A investigação clínica acerca da DCL é escassa no nosso país. Apesar do seu estudo estar desenvolvido em diversos países, em Portugal os estudos divulgados são relativos à validação de instrumentos de medida ou a questões epidemiológicas que englobam dados de diversas condições de natureza crónica, não sendo por isso específicos desta condição clínica. Não se conhecem, por isso, dados sistematizados acerca da intervenção junto dos utentes com DCL ou das variáveis que podem condicionar a sua efectividade.
A literatura recente tem apontado vários modelos de natureza Biopsicossocial que são particularmente úteis na compreensão da cronicidade da DL, dos quais se destaca o Modelo de Medo - Evitamento da Dor. De acordo com este Modelo, elevados níveis de stress psicológico comprometem a evolução clínica dos utentes, podendo conduzir a estados depressivos, níveis elevados de intensidade da dor, limitações físicas acentuadas e incapacidade mantida ao longo do tempo (Leeuw et al., 2007a; Lethem et al., 1983; Vlaeyen & Linton, 2000).
Considerando a evidência científica associada ao Modelo de Medo-Evitamento da Dor, a associação demonstrada entre as suas componentes, o papel central que o medo do movimento apresenta, e em particular as respectivas crenças de medo-evitamento, as cognições surgem como um aspecto importante no desenvolvimento e manutenção do estado de cronicidade. Por outro lado, a evidência científica actual sugere que programas baseados na educação e exercício são efectivos na intervenção junto de utentes com DCL. Este tipo de programa tem sido largamente testado noutros países e com outras populações, demonstrando resultados positivos ao nível da diminuição da intensidade da dor, incapacidade funcional e crenças de medo da dor-evitamento do movimento neste tipo de utentes. Na ausência de informação sobre a forma como os
utentes com DCL portugueses responde a este tipo de programas, parece importante estudar os efeitos de um programa composto por educação e exercício ao nível das variáveis anteriormente referidas, numa amostra de utentes Portugueses com DCL (Questão de Investigação 1).
As variáveis do Modelo de Medo - Evitamento da Dor, assim como o tipo de relação estabelecido entre elas, também têm sido alvo de estudo, na medida em que algumas têm sido identificadas como barreiras importantes para a resolução da dor, contribuindo dessa forma para o desenvolvimento e manutenção da cronicidade. Nesse sentido, também parece importante compreender a associação entre as variáveis psicossociais (CME-AF e CME-T) e as variáveis físicas (intensidade da dor e incapacidade funcional) do Modelo de Medo - Evitamento da Dor, na amostra de utentes com DCL em estudo (Questão de Investigação 2).
Considerando o anteriormente exposto, podemos antecipar que a aplicação de uma abordagem combinada de exercício e educação (variável independente) num grupo de utentes com DCL seja efectiva ao nível da diminuição da incapacidade funcional, intensidade da dor, CME-AF e CME-T (variáveis dependentes) (Hipóteses de Investigação 1, 2, 3 e 4, respectivamente).
Por outro lado, o Modelo de Medo - Evitamento da Dor preconiza que o medo do movimento, e em particular as respectivas crenças, se relacionam com a incapacidade funcional em utentes com DCL. Tal leva-nos a considerar a existência de uma possível relação entre as CME-AF, as CME-T e o nível de incapacidade funcional em utentes com DCL (Hipóteses de Investigação 5 e 6, respectivamente). De igual forma, a literatura aponta para uma relação de associação entre a intensidade da dor e a incapacidade funcional, o que nos leva a considerar a existência de uma possível relação em ambas as variáveis nos utentes com DCL (Hipótese de Investigação 7). De acordo com o exposto, podemos prever que as relações anteriormente descritas entre as variáveis do Modelo de Medo - Evitamento da Dor não só se verifiquem na amostra de
utentes em estudo, com também se alterem após a aplicação do programa, isto é, entre os momentos de avaliação inicial e final.
As respostas às questões de investigação colocadas permitirão explorar os efeitos de um programa baseado na educação e no exercício numa amostra de utentes Portugueses com DCL, e dessa forma perceber se os resultados são semelhantes aos obtidos junto das demais populações estudadas. Por outro lado, também permitirão explorar a relação entre variáveis do Modelo de Medo - Evitamento da Dor descritas como explicativas da cronicidade da DL, e dessa forma perceber se apresentam um comportamento de associação semelhante aos de outras populações estudadas.
De acordo com o anteriormente exposto, foram definidas as seguintes Hipóteses de Investigação:
H1. Existem diferenças significativas ao nível da incapacidade funcional em indivíduos com DCL, pré e pós exposição a um programa baseado na educação e exercício. Após o referido programa haverá uma redução significativa do nível de incapacidade funcional.
H2. Existem diferenças significativas ao nível da intensidade da dor em indivíduos com DCL, pré e pós exposição a um programa baseado na educação e exercício. Após o referido programa haverá uma redução significativa do nível de intensidade da dor.
H3. Existem diferenças significativas nas CME-AF em indivíduos com DCL, pré e pós exposição a um programa baseado na educação e exercício. Após o referido programa haverá uma redução significativa do nível de CME-AF.
H4. Existem diferenças significativas nas CME-T em indivíduos com DCL, pré e pós exposição a um programa baseado na educação e exercício. Após o referido programa haverá uma redução significativa do nível de CME-T.
H5. Existe uma associação positiva entre as CME-AF e o nível de incapacidade funcional nos indivíduos com DCL. Quanto maior for o nível das referidas crenças de medo evitamento, maior será o nível de incapacidade funcional auto-reportado.
H6. Existe uma associação positiva entre as CME-T e o nível de incapacidade funcional nos indivíduos com DCL. Quanto maior for o nível das referidas crenças de medo evitamento, maior será o nível de incapacidade funcional auto-reportado.
H7. Existe uma associação positiva entre a intensidade da dor e o nível de incapacidade funcional nos indivíduos com DCL. Quanto maior for a intensidade da dor, maior será a incapacidade funcional auto-reportada.