Em 16 de julho de 1933 surgiu O Socialista, órgão do Conselho de Propaganda
do Partido Socialista Brasileiro de São Paulo. Esse periódico demonstra que depois de
dois meses das eleições ocorridas em 3 de maio, tenentes, socialistas e partidários do general Waldomiro Lima ainda mantinham convivência. Karepovs considera que, enquanto o general esteve na Interventoria paulista, o PSB-SP contou com apoio oficial
e manteve a atração sobre elementos oportunistas e que apoiavam seu personalismo, além de socialistas e tenentistas que viam o governo do general como garantia do afastamento do poder das oligarquias derrotadas política e militarmente em 1930 e novamente militarmente em 1932.
O personalismo continuava forte dentro do Partido, mesmo com os redatores de
O Socialista afirmando independência, como no texto “Em vossas mãos”, editado no primeiro número. Os redatores declaram que o jornal era uma cooperativa de trabalho dentro do Conselho de Imprensa do Partido. Os membros dessa cooperativa estariam “libertos do capitalismo, independentes da ambição pessoal”; seriam “inimigos do personalismo”… Os redatores não apresentaram programa, para “fugir” declaradamente da “praxe” de todo jornal que possuía a mesma natureza de O Socialista. Os leitores tirariam suas conclusões lendo-o115.
O “personalismo” estava presente sim e as provas estão em suas páginas; como na publicação do extenso discurso do general Waldomiro Lima durante o ato em homenagem à data de 5 de Julho no Teatro Municipal de São Paulo. E ainda na mesma página, no texto “O início da reforma social”. O autor, pura e simplesmente, considera o decreto da moratória sobre as dívidas dos cafeicultores, chamado de lei contra a usura, e o combate aos “corruptos” instalados no Instituto do Café, que manipulavam os preços desse produto, como o início da reforma social e esta como obra do general Waldomiro Castilho de Lima116. Essa declaração também possui contexto político próprio e muito mais amplo, na defesa do general na Interventoria paulista.
O tenentismo também continuava presente e forte no seio partidário. Essa tendência se expressa em algumas matérias, como na entrevista do general Rabello criticando a situação política do país e a Constituinte; pois, em suas palavras, haviam sido eleitos representantes heterogêneos e medíocres politicamente, muitos dos quais depostos pela Revolução. Para o general Rabello isso era uma contradição à medida que se tentava implantar algo parecido, senão semelhante ao regime derrubado em 1930. Ele declara apoiar a instauração de uma “Ditadura Republicana”117. Ora, isso era que os
tenentes em geral pretendiam politicamente, segundo a bibliografia consultada.
Nas páginas que se seguem, mais referências tenentistas foram publicadas. Uma delas tratava da data de 5 de Julho. Nas areias de Copacabana teriam sido plantadas as
115 “Em vossas mãos”, O Socialista, n.º 1, 16/07/1933, p. 1. Arquivo Edgard Leuenroth – AEL. 116 Idem, p.8.
sementes da rebeldia revolucionária, que germinaram em 1924, na “Paulicéia sangrenta”118. Com isso se lembrava de forma contundente que a própria cidade de São
Paulo fora palco de violenta rebelião tenentista, senão mesmo de seu aprofundamento e início da conquista de simpatia popular.
Texto interessante é o de autoria de Luiza de Camargo Branco, membro da direção da Legião Cívica 5 de Julho de São Paulo, sobre a data e os eventos desencadeados em 9 de Julho, data símbolo dos constitucionalistas, de modo a denunciá-los e desmascará-los. Ele foi endereçado inicialmente à própria mocidade constitucionalista veterana dos campos de batalha e ao público em geral.
A autora louva a coragem dos combatentes paulistas, principalmente a mocidade. Desde o início ela faz citações ao apóstolo Paulo quando de sua conversão. Luiza Branco acreditava que algo semelhante se passou em relação à mocidade paulista que lutou “contra o Brasil”, iludida pela “politicagem” e pelo “separatismo perrepista”. Os moços lutaram iludidos, despreparados e desamparados por aqueles que envergavam a farda da mesma maneira com a qual faziam com seus finos trajes e que estavam mais interessados nos bailes e recepções. Os moços lutaram pela contrarrevolução para atender à “sede de mando” dos “chefes perrepistas” que se diziam “amigos de São Paulo”. O 9 de Julho de 1932 representou a vitória fugaz da “mentira”; no 9 de Julho de 1933 ocorreu a vitória da “verdade”. Luiza Branco chegou a colocar no mesmo nível o 21 de Abril, o 5 de Julho e o 9 de Julho como datas dolorosas e sangrentas que ensinam a “verdade”. E conclui:
“Falar a tempo e mesmo fora de tempo [pois a data já havia sido comemorada] para que a mocidade se esclareça; a infância não cresça iludida e as mulheres não sejam inconscientes colaboradas da criminosa politicalha. Falar a tempo e fora de tempo glorificando a verdade que é eterna e invencível”119.
No segundo e último número do jornal, de 23 de Julho de 1933, por sinal data da destituição do general Waldomiro de Lima da Interventoria paulista pelo Governo Provisório120, ainda aparecem elementos tenentistas. Como a homenagem a Joaquim Távora, em sessão solene realizada em 19 de julho, ocasião em que discursaram
118 Idem, p. 2. 119 Idem, p. 3.
diversos oradores, com destaque para o líder legionário Alcântara Tocci “que em belíssimo improviso recordou a vida do homenageado até seus últimos momentos”121.
Mas havia também, propaganda e textos socialistas, bem como uma nova tendência, ainda que turvados pelo interesse político em torno da defesa do governo do general Waldomiro Lima. Já no primeiro número do jornal começam a aparecer textos de crítica ao Governo Provisório por sua aproximação com os elementos conservadores e contrarrevolucionários paulistas. No texto “Politiquice de aldeia” considera uma excentricidade o fato de a política do Estado ser definida no Rio de Janeiro, mais propriamente no trânsito entre os deputados constituintes e o palácio presidencial. Critica também os próceres tenentistas João Alberto e Miguel Costa122.
Crítica muito mais séria aparece nessa mesma edição, à página 5, no texto “Nosso Despertar”. Nele se denunciam a presença e atuação de partidos conservadores ligados ao capitalismo estrangeiro – inglês – que, para melhor dominar o país, insuflaram o separatismo que resultou no conflito armado de 1932. Esses partidos também tentavam impedir a industrialização a partir de barganha com importadores/exportadores na qual se beneficiariam os setores de produtos primários de exportação que interessavam aos seus chefes partidários. Eles agiam através de políticos conservadores e corruptos e da imprensa venal. Nesse sentido, a situação do país só poderia ser a de semi-colônia, isto é, possuía alguma autonomia política, mas era totalmente dependente economicamente. Em oposição a essa ordem de coisas processava-se o despertar dos trabalhadores e da juventude através do socialismo.
“O ideal socialista veio arejar o pensamento da mocidade e imprimir um rumo certo e definitivo à marcha que há meses encetamos.
Podem os partidos conservadores defender programas reacionários e lutar dentro do movimento de 930 pela contrarrevolução, que os moços, as inteligências sadias e os que sabem amparar até com armas nas mãos seu ideal, não temem suas investidas, nem se apavoram com seus arreganhos fantasmais!”
Além da crítica às classes dominantes agrárias e da defesa da industrialização como elemento de progresso, esse texto se refere aos elementos eleitos pela Chapa Única, formada pelo PRP, PD, Federação dos Voluntários e Liga Eleitoral Católica e à aproximação que os principais nomes do Governo Provisório, incluído Getúlio Vargas, faziam em relação a eles. A crítica na forma de considerar essa aproximação como uma
121 O Socialista, n.º 2, 23/07/1933, p.8. 122 O Socialista, n.º 1, 16/07/1933, p.2.
“traição à Revolução” já começava a se delinear aí. A declaração da ligação desses partidários a capitalistas estrangeiros, mais propriamente ingleses, é uma alusão direta ao caso Murray & Simonsen. Trata-se tanto de uma crítica ao Governo Provisório, como, ainda, uma defesa ao governo de Waldomiro Lima. Seja como for, a crítica ganha uma politização mais profunda em tom tenentista, quando se refere à tomada das armas para defesa de ideais, mas, principalmente, quando coloca o socialismo como elemento a arejar, isto é, a oxigenar uma crítica político-ideológica à situação indesejável. Isso equivale também a colocá-lo como elemento norteador para novas propostas à sociedade.
Outras críticas menos profundas ao Governo Provisório e aos políticos conservadores e oligarcas aparecem no segundo e último número de O Socialista.
Também textos e artigos socialistas e antifascistas aparecem e dividem espaço com os de fundo nitidamente personalista e outros tenentistas e socialistas tenentistas.
Inicialmente destacamos o artigo de Christovam Pinto, “O Século Redentor” como um texto socialista-tenentista. Ele começa em forma de crônica sobre o “momento atual”, comentando a positividade dos avanços da ciência e da técnica e logo na seqüência, seu assombreamento que ocorria sob o domínio capitalista em que esses mesmos avanços representavam exploração, crise e miséria. Mas, o avanço da ciência também era representado pelo desenvolvimento da teoria socialista, que marchava na mesma proporção que a técnica e o restante das ciências. O socialismo estava em campo para propor todas as mudanças necessárias com a segurança do conhecimento científico.
“É o socialismo que explana programas de reformas socais salvaguardando o direito do operário, que não mais será obrigado a pôr seu braço, o seu serviço à concorrência da ambição dos patrões; é o socialismo que reclama a nacionalização dos capitais estrangeiros radicados no Brasil libertando-nos do jugo da política do imperialismo econômico; é o socialismo que pede a socialização das grandes empresas e companhias de exploração do nosso incomparável subsolo; enfim, é o socialismo que intervém na desordem econômica regularizando e determinando as funções sociais para que a ciência não seja monopolizada ao uso e serviço da opressão”123.
Christovam Pinto espera que durante o século XX os trabalhadores, das fábricas e dos campos, assim como os intelectuais, marchem em direção à uma nova organização social oposta ao capitalismo. Afinal, tratava-se do século das grandes conquistas científicas…
À parte o messianismo do texto, presente desde o seu título, notamos um aprofundamento político e ideológico em suas propostas econômicas, mais claro que no programa e entrevistas do general Waldomiro Lima. Em “O Século Redentor” fala-se não somente na defesa dos direitos sociais da classe operária, mas claramente em socialização/nacionalização de empresas estrangeiras e contra o imperialismo, e se defende o mesmo para as empresas mineradoras, talvez até as nacionais, pois o texto não esclarece esse ponto, para que a coletividade tivesse mais proveito na exploração das riquezas do subsolo brasileiro. Aqui devemos notar ainda a influência do tenentismo. Segundo Ângela Araújo, a nacionalização das quedas d’água e do subsolo era uma proposta tenentista e foi apresentada à Constituinte entre 1933 e 1934, não sendo aprovada, senão na questão das quedas d’água para a construção de hidrelétricas124; conquanto a menção ao imperialismo tenha um toque comunista.
Nos dois números existentes do jornal no Arquivo Edgar Leuenroth, aparecem artigos sobre as relações entre o cristianismo e o socialismo. O ponto discutido é o prefácio de Emil Vandervelde ao livro Cristianismo e Socialismo, que não possuía a versão traduzida do francês para o português. Tratava-se de conciliar cristianismo católico e socialismo, apesar da oposição e mistificação do clero, principalmente do Papado, no concernente à sua oposição à filosofia materialista marxista. Afinal, havia mais de um socialismo e não só a versão comunista. Na Inglaterra, na Bélgica e na Alemanha já existiam muitos católicos filiados aos partidos socialistas de seus respectivos países e a Internacional Operária Socialista (Segunda Internacional, também conhecida com Internacional Socialista, reorganizada após a I Guerra Mundial) dava inteira liberdade religiosa e de consciência aos seus filiados. Certamente, esses textos eram uma forma de propaganda amenizadora e que visava atrair filiados e militantes ao PSB-SP em um meio social muito religioso, ao menos no que tange ao catolicismo e, ao mesmo tempo, ideológica também, ao citar nominalmente a IOS e um de seus principais líderes.
Ainda nesse número do jornal, à última página, aparece uma propaganda ideológica ainda mais clara, inclusive como uma litografia para o que deveria ser uma seção:
“Os Mestres”
“Carlos [sic] Kautsky é um dos mais eminentes e mais profundos divulgadores das teorias socialistas contemporâneas”125.
O texto é uma rápida biografia em que se citam os lances da ruptura de Kautsky com o SPD e sua ida para a dissidência de esquerda, USPD, e suas posições à direita durante a década de 1920 a favor da reunificação dos dois partidos, bem como sua oposição a Moscou. A obra citada como importante era A Doutrina Socialista, uma resposta às posições de Bernstein, conhecido pelo seu revisionismo não revolucionário desde antes da I Guerra Mundial.
Estava-se constituindo uma grande contradição político-ideológica no Partido. As concepções social-democráticas ou socialistas reformistas, especialmente tomadas de suas fontes européias eram incompatíveis com a estratégia básica do tenentismo, mesmo do tenentismo de esquerda, ou socialismo-tenentista. Os primeiros prezavam a luta de massas em sua forma institucionalizada e dentro dos limites legais ou democráticos, sendo que as greves e manifestações públicas eram legítimas para eles, mas também deveriam ser pacíficas. Seu momento máximo eram as eleições, basicamente parlamentares126. Os tenentes, mesmo os de esquerda, tinham como estratégia básica a conspiração e a insurreição armada, na forma do golpe de força concentrado e rápido. Seu campo de atuação básico era a clandestinidade. Para os tenentes de esquerda, ou socialistas, a classe operária entraria como apoio tático, mas não estratégico: as greves deveriam coincidir com os levantes e se concentrarem prioritariamente nos setores estratégicos do ponto de vista militar: transportes, comunicações e energia e em categorias que possuíam grandes contingentes mobilizáveis. Baseamo-nos na extensa bibliografia acerca do tenentismo e nas constatações a partir do exame das fontes sobre os tenentes de esquerda. Essa contradição embora permaneça até o levante de novembro de 1935, dirigido basicamente pelo PCB, então fortemente influenciado pelo tenentismo de esquerda127, perde bastante de sua força no correr dos anos de 1934 e 1935, notando-se clara tendência do PSB-SP em se dedicar à organização sindical e à disputa eleitoral parlamentar. Evidentemente, havia ainda uma permanência latente na disposição de luta
125 O Socialista, n.º 2, 23/07/1933, p. 8.
126 WALDENBERG, Marek, “A estratégia política da social-democracia alemã”, in: HOBSBAWM, Eric (org.)
História do marxismo, vol. II: o marxismo na época da Segunda Internacional. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1982. e STEINBERG Hans-Josef, “O partido e a formação da ortodoxia marxista”, idem.
armada contra o integralismo e mesmo em possível euforia quando da organização da Aliança Nacional Libertadora, mas ela diluía-se diante de outros interesses e mesmo em disputas com os comunistas.
Em relação ao antifascismo, na primeira página do primeiro número de O
Socialista, apresentou-se uma proposta de formação de uma frente político-social
antifascista estadual, juntamente com uma proposta de “base de acordo”:
“1 – Sob a denominação de Frente Única Antifascista coligam-se em São Paulo, sem distinção de credos políticos ou filosóficos, todas as organizações antifascistas com estes objetivos comuns:
a) Combater as idéias e desenvolvimento da ação do fascismo;
b) Lutar pela mais ampla liberdade de pensamento, reunião, associação e imprensa;
c) Reivindicar a garantia de ensino leigo e da separação da Igreja do Estado; d) Formação de um bloco único de ação contra o fascismo.
2 – Todas as organizações coligadas conservarão sua plena autonomia e inteira liberdade de crítica.
Essa discussão política foi retomada meses mais tarde e ganhou muita importância no transcorrer do ano de 1934, quando o PSB-SP já estava reorganizado. É interessante notarmos que a base de acordo será a mesma, ou muito parecida com a apresentada acima. Apoiando-nos em João Fábio Bertonha, podemos considerar essa proposta como uma influência de Francisco Frola no PSB-SP, já que esse socialista italiano dedicava-se à luta contra o fascismo e admitia a incorporação de todas as forças que quisessem combater essa ameaça128.
Nessa mesma edição aparece um texto mais doutrinário a respeito da natureza do fascismo, igualando-o ao nazismo. Tenta demonstrar que o poder burguês cairia como o feudal e o absolutista pelas mesmas razões. Em seu século de domínio, a burguesia acabou cedendo às tentações do poder e próprias de sua situação de comando da sociedade, sendo que a liberdade e a democracia prometidas só se verificaram em seu círculo estrito. Ao restante da sociedade ela destinou a exploração econômica. Com todos os eventos históricos desde a Grande Guerra, as revoluções e a grande crise econômica internacional, ela sentiu que não podia mais governar tranquilamente; por isso cedeu o poder tirânico a Mussolini e a Hitler para que protegessem seus interesses. A burguesia havia perdido a capacidade de governar.
Embora o autor considere seu trabalho como uma demonstração da interpretação dialética da História, ele é superficial, talvez pelo próprio fato de ser mais uma propaganda que uma análise, em vista do espaço ocupado, insuficiente para um desenvolvimento aprofundado. O texto em si apresenta uma concepção cíclica da História; a dialética acaba representada simplesmente como “nascimento, vida e morte”. Temos aí uma tentativa de aprofundamento teórico, embora não seja bem-sucedido, em termos pretensamente dialéticos e marxistas. Talvez, o mais importante, seja a identificação dos movimentos fascistas com a crise econômica e social internacional na forma de ação ditatorial contrarrevolucionária e da incapacidade da dominação clássica burguesa na forma do liberalismo ou mesmo da liberal-democracia para aquele momento histórico.