sistema econômico e político mundial está fortemente apoiada em suas próprias contradições.
Nos dias de hoje, os resultados provocados pela implementação das políticas chamadas de neoliberais são visíveis aos olhos de todos, quer seja porque há uma facilidade na transmissão veloz das informações, ou porque não há como esconder que, se o capitalismo foi vitorioso em sua luta contra o socialismo, como apregoam os teóricos do grande capital, ao mesmo tempo não conseguiu superar os gravíssimos problemas que ameaçam toda a humanidade, como a fome, a miséria, a exclusão social, as péssimas condições de saúde, os baixíssimos níveis de educação etc.
Desta maneira, os projetos políticos do imperialismo para a educação em todos os países, principalmente nos atrasados economicamente, estão fortemente vinculados ao reconhecimento das contradições próprias da sociedade atual. Porém, ao mesmo tempo, estes projetos indicam que a superação destas contradições será produto de uma organização da sociedade e de seus indivíduos para buscar uma vida melhor dentro deste sistema.
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No entanto, esta organização não deve estar voltada a modificar, de fato, a sociedade, ou a própria estrutura social que a sustenta, mas para contornar os problemas causados por ela.
Assim, os teóricos e os educadores que sempre estiveram e ainda estão vinculados à Pedagogia Crítica são citados freqüentemente por aqueles que projetam a educação para o século XXI como uma das formas de sustentação das políticas de globalização do capital para este século. Da mesma forma, também são utilizadas suas propostas para a obtenção de uma educação de qualidade e para todos, que sempre estiveram vinculadas à busca pela construção de uma nova sociedade.
Em conseqüência, as propostas que são mencionadas nos relatórios internacionais como integrantes de um plano estratégico para uma revolução na educação nos países do Terceiro Mundo são aquelas que sempre fizeram parte das reivindicações destas populações pobres. A adoção destas propostas por parte do grande capital internacional tem provocado uma enorme confusão em todos os envolvidos com a luta por uma educação de qualidade e ao alcance de todos.
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